84. 84. O encontro com Lázaro de Betânia.
21 de janeiro de 1945.
84.1 Uma aurora muito clara de verão. Mais que aurora, já é a infância do dia, porque o sol já passou a linha do horizonte, e sobe cada vez mais risonho para a terra sorridente. Não há caule que não sorria, com o brilho do orvalho. Parece que os astros noturnos tenham-se pulverizado, tornando-se ouro e gema por todos os caules, todas as folhas, e até pelas pedras espalhadas no chão, cujas lasquinhas de silício, molhadas pelo orvalho, parecem pó de diamante ou de ouro. Jesus e Simão caminham, ao longo de uma estradinha, que se afasta da estrada principal, fazendo um V. Estão dirigindo-se a magníficos pomares e campos de linho da altura de um homem, já quase no ponto da ceifa. Outros campos, mais distantes, mostram somente a vermelho das papoulas, entre o amarelo dos restolhos.
– Já estamos nas propriedades do meu amigo. Vê, Mestre, que a distância estava dentro da prescrição da Lei. Nunca me permitiria enganar-te. Atrás daquele pomar está a cerca do jardim, e dentro dela está a casa. Eu te fiz vir por este atalho, justamente para não sair da distância permitida.
– O teu amigo é muito rico!
– Muito. Mas não é feliz. A sua casa tem propriedades também em outros lugares.
– Ele é fariseu?
– O pai dele não o era1. Ele… é muito observador. Como eu te disse: um verdadeiro israelita.
Caminham ainda um pouco. Eis um muro alto; depois, plantas e mais plantas, no meio das quais mal aparece a casa. O terreno tem aqui uma pequena elevação, que não impedem, porém aos olhos penetrarem no jardim, tão vasto, que nós o chamaremos de parque.
Contornam o canto. O muro continua na mesma altura, deixando cair lá de cima uns ramos emaranhados de roseiras e jasmineiros perfumados, lindos em suas corolas orvalhadas.
84.2 Eis a cancela pesada de ferro trabalhado. Simão bate com a pesada aldrava de bronze.
– A hora é muito matutina para entrar, Simão –diz Jesus.
– Oh! O meu amigo se levanta ao nascer do sol, não encontrando conforto senão em seu jardim e em seus livros. Para ele a noite é um tormento. Não tardes, Mestre, em comunicar-lhe tua alegria.
Um servo abre a cancela.
– Aseu, eu te saúdo. Diz ao teu patrão que Simão, o Zelote, veio com o Amigo dele.
O servo parte correndo, depois de tê-los feito entrar, dizendo:
– O vosso servo vos saúda. Entrai, a casa de Lázaro está aberta para os amigos.
Simão, conhecedor do lugar, não se dirige à alameda central, mas a uma vereda que, entre sebes de roseiras, vai até uma pérgula de jasmineiros.
De fato, é dali que pouco depois aproxima-se Lázaro. Magro e pálido, como sempre o tenho visto, alto, com os cabelos curtos, não bastos nem cacheados, com uma barba rala e somente sobre a parte inferior do queixo. Está vestido com um linho muito alvo e caminha com dificuldade, como quem tem problema nas pernas.
Quando vê Simão, faz um gesto de afetuosa saudação e depois, como pode, corre até Jesus, cai de joelhos, curvando-se até o solo para beijar a orla da Sua veste, dizendo:
– Eu não sou digno de tanta honra. Mas, visto que a tua santidade se humilha em aproximar-se da minha miséria, vem, meu Senhor, entra, e sê dono da minha pobre casa.
– Levanta-te, amigo. E recebe a minha paz.
Lázaro se levanta e beija as mãos de Jesus, olhando para Ele com uma veneração não destituída de curiosidade. Caminham rumo a casa.
– Quanto te esperei, Mestre! Cada madrugada, eu dizia: “Hoje Ele virá”, e cada tarde eu dizia: “Hoje também não o vi!”
– Por que é que me esperavas com tanta ânsia?
– Porque… 84.3que nós de Israel esperamos senão a Ti?
– E tu crês que Eu seja o Esperado?
– Simão nunca mentiu, nem é um rapazinho que se exalte por nuvens de mentiras. A idade e a dor o tornaram maduro como um sábio. Além disso… ainda que ele não te houvesse conhecido pela verdade do teu Ser, as tuas obras falariam, e te teriam proclamado “Santo”. Quem faz as obras de Deus, deve ser homem de Deus. E Tu as fazes. E as fazes de um modo que nos diz quanto Tu és o Homem de Deus. Ele, o meu amigo, foi a Ti por teres a fama de operar milagres, e recebeu de Ti o milagre. E estou sabendo que o teu caminho está marcado por outros milagres. Por que, então, não crer que Tu és o Esperado? Oh! É tão doce crer o que é bom! Em tantas coisas não boas nós devemos fingir que cremos serem boas, por amor à paz, pela impossibilidade de poder mudá-las; há tantas palavras dissimuladas, que parecem adulações, elogios, benignidade, e ao invés, são sarcasmo, censura, veneno coberto de mel, e devemos mostrar que cremos nelas, mesmo sabendo que são veneno, censura e sarcasmo… Devemos fazê-lo porque… Não se pode fazer de outro modo. Somos fracos diante de todo um mundo que é forte, e estamos sozinhos diante de todo um mundo que nos é inimigo… Por que, então termos dificuldade em crer no que é bom? Afinal, os tempos estão maduros, e os sinais dos tempos aí estão. Quanto ainda poderá faltar para tornar grande o nosso crer, e livre de toda dúvida, supre-o a nossa vontade de crer e de aplacar o coração na certeza de que a espera terminou e que o Redentor já está aqui, e que aqui está o Messias… Aquele que dará a paz a Israel e aos filhos de Israel, Aquele que… nos permitirá morrer sem ânsias, pois saberemos que já estamos remidos, e viver sem aquele aguilhão de saudade de nossos mortos… Oh! Os mortos! Por que haveremos de continuar chorando-os, senão porque, não tendo mais os filhos, não têm ainda o Pai, que é Deus?
– Há muito tempo que morreu teu pai?
– Há três anos, e há sete que morreu minha mãe… Mas já faz algum tempo que não os choro mais… Eu também queria estar onde espero que eles estejam, esperando o céu.
– Não terias então o Messias como teu hóspede.
– É verdade. Agora eu sou mais do que eles, porque te tenho comigo… e meu coração se acalma com esta alegria. 84.4 Entra, Mestre! Dá-me a honra de fazer da minha casa a tua. Hoje é sábado, e não posso prestar-te as devidas honras, convidando os amigos…
– Eu não o desejo. Hoje Eu sou todo para o amigo de Simão e meu.
Entram em uma bela sala, onde os servos estão prontos para recebê-los.
– Peço-vos que os acompanheis –diz Lázaro–. Podereis refrescar-vos, antes da refeição da manhã.
E, enquanto Jesus e Simão vão a um outro lugar, Lázaro dá ordens aos servos. Compreendo que a casa é rica, e além de rica, senhoril…
… Jesus bebe leite que Lázaro faz questão de servir-lhe pessoalmente, antes de sentar-se para a refeição da manhã.
Vejo Lázaro virar-se para Simão e o ouço dizer-lhe:
– Encontrei o homem que está disposto a comprar os teus bens e pelo preço que o teu intendente deu como justo. Não tira nem uma dracma.
– Ele está disposto a observar as minhas cláusulas?
– Está disposto. Aceita tudo para poder ficar naquelas terras. E eu estou contente com isso, porque ao menos fico sabendo que vizinho é que eu vou ter. Porém, como tu não queres estar presente à venda, assim também ele quer continuar sendo um desconhecido para ti. Eu te peço que cedas a este seu desejo.
– Não vejo motivo para não fazê-lo. Tu, meu amigo, farás as minhas vezes. Tudo o que fizeres, estará bem feito. Para mim basta que o meu servo fiel não seja posto na rua… Mestre, eu vendo, e me julgo feliz por não ter mais nada que me ligue a qualquer coisa que não seja a de estar a teu serviço. Mas eu tenho um velho servo fiel, o único que ficou comigo, depois da minha desventura, e que, como eu já te disse, sempre me ajudou, quando eu vivia segregado, cuidando dos meus bens como se fossem dele, fazendo-os até passar, com a ajuda de Lázaro, como se fossem seus próprios, a fim de preservá-los para mim, para que eu pudesse me manter com eles. Não seria justo que eu o deixasse sem casa, agora que ele está velho. Determinei que uma pequena casa, na margem dos terrenos, fique de sua propriedade e que parte do total da venda seja-lhe entregue para o seu sustento no futuro. Os velhos, sabes, são como a hera. Tendo vivido sempre em um lugar, sofrem muito ao serem arrancados de lá. Lázaro o queria com ele, porque Lázaro é bom. Mas preferi fazer assim. O velho sofrerá menos…
– Tu também és bom, Simão. 84.5Se todos fossem justos como tu, minha missão seria mais fácil –diz Jesus.
– Achas o mundo rebelde, Mestre? –pergunta Lázaro.
– O mundo?… Não. A força do mundo: satanás. Se ele não fôsse o dono dos corações, e não se conservasse de posse deles, Eu não encontraria resistência. Mas o Mal está contra o Bem, e Eu devo vencer o mal em cada um, para colocar no lugar dele o bem… mas nem todos querem…
– É verdade! Nem todos querem! Mestre, de que palavras usas com quem é culpado, para convertê-lo, persuadi-lo? Palavras de repreensão severa, como aquelas que enchem a história de Israel contra os culpados — e o último a usá-las é o precursor — ou palavras de piedade?
– Eu uso de amor e Misericórdia. Acredita, Lázaro, sobre quem caiu, tem mais poder um olhar de amor do que uma maldição.
– E se o amor for escarnecido?
– Assim mesmo, insistir. Insistir até o fim. Lázaro, conheces aquelas terras onde o chão traiçoeiro engole os incautos?
– Sim. Eu li, pois no meu estado leio muito, tanto por gosto, como para passar as longas horas de insônia já li sobre elas. Sei que há dessas terras na Síria e no Egito, e outras junto aos Caldeus. E sei que são como ventosas. Quando pegam alguém, o arrastam para si. Um romano diz que elas são bocas do inferno, habitadas por monstros pagãos. É verdade?
– Não é verdade. Elas não passam de formações especiais do solo terrestre. O Olimpo nada tem a ver com elas. Deixarão de crer no Olimpo, e elas continuarão a existir, o progresso do homem poderá apenas dar explicação mais verdadeira ao fato, mas não poderá eliminá-lo. Agora Eu te digo: como leste a respeito disso, terás também lido como é que se pode salvar a quem tiver caído nessas terras.
– Sim. Com uma corda lançada, amarrada num pau ou num ramo. Às vezes pouca coisa basta para dar ao que está afundando, aquele mínimo necessário para segurar-se, para ficar calmo, sem debater-se, à espera de maiores socorros.
– Pois bem. O culpado, o que está dominado, é como alguém arrastado pelo solo enganador, coberto de flores à superfície, mas por baixo é uma lama movediça. Acreditas tu que, se alguém soubesse o que significa ser minimamente possuído por satanás, ele consentiria? Mas não sabe… e depois… ou fica paralisado pelo espanto e pelo veneno do Mal, ou fica enlouquecido, e, para escapar do remorso de sua perdição, se debate, agarrando-se a uma outra lama, levantando pesadas ondas com seus movimentos imprudentes, o que sempre mais apressa o seu perecer. O amor é a corda, o fio, o ramo de que tu falas. É preciso insistir… insistir… até que o tenha agarrado… uma palavra… um perdão… um perdão maior do que a culpa, que sirva para impedir a descida e esperar o auxílio de Deus… Lázaro, tu conheces o poder do perdão? O perdão faz com que Deus ajude a quem socorre… 84.6 Tu lês muito?
– Muito. Não sei se faço bem. Mas a minha doença e… outras coisas me privaram de muitos prazeres do homem… Agora não tenho senão a paixão pelas flores e pelos livros… pelas árvores e também pelos cavalos… Sei que me criticam. Mas, posso eu andar a pé pelas minhas propriedades, neste estado (e descobre suas pernas grossas e enfaixadas), ou mesmo montado em uma mula? Eu preciso usar um carro veloz. Por isso passei a fazer uso de cavalos, e comecei a gostar deles. Mas, se Tu me dizes que isso é mal… vou tratar de vendê-los.
– Não, Lázaro. Não são estas coisas que corrompem e sim aquilo que perturba o espírito afastando-o de Deus.
– Aí está, Mestre. Isto é o que eu queria saber. Eu leio muito. Só tenho este conforto. Gosto de saber… no fundo, acho que é melhor saber do que fazer o mal… e que é melhor ler do que… fazer outras coisas. Mas eu não leio só os nossos livros. Gosto de conhecer também o mundo dos outros, Roma e Atenas me atraem. Agora eu sei quão grande é o mal que vem a Israel, ao se corromper com os Assírios e o Egito, e quanto mal nos fizeram os governos helenizantes. Não sei se um indivíduo poderia fazer o mal que Judá2 fez a si e a nós seus filhos. Mas Tu, que pensas? Quero que me ensines, Tu que não és um rabi, mas o Verbo sábio e divino.
Jesus o olha fixamente por alguns minutos, um olhar penetrante e, ao mesmo tempo, distante. Parece que Ele, transpassando o corpo opaco de Lázaro, esteja perscrutando o coração dele e, passando ainda além, veja quem sabe o que… Finalmente fala:
– As coisas que lês não te perturbam? Não te afastam de Deus e de sua Lei?
– Não, Mestre. Ao contrário, levam-me a fazer confrontos entre a nossa verdade e a falsidade pagã. Eu comparo e medito as glórias de Israel, os seus justos, os patriarcas, os profetas, com as indecorosas figuras das histórias de outros povos. Comparo a nossa filosofia, se é que assim se pode chamar a sabedoria dos textos sagrados, com a pobre filosofia grega e romana, nas quais há centelhas de fogo, mas não a chama viva e firme, que arde e brilha nos livros dos nossos sábios. E depois, ainda com maior veneração, eu me inclino com o espírito para adorar o nosso Deus que fala em Israel, através de atos, pessoas e escritos nossos.
– Então, continua a ler… Isto te servirá para conheceres o mundo pagão. Continua. Podes continuar. Em ti não há o fermento do mal e da gangrena espiritual. Por isso, podes ler, sem medo. O amor verdadeiro que tens ao teu Deus esteriliza os germes profanos que a leitura poderia disseminar em ti. Em todas as ações do homem há possibilidade de bem ou de mal, durante seu decorrer. Amar não é pecado, se se ama santamente. Trabalhar não é pecado, se se trabalha com justiça. Ganhar não é pecado, para quem se contenta com o que é honesto. Instruir-se não é pecado se, pela instrução, não se mata em nós a ideia de Deus. Enquanto que pode ser pecado até servir o altar, se alguém o faz, buscando suas próprias vantagens. Estás persuadido disto, Lázaro?
– Sim, Mestre. Eu já havia dito isso a outros que acabaram me desprezando… Mas Tu me dás luz e paz. Oh! Se todos te ouvissem!… Vem, Mestre. Entre os jasmineiros há brisa e silêncio. Doce é repousar, esperando a tarde por debaixo de suas frescas sombras.
Saem, e tudo tem fim.
1 não o era. O não foi acrescentado ao texto manuscrito com escritura que não parece de MV, e encontra-se na cópia datilografada que MV relia.
2 Judá é o nome do reino que depois foi chamado Judeia. O mal, a que Lázaro se refere, foi obra dos seus dois ímpios, como se narra em: 2 Reis 21; 2 Crônicas 33.