508. 508. João será a luz de Cristo até o fim dos tempos.O pequeno Marcial-Manassés acolhido por José de Séforis.


7 de outubro de 1946.

508.1A casa de José não é a de José de Arimateia, mas a de um velho galileu de Séforis, amigo dos filhos de Alfeu, e especialmente dos filhos mais velhos, porque ele era amigo do falecido Alfeu e talvez até um pouco aparentado com ele. E se não estou errada é também muito relacionado com os filhos de Zebedeu no comércio de peixe seco do lago de Genezaré, que na capital é importado, junto com outros produtos da Galileia, muito procurados pelos galileus que estão fora de sua terra, morando em Jerusalém. Isto é o que eu deduzo das conversações entre os dois filhos de Alfeu, e João e Tomé.

Jesus, por sua vez, vai um pouco atrás com Manaém, ao qual Ele encarrega de ir à casa de José de Arimateia e à de Nicodemos, pedindo-lhes que vão ter com Ele. E Manaém vai imediatamente. Jesus se reúne ainda por uns momentos com os três, para recomendar-lhes que sejam prudentes no falar, “por amor para com o levita que os pôs a salvo”, e depois se separa deles, dirigindo-se a passos largos para uma estrada estreita…

508.2Mas logo João vai para perto dele.

– Por que vieste?

– Não podíamos deixar-te assim sozinho… e eu vim.

– E crês que tu sozinho me poderias defender contra tantos?

– Não estou bem seguro disso. Mas pelo menos eu morreria antes de Ti. E para mim bastaria.

– Morrerás muito tempo depois de Mim, João. Mas não fiques triste por isso. Se o Altíssimo te deixa no mundo, é para que o sirvas e sirvas o seu Verbo.

– Mas depois…

– Depois servirás. Quanto deverias viver para servir-me, como os nossos dois corações gostariam. Mas mesmo depois de morto tu me servirás.

– Como é que eu farei, Mestre meu? Se eu estiver contigo no Céu, te adorarei. Mas eu não poderei servir-te na terra, quando a tiveres deixado…

– Tu achas que será mesmo assim? Pois bem. Eu te digo que tu me servirás até à minha nova vinda, a última. Muitas coisas ficarão áridas antes do último tempo, assim com os rios que ficam secos e, de belos cursos de água azul e saudável que eles eram, se transformarão em torrões de poeira e em grandes pedras áridas. Mas tu serás ainda um rio, produzindo o som da minha palavra e refletindo a minha luz. Tu serás a última luz que ficará para tornar lembrado o Cristo. Porque serás uma luz toda espiritual, e os últimos tempos serão de luta das trevas contra a luz, da carne contra o espírito. Aqueles que souberem perseverar na fé encontrarão força, esperança e conforto naquilo que tu deixarás depois de ti, que serão tu ainda… e que sobretudo serão Eu ainda, porque Eu e tu nos amamos e onde tu estás, Eu estou, e onde Eu estou, tu estás. Eu prometi a Pedro, que a Igreja que terá como chefe e base a minha Pedra, não será destruída pelo Inferno em seus numerosos e sempre mais ferozes assaltos, mas agora Eu te digo que o que será ainda Eu, e que tu deixarás para quem procura a Luz, não será destruído, apesar de o Inferno procurar anulá-lo por todos os meios. E haverá até mais. Também aqueles que crerão em Mim de um modo imperfeito, porque, mesmo acolhendo a Mim, não acolherão o meu Pedro1, estarão sempre correndo juntos, à luz do teu farol, como uns pequenos navios sem piloto e sem bússola, que se dirigem, durante a sua tempestade, para a luz, porque luz quer dizer salvação.

– Mas que é que eu vou deixar, Senhor meu? Eu sou… pobre… ignorante… Só tenho o amor…

– Isso. Deixarás o amor. E o amor ao teu Cristo se tornará palavra. E muitos, muitos, mesmo entre aqueles que não serão da minha Igreja, mas que estarão procurando uma luz e um conforto para estímulo de seu espírito insatisfeito pela necessidade de uma compaixão nos sofrimentos, virão a ti e Me encontrarão.

– Eu gostaria que os primeiros a te acharem fossem estes cruéis judeus, estes fariseus e escribas… Mas não sirvo para tanto…

– Nada mais entra num lugar que já está cheio até o topo. Mas não te aflijas tu… 508.3Já chegamos à casa de José. Bate e entremos.

É uma casa estreita e alta, tendo ao lado uma loja baixa e com um cheiro pesado de mercadorias empilhadas; e, ao lado desta, um pátio escuro por causa da muralha que está acima dele. É um pátio parecido com um albergue, como eram os albergues naquele tempo: uns pórticos para as mercadorias, estábulos para os burrinhos e pequenos quartos para os hóspedes, e os salões. Aqui há um pátio com calçamento mal feito, um tanque, duas estrebarias baixas e escuras, um telheiro rústico, que faz as vezes de pórtico, encostado à casa, e com uma grande porta que dá para a loja. Além disso, a casa de que eu estou falando, é velha, escura, com uma porta alta e estreita, que se abre sobre três degraus de uma pedra já desgastada pelo uso.

João bate à porta e fica esperando, até que uma rótula se abre e o rosto de uma velha enrugada fica perscrutando, lá de sua penumbra:

– Oh! João? Vou abrir logo. Deus esteja contigo! –diz a boca que faz parte daquele rosto enrugado, e a porta se abre, fazendo um grande barulho no ferrolho.

– Não estou sozinho, Maria. Tenho comigo o Mestre.

– A paz esteja também com Ele, honra da Galileia, e feliz seja este dia que traz os pés do Santo para dentro das paredes de um verdadeiro israelita. Entra, Senhor. Vou logo avisar José. Ele está fazendo as últimas entregas, porque o pôr do sol chega cedo no triste mês de etanim.

– Deixa-o no seu trabalho, mulher. Nós permaneceremos aqui até amanhã.

– Grande alegria para nós. Há tempo que te esperávamos. E também há dias que o teu irmão José mandou perguntar por notícias de Ti. Mas o meu esposo te contará melhor. Isto mesmo. Aqui podes ficar… E eu te deixo, Senhor, porque estou terminando de assar o pão. Antes que chegue o pôr do sol, ele deve estar pronto. Se precisares de alguma coisa, João sabe onde encontrar-me.

– Vai em paz. Não precisamos de nada mais, a não ser de hospedar-nos.

508.4Eles ficam sozinhos por algum tempo. Depois um rostinho moreno se mostra lá atrás do toldo que separa a sala do corredor, e fica olhando de soslaio, com medo e curiosidade ao mesmo tempo.

– Quem é aquele menino? –pergunta Jesus a João.

– Não sei, Senhor. Ele não estava aqui nas outras vezes. É verdade que desde que eu estou contigo não voltei mais aqui com meu pai. Vem cá, menino.

O menino vai para diante com pequenos passos.

– Quem és?

– Eu não te digo.

– Por quê?

– Não quero que me ouçam dizer palavras feias. Se tu as disseres, eu te responderei e José não quer.

– Esta é nova! Mestre, o que me dizes disso?

João ri, divertido das razões do homenzinho.

Também Jesus sorri, mas levanta a mão para puxar para Si o menino, e o observa. Então diz:

– E tu sabes quem sou eu?

– Sim eu sei! És o Messias. Aquele que fará Seu todo o mundo, e então não se dirão mais palavras feias aos meninos como eu.

– Não és de Israel, não é mesmo?

– Eu fui circuncidado… e me fez muito mal… Mas… mas me fazia mal também a fome e… não ter mais a mamãe… e ninguém. Mas faz mal também ficar ouvindo que sim… que aqui…

E chora, tendo perdido toda aquela coragem de antes.

– Deve ser algum órfão estrangeiro, João. José o deve ter recolhido por piedade e feito circuncidar… –explica Jesus a João, que está espantado pelas razões e pelo choro.

508.5E Jesus levanta o menino no ar e o coloca sobre os joelhos.

– Dize-me o teu nome, menino. Eu te quero bem. Jesus quer bem a todos os meninos, especialmente aos orfãozinhos. Eu também tenho um que se chama Marziam e que…

– Também eu me chamo assim, porque eu –(a pequena voz se transforma num sussurro, que mal se percebe)–, porque eu sou romano…

– Eu te havia dito! E és órfão, não é?

– Sim. De meu pai eu não me lembro. De minha mãe, sim. Ela morreu quando eu já estava grande… e eu fiquei sozinho, e ninguém me queria. Desde Cesaréia, a pé, atrás dos viandantes, depois que o patrão voltou, indo-se embora para longe. E muita fome. E se eu dizia o meu nome, recebia pancadas. Porque pelo nome se compreendia… Depois eu vim até aqui para uma festa e estava com fome. Entrei em uma estrebaria com uma caravana e escondi-me na palha para comer as rações e as alfarrobas dos asnos. Então um dos asnos me mordeu e eu gritei, e então correram e me queriam bater. Mas José disse: “Não. Ele o fez2, e diz que faz o que Ele faz. Eu fico com o menino e farei dele um israelita.” Ele ficou comigo e cuidou de mim, junto com Maria, e me pôs um outro nome, porque o meu… Mas a mãe me chamava Marcial… –e as lágrimas começam de novo a pingar.

– Eu te chamarei Marcial, como a mamãe. É muito bom o que José fez. Tu lhe deves querer muito bem.

– Sim. Mas, mais a Ti. Foi ele que o disse. Ele diz sempre: “Se um dia encontrares Jesus de Nazaré, o Messias, ama-o com todo o teu ser, porque é por Ele que és salvo do erro.” Maria estava dizendo de lá à serva que estava em casa o Messias e eu vim ver quem me salvou.

– Eu não sabia que José tivesse feito isso. Era tão avarento. Nunca eu teria pensado que ele pudesse… Pobre José. Avarento e desgostoso com os seus filhos. Eles não respeitavam os seus cabelos brancos.

– Eu sei. Mas estás vendo? Talvez com este menino ele passe a ser outro… e se esquece. Deus o recompensa assim pela obra por ele praticada para com o menino. Como te chamas agora?

– Com um nome feio. Só me agrada porque começa como o meu: Eu me chamo Manassés!… Mas Maria, que compreende, me chama “Man.”

E o menino diz isso com um rostinho tão desolado, que Jesus e João não podem deixar de sorrir.

Mas Jesus, para consolá-lo, explica:

– Manassés é um nome de significado3 doce para nós. Quer dizer: o Senhor me fez esquecer todas as dores. E José te pôs este nome porque quis dizer que tu o farás esquecer todas as dores. E tu o farás, menino, para lhe seres agradecido. Tu mesmo, com um nome novo, estás dizendo a ti que o Senhor te amou tanto que te deu de novo um pai, uma mãe e uma casa. Não é verdade?

– Sim. Explicado assim, é… Mas José diz que eu devo esquecer-me até de minha casa. Eu não quero esquecer-me de minha mãe!

Jesus olha para João, e João olha para o Mestre e por cima da cabecinha morena há uma grande troca de ideias por entre os olhares…

– Mamãe não fica esquecida, menino. José se explicou mal, ou melhor, tu entendeste mal. Certamente ele queria dizer que tu deves esquecer-te de todas as dores do teu passado, das dores de tua casa, porque agora tens esta e deves ficar feliz.

– Ah! Assim, sim. E Maria é boa e me faz feliz. Agora mesmo está fazendo fogaças para mim. Eu vou ver se já estão assadas e as trago também para Ti –e desliza de cima dos joelhos de Jesus e sai correndo para fora da sala.

O rumor de seus pezinhos descalços vai sumindo, ao longo do corredor.

– Esta tendência dura sempre, até nos melhores de entre nós! Pretendemos o impossível! São mais severos do que Deus os filhos do seu povo! Pobre menino! Pode-se pretender que um filho se esqueça de sua mãe só porque agora ele está circuncidado? Eu direi isso a José.

– Eu não sabia que ele houvesse feito isso. Meu pai, como muitos galileus, desce até aqui para as festas. E não me falou disso, como se nada soubesse do acontecido… 508.6Mas eu ouço a voz de José…

Jesus se põe de pé e João o imita, prontos para saudar, e com as devidas honras, o dono da casa, que vem entrando e que ao redor de si se encurva em inclinações, acabando por ir ajoelhar-se aos pés de Jesus.

– Levanta-te, José. Eu já vim. Tu estás vendo.

– Perdoa se eu te fiz esperar. A sexta-feira é sempre um grande dia! Saudações a ti, João. Que notícias me dás de Zebedeu?

– Não tenho. Desde a festa dos Tabernáculos, que foi quando eu o vi.

– Pois então fica sabendo que ele está bem, e igualmente Salomé. São notícias frescas. De hoje de manhã. Elas chegaram com o último carregamento de peixe. E também a Ti, Mestre, eu posso dizer que teus parentes vão bem em Nazaré. No dia depois do sábado irá voltar o que veio. Se quiseres mandar algum recado… Estais sozinhos?

– Não. Daqui a pouco estarão aqui os outros…

– Está bem. Aqui há lugar para todos. É uma casa amiga. Fico aborrecido por ver Maria ocupada com o pão e eu com as vendas. Deixados aí sozinhos… Nós deixamos de prestar-te as honras e fazer-te companhia, como é costume fazer com os hóspedes. E com um grande hóspede!

– Um filho de Deus, como tu, José. São todos iguais, aqueles que seguem a lei de Deus.

– Ah! Isso não! Tu és Tu. Eu não sou um estulto como esses judeus. Tu és o Messias!

– Isto pela vontade de Deus. Mas por minha vontade e por meu dever, eu sou, como tu, um filho da Lei.

– É. Mas aqueles que te caluniam não sabem dizer e fazer o que Tu agora estás dizendo e que sempre fazes!

– Tu, porém, fazes muito daquilo que Eu ensino. 508.7Eu vi o menino, José…

– Ah! Tu o viste? Ele veio! Sabe que eu não quero. Mas por causa de Ti tenho prazer. Contudo, podia acontecer que tu não fosses Tu…

– E, então, que teria acontecido?

– Que… não me agrada, é isso!

– Por que, José? Para não seres elogiado por isso? É digno de elogio este teu pensamento. Mas o menino poderia pensar que tu te envergonhas ao apresentá-lo…

– É isso mesmo.

– É isso? Por quê? Explica-me o que há.

– É o seguinte: o menino não nasceu como hebreu, de hebreus, nem de prosélitos, nem de mulher hebreia, nem de mulher hebreia e pai gentio. É filho de pai e mãe romanos, libertados na casa de um romano que morava em Cesaréia Marítima. O menino foi conservado enquanto morou lá. Ninguém cuidou dele e ele ficou sozinho. Os hebreus, naturalmente, não quiseram acolhê-lo. Os romanos… Tu sabes como são os romanos. E aqueles romanos de Cesaréia, então! E o menino pedindo esmola…

– Sim, Eu sei. Chegou até aqui e tu o acolheste. Deus registrou o teu ato no Céu.

– E dele eu fiz um circuncidado! E mudei o nome dele! Era o nome de um pagão! De um idólatra! Mas não quero que nada disso seja conhecido nem que se lhe lembre o seu passado.

– Por que, José? –pergunta docemente Jesus, e continua–: O menino está sofrendo por isso. Ele se lembra da mãe. É compreensível.

– Mas é compreensível também o meu desejo de não ser criticado por ter acolhido um…

– Um inocente. Nada mais do que isso, José. Porque tu tens medo do julgamento dos homens, quando um julgamento mais alto, o de Deus, aprova o teu ato como um ato santo? Por que te envergonhas, por respeito humano ou por temor de represália por uma tua ação boa? Por que queres dar ao menino um exemplo de duplicidade, como aquele que foi visto ao lhe teres mudado o nome, sufocando o passado por medo de ficares prejudicado? Por que queres inculcar ao menino o desprezo do pai e da mãe dele? Estás vendo, José, tu fizeste uma ação digna de louvor, mas a estás cobrindo com o pó dessas… ideias imperfeitas. Tu imitaste o meu gesto. Acolheste a minha palavra. Isso já é bom. Mas por que não tornas perfeita a tua imitação a Mim, para cumprires completamente a obra e poderes dizer: ‘Sim. O menino era romano. E eu não sinto repugnância por ele porque ele é filho do Criador, assim como vós. A única coisa que eu fiz foi querê-lo na nossa Lei, e o circuncidei’? Realmente… A verdadeira circuncisão está para vir e o novo corte vai ser no coração dos homens, corte com o qual será arrancada a argola enganadora da tríplice concupiscência. E, portanto, mesmo que o menino continuasse um inocente até aquele momento… Mas Eu não estou querendo censurar-te por isso. Oh! No futuro quantos, quantos Marciais e Caios e Félix, Cornélios e Cláudios, e assim por diante, serão do Cristo e do Céu! Pode até acontecer que ele, o menino que nada sabe de hebreus e gentios, chegue a ser maior de idade, quando a verdadeira e nova Lei for fundada, como novo Templo e os novos sacerdotes, e não como tu crês, mas tendo sido examinado por Deus e achado digno do seu novo Templo. Deixa-o com o nome que sua mãe lhe deu. É ainda uma das carícias mais ternas para com ele. Eu compreendo o que foi que quiseste dizer ao chamá-lo de Manassés. Mas deixa Marcial. E a quem te interrogar, podes dizer: “Sim. É Marcial, semelhante ao discípulo de Cristo ao qual Maria deu aquele nome.” Tem coragem no bem, José. E serás grande, muito grande.

– Mestre… como quiseres. Eu não quero causar-te um desgosto. E crês que eu fiz bem também como homem?

– Tu fizeste bem. A tua dor te fez bem. Portanto, tudo o que fizeste está bem. E está bem este ato.

Algumas batidas à porta, que dá para a estrada, interromperam a conversação.

1 não acolherão o meu Pedro… Em uma cópia datilografada, MV anota: Alusão aos futuros protestantes.
2 Ele o fez... é mencionado se referindo a Jesus que acolheu o órfão Jabé, depois chamado de Marziam, dando um exemplo a ser imitado.
3 significado, já visto em 364.9, que está em Gênesis 41,51.


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