121. 121. Os discursos de Águas Belas: Não proferirásem vão o meu Nome. A visita de Manaém.


1 de março de 1945.

[…].

121.1 Os discípulos estão todos alvoroçados. Parecem uma colmeia atiçada, de tão agitados que estão. Falam, olham de soslaio para fora, para todos os lados… Jesus não está. Enfim, tomam uma decisão sobre os motivos de sua agitação e Pedro ordena a João:

– Vai procurar o Mestre. Ele está no bosque acima do rio. Diz-lhe que venha logo, ou que diga o que é que temos que fazer.

João vai correndo.

Iscariotes diz:

– Eu não entendo porque tanta agitação e tanta descortesia. Eu teria ido e o teria recebido com todas as honras… O que ele está fazendo é uma honra para nós. Portanto…

– Eu não sei de nada. Ele poderá ser diferente do seu parente colaço… Mas… quem vive com as hienas pega delas o cheiro e o instinto. Além disso, tu quererías que se fôsse embora aquela mulher… Porém toma cuidado! O Mestre não quer, e eu a tenho sob minha proteção. Se tocares nela… eu não sou o Mestre… E o estou dizendo para o teu governo.

– Ih! Quem será ela? Talvez a bela Herodíades?

– Não fiques bancando o engraçado!

– És tu mesmo que me fazes agir assim. Tens feito guarda ao redor dela como a uma rainha…

– O Mestre me disse: “Toma cuidado para que ela não seja perturbada e respeite-a.” E eu o estou fazendo.

– Mas quem é ela? Tu o sabes? –pergunta Tomé.

– Eu não.

– Vamos, diz… Tu o sabes –insistem muitos.

– Eu vos juro que não sei de nada. O Mestre certamente o sabe. Mas eu não.

– É preciso fazer que João pergunte a Ele. A ele o Mestre diz tudo.

– Por que? Que é que João tem de especial? Será um deus o teu irmão?

– Não, Judas. É o melhor de nós.

– Podeis poupar-vos o cansaço, diz Tiago do Alfeu. “Ontem meu irmão a viu, enquanto ele voltava do rio com o peixe que André lhe havia dado, e perguntou a Jesus. Ele respondeu: “Ela não tem rosto. É um espírito que procura Deus. Para Mim não é outra coisa, e assim quero que seja para todos.” E disse aquele “quero” de tal maneira… que eu vos aconselho a não insistir.

– Eu irei a ela –diz Judas de Keriot.

– Experimenta, se és capaz –diz Pedro, vermelho como um galinho.

– Estás me espionando para Jesus?

– Eu deixo este ofício para aqueles do Templo. Nós, os do lago, ganhamos o pão com o trabalho, e não com a delação. Não tenhas nunca medo de nenhuma espionagem feita por Simão de Jonas. Mas não me fiques provocando e não tomes a liberdade de desobedecer ao Mestre, porque aqui estou eu…

– E quem és tu? Um pobre homem como eu.

– Sim, senhor. Aliás, mais pobre, mais ignorante, mais grosseiro do que tu. Eu sei e por isso não fico triste. Eu ficaria triste se fôsse igual a ti no coração. Mas o Mestre me deu este encargo e eu o cumprirei.

– Igual a mim no coração? E que é que há em meu coração que te cause repugnância? Fala, acusa, ofende…

– Ora, chega! –disparam o Zelote e o Bartolomeu–. Afinal, para com isso, Judas. Respeita os cabelos brancos do Pedro.

– Respeito a todos, mas quero saber o que é que há em mim…

– Logo serás atendido… Deixai-me falar… há uma soberba tão grande que dá para encher esta cozinha; há falsidade e há luxúria.

– Falsidade em mim?

Todos intervêm, e Judas deve calar-se.

121.2 Simão, pacato, diz a Pedro:

– Desculpa-me, amigo, se eu vou te dizer uma coisa. Ele tem seus defeitos. Mas tu também tens alguns. Um deles é não seres indulgente com os jovens. Por que é que não levas em conta a idade deles, o nascimento… e tantas outras coisas? Vê, tu ages por amor a Jesus. Mas não percebes que estas discussões cansam? A Ele eu não digo (e aponta Judas), mas a ti, que és maduro e tão honesto, eu faço este pedido. Ele tem tanto desgosto por causa dos inimigos. Mas nós também lhe damos desgosto!! Há tanta guerra ao nosso redor. Mas, por que também criar guerras no seu ninho?

– É verdade. Jesus está muito triste, e até emagreceu –diz Judas Tadeu–. De noite, percebo que Ele fica se virando em sua caminha e suspirando. Há algumas noites tenho me levantado e vi que estava chorando e rezando. Eu lhe disse: “Que tens?” E Ele me abraçou e me disse: “Queiram-me bem. Como é duro ser o ‘Redentor’!”

– Eu também o vi com sinal de pranto, lá no bosque do rio –diz Filipe–. E ao meu olhar interrogativo, Ele me respondeu: “Sabes o que faz diferente o Céu da terra, além da diferença da presença não visível de Deus? É a falta de amor entre os homens. Isso me estrangula como um cabresto. Eu vim aqui para espalhar grãos aos passarinhos, para ser amado por seres que se amam.”

Judas Iscariotes (deve estar um pouco desequilibrado) se joga no chão e chora como um rapazinho.

121.3 Justamente naquele momento, Jesus entra com João:

– Que é que está acontecendo? Por que este choro?

– Foi por culpa minha, Mestre. Errei. Censurei a Judas de um modo duro demais –diz com franqueza Pedro.

– Não… eu… eu… o culpado sou eu. Eu te causo dor… eu não sou bom… eu perturbo, causo o mau humor, desobedeço, sou…Pedro tem razão. Mas ajudai-me, então a ser bom! Porque eu tenho uma coisa, aqui no coração, que me leva a fazer coisas que eu não queria fazer. É mais forte do que eu… e causo dor a Ti, a Ti, Mestre, a quem gostaria de dar somente alegria… Acredita-me! Não é falsidade…

– Está bem, Judas. Não duvido disso. Tu vieste a Mim com toda a sinceridade de coração, com grande disposição. Mas és jovem… Ninguém, nem tu mesmo, te conheces como Eu te conheço. Vamos, levanta-te e vem aqui. Depois falaremos nós dois sozinhos. Por enquanto vamos falar daquilo para o que me havíeis mandado chamar. Que mal existe em ter vindo também Mananen? Será que um parente de Herodes não pode ter sede do Deus verdadeiro? Vós temeis por Mim? Oh, não. Tende fé em minha palavra. Aquele homem só veio para um fim honesto.

– Por que então, ele não veio apresentar-se? –perguntam os discípulos.

– Precisamente porque ele veio como “alma”, não como irmão colaço de Herodes. Ele se envolveu no silêncio, porque acha que, diante da palavra de Deus, o parentesco com um rei não é nada… Nós respeitaremos o seu silêncio.

– Mas, se ao invés, ele o tivesse mandado?

– Quem? Herodes? Não. Não tenhais medo.

– Quem é então que o manda? Como é que ele te conhece?

– Ora, pelo próprio João, meu primo. Achais que ele, no cárcere, não falou sobre Mim? Ou então, por meio de Cusa… Ou pela voz da multidão… Ou pelo mesmo ódio dos fariseus… Até as frondes das árvores e o ar já falam de Mim. A pedra foi lançada na água imóvel e o bastão bateu no bronze. As ondas vão-se ampliando cada vez mais, levando às águas longínquas a revelação, confiando-a aos espaços… A terra aprendeu a dizer “Jesus” e nunca mais se calará. Ide, e sede corteses para com ele, como com qualquer outro. Ide. Eu fico com Judas.

Os discípulos vão.

121.4 Jesus olha para Judas, que ainda está lacrimoso e lhe pergunta:

– E então? Não tens nada a dizer-me? Eu sei tudo sobre ti. Mas quero sabê-lo por ti. Por que este pranto? E sobretudo, por que este desequilíbrio que te torna sempre tão descontente?

– Oh! Sim, Mestre. É como disseste. Eu, por natureza, sou ciumento. Certamente Tu o sabes. E sofro por ver que… por ver tantas coisas. Isto me torna inquieto e… injusto. E me torno mau, quando não queria isso não…

– Não chores de novo! De que é que tens ciúmes? Habitua-te a falar com a tua verdadeira alma. Tu falas muito, até demais. Mas, com que falas? Com o instinto e com a mente. Segues um cansativo e contínuo trabalho para dizer aquilo que queres dizer: falo de ti, do teu eu, porque quanto àquilo que deves dizer dos outros e aos outros não impões a ti mesmo nem rédea nem limite. Igualmente não impões rédea nem limite à tua carne. Essa é o teu cavalo louco. Pareces um cocheiro, ao qual o intendente das corridas deu dois cavalos loucos. Um é a sensualidade, o outro… queres ouvir qual é o outro? Sim? É o erro que não queres domar. Tu, um cocheiro capaz, mas imprudente, confias em tua capacidade e achas que é suficiente. Queres chegar em primeiro lugar… não perdes tempo em mudar nem ao menos um dos cavalos. Ao contrário, tu os incitas e os chicoteias. Queres ser “o vencedor.” Queres o aplauso… Não sabes que toda vitória é certa, quando conquistada com um trabalho constante, paciente e prudente? Fala com a tua alma. É dela que Eu quero que venha a tua confissão. Ou devo Eu dizer-te o que é que tens dentro de ti?

– Eu acho que Tu também não és justo e não és constante, e sofro com isso.

– Por que me acusas? Em que foi que faltei, aos teus olhos?

– Quando eu queria levar-te aos meus amigos. Tu não quiseste, dizendo: “Prefiro estar entre os humildes.” Depois, Simão e Lázaro te disseram que seria bom que te colocasses sob a proteção de um poderoso e Tu aceitaste. Tu dás preferência a Pedro, a Simão, a João… Tu…

– Que mais?

– Nada mais, Jesus.

– Nuvens!! bolhas na espuma da onda. Tenho pena de ti, porque és um miserável que te torturas, quando podias alegrar-te. Podes dizer que este lugar é luxuoso? Podes dizer que não houve uma grande razão que me fez aceitá-lo? Se Sião tivesse sido menos madrasta com os seus profetas, estaria Eu aqui, escondido como um que teme a justiça humana, e que se abriga em um lugar assim?

– Não.

– E então? Podes dizer que não te dei missões como dei aos outros? Podes dizer que Eu fui áspero para contigo, mesmo quando tu estavas em falta? Tu não foste sincero… As vinhas!! Oh! As vinhas! Que nome tinham aquelas vinhas? Tu não foste complacente com quem estava sofrendo e se redimia. Tu não foste nem respeitoso para Comigo. E os outros viram… Contudo, uma só voz se levantou em tua defesa e sempre. A minha. Os outros teriam tido o direito de ficar com ciúmes, porque se havia alguém sendo protegido, eras tu.

Judas chora, humilhado e comovido.

121.5– Eu vou. É esta a hora em que sou de todos. Tu fica. E medita.

– Perdoa-me, Mestre. Não poderei ter paz, se não tiver o teu perdão. Não fiques triste por causa de mim. Sou um rapaz mau… Amo e atormento. Assim sou com minha mãe… Assim Contigo… Assim seria com a esposa, se amanhã tivesse uma… Melhor seria que eu morresse!!

– Melhor seria que te corrigisses. Mas estás perdoado. Adeus.

Jesus vai saindo e se aproxima da porta.

Do lado de fora está Pedro:

– Vem, Mestre. Já é tarde. E há muita gente. Daqui a pouco, cai a tarde. E Tu nem comeste ainda… Aquele rapaz é a causa de tudo.

– Aquele “rapaz” precisa de vós todos para não ser mais causa destas coisas. Vê se te lembras disso, Pedro. Se ele fôsse teu filho, terias compaixão dele?

– Hum! Sim e não. Eu me compadeceria… mas… também lhe ensinaria alguma coisa, ainda que ele já fôsse homem, como se faz com um garoto mau. E, se fôsse meu filho, não seria assim…

– Basta.

– Sim, basta, meu Senhor. Eis lá Mananen. É aquele com o manto quase preto, de tão vermelho escuro que é. Ele me deu isto para os pobres, e me perguntou se podia ficar para dormir.

– E o que lhe respondeste?

– A verdade: “Temos camas só para nós. Vai ao povoado.”

Jesus não diz nada. Mas deixa Pedro só, e vai a João, ao qual lhe diz qualquer coisa.

121.6 Depois volta ao seu lugar e começa a falar.

– A paz esteja com todos vós, e, com a paz, vos venha luz e santidade.

Foi dito: “Não proferir em vão o meu Nome.”

Quando é que se profere em vão esse Nome? Só quando se blasfema? Não. Também quando o proferimos, sem nos tornarmos dignos de Deus. Poderá um filho dizer: “Eu amo a meu pai e o honro”, se depois, em tudo aquilo que o pai deseja dele, ele faz sempre o contrário? Não é dizendo “pai, pai”, que se ama ao progenitor. Não é dizendo: “Deus, Deus”, que se ama o Senhor.

121.7 Em Israel onde, como anteontem Eu expliquei, há tantos ídolos no segredo dos corações, existe também um louvor hipócrita a Deus, louvor ao qual não correspondem as obras dos louvadores. Em Israel há também uma tendência: que é a de achar tantos pecados nas coisas exteriores, e não querer encontrá-los no lugar em que realmente estão, que é nas coisas interiores. Em Israel há ainda uma estulta soberba, um costume anti-humano e antiespiritual: o de julgar que seja uma blasfêmia o Nome de nosso Deus em lábios pagãos, e se chega até a proibir os gentios de se aproximarem do Deus verdadeiro, julgando que isso seja um sacrilégio.

Isto até agora. A partir de agora, não será mais assim.

O Deus de Israel é o mesmo Deus que criou todos os homens. Por que impedir que as criaturas sintam atração pelo seu Criador? Pensais vós que os pagãos não sintam alguma coisa no fundo de seus corações, qualquer coisa de insatisfação, que grita neles, e os agita, que os leva a procurar? Procurar a quem? É o Deus desconhecido. E pensais vós que, se um pagão sente propensão pelo altar do Deus desconhecido, por aquele altar incorpóreo que é a alma, na qual existe sempre uma lembrança do seu Criador, pois é a alma que espera ser possuída pela glória de Deus, como o foi o Tabernáculo erguido por Moisés, segundo a ordem recebida e que chora, enquanto essa posse não se realiza, pensais que Deus rejeite esse seu oferecimento, como se rejeita uma profanação? Pensais que seja pecado o ato suscitado por um honesto desejo da alma que, despertada por apelos celestes, diz: “Eu vou” ao Deus que diz: “Vem”, e que seja santidade o corrompido culto de um de Israel, que oferece ao Templo aquilo que sobra de seus prazeres, e vai à presença de Deus e profere seu Nome, Puríssimo, com uma alma e um corpo, onde pululam as culpas como uma grande quantidade de vermes?

Não. Em verdade Eu vos digo que sacrilégio máximo está naquele israelita que, com a alma impura, pronuncia em vão o Nome de Deus. Esse Nome é pronunciado em vão, quando (e vós não sois tolos), pelo estado de vossa alma, sabeis que o estais pronunciando inutilmente. Oh! Eu estou vendo o rosto indignado de Deus, que se vira, desgostoso, para o outro lado, quando um hipócrita o chama, quando um impenitente o nomina! E fico horrorizado, até Eu que não mereço aquela ira divina.

121.8 Leio em mais de um coração este pensamento: “Mas então, com exceção dos pequeninos, ninguém poderá chamar Deus? Porque tudo no homem é impureza e pecado.” Não. Não digais assim. É pelos pecadores que aquele Nome há de ser invocado. É por aqueles que se sentem estrangulados por satanás e que querem livrar-se do pecado e do Sedutor. Eles querem. Eis o que transforma o sacrilégio em um rito. Querer ficar curado. Chamar o Poderoso para ser perdoado e para ser curado. Invocá-lo, para pôr o Sedutor em fuga.

Foi dito no Gênesis que a Serpente tentou Eva na hora em que o Senhor não estava passeando no Éden. Se Deus tivesse estado no Éden, satanás não teria podido estar lá. Se Eva tivesse invocado Deus, satanás teria fugido. Tende sempre no coração este pensamento. E, com sinceridade, invocai o Senhor. Aquele Nome é salvação.

Muitos de vós querem descer para se purificarem. Mas purificai o vosso coração, incessantemente, escrevendo sobre ele com amor a palavra: Deus. Nada de orações mentirosas. Nada de práticas habituais. Mas com o coração, com o pensamento, com os atos, com todo o vosso próprio ser, dizei aquele Nome: Deus. Dizei-o para não ficardes sozinhos. Dizei-o para serdes sustentados. Dizei-o para serdes perdoados.

Compreendei o significado da palavra do Deus do Sinai. “Em vão” quer dizer a pronúncia da palavra “Deus”, sem mudança para o bem. E, nesse caso, é pecado. Mas ela não é “em vão”, quando como a pulsação do sangue no coração, cada minuto do vosso dia, cada vossa ação honesta, cada necessidade, tentação, dor, trazer de novo aos vossos lábios a filial palavra de amor: “Vem, meu Deus!” Então, em verdade não cometeis pecado, ao proferirdes o Nome santo de Deus.

Ide. A paz esteja convosco.

121.9 Não há nenhum doente. Jesus fica com os braços cruzados, encostado à parede, debaixo do telheiro, no qual já caem as sombras. Jesus olha os que partem montados em seus burrinhos, os que vão depressa para o rio, por um impulso de purificação, e os que, através dos campos, se dirigem ao povoado.

O homem vestido de vermelho muito escuro parece incerto sobre o que há de fazer. Jesus está de olho nele. Finalmente, ele se move e vai para o seu cavalo, pois ele tem um cavalo branco muito bonito, ornado com um xaile vermelho, que pende por sob a sela, cheia de brochas.

– Homem, espera-me –diz Jesus e o alcança–. A tarde cai. Tens onde dormir? Estás vindo de longe? Estás sozinho?

O homem responde:

– Venho de muito longe… e irei… não sei… A algum povoado, se encontrar… se não… a Jericó… Lá deixei a escolta, porque não confiava nela.

– Não. Eu te ofereço a minha cama. Já está pronta. Tens alimento?

– Não tenho nada. Pensava encontrar um lugar mais hospitaleiro…

– Aqui nada falta.

– Nada. Nem mesmo o ódio contra Herodes. Sabes quem sou eu?

– O nome daqueles que me procuram é um só: irmãos em nome de Deus. Vem. Vamos repartir o pão juntos. Podes abrigar o cavalo naquele quarto grande. Eu vou dormir ali e tomarei conta dele para ti…

– Não, isto nunca. Eu dormirei ali. Aceito o pão e nada mais. Não irei pôr o meu corpo sujo onde deitas o teu corpo santo.

– Achas que Eu sou santo?

– Sei que tu és santo. João, Cusa… as tuas obras… as tuas palavras… O palácio real as ressoa como concha que conserva o rumor dos vagalhões. Eu costumava ir a João… depois o perdi. Mas ele me havia dito: “Um que é mais do que eu te recolherá e te elevará.” Não podia ser outro senão Tu. E vim quando fiquei sabendo onde estavas.

Ficaram sozinhos sob o telheiro. Os discípulos estão cochichando perto da cozinha e olhando de soslaio.

121.10 Zelote está voltando do rio, pois era quem estava batizando hoje, acompanhado pelos últimos que foram batizados. Jesus abençoa e depois diz a Simão:

– O homem é o peregrino que procura abrigo em nome de Deus. E em nome de Deus o saudamos como amigo.

Simão se inclina, e o homem também. Entram no quarto grande e Manaém amarra o cavalo na manjedoura. Acorre João, advertido por um sinal de Jesus, e traz erva e uma ânfora com água. Acorre também Pedro, com uma pequena candeia de azeite, pois já está escuro.

– Aqui estarei muito bem. Deus vos pague, diz o cavaleiro, e depois entra, entre Jesus e Simão, na cozinha, que está iluminada por um feixe de acendalhas1 que acabaram de pôr no fogo.

Tudo termina.



1 acendalhas: produtos destinados a facilitar a combustão [N.T.]