330. 330. Tiago e João, “filhos do trovão”.Para Aqzib com o pastor Anás.


14 de novembro de 1945.

330.1 Jesus caminha por uma região muito montanhosa. Não são montes altos, mas é um contínuo subir e descer por colinas e um fluir de torrentes, alegres nesta estação fresca, e agradáveis, límpidas como o céu, ainda novinhas, como as primeiras folhinhas, que sempre vão-se tornando mais numerosas sobre os ramos. Mas, por mais que a estação seja bela e alegre, a ponto de aliviar-nos o coração, não parece que Jesus esteja muito aliviado em seu espírito, e menos ainda do que Ele, os Apóstolos. Eles vão indo muito silenciosos, pelo fundo de um vale. Só os pastores e os rebanhos é o que se apresenta a seus olhos. Jesus, porém, nem parece vê-los.

Um suspiro desconsolado de Tiago de Zebedeu e suas palavras imprevistas, nascidas de um pensamento aflitivo, é que chama a atenção de Jesus… Tiago diz:

– Derrotas… e mais derrotas! Parecemos uns amaldiçoados…

Jesus lhe põe a mão sobre o ombro:

– Não sabes que esta é a sorte dos melhores?

– É. Eu sei disso, desde que estou contigo! Mas, de vez em quando, seria bom termos alguma coisa diferente, e antes nós a tínhamos, para animar de novo os corações e a fé…

330.2 – Estás duvidando de Mim, Tiago?

Grande é a dor que há nas palavras trêmulas do Mestre.

– Naaão!…

O “não” dele, na, verdade, não tem muita firmeza.

– Mas, que estás duvidando, estás. De que é, então, que estás duvidando? Já não me amas como antes? Ao veres que fui expulso, ou feito objeto de zombaria, ou somente perdido por estes confins da Fenícia, foi isso que enfraqueceu o teu amor?

Há um pranto cheio de temor nas palavras de Jesus, ainda que não haja soluços nem lágrimas. É a própria alma dele que está chorando.

– Isto não, Senhor meu. Pelo contrário, o meu amor por Ti está crescendo mais, quando Te vejo incompreendido, não querido, abatido, aflito. E, para não ver-te assim, para poder mudar o coração dos homens, eu estaria pronto a dar a minha vida em sacrifício. Tu deves crer em mim. Não fiques me triturando o coração, já tão aflito, com essa dúvida de pensar que eu não te amo. Porque senão… Senão, eu poderei sair do sério, voltarei atrás e tirar vingança de quem te está fazendo sofrer, para provar-te que te amo, para tirar de Ti esta dúvida, e, se eu for preso ou morto, pouco me importará. Para mim bastará o ter-te dado uma prova de amor.

– Oh! Filho do trovão! Para que tanta impetuosidade? Queres, então, ser um raio exterminador?

Jesus sorri do ardor e dos propósitos de Tiago.

– Oh! Pelo menos te vejo sorrir! Isto já é um fruto destes meus propósitos. Que dizes, João? Deveremos pôr em prática o meu pensamento para consolar o Mestre abatido por tantas rejeições?

– Oh! Sim. Vamos nós. Vamos voltar a falar. E, se o insultarem ainda como um rei de palavras, rei de ludíbrio, rei sem dinheiro, rei louco, batamos duro, para que percebam que o rei tem também um exército de fiéis, e que estes não estão dispostos a ser escarnecidos. A violência é útil em certos casos. Vamos, meu irmão!

E nem parece ó doce João, de tão raivoso que está.

330.3 Jesus se põe entre os dois, segura-lhes os braços para retê-los e diz:

– Ora, escutai só o que estão dizendo! E o que que preguei durante todo este tempo! Oh! Surpresa das surpresas. Até João, a minha pomba, se me tornou um gavião. Olhai bem para ele, todos vós, e vede como está feio, perturbado, desgrenhado e com as feições desfiguradas pelo ódio. Oh! Que vergonha! E ainda ficais admirados, se os fenícios ficam indiferentes, se os hebreus estão irados, se os romanos me ordenam que saia, quando vós, os primeiros, ainda não compreendestes nada, depois destes dois anos que estais comigo, agora que vos transformais em fel, pelo ódio que trazeis no coração, quando pondes para fora de vossos corações a minha doutrina de amor e de perdão, e a expulsais como uma coisa sem valor, e acolheis, como vossa boa aliada, a violência! Oh! Pai Santo! Isto, sim, que é uma derrota! Em vez de serdes como outros tantos gaviões, que afiam os bicos e as garras, não seria melhor que fosseis anjos, orando ao Pai, para Ele dar um conforto ao seu Filho? Quando foi que já se viu um temporal produzir o bem, com os seus raios e suas saraivadas? Pois bem. Como lembrança deste vosso pecado contra a Caridade, como lembrança de quando Eu vi aparecer em vosso rosto o animal-homem, em lugar do homem-anjo, que Eu quero ver sempre em vós, Eu vos darei um sobrenome: “os filhos do trovão.”

Jesus está meio sério, enquanto está falando aos dois inflamados filhos de Zebedeu. Mas sua censura cessa, diante do arrependimento deles e, com um rosto iluminado pelo amor, Ele os aperta contra seu coração, dizendo:

– E nunca mais fiqueis feios assim. E obrigado, pelo vosso amor. E também pelo vosso, meus amigos, diz ainda Jesus, virando-se para André, Mateus e os dois primos. Vinde cá, para que Eu vos abrace também. Mas vós não sabeis que, se não houvesse outra coisa, a não ser a alegria de fazer a vontade de meu Pai e de ter o vosso amor, Eu seria sempre feliz, ainda que o mundo todo me esbofeteasse? Estou triste, mas não é por mim, pelas minhas derrotas, como vós as chamais, mas por compaixão para com as almas, que rejeitam a Vida. Aí está. Agora estamos todos contentes, não é verdade, ó grandes meninos que vós sois? Eia, então. 330.4Ide àqueles pastores, que estão tirando o leite de suas ovelhas, e pedi-lhes um pouco de leite, em nome de Deus. Não tenhais medo, acrescenta Ele, ao ver o olhar desanimado dos apóstolos. Obedecei com fé. Recebereis leite, e não pauladas, mesmo que o homem seja um fenício.

E os seis vão indo, enquanto Jesus os fica esperando na estrada. E, nesse ínterim, Jesus fica rezando, o triste Jesus que ninguém quer…

Retornam os apóstolos, com um pequeno balde de leite, e dizem:

– Ele mandou dizer-te que vás até lá, que ele precisa te falar, pois ele não pode deixar lá as cabras inquietas, só com os pequenos pastores.

Jesus diz:

– Então, vamos ate lá para comermos o nosso pão.

E lá se vão todos, beirando o despenhadeiro, em cujas bordas estão se dependurando as cabras aventureiras.

330.5 – Eu te agradeço pelo leite que me deste. Que queres de Mim?

– Tu és o Nazareno, não é mesmo? Aquele que faz milagres?

– Eu sou aquele que prega a Salvação Eterna. Eu sou o Caminho para ir-se ao Deus Verdadeiro, sou a Verdade que se doa, a Vida que vivifica. Não sou um feiticeiro, que faz prodígios. Os milagres são as manifestações da minha bondade e da vossa fraqueza, que sente necessidade de provas para crer. Mas, o que queres de Mim?

– É o seguinte: Há dois dias, Tu não estavas em Alexandrecene?

– Sim. Por quê?

– Eu também estava lá com os meus cabritos, e quando percebi que havia lá uma briga, procurei sair de lá, porque é costume lá suscitarem brigas para, na hora delas, roubarem o que está nas feiras. Todos são ladrões: os fenícios… e os outros também. Eu não deveria dizer isso, porque sou filho de pai prosélito e de mãe síria, sendo prosélito eu também. Mas é verdade. Bom. Voltemos ao caso. Eu me havia colocado em um grande curral com os meus animais, esperando pelo carro de meu filho. E, à tarde, ao sair da cidade, encontrei uma mulher que estava chorando, com uma filha pequenina nos braços. Ela tinha andado oito milhas, para chegar a Ti, Porque ela mora fora, nas campinas. Eu lhe perguntei o que ela tinha. É uma prosélita. Tinha ido para vender e comprar. Tinha ouvido falar de Ti. E a esperança havia crescido em seu coração. Então, ela foi correndo até sua casa, e apanhou a menina. Mas, quando se leva peso, tem-se que caminhar devagar! Quando ela chegou ao empório dos irmãos, Tu não estavas mais lá. Contudo, eles, os irmãos, lhe disseram: “Eles o expulsaram daqui. Mas Ele nos disse ontem de tarde que fará de novo uma permanência em Tiro.” Eu — também sou pai — então, eu lhe disse: “Vai, pois, até lá.” E ela me respondeu: “E, se, depois de tudo o que aconteceu, Ele resolver ir por outros caminhos, para voltar à Galiléia?” E eu lhe disse: “Escuta: ou Ele vai por aquele caminho, ou pelo outro dos confins. Eu pastoreio entre Rohob e Lesendam, justamente aos lados da estrada que serve de limite entre aqui e Neftali. Se eu o vir, lhe direi. Palavra de prosélito.” E acabei de te dizer.

– E Deus que te pague por isso. Eu irei à mulher. 330.6Pois devo voltar a Aqzib.

– Vais a Aqzib? Então, podemos viajar juntos, se tu não desprezas a um pastor.

– Eu não desprezo a ninguém. Para que vais a Aqzib?

– Porque os cordeiros estão lá… A não ser que não os tenha mais.

– Por quê?

– Porque por lá está passando a doença. Não sei se foi feitiçaria ou outra coisa. Só sei que a minha bela manada ficou doente. Por isso eu trouxe para cá as cabras, que ainda estão sãs, para separá-las das ovelhas. Aqui estarão com dois filhos. Agora eu estou na cidade, fazendo as compras. Mas vou voltar para lá… para vê-las morrer, as minhas belas ovelhas lanudas…

O homem suspira… Olha para Jesus, e se desculpa:

– Falar destas coisas a Ti, que és quem és, e afligir a Ti, que já vives aflito pelo modo como te tratam, é uma espécie de estultícia. Mas as ovelhas são afeto e dinheiro para nós, sabes?

– Eu compreendo. Mas elas ficarão sãs. Tu não as fizeste ver por quem entende do assunto?

– Oh! Todos me disseram a mesma coisa: “Mata-as, e vende suas peles. Não há mais nada a fazer.” E ainda me ameaçaram, se eu as deixar vagueando por aí. Eles têm medo de que a doença pegue nas deles. Por isso, devo conservá-las fechadas… e morrem em maior número. Eles são maus, sabes? aqueles de Aqzib.

Jesus diz simplesmente:

– Eu sei.

– Eu digo que fizeram feitiço contra elas…

– Não. Não creias nessas histórias… Quando vierem os teus filhos, vais partir logo?

– Logo. Daqui a momentos, estarão aqui. 330.7Estes são os teus discípulos? São só estes?

– Não, tenho ainda outros.

– E por que eles não vêm aqui? Uma vez, perto de Meron, encontrei um grupo deles. O chefe deles era um pastor. Assim se dizia. Um alto, robusto, chamado Elias… Foi em outubro, me parece. Antes ou depois dos Tabernáculos. Agora, ele te deixou?

– Nenhum discípulo me deixou.

– Haviam-me dito que…

– Que foi?

– Que Tu… que os fariseus… Afinal, que os discípulos te haviam deixado por medo, e porque Tu eras um…

– Demônio. Dize-o logo. Eu sei. Duplo mérito é o teu que, mesmo assim, ainda crês.

– E por este mérito você não poderia… mas talvez eu esteja pedindo uma coisa sacrilega….

– Diga. Se for maléfica, te direi.

– E, por esse mérito, não poderias, de passagem, abençoar o meu rebanho?

O homem está muito ansioso…

– Eu abençôo o teu rebanho. Este… –e levanta a mão, abençoando os cabritos espalhados–,… e também o das ovelhas. Acreditas que minha bênção as salve?

– Como salvas os homens das doenças, assim poderás salvar também os animais. Dizem que és o Filho de Deus. As ovelhas foram criadas por Deus. Por isso elas são coisas do Pai. Eu… Eu não sabia se era respeitoso fazer este pedido. Mas, se podes, faze-o, Senhor, e eu levarei ao Templo grandes ofertas de louvor. Ou melhor, darei a Ti para os pobres. E será muito bom.

Jesus sorri, e fica calado.

330.8 Chegam os filhos do pastor e, pouco depois, Jesus com os seus e o velho partem, deixando os jovens tomando conta das cabras.

Vão indo rápidos, querendo chegar logo a Quedes, para saírem de lá o quanto antes, procurando alcançar a estrada que do mar vai para o interior. Deve ser a mesma que se bifurca aos pés do promontório, por onde passaram, quando iam para Alexandrecene. Pelo menos é assim que compreendo pelas palavras do pastor aos discípulos. Jesus está na frente, sozinho.

– Será que não teremos outros aborrecimentos? –pergunta Tiago de Alfeu.

– Quedes não depende daquele centurião. Está fora dos confins da Fenícia. Os centuriões, basta não irritá-los, pois se desinteressam pelas religiões.

– Além disso, nós não vamos parar lá…

– Seríeis capazes de fazer mais de trinta milhas em um dia? –pergunta o pastor.

– Oh! Nós somos peregrinos perpétuos!

Vão indo sempre para frente. Já chegaram a Quedes. E Quedes já vai ficando para trás, sem incidentes. Pegam a estrada direta. Num cipo está marcado: Aqzib. O pastor observa isso, e diz:

– Amanhã estaremos lá. Esta noite vireis ficar comigo. Conheço cidadãos dos vales, mas muitos estão nos confins da Fenícia… Bem! Atravessaremos a fronteira. E certamente não seremos logo descobertos… Oh! A vigilância deles! Melhor seria que a praticassem com os ladrões…

O sol vai descendo, e os vales não servem para ajudar a manter a claridade, pois estão cheios de bosques. Mas o pastor tem muita prática, e vai com segurança.

330.9 Chegam a uma pequena vila, ou melhor, a um punhado de casas.

– Se eles nos hospedarem aqui, são israelitas. Estamos já nos confins. Se não nos quiserem, iremos para outro lugar, que é fenício.

– Eu não tenho prevenções, homem.

Batem à porta de uma casa.

– És tu, Anás? Vens com amigos? Vem, vem, e Deus esteja contigo –diz uma mulher muito velha.

Entram em uma cozinha grande, alumiada por um fogo. Uma família numerosa, com pessoas de todas as idades, está reunida a mesa do jantar, mas amigavelmente arranja lugares para os recém-chegados.

– Este é Jonas. Esta é a mulher dele, os filhos, netos e as noras. Uma família de patriarcas fiéis ao Senhor –diz o pastor Anás a Jesus.

E depois, virando-se para o velho Jonas:

– E este, que está comigo é o rabi de Israel. É aquele que tu desejavas conhecer.

– Eu bendigo a Deus por poder hospedá-lo e por ter lugar nesta tarde. E bendigo ao Rabi, que veio à minha casa, e lhe peço a bênção.

Anás explica que a casa de Jonas é como um albergue para os peregrinos que do mar vão para o interior.

Assentam-se todos na cozinha quente e as mulheres servem aos recém-chegados. Aí reina um respeito tão grande, que quase ninguém se move. Mas Jesus resolve o problema, chamando ao redor de Si, depois da refeição, os muitos meninos que logo se tornam seus amigos. E, atrás deles, naquele breve espaço de tempo que separa a ceia do repouso, vão-se tornando corajosos os homens da casa, narrando o que ficaram sabendo sobre o Messias, e fazendo perguntas sobre o que há de novo.

E Jesus corrige, confirma, explica com bondade, em uma conversação amistosa, até que os peregrinos e os familiares vão tomar seu repouso, depois que Jesus abençoou a todos.