319. 319. Partida de Tirono navio do cretense Nicomedes.


4 de novembro de 1945.

319.1 Tiro está despertando, por entre rajadas do vento do nordeste. O mar está todo risonho, com suas pequenas ondas branco-amarelas, que resplendem, agitado por baixo de um céu também azul, com cirros brancos, que estão lá nas alturas, assim como cá em baixo a espuma das ondas, que estão em movimento. O sol também está gostando deste dia sereno, depois de tantos dias cinzentos de mau tempo,

– Agora compreendi –diz Pedro, pondo-se em pé na barca, onde ele dormiu–. É hora de mover-se. E “ele” (Pedro mostra o mar, que está entrando calmamente pelo porto adentro) nos deu a água lustral… Hum!Vamos agora fazer a segunda parte do sacrifício… Dize-me, Tiago: Não te parece mesmo que estamos levando duas vítimas para o sacrifício? A mim, parece que sim.

– A mim também, Simão. E agradeço ao Mestre pela confiança que Ele deposita em nós. Mas… Eu nunca teria querido a ver tanta dor. Eu nunca teria pensado que haveria de ver isso…

– Eu também não… Mas… Sabes de uma coisa? Eu acho que o Mestre não teria feito isso, se o Sinédrio não tivesse metido o nariz no assunto…

– De fato, Ele disse… Mas, quem é que terá levado certas coisas ao conhecimento do Sinédrio? Isto é o que eu gostaria de saber…

– Quem teria sido?! Ó Deus eterno, faze-me calar, e faze que eu não fique pensando! Eu já fiz este voto, para afastar esta suspeita que me tortura. Ajuda-me, Tiago, a não ficar pensando. Fala-me de outras coisas.

– Mas, falar-te de quê? Do tempo?

– Sim, pode ser.

– Mas, é que de mar eu pouco entendo…

– Eu creio que vamos dançar –diz Pedro, olhando para o mar.

– Naão! As ondas são miúdas. Mas não fiques brincando. Ontem estava mais feio. Olhado lá do alto da nave, deverá ser bonito todo esse mar movimentado assim. João vai gostar dele. Ele o fará cantar.

319.2Qual será o navio?

Ele também se põe de pé para observar os navios colocados do outro lado e já visíveis, com suas altas sobrestruturas, especialmente quando se levanta a barquinha deles, com um movimento de balanço. Ficam olhando e estudando os diferentes navios e tentando adivinhar… O porto vai ficando movimentado.

Pedro resolve interpelar um barqueiro, ou coisa semelhante, que está limpando umas armas sobre uma banqueta:

– Sabes se está no porto, naquele porto lá, o navio de… espera um pouco, que eu vou ler esse nome… –(e tira para fora um pergaminho amarrado, que ele traz na cintura)–, aqui está: Nicomedes Filadelfo de Filipe, cretense de Paleocastro…

– Oh! O grande navegante! E quem não o conhece? Eu acho que ele é conhecido, não só desde o Golfo das Pérolas até as Colunas de Hércules, mas até nos mares gelados, aqueles nos quais se diz que a noite dura meses inteiros! Como é que não o conheces, tu que és marinheiro?

– Não. Não o conheço, mas logo o conhecerei, porque o estou procurando por conta do nosso amigo Lázaro de Teófilo, que há tempo foi governador da Síria.

– Ah! Quando eu navegava — agora já estou velho — ele estava em Antioquia… Belos tempos… Ele é teu amigo? Então estás procurando Nicomedes, o cretense? Irás seguro, então. Estás vendo aquele navio lá adiante, o mais alto, com aquelas bandeiras ao vento? É o dele. Ele zarpa, antes do meio-dia. Ele não tem medo do mar!…

– De fato, não precisa temê-lo. Não está muito ruim… –observa Tiago.

Mas uma onda forte lhe corta a palavra, dando nos dois um banho, da cabeça aos pés.

– Ontem, tão parado, e hoje tão movimentado, é um belo doido, Não? Eu prefiro o lago… –resmunga Pedro, enxugando o rosto.

– Eu vos aconselho a entrar para as docas. Não estais vendo como todos vão indo para lá?

– Mas é que nós temos que partir. Temos que ir-nos embora com o navio do… do… espera: do Nicomedes, além dos outros nomes que faltam! –diz Pedro, que não consegue reter na memória os nomes para ele esquisitos do cretense.

– Não querereis levar também a barca no navio?

– Não, já se entende!

– Porque nas docas há lugar para a guardar e homens que ficam de guarda até à volta. Uma moeda por dia, até à volta, pois eu acho que vós tenhais de voltar…

– Certo, certo. Vamos e voltamos, depois de termos visto o estado em que estão os jardins de Lázaro, é isto.

– Sois, então, os intendentes dele?

– E até mais do que isso…

– Bem. Vinde comigo. Eu vos mostrarei o lugar. É um lugar apropriado para os que, como vós, vão deixar as barcas…

– Espera… 319.3 Eis os outros. Daqui a um momento estaremos contigo.

E Pedro salta por cima da banqueta, e sai correndo, ao encontro dos companheiros, que já vêm vindo.

– Dormiste bem, meu irmão? –pergunta, pressuroso, André.

– Como um menino no berço. Não me fez falta nem o balanceio, nem a cantiga…

– Parece-me que não te fez falta nem o banho –diz Tadeu, sorrindo.

– É certo. O mar é… tão bom, que veio lavar-me o rosto, para me tirar o sono.

– Um pouco pesado –objeta Mateus.

– Oh! Mas, soubésseis com quem se vai! Com alguém que é conhecido até pelos peixes dos mares polares.

– Tu já o viste?

– Não. Mas falou-me dele um homem que me disse que existe um lugar para as barcas, um depósito… Vinde para descarregarmos os baús, e irmos, porque Nicodemos, não, Nicomedes, o cretense, vai partir daqui a pouco.

– No canal de Chipre, vamos dançar bem –diz João de Endor.

– Ah! Sim –pergunta, preocupado, Mateus.

– Sim. Mas Deus nos ajudará.

319.4 Já estão de novo perto da barca.

– Aí está o homem. Agora, vamos tirar esta roupa, e, depois vamos, pois foste muito bom para conosco!

– Aqui nós nos ajudamos –diz o homem de Tiro.

– Sim, isto mesmo. Nós nos ajudamos, nos deveríamos ajudar. Deveríamos amar-nos, porque esta é a Lei de Deus…

– Ouvi dizer que em Israel surgiu um novo profeta que prega isso. É verdade?

– Se é verdade! Isso, e outras coisas! E faz milagres. Força, André, mais para a direita. Força, enquanto a onda levanta a barca. Oh! Muito bem feito… Eu ia te dizendo, homem: e que milagres! Mortos que ressuscitam, doentes que ficam curados, cegos que passam a ver, ladrões que se convertem e até… Estás vendo? Se Ele estivesse aqui, diria ao mar: “Fica quieto”, e o mar se acalmaria… Será que consegues, João? Espera que eu vou aí. Vós fazei força, e bem juntos… Vamos, vamos. Ainda um pouco… Tu, Simão, toma a manivela… Cuidado com a mão, Judas! Vamos, vamos… Obrigado, homem. Cuidado para não cairdes n’água, vós do Alfeu… Vamos… Já chegamos! Louvado seja Deus! Nós nos cansamos menos para pô-los lá em baixo, do que para puxá-los para cima… Mas estou com os braços doendo por causa do exercício de ontem. Então, eu dizia, te estava dizendo que o mar…

– Mas, é verdade, então?

– Verdade? Eu estava lá vendo tudo!

– Sim? Oh! Mas onde foi isso?

– No lago de Genezaré. Vem conosco na barca que, enquanto vamos indo para o depósito, eu te conto…

E lá se vai ele com o homem e com Tiago, remando pelo canal que vai para as docas.

319.5 – E Pedro costuma dizer que não sabe fazer nada… –observa o Zelotes–. Mas, pelo contrário, ele sabe a arte de ir fazendo as coisas, assim de um modo natural, e faz melhor do que os outros…

– O que me agrada muito nele é sua honestidade –diz o homem de Endor.

– E a sua constância –acrescenta Mateus.

– E a sua humildade. Olha como ele não se ensoberbece, sabendo que é o chefe! Ele se cansa mais do que todos, e se preocupa mais conosco do que consigo mesmo… –diz Tiago de Alfeu.

– E é tão virtuoso em seu bom senso. É um bom irmão. Nada mais… –termina Síntique.

– Então, é mesmo do modo que dissestes? E é assim que viveis –pergunta, depois de algum tempo, o Zelotes aos dois discípulos.

– Sim. E melhor ainda. Não é mentira, mas uma verdade espiritual. Para mim, ele é um irmão mais velho, de outra mãe, mas do mesmo pai. O Pai é Deus, e as mães diferentes são Israel e a Grécia. João é meu irmão mais velho, como se vê, pela idade, como se vê e — isso não se vê, mas é verdade —, por ser ele discípulo já havia tempo, antes de mim. 319.6Eis Simão, que vem voltando…

– Tudo pronto. vamos…

Eles pegam os baús e, atravessando o istmo estreito, passam para o outro porto. O homem de Tiro os vai acompanhando, com a prática que tem, pelos becos formados pelos fardos de mercadorias, empilhados por baixo de uns telheiros muito amplos, até o grande navio do cretense, que já está fazendo as manobras para a partida já próxima, e já estão gritando aos que estão a bordo para que tornem a descer a passarela, que já haviam levantado.

– Não se pode. A carga já está colocada –grita o chefe da equipagem.

– Ele tem umas cartas para entregar –diz o homem, acenando para Simão de Jonas.

– Cartas? De quem?

– De Lázaro de Teófilo, que já foi governador de Antioquia.

– Ah! Vou conversar com o patrão.

Simão diz ao outro Simão e a Mateus:

– Fazei isso vós, agora. Eu sou rústico para tratar com um homem destes…

– Não. Tu és o chefe, e tu o sabes fazer, e o fazes bem. Nós te ajudaremos, se for o caso. Mas não haverá necessidade disso.

– Onde é que está o homem das cartas? Que ele suba! –diz um homem, moreno como um egípcio, magro, bonito, desembaraçado, severo, e que se debruça sobre a alta amurada do navio. E faz que a passarela seja descida de novo.

Simão de Jonas, que tornou a pôr o hábito e o manto, enquanto estava esperando a resposta, sobe, todo cheio de dignidade. Atrás dele vão o Zelotes e Mateus.

– A paz esteja contigo, ó homem –saúda-o sinceramente Pedro.

– Salve. Onde está a carta –pergunta o cretense.

– Aqui está.

O cretense rompe o selo, estende o rolo, e lê.

– Sejam benvindos os enviados da família de Teófilo. Os cretenses não se esquecem de quanto ele era bom e gentil. Mas, andai depressa. Tendes muita carga?

– Toda a que estás vendo sobre a banqueta.

– E, quantos sois vós?

– Somos dez.

– Está bem. Vamos arranjar um lugar para a mulher. Vós vos arranjareis do melhor modo possível. Vamos logo. É preciso que saiamos e peguemos o largo, antes que o vento tome força e, depois do meio dia, isso vai acontecer.

E dá ordem com uns assobios dilacerantes, para que se faça o embarque dos baús e a colocação deles na estiva. Depois, sobem os apóstolos e os dois discípulos. Levantam, então, a passarela, fecha-se a amurada, soltam-se as amarras, e levantam-se as velas. O navio começa a sair, oscilando fortemente na saída do porto. Depois, as velas se estendem, rangendo muito, ao enfurná-las o vento e, com um grande balanço, o navio alcança o largo, fugindo rápido para Antioquia…

Apesar do vento violento, João e Síntique, que estão perto um do outro, agarrados a um cadernal, perto da popa, ficam olhando como na costa vai ficando longe a terra da Palestina, e choram…