443. 443. A morte do avô de Marziam.


25 de maio de 1946.

443.1 Jesus deve ter deixado as mulheres, porque está com os apóstolos, com Isaque e Marziam. Vão descendo pelos últimos declives para chegarem à planície de Esdrelon, enquanto a tarde lentamente se aproxima.

Marziam está muito contente, porque o Senhor o está levando à casa do seu querido avô. Menos contentes vão os apóstolos, que estão relembrando o incidente havido, há pouco tempo, com Ismael. Mas eles se calam, sérios, para não entristecerem o jovenzinho, que se alegra por não ter comido o mel que Porfíria lhe deu, “porque eu tinha a esperança de que o Senhor contentasse o meu coração, fazendo-me ir ver o meu pai. Não sei por quê… Mas, já há algum tempo, eu o tenho sempre presente em minha memória como se ele me estivesse chamando. Eu o disse a Porfíria e ela me respondeu: ‘Faze assim também comigo, quando Simão estiver longe.’ Mas não deve ser como ela diz, porque nunca o fez a mim.”

– Porque antes eras um menino. Agora és um homem e teu pensamento pensa mais –diz-lhe Pedro.

– Tenho também dois queijinhos e um pouco de azeitonas. É o que pude trazer e que me pertence, ao meu amado pai. Além disso, eu tenho uma túnica e uma veste de cânhamo. Porfíria as queria fazer para mim. Mas eu lhe disse: “Se me amas, faze-as para o velho.” Ele está sempre todo rasgado e curtindo muito calor com aquelas roupas de lã ordinária! Para ele vão ser refrescantes.

– Enquanto isso, tu ficaste sem roupas refrescantes, e sujas como uma esponja, com tuas roupas de lã –diz Pedro.

– Oh! Não importa: Meu pai ficou tantas vezes sem comer para me dar de comer, quando eu estava no bosque… Finalmente, também eu posso dar-lhe alguma coisa. Se eu pudesse ir pondo de lado um tanto, para que ele pudesse aposentar-se!

– Quanto já tens até agora? –pergunta André.

– Pouco. Com o peixe, já consegui cento e dez didracmas. Mas logo eu venderei os cordeiros, então… Se eu pudesse fazê-lo antes do frio rigoroso!

– Sois vós que o mantendes? –pergunta Natanael a Pedro.

– Sim. Não ficaremos arrasados se o pobre velho ficar com uma parte do nosso prato…

– E depois… Ele pode fazer algum pequeno trabalho… Ir a Betsaida, para nossa casa, não é Filipe?

– Certo, isso mesmo… Nós te ajudaremos, Simão, fazendo ficar contentes nosso bom Marziam, e o velho…

443.2 – Esperamos que não esteja lá Jocanã… –diz Judas Tadeu.

– Eu irei à frente para verificar –diz Isaque.

Vão indo apressados, ao clarão do luar… Chegados a um certo ponto, Isaque sai na frente, apressando ainda mais o passo, enquanto o grupo o vai acompanhando mais devagar. Na planície reina um grande silêncio. Até os rouxinóis já se calaram.

Vão indo, vão indo, até que veem duas sombras correndo ao encontro deles.

– Um deles certamente é Isaque… O outro, tanto pode ser Miqueias, como o intendente. Eles são da mesma altura… –diz João.

Eles já estão perto… muito perto. É justamente o intendente que vem, seguido por Isaque, parecendo este estar consternado.

– Mestre… Marziam… Pobre filho! Vinde logo… O teu pai, Marziam, está doente, muito doente…

– Ah! Senhor! –grita o jovenzinho, muito triste.

– Vamos, vamos… Sê forte, Marziam.

E Jesus segura na mão dele já meio correndo e diz aos apóstolos:

– Vinde, vós, conosco.

– Sim… Mas não façais barulho… Jocanã está lá –grita o intendente, que já vai longe.

443.3 O pobre velho está em casa de Miqueias. Até um bobo pode entender que ele está morrendo. Ele está abandonado, com os olhos fechados, com os traços do rosto já desfigurados, como os de quem está morto. Está cor de cera, menos nos pômulos, onde um vermelho azulado ainda está resistindo.

Marziam se inclina sobre a pequena cama, chamando:

– Pai! Meu pai! Eu sou Marziam. Estás ouvindo? Marziam! Jabé! O teu Jabé… Ó Senhor, não me ouve mais… Vem cá, Senhor… Vem cá. Experimenta Tu… Cura-o… Faze que ele me veja, que me fale… Mas será que eu devo ver morrer assim todos os meus, sem que nem me digam adeus?

Jesus se aproxima, inclina-se sobre o moribundo e põe-lhe a mão sobre a cabeça, dizendo:

– Filho do meu Pai, escuta-me.

Como alguém que sai de um profundo sono, o velho puxa um profundo respiro e abre os olhos, já vidrados, olhando com incerteza para os dois rostos inclinados sobre o seu. Faz um movimento como quem quer falar, mas a língua está já muito entorpecida. Contudo, agora ele já deve estar reconhecendo as pessoas, porque está com um sorriso e procura segurar as mãos dos dois para levá-las aos lábios.

– Pai… eu tinha vindo… Pedi tanto para poder vir! Eu te queria dizer… que daqui a pouco terei um tanto… para dar-te, a fim de que te aposentes e venhas comigo para a casa de Simão e de Porfíria, que são tão bons, tão bons para com o teu Jabé… e para com todos…

O velho consegue mover a língua e falar muito mal:

– Deus lhes pague, … pague a ti… Mas já é tarde… Eu vou para a casa de Abraão… para não sofrer mais…

Se vira para Jesus, e, com ânsia, pergunta:

– É assim, não é verdade?

– É assim. Fica em paz!

E Jesus se ergue, majestoso, dizendo:

– Eu, com o meu poder de Juiz e Salvador, te absolvo de tudo o que na vida puderes ter cometido de culpas ou de omissões, dos movimentos do coração contra a caridade e contra quem te tiver odiado. De tudo Eu te perdoo, ó filho. Vai em paz!

Jesus estendeu as mãos no ar, sobre a pequena cama, como se ela fosse um altar, e Ele, o Sacerdote, que as estende para consagrar a vítima.

443.4 Marziam chora, enquanto o velho sorri docemente, murmurando:

– Com a tua ajuda pode-se dormir em paz… Obrigado, Senhor…

–e se abate…

– Pai! Pai! Oh! Está morrendo! Está morrendo! Demos-lhe um pouco de mel… ele está com a língua seca… Ele está frio… o mel esquenta… –grita Marziam e procura achar na sacola com uma mão, enquanto sustenta com a outra a cabeça do avô, que já vai ficando pesada.

Na soleira aparecem os apóstolos… e mudos observam…

– Podes fazer, Marziam. O pai Eu sustento –diz Jesus.

E, depois diz a Pedro:

– Simão, vem cá…

E Simão vai para a frente, comovido.

Marziam está procurando dar um pouco de mel ao velho. Enfia um dedo no pequeno vaso e o tira coberto de um mel que está pingando e que ele põe sobre os lábios do avô. Este reabre os olhos, olha para ele, lhe sorri e diz:

– É bom.

– Eu o produzi para ti… E também a veste de cânhamo, fresca…

O velho levanta a mão vacilante, procura pô-la sobre a cabeça morena, dizendo:

– Tudo bom… mais do que o mel… E é isto… isto de seres bom é que me faz bem. Mas o teu mel não serve mais… Nem também a veste fresca… Toma-os… toma-os com minha bênção…

Marziam desliza sobre os joelhos, chora, apoiando a cabeça sobre a beira da pequena cama, e gemendo:

– Estou sozinho! Fiquei sozinho!

Simão dá uma volta ao redor do leito, e, com uma voz mais áspera do que nunca, por causa da comoção, diz, acariciando os cabelos do Marziam:

– Não… Sozinho, não. Eu te quero bem. Porfíria te quer bem… Os discípulos… Muitos irmãos… E depois… Jesus, Jesus que te quer bem… Não chores, meu filho.

– Teu… filho… sim… feliz de mim… Senhor… Senhor!

O velho gorgoreja, faz seus últimos movimentos… percebe que chegou o seu fim.

443.5 Jesus o cinge com um braço, o soergue e entoa lentamente:

– Levanto os olhos para os montes, de onde há de vir o meu auxílio.

E prossegue por todo o salmo 1201. Depois para, observando o homem que está morrendo em seus braços tranquilizado por aquelas palavras. Entoa o salmo 121. Mas pouco recita dele, porque mal iniciou o quarto versículo, Ele o interrompe, dizendo:

– Vai em paz, alma justa!

E acomoda lentamente e abaixa com a mão as suas pálpebras. Foi uma morte tão plácida, que ninguém, a não ser Jesus, se deu conta do momento dela. Mas todos só o compreenderam pelos gestos do Mestre, e começaram um murmúrio.

Jesus faz um sinal, pedindo silêncio. Depois vai para o lado de Marziam, que está chorando, com a cabeça inclinada sobre a cama, o abraça querendo levantá-lo, dizendo:

– Ele está em paz, Marziam. Não sofre mais. A maior das graças de Deus para ele foi esta: a morte, e nos braços do Senhor. Não chores, meu filho! Olha como ele está em paz… Em paz… Poucos em Israel tiveram o prêmio que este justo teve, de morrer sobre o peito do Salvador. Pois aqui está Deus, que é tudoe que te ama por todo o mundo.

443.6O pobre Marziam realmente faz pena, mas ainda encontra força para dizer:

– Obrigado, Senhor, por teres vindo… E a ti, Simão, por me teres conduzido… E a todos, todos, obrigado… por tudo aquilo que me destes para ele… Já não lhe serve mais. Mas a veste, sim… Nós somos pobres… Não podemos fazer o embalsamamento… Oh! Meu pai… Nem mesmo um sepulcro eu te posso dar! Mas, se confiais em mim, e se o podeis, fazei as despesas e eu vos darei em outubro o preço dos cordeiros e do peixe…

– Mas, dize uma coisa. Eu digo que tens ainda um pai! Eu penso nisso. Ainda que tenha que vender uma das barcas. Prestaremos ao velho todas as honras. O mais importante é saber quem começa… e quem dá um sepulcro…

O intendente diz:

– Em Jezrael há discípulos entre o povo. Eles não negarão nada. Eu vou logo a eles e voltarei lá pela hora tércia…

– Está bem, mas… e o Fariseu?

– Não temais. Eu o faço saber que há um morto e ele, para não contaminar-se, não sairá mais de casa. Eu me vou…

E, enquanto Marziam, inclinado sobre o avô, chora e o acaricia, Jesus está falando baixo com os apóstolos, com Miqueias e os outros, que vão e vêm, preparam para as últimas honras para o companheiro morto.

443.7 E aqui eu faço uma observação minha. Aconteceu-me muitas vezes em tais contingências, e muitas vezes tenho notado que os presentes, com boa intenção, mas com intransigências não boas, gritam com aqueles que estão desolados, por terem perdido um parente. Comparo isso com a doçura de Jesus, que se compadece do sofrimento do órfão e não pretende dele um heroísmo sobrenatural… Quanto temos que aprender com os menores atos de Jesus.

1 o salmo 120 e o salmo 121 tornaram-se na neo-vulgata Salmo 121 e Salmo 122. Os números dos salmos e dos versos estão sobre pontos como se MV tivesse que fazer a pesquisa antes de escrevê-los.


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