484. 484. Permanência obrigatória perto de Efraime parábola da romã.
31 de agosto de 1946.
484.1 De fato, Jesus pensa em passar até além de Efraim, já nas primeiras claridades do dia, quando a manhã ainda está silenciosa e as ruas desertas, sem que ninguém os esteja vendo. Por prudência, Ele está dando uns passos ao redor da cidade, sem nela entrar, numa hora assim tão cedo.
Mas quando, da viela por onde iam, por detrás do povoado, eles entram na estrada mestra, e se encontram bem defronte do povoado todo, poderia eu dizer que junto com os do lugar estão os que vieram de outros lugares e que ficaram para trás, mas que estão mostrando aos de Efraim o Senhor, logo que o vão vendo aparecer. Por sorte, estão completamente ausentes os fariseus, os escribas e outros a eles semelhantes.
Os de Efraim mandam à frente os notáveis do lugar, dos quais um, depois de uma solene saudalção, diz em nome de todos:
– Ficamos sabendo que Tu estavas entre nós e que não fizeste pouco caso de nós, deixando de ter piedade de alguém. Nós já tínhamos sabido que tiveste piedade com os de Siquém. E ficamos desejando te encontrar. Agora, Aquele que vê os pensamentos dos homens te conduziu até nós. Permanece aqui e fala, porque nós também somos filhos de Abraão.
484.2 – Permanecer não me é possível…
– Oh! Sabemos que estão te procurando. Mas não os do lado de cá. Esta cidade é o limite entre o deserto e as Montanhas do sangue. Eles não passam para cá de boa vontade. E, desta vez, depois dos primeiros, não vimos mais nenhum.
– Eu não posso permanecer…
– O Templo te está esperando. Nós sabemos disso. Mas podes acreditar em nós. Vós nos julgais uns proscritos, porque não inclinamos nossas frontes diante do Pontífice de Israel. Mas, por acaso, o Pontífice é Deus? Aqui nós estamos longe. Mas não tanto, para não ficarmos sabendo que os vossos sacerdotes não são menos indignos do que os nossos. Nós pensamos que Deus não pode estar com eles. Não. O Altíssimo não se seconde mais na nuvem do incenso. Poderiam parar de queimá-lo, e poderiam entrar no Santo dos Santos, sem medo de serem reduzidos a cinzas pelo fulgor de Deus, sentado em sua glória. Nós adoramos a Deus, ouvindo-o, fora das pedras desabitadas dos templos vazios. Não dizemos que nosso templo está mais vazio do que o vosso, se quiserdes acusar-nos de termos feito de nosso templo um ídolo. Estás vendo que nós somos equânimes, mas por isso, escuta-nos.
Ele toma um tom solene:
– Melhor seria que Tu aqui parasses para adorar ao Pai entre os que menos reconhecem que têm um espírito religioso vazio da verdade, como os outros que não querem reconhecer isso, e nos ofendem. Sozinhos, refugiados como uns leprosos, sem profetas e sem doutores, não temos nem sabido estar unidos, sentindo-nos irmãos. Nossa lei é não trair, pois está escrito: “Não ir atrás da multidão para fazer o mal, e, no julgamento ao desviar-nos da verdade, para ficarmos com o parecer da maioria.” Está esrito1: “Não fazer morrer o inocente e o justo, porque Eu odeio o ímpio. Não aceitar presentes, que fazem ficar cegos até aos sábios, e solapam as palavras dos justos. Não maltratar ao estrangeiro, porque vós bem sabeis o que é ser estranjeiros na terra dos outros.” E até nas bênçãos do Garizim, monte querido do Senhor, pois Ele o escolheu como o monte de bênção, está prometido todo bem a quem se apega a verdadeira Lei, que está no Pentateuco. E agora, nós rejeitamos como uns ídolos as palavras dos homens, mas conservamos as de Deus, podemos, por acaso, ser chamados de idólatras? A maldição de Deus está sobre quem fere de emboscada o seu próximo, e ainda aceita recompensa para condenar à morte um inocente. Nós não queremos ser malditos por causa de nossas ações. Porque, por sermos samaritanos não seremos amldiçoados, visto que Deus é justo e premia o bem sempre, onde ele estiver. É esta nossa confiança no Senhor.
Ele se recolhe um pouco, e depois continua:
– Por tudo isso, nós te dizemos: melhor seria, se Tu ficasses entre nós. O Templo te odeia e te procura para fazer-te sofrer. E não é só isso. Sempre estarás maltratado entre os que te rejeitam, como se fosses um opróbrio. Não é dos judeus que te virá o amor.
484.3– Eu não posso permanecer. Mas me lembrarei das vossas palavras. Eu vos digo que enquanto isso, persevereis na observância das leis de justiça, de que vós tendes lembrado, e que nascem do preceito de amor ao próximo. O preceito que, com o do amor a Deus, forma o Mandamento, principal da religião antiga e da minha. Para quem vive como justo, não está longe o caminho do Céu. Um passo apenas será o bastante para levar os que estão na senda vizinha, separados somente por um capricho, mais do que por uma convicção, para a estrada do Reino de Deus.
– O teu!
– O meu. Mas não o Reino como o imaginam os homens, Reino de poder temporal justo, e às vezes violento, para ser forte. Com a diferença de ser o Reino que começa dentro do coração dos homens aos quais o Rei espiritual dá um código espiritual e dá um premio espiritual. Dar-lhes-á o Reino. Esse Reino no qual não haverá exclusivamente judeus, ou galileus, ou samaritanos, mas nele estarão todos os que nesta Terra tiveram uma única fé: a minha, e no Céu todos terão um único nome: santos. As raças e as divisões entre uma raça e outra ficarão aqui na terra, limitadas a ela. No meu Reino não haverá raças diferentes, mas unicamente a dos filhos de Deus. Os filhos de Um Só não podem deixar de pertencer a uma única estirpe. 484.4Agora, deixai-me ir. Ainda é grande o caminho que Eu tenho que percorrer, antes da noite.
– Vais a Jerusalém?
– Vou a Ensemes.
– Então, nós te mostraremos um caminho, que só nós conhecemos, para chegar até o vau, sem que precises parar, e sem perigo. Tu não tens bagagem, nem carros, estás livre para assim fazer. Lá pela hora nona, já estarás no lugar. Conhecer aquela senda será para ti uma boa coisa. Mas, descansa entre nós por uma hora, aceita nosso pão e nosso sal, e em troca, dá-nos a tua palavra.
– Seja feito como quereis. Mas fiquemos aqui onde estamos. Está tão agradável este dia e este lugar é tão bonito.
De fato, eles se encontram em um vale todo cheio de pomares, pelo meio do qual passa uma pequena torrente, que as primeiras chuvas encheram mais, e que lá se vai tagarelando e brilhando ao sol, descendo pelo meio de umas rochas, que o fazem dividir-se em espumas de madrepérolas, que se enfileiram para entrarem no Jordão. Os arbustos, que ainda resistiram ao verão, parecem estar contentes, nas duas margens, com aquela névoa fina, formada pelas águas que bateram nas rochas e se transformaram em espumas, e brilham todas, tremulando suavemente, sopradas por uma brisa suave, que faz chegar até os que passam, por perto o cheiro das maçãs maduras e o do mosto, que está fermentando.
Jesus vai justamente para o lado da torrente e se assenta sobre uma saliência do terreno, tendo sobre sua cabeça a sombra leve de um salgueiro, a seu lado só águas risonhas, que vão descendo para o vale. As pessoas se acomodam sobre as duas margens.
Eles levam daquele lugar pão, leite mungido na hora, queijos, frutas e mel, e os oferecem a Jesus para que os coma com os seus. Ficam olhando como é oferecido e eles comem, depois de terem abençoado o alimento, de um modo tão simples como o dos outros mortais, mas tão sobrenaturalmente belo e espiritualmente imponente, como só um Deus. Ele está com uma veste de lã branca, de um branco leitoso como o da cor da lã fiada em casa, e o manto azul es-curo, jogado sobre as costas. O sol, filtrando seus raios por entre as fo-lhas do salgueiro, acende em seus cabelos centelhas de ouro, que mudam de lugar continuamente, à medida que mudam de lugar as folhinhas leves do salgueiro. Um raio do sol consegue chegar a acariciar-lhe a face esquerda, fazendo de um anel macio do seu cabelo um cacho que desce ao longo do pômulo uma meada de ouro em fios, que repete, com cor mais atenuada, a cor de sua barba macia, e não muito abundante, que cobre o queixo e a parte baixa do rosto. A pele é da cor do marfim velho e, à luz do sol, mostra o delicado bordado das veias das faces e acima das têmporas, uma atravessa, do nariz até os cabelos, a fronte, que é lisa e alta.
Eu acho que foi precisamente daquela veia que eu vi cair muito sangue, por causa de um espinho que a atravessava durante a Paixão… Sempre, cada vez que vejo a Jesus tão belo, bem arrumado em seus cuidados viris, eu me lembro de até que ponto o reduziram os maus tratos e os insultos dos homens…
484.5 Jesus come, e sorri para uns meninos que estão agarrados aos seus joelhos, deixando inclinar-se sua cabeça para eles, ou que o estão olhando comer, como se estivessem vendo, saiba-se lá o quê. Jesus, tendo chegado às frutas e ao mel, apanha um pouco disso para dar-lhes, levando à boca dos pequeninos os bagos de uva ou miolo de pão passado no mel, como se eles fossem uns filhotes no ninho.
Um menino — certamente elas lhe agradam, e ele espera ganhar delas — vem correndo pelo meio das pessoas, indo para um dos pomares, e voltando agora com os braços apertados sobre o pequeno peito, fazendo dele e dos braços um cestinho vivo, onde estão colocadas três romãs, de um tamanho e beleza maravilhosos, e as oferece com insistência a Jesus.
Jesus pega as frutas, parte duas delas em tantos pedaços, quantos são os seus pequenos amigos, e os distribui entre eles. Depois, tomando na mão a terceira, põe-se de pé, e começa a falar, tendo sobre a palma da mão esquerda a maravilhosa romã.
484.6 – A que poderei Eu comparar este mundo todo, em particular, a Palestina de tempos atrás e, no pensamento de Deus, unida em uma única nação, e depois dividida, por um erro e por um obstinado ódio entre os irmãos? A que compararei Israel, assim como ficou reduzido por sua vontade? Eu o compararei a esta romã. Na verdade, Eu vos digo que os desentendimentos que há entre os judeus e os samaritanos se repetem, em forma e medida diferentes, mas com uma única base, que é o ódio, por entre todas as nações do mundo, e às vezes entre províncias de uma mesma nação. Eles se dizem invencíveis, como se fossem umas coisas criadas pelo próprio Deus. Não. O Criador não fez tantos Adãos e tantas Evas, quantas são as raças levantadas umas contra as outras, como inimigas. Deus fez um só Adão e uma só Eva, e deles é que vieram todos os homens, espalhados depois para povoar a terra, como se formassem uma só casa, que cada vez mais se enriquece em número de quartos, à medida que os filhos vão crescendo, vão-se casando e procriando os netos para os seus pais. Por que, então, tanto ódio entre os homens, tantas barreiras, tantas incompreensões? Vós dissestes: “Sabemos ser unidos, sentindo-nos irmãos.” Mas não basta. Deveis amar também aqueles que não são samaritanos.
Olhai este fruto. Vós sabeis qual o sabor e qual a beleza dele. Fechado como é, ele já vos está prometendo o suco doce do seu interior. Quando é aberto, alegra também à vista, com as fileiras cheias de grãozinhos semelhantes a outros tantos rubis fechados em um escrínio. Mas, ai do incauto que a morder, sem antes ter tirado as separações fortemente amargas, que estão entre uma e outra família dos grãozinhos. Ela intoxicaria seus lábios e vísceras, e ele, repeliria a fruta, dizendo: “isto é veneno.” Igualmente as separações e os ódios entre um povo e outro, entre uma e outra tribo, transformam em “veneno” o que havia sido criado para ser doçura. São inúteis, não fazem, como nesta fruta, nada mais do que criar limites, que reduzem o espaço, e produzem compressão e dor. São amargos para quem lhes dá uma dentada, isto é, para quem morde o vizinho, ao qual não ama, para fazer-lhe uma ofensa e causar-lhe um aborrecimento. Dão-lhe uma amargura que envenena o espírito.
São indestrutíveis? Não. A boa vontade os desfaz, assim como a mão de um menino tira esses enchimentos amargos da doce fruta, que o Criador fez para delícia de seus filhos. A boa vontade tem como o primeiro entre todos o mesmo Único Senhor, que é Deus tanto dos judeus, como dos galileus, dos samaritanos, como dos bataneus. Ele vo-lo demonstrou, mandando-vos o Único Salvador, que vos está falando, e que passará derrubando as barreiras inúteis, destruindo o passado que vos dividiu, a fim de substituí-lo por um presente que vos irmana em seu nome. Vós todos, de aqui e de além dos limites, não precisais fazer outra coisa mais, mas ajudá-lo, e o ódio cairá, cairá esse aviltamento que produz o rancor, cairá o orgulho que suscita a injustiça.
O meu Mandamento é este: que os homens se amem, como irmãos que eles são. Amem-se como o Pai dos Cés os ama, como os ama o Filho do Homem que, pela natureza humana, que Ele assumiu, sente-se irmão dos homens, e que pela sua Paternidade, se sabe capaz de vencer o Mal, com todas as suas consequências. Vós dissestes: “Nossa lei é não trair. Então, como primeira coisa, não trair mais as vossas almas, privando-as do Céu. Amai-vos uns aos outros, amai-vos em Mim, e a paz virá aos espíritos dos homens, como foi prometido. Virá o Reino de Deus, que é Reino de Paz e de Amor, para todos aqueles que têm uma vontade constante de servir aos Senhor seu Deus.
484.7Agora, Eu vos deixo. A Luz de Deus ilumine os vossos corações… Vamos…
Ele se envolve no manto, põe a tiracolo o seu saco, e põe-se em primeiro lugar, a caminho, tendo aos seus lados, Pedro de um, e do outro aquele notável que falou no começo. Atrás dos apóstolos, só podia ser atrás, porque agrupados não poderiam ir pela estrada estreita, ao longo da torrente e atrás dos apóstolos vão também alguns jovens de Efraim…
1 está escrito, em Êxodo 22,20; 23,2-3.7-9; Deuteronômio 16,19; bênçãos, que estão em Deuteronômio 28,1-14; maldição, que está em Deuteronômio 27,24-25.
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