241. 241. Vocação da filha de Filipe.Chegada a Magdala e parábola da dracma perdida.
2 de agosto de 1945.
241.1A barca vai bordejando, de Cafarnaum até Magdala.
Maria de Magdala está, pela primeira vez, em sua postura de convertida: está sentada no fundo da barca, aos pés de Jesus que, por sua vez, está modestamente sentado em um dos bancos da própria barca. O rosto de Maria está hoje muito diferente do de ontem. Ainda não é aquele rosto radiante da Madalena, quando vai correndo ao encontro de Jesus, todas as vezes que Ele vai a Betânia, mas é já um rosto livre de temores e de tormentos, e seus olhos, que antes estavam aviltados por tudo o que antes havia de desavergonhado, agora estão sérios, mas seguros e, nessa sua honrada seriedade, brilha de vez em quando uma centelha de alegria, ao ouvir Jesus, quando fala com os seus apóstolos, ou com sua Mãe, ou com Marta.
Eles estão falando da bondade de Porfíria, tão simples e tão amorosa, referindo-se também à acolhida afetuosa de Salomé e das mulheres de Bartolomeu e de Filipe, e este mesmo diz:
– Se não fossem elas ainda tão jovens e a mãe que não quer saber delas pelas estradas, elas também te acompanhariam, Mestre.
– As almas delas me acompanham. Isso é também um amor santo… 241.2Filipe, escuta-me: A tua filha maior está para casar-se, não é verdade?
– Sim, Mestre. Bons esponsais e um bom esposo. Não é mesmo, Bartolomeu?
– É verdade. Eu o garanto, porque conheço a família. Não pude aceitar que fosse eu que houvesse de cuidar desse negócio, mas eu teria aceitado, se não tivesse sido chamado pelo Mestre e com toda a tranquilidade, para formar uma família santa.
– Mas a moça me pediu para não fazer nada disso.
– O noivo não lhe agrada? Ela está enganada. Mas a juventude está louca. Espero que ela mude de ideia. Não há motivo para rejeitar um noivo tão bom. A não ser que… Não, não pode ser –diz Filipe.
– A não ser o quê? Acaba de falar, Filipe –provoca-o Jesus.
– A não ser que esteja amando a outro. Mas isso não é possível! Ela não sai de casa e, mesmo em casa, ela vive muito retirada. Não é possível!
– Filipe, há amantes que penetram até nas casas mais fechadas; há os que sabem falar àquelas que eles amam, apesar de todas as barreiras e vigias; há os que derrubam todos os obstáculos de viuvez, de meninice, de estarem bem guardadas, ou… de outra coisa ainda e que pegam aquelas que eles querem. E há amantes que não podem ser recusados. Porque eles são prepotentes no que querem. Porque são sedutores, para vencerem todas as resistências, ainda que fosse a do demônio. E tua filha está amando um desses. E é o mais poderoso.
– Mas, quem é? Será um da corte de Herodes?
– Aquilo não é poder!
– Será um… um da casa do Procônsul, algum patrício romano? Eu não o permitirei, de jeito nenhum. O sangue puro de Israel não terá contato com um sangue impuro. Ainda que eu precisasse matar minha filha. 241.3Não sorrias, Mestre! Eu sofro!
– Porque és como um cavalo irrequieto. Estás vendo sombras onde só há luzes. Mas, fica tranquilo. Até o procônsul não passa de um servo e servos são os amigos dele e servo é até o César.
– Ora, tu estás brincando, Mestre! Tu só me quiseste fazer passar medo. Porque não há ninguém maior do que César, nem mais patrão do que ele.
– Aqui estou Eu, sou Eu, Filipe.
– Tu? Quererás Tu desposar minha filha?
– Não. Mas a alma dela. Eu sou o amante que penetro nas casas mais fechadas e nos corações ainda mais fechados, com sete e mais chaves. Sou Eu que sei falar, apesar de todas as barreiras e vigias. Sou Eu que derrubo todos os obstáculos, e apanho o que Eu quero apanhar, entre os puros e pecadores, entre as virgens e as viúvas, entre os que estão livres dos vícios e os que estão escravizados por eles. E a todos Eu dou uma única e nova alma, regenerada, bem-aventurada e eternamente jovem. São os meus esponsais. E ninguém pode recusar-se a dar-me minhas doces presas. Nem o pai, nem a mãe, nem os filhos e nem mesmo satanás. Seja o caso em que Eu fale à alma de uma moça, como é a tua filha ou de um pecador mergulhado no pecado e preso por satanás com sete correntes, a alma virá a Mim… E nada e ninguém me arrebata mais. Nem nenhuma riqueza ou poder, ou alegria do mundo é capaz de transmitir a alegria perfeita que é a daqueles que se casam com a minha Pobreza, com a minha Mortificação. Nus de todos os pobres bens, mas revestidos de todo Bem Celeste. Contentes com a serenidade de quem pertence a Deus, somente a Deus… E eles são os donos da terra e do Céu. Da terra, porque a dominam e do Céu, porque o conquistam.
– Mas, na nossa Lei nunca houve isso! –exclama Bartolomeu.
– Despoja-te do velho homem, Natanael. Quando Eu te vi pela primeira vez, Eu te saudei1, dizendo que eras o perfeito israelita, sem fraudes. Mas agora tu és de Cristo, não de Israel. Sê assim sem fraudes e sem ciladas. Reveste-te desta nova mentalidade. Senão, não serás capaz de compreender muitas das belezas da redenção, que Eu vim trazer a toda a humanidade.
Filipe intervém, dizendo:
– E minha filha, Tu dizes que foi chamada por Ti? E que fará ela agora? De fato, eu não a nego a Ti. Mas quero saber, também para poder ajudá-la naquilo para que tiver sido chamada…
– Para levar os lírios de um amor virginal no jardim de Cristo. Haverá muitas dessas nos séculos futuros! Muitas! Serão canteiros de incensos para contrabalançar as sentinas dos vícios. Serão almas que oram, para contrabalançar os blasfemadores e os ateus. É uma ajuda para todas as infelicidades humanas e uma alegria para Deus.
241.4Maria de Magdala abre a boca para fazer uma pergunta e a faz, enrubescendo ainda, mas já com mais franqueza do que nos outros dias:
– E nós, as ruínas, que Tu estás reerguendo, que é que vamos ser?
– O que são as irmãs virgens…
– Oh! Não pode ser! Nós andamos pisando em muita lama e… não pode ser.
– Maria, Maria! Jesus nunca perdoa pela metade. Ele te disse que te perdoou. E assim é. Tu, e todos aqueles, que como tu pecaram e que o meu amor perdoa e desposa, perfumareis, orareis, amareis, confortareis, tornadas agora cônscias do mal e preparadas para curá-lo onde ele estiver, sereis almas que aos olhos de Deus são mártires. E queridas, portanto, como as virgens.
– Mártires? De que modo, Mestre?!
– Contra vós mesmas, e pelas lembranças do passado, mártires por sede de amor e de expiação.
– Devo crer isso?
Madalena olha para todos os que estão na barca, pedindo uma confirmação para a sua esperança, que começa a acender-se.
– Pergunta a Simão. Eu falei2 de ti e de vós pecadores em geral, em uma noite estrelada, em teu jardim. E os teus irmãos todos te podem dizer se a minha palavra não cantou para todos os redimidos os prodígios da Misericórdia e da conversão.
– Falou-me disso, com sua voz de anjo, até o menino. Eu voltei com a alma tranquilizada por aquela lição dele. Ele me fez conhecer-te melhor ainda do que minha irmã, e de tal modo, que hoje eu me sentia mais forte para enfrentar Magdala. Agora que Tu me dizes isto, eu sinto crescer em mim a fortaleza. Eu dei escândalo ao mundo. Mas, eu te juro, meu Senhor, que agora o mundo, ao olhar para mim, chegará a compreender o que é o teu poder.
Jesus põe, por um momento, a mão sobre a cabeça dela, enquanto Maria Santíssima lhe sorri, como só Ela sabe fazer: com um sorriso de Paraíso.
241.5Aí já está Magdala, que se estende à beira do lago, com o sol surgindo em sua frente, com o monte Arbela às suas costas e que a protege dos ventos, o vale estreito, alcantilado e selvagem, do qual desemboca uma torrente no lago e que avança do lado do ocidente, com suas costas a pique, cheias de uma beleza fascinante e rústica.
– Mestre –grita João, da outra barca–, aqui está o vale do nosso retiro… –e o seu rosto brilha, como se por dentro ele tivesse o sol.
– É o nosso vale, sim. Tu o reconheceste bem.
– Não se pode deixar de lembrar dos lugares onde se conheceu a Deus3 –responde João.
– Então, eu vou lembrar-me sempre deste lago. Porque sobre ele é que Te conheci. Sabes, Marta, que eu vi o Mestre4, certa manhã?
– Sim. E por pouco todos não foram para o fundo, nós e vós. Mulher, podes acreditar também que os teus remadores não valiam nem um vintém –diz Pedro, que está fazendo a manobra para aproar.
– Não valiam nada nem os remadores, nem os que estavam com eles… Mas sempre foi aquele o primeiro encontro e por isso tem um grande valor. Depois, eu te vi sobre o monte, depois em Magdala, depois em Cafarnaum… Tantos encontros, quantas as correntes arrebentadas… Mas Cafarnaum foi o lugar mais belo. Foi lá que me libertaste…
241.6Descem para a terra, para onde já desceram os da outra barca. Eles entram na cidade.
A curiosidade simples ou… sem simplicidade, dos magdalenses deve ser como uma tortura para Madalena. Mas ela tudo suporta heroicamente, acompanhando o Mestre, que vai na frente, no meio de todos os seus apóstolos, enquanto que as três mulheres vão atrás deles. O murmúrio é forte. Não falta a ironia. Todos aqueles que, enquanto Maria era a senhora que mandava em Magdala, a respeitavam pela aparência, por temor das represálias, agora que eles a estão vendo e sabem que ela se afastou para sempre dos seus poderosos amigos, agora humilde e casta, eles tomam a liberdade de demonstrar-lhe o seu desprezo e de dirigir-lhe apelidos nada agradáveis.
Marta, que está sofrendo tanto quanto ela por isso, pergunta-lhe:
– Queres ir embora para casa?
– Não. Eu não deixo o Mestre. E a Ele, antes que a casa seja purificada de todos os vestígios do passado, não o convidarei para entrar nela.
– Mas, tu sofres, irmã.
– Eu fiz por merecê-lo.
É preciso aceitar o sofrimento: o suor que desce do rosto, e o rubor que o cobre até no pescoço não são devidos somente ao calor.
Atravessam toda Magdala, indo pelos quarteirões pobres, até chegarem à casa em que ficaram5 na outra vez. A mulher fica espantada, quando, ao levantar a cabeça do lavadouro para ver quem é que a está saudando, se encontra de frente com Jesus e a bem conhecida senhora de Magdala, não mais naquela sua pompa, não mais cheia de joias, mas com um véu leve de linho na cabeça, vestida de um roxo pervinca, com uma veste fechada à altura do pescoço, estreita e que se está vendo que não é dela, ainda que a tenham adaptado para parecer que o fosse, enrolada em uma pesada capa que, com aquele calor, deve estar sendo para ela um suplício.
– Permites-me parar em tua casa e falar daqui aos que me acompanham? –(Isto queria dizer “falar a toda Magdala”, porque a população em peso formou acompanhamento ao grupo dos apóstolos.)
– E, ainda me perguntas, Senhor? Mas a minha casa é tua.
E se dá ao trabalho de levar cadeiras e bancos às mulheres e aos apóstolos. Passando ela por perto de Madalena, faz-lhe uma inclinação, como uma escrava.
– Paz a ti, minha irmã, lhe responde ela.
E a surpresa da mulher chega a tal ponto, que ela deixa cair o pequeno banco, que estava em suas mãos. Mas ela não diz nada. Contudo, aquele ato me fez pensar que Maria antes devia ter tratado os seus súditos de um modo soberbo. E aquela mulher acaba de ficar mesmo assombrada, quando ouve Madalena perguntar-lhe como vão os meninos, onde eles estão, e se a pesca tem sido boa.
– Estão bem…Uns estão na escola e outros com minha mãe. A pesca está boa. Meu marido te levará os dízimos…
– Não é mais preciso. Usa-os com os teus meninos. Queres deixar-me ver o pequenino?
– Vem.
241.7As pessoas se aglomeram na rua. Jesus começa a falar:
– Uma mulher tinha dez dracmas em sua bolsa. Mas, tendo feito um movimento, a bolsa caiu-lhe do seio e se abriu, e as moedas saíram rodando pelo chão. Ela as recolheu, com a ajuda das vizinhas que estavam presentes e contou as moedas. Eram nove. Não puderam encontrar a décima. Visto que a tarde já vinha chegando, e começava a escurecer, a mulher acendeu a candeia, e a colocou no chão. Depois pegou uma vassoura e começou a varrer, com muita atenção para ver se a moeda havia rolado para longe do lugar onde caiu. Mas não havia meio de achar a dracma. Então, as amigas foram-se embora, já cansadas de tanto procurar. Aí a mulher teve a ideia de mover do lugar a caixa-banco, o armário e o pesado cofre. Tirou com cuidado as ânforas e jarros, que estavam colocados numa cavidade, ao pé da parede. Mas não se achava a dracma. Então, a mulher se pôs de gatinhas e foi procurar no monte do lixo varrido e ajuntado perto da porta da casa, para ver se a dracma teria rodado para fora da casa, indo misturar-se com as folhas rejeitadas das verduras. E lá, afinal, acabou achando a dracma, toda suja, quase coberta com o lixo, que caiu depois sobre ela.
A mulher, muito alegre, foi lavá-la, e a enxugou. Ela estava mais bonita agora, do que antes. E a mulher foi mostrá-la às vizinhas, que ela chamou de novo, em alta voz, e que se haviam retirado, depois de a terem ajudado nas primeiras buscas, dizendo: “Ei-la aqui! Estais vendo? Vos me estáveis aconselhando a não me cansar mais. Mas eu resisti, e encontrei a dracma, que eu tinha perdido. Alegrai-vos, pois, comigo, que ainda não tive a dor de perder nem um só dos meus tesouros.”
241.8Também o vosso Mestre, e com Ele os seus apóstolos, faz como a mulher da parábola. Ele sabe que um movimento pode fazer cair um tesouro. Cada alma é um tesouro e satanás, que é invejoso de Deus, provoca os maus movimentos para fazer cair as pobres almas. Há alguns que, ao caírem, param perto da bolsa, isto é, afastam-se pouco da Lei de Deus, que recolhe as almas na guarda dos mandamentos. E há os que vão parar mais longe, isto é, afastam-se mais ainda de Deus e de sua Lei. Enfim, há os que saem rodando até o lixo, até às sujeiras, à lama. E lá acabariam perecendo, ao serem queimados nos fogos eternos, assim como as imundícies costumam ser queimadas em lugares apropriados.
O Mestre sabe disso, e procura incansavelmente as moedas perdidas. Ele as procura em todos os lugares, com amor. Elas são os seus tesouros. Ele não se cansa, nem sente nojo de nada. Mas Ele as busca, rebusca, move as coisas de seus lugares, varre, até encontrar. E, uma vez encontrada, lava a alma encontrada com o seu perdão e chama os amigos, todo o Paraíso e todos os bons da terra, e lhes diz: “regozijai-vos comigo, porque encontrei o que se tinha perdido e está agora mais bonito do que antes, porque o meu perdão o tornou novo.”
Em verdade Eu vos digo que se faz muita festa no Céu, alegram-se os anjos de Deus e os bons da terra por um pecador que se converte. Em verdade, Eu vos digo que não há coisa mais bela do que as lágrimas do arrependimento. Em verdade Eu vos digo que só os demônios é que não sabem, não podem alegrar-se por esta conversão, que é um triunfo de Deus. E também vos digo que o modo como um homem acolhe a conversão de um pecador é a medida de sua bondade e de sua união com Deus.
A paz esteja convosco.
As pessoas entendem a lição, e olham para a Madalena, que foi sentar-se na porta com o pequenino nos braços, talvez para ter um modo de controlar-se. A multidão vai-se dispersando lentamente, permanecendo somente a dona da casa e sua mãe, rodeada pelos meninos. Falta Benjamim, que ainda está na escola.
1 eu te saudei, em 50.6.
2 falei…, in 136.2.
3 onde se conheceu a Deus, em 165.3/4.
4 eu vi o Mestre, em 98.2/3.
5 em que ficaram, em 184.1.
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