200. 200. Aglaé em colóquio com o Salvador.


26 de junho de1945.

200.1 Jesus torna a entrar sozinho em casa de Zelotes. A tarde já está chegando plácida e serena, depois de um dia de muito sol. Jesus aparece à porta da cozinha, saúda, e depois sobe para o quarto superior, já preparado para a ceia, a fim de lá meditar. Não parece estar muito alegre o Senhor. Ele está suspirando repetidas vezes, e andando para lá e para cá, lançando, de vez em quando, um olhar por sobre a campina vizinha, que pode ser vista através das muitas portas desta vasta sala, que tem a forma de um cubo, colocado sobre o térreo. Ele sai, também para passear sobre o terraço, fazendo a volta ao redor da casa, e para no lado detrás dela, a fim de olhar para João de Endor que, de modo cortês, está tirando água de um poço, para oferecê-la à atarefada Salomé. Jesus olha, sacode a cabeça e suspira.

A força do seu olhar atrai João, que se volta para ver o que há, e pergunta:

– Mestre, estás precisando de mim?

– Não. Eu somente estava olhando para ti.

– João é bom. Ele me ajuda –diz Salomé.

– Também por essa ajuda, Deus lhe darà recompensa.

Jesus, depois destas palavras, entra de novo no quarto e se assenta

200.2 Está tão absorto, que nem percebe o barulho das muitas vozes e do tropel dos muitos passos pelo corredor da entrada, e depois, de dois passos mais leves de alguém que sobe pela escadinha externa e que se aproxima do salão. Só quando Maria o chama é que Ele levanta a cabeça.

– Meu Filho, chegou a Susana de Jerusalém com a família, e logo Aglaé me acompanhou. Queres atendê-la, enquanto estamos sós?

– Sim, mãe. Vou atendê-la já. E que ninguém suba, enquanto não terminar tudo. Espero ter acabado, antes da volta dos outros. Mas Eu te peço que cuides para que não haja curiosidades indiscretas… em ninguém… e especialmente em Judas de Simão.

– Estarei atenta, e cuidarei disso…

Maria sai, para voltar pouco depois, segurando Aglaé pela mão, não mais embrulhada em seu manto cinzento e com o seu véu caído para a frente, não mais com suas sandálias altas e cheias de fivelas e fitas, que ela antes usava, mas totalmente transformada como mulher hebreia, pelas sandálias planas e baixas, muito simples como as de Maria, com a veste de um azul escuro, sobre a qual está posta o manto, e com um véu branco, colocado como fazem as mulheres hebreias do povo, isto é, posto simplesmente na cabeça, com uma parte jogada para as costas, de modo que o rosto fica coberto por ele, mas não completamente. O hábito comum, como é usado por muitíssimas mulheres, e estando ela no meio de um grupo de galileus, tudo isso tornava possível que Aglaé deixasse de ser reconhecida.

Ela entra de cabeça inclinada, enrubescendo a cada passo que dá, e acho que, se Maria não a fosse puxando docemente para Jesus, ela se teria ajoelhado na soleira.

– Aqui está, meu Filho, aquela que vinha te procurando há tanto tempo. Escuta-a –diz Maria, ao chegar perto de Jesus, e depois se retira, abaixando os toldos sobre as portas escancaradas e fechando a que estava mais perto da escadinha.

200.3 Aglaé se separa da sacola que trazia nas costas e, em seguida se ajoelha aos pés de Jesus, em meio a uma grande explosão de choro. Ela se estende no chão, chorando, com a cabeça apoiada nos braços cruzados sobre a terra.

– Não chores assim. Já não é mais tempo disso. Tu devias chorar, quando estavas com ódio de Deus. Mas não agora que o amas e por Ele és amada.

Mas Aglaé continua a chorar…

– Não acreditas que é assim?

Sua voz está procurando um caminho, por entre os soluços:

– Eu o amo, é verdade, como sei e como posso. Mas, por mais que eu saiba e creia que Deus é Bondade, não ouso esperar de obter o seu amor. Eu pequei demais… Talvez eu o terei um dia… Mas preciso chorar muito ainda… Por enquanto, estou sozinha no meu amor. Estou sozinha… mas já não é a solidão desesperada dos anos passados. É uma solidão cheia do desejo de Deus e, por isso nem é mais desesperada… mas é tão triste, tão triste…

– Aglaé, como tu ainda conheces mal o Senhor! Este desejo dele te serve de prova de que Deus corresponde ao teu amor, de que Ele é teu amigo, que te chama e te convida, que te quer. Deus é incapaz de permanecer inerte, diante do desejo de uma criatura sua, porque aquele desejo foi inspirado àquele coração por Ele, o Criador e Senhor de toda criatura. Ele o inspirou, porque amou com um amor privilegiado a alma que agora o deseja. O desejo de Deus vem sempre antes do desejo da criatura, porque Ele é Perfeitíssimo e, por isso, o seu amor é bem mais habilidoso e abrasado do que o amor da criatura.

– Mas, como Deus pode amar-me, se eu sou lama?

– Não fiques procurando entender isso com a tua inteligência. É um abismo de misericórdia, incompreensível para a mente humana. Mas onde a inteligência do homem não pode compreender, compreende a inteligência do amor, o amor do espírito. Este compreende e penetra firmemente no mistério que é Deus e no mistério dos relacionamentos da alma com Deus. Entra, Eu te digo. Entra, porque Deus o quer.

– Oh! não, Senhor! Tudo o que me disseste1 em Hebron se realizou.

Tu me salvaste, como o teu Nome diz. Tu procuraste a mim pobre alma perdida. Tu deste a vida a esta alma que eu trazia morta em mim. Tu me disseste que, se eu tivesse te procurado teria te encontrado. E foi verdade. Tu me disseste que estás por toda parte, onde o homem está precisando de médico e de remédio. E é verdade tudo, tudo o que disseste à pobre Aglaé, desde aquelas palavras daquela manhã de junho, até as outras ditas em Águas Belas…

– Então, deves crer também nestas.

– Sim, eu creio, eu creio. Mas, Tu me dirás: “Eu te perdôo!”

– Eu te perdôo em nome de Deus e de Jesus.

– Obrigada… 200.4Mas agora… Agora que devo fazer? Dize-me, Salvador meu, que é que eu devo fazer para ter a vida eterna? Os homens se corrompem só ao olhar para mim… Eu não posso viver com esse calafrio contínuo de pensar que vou ser descoberta e tentada… Nesta viagem, eu vinha tremendo, diante dos olhares dos homens… Eu não quero mais pecar, nem fazer pecar. Dize-me que caminho devo seguir. Seja qual for, eu o seguirei. Tu estás vendo que eu sou forte até nos sofrimentos. E, mesmo que por grandes sofrimentos eu encontrasse a morte, não tenho medo dela. Eu até a chamarei de “minha amiga”, porque me tirará dos perigos. Fala, meu Salvador.

– Vai para um lugar deserto.

– Onde, Senhor?

– Onde quiseres. Aonde te levar o teu espírito.

– Será capaz de fazer isso o meu espírito, só agora formado?

– Sim, porque Deus vai te conduzir.

– E, quem me falará ainda de Deus?

– A tua alma ressuscitada, por enquanto.

– Não te verei nunca mais?

– Sobre a terra, nunca mais. Mas, daqui a pouco, terei te redimido completamente e, então, virei ao teu espírito a fim de preparar-te para subires a Deus.

– Como vai acontecer a minha completa redenção, se eu não vou te ver mais? Como a darás?

– Morrendo por todos os pecadores.

– Oh! Não! Tu, morreres!

– Para dar-vos a vida, devo dar-me a morte. É para isso que Eu vim em forma humana. Não chores… Tu te encontrarás comigo logo, onde Eu estiver, depois do meu sacrifício e do teu.

– Meu Senhor! Também eu haverei de morrer por Ti?

– Sim. Mas de outro modo. Tua carne irá morrendo, hora por hora, e pelo desejo da tua vontade. Há quase uma ano que ela já vem morrendo. Quando estiver completamente morta, eu te chamarei.

– Terei eu a força de destruir minha carne culpada?

– Na solidão em que vais estar e onde satanás te assaltará com a violência do seu ódio, quanto mais tu fores sendo dos Céus, mas encontrarás um meu apóstolo, que foi pecador e depois foi redimido.

– Esse, então, não será aquele bendito, que me falava de Ti? Ele é muito honesto para ter sido pecador.

– Não é aquele. É um outro. Ele te encontrará na hora certa. E te dirá tudo o que ainda não podes saber. Vai em paz. A bênção de Deus esteja sobre ti.

200.5 Aglaé, que todo aquele tempo tinha ficado de joelhos, curva-se para beijar os pés do Senhor. Não tem coragem para mais do que isso. Depois, agarra sua sacola, vira-a de boca para baixo. E dela caem vestes simples, um saquinho que retine e uma ânfora de um fino alabastro róseo.

Aglaé recoloca as vestes, apanha o saquinho e diz:

– Isto é para teus pobres. É o resto das minhas jóias. Reservei somente algumas moedas para as despesas durante a viagem… mesmo que Tu não me tivesses dito, eu teria ido para algum lugar afastado. E isto é para Ti. É menos suave que o perfume da tua santidade. Mas é tudo o que pode dar de melhor a terra. E eu me servia disto para fazer o pior… Aí está. Deus me conceda exalar perfume, pelo menos como este, na tua presença, no Céu –e destampa a ânfora, tirando-lhe a rolha preciosa e derramando o conteúdo no chão.

Um perfume fino de rosas se levanta, em ondas, dos ladrilhos, que ficaram impregnados com aquela essência de alto preço.

Aglaé recolhe a ânfora vazia.

– Para lembrança desta hora –diz ela, e depois se curva para tornar a beijar os pés de Jesus, levanta-se e vai saindo dali, andando para trás. Acaba de sair e fecha a porta.

Ouvem-se os seus passos, que vão-se afastando em direção da escada e sua voz que troca algumas palavras com Maria. Depois o rumor das sandálias que vão descendo pela escada e, por fim, nada mais. De Aglaé só resta o saquinho aos pés de Jesus e o aroma penetrante, que se espalhou por todo o quarto.

Jesus se levanta… apanha o saquinho e o põe no peito, vai até uma abertura virada para a estrada e sorri, ao ver a mulher que vai indo, sozinha, no seu manto de hebreia, a caminho de Belém. Ele faz um gesto de bênção, depois vai ao terraço e chama:

– Mamãe.

Maria sobe prontamente pela escada.

– Tu a fizeste feliz, meu Filho. Ela lá se foi, cheia de fortaleza e de paz.

– Sim, mãe. Quando André voltar, manda-o a Mim, por primeiro.

200.6 O tempo passa… Ouvem-se as vozes dos apóstolos, que estão de volta… André chega correndo:

– Mestre, precisas de mim?

– Sim. Vem cá. Ninguém precisará saber disso, mas a ti é justiça que se o diga. André, obrigado em nome de Deus e de uma alma.

– Obrigado? Por quê?

– Não estás sentindo este perfume? É a lembrança da Mulher Velada. Ela veio. Está salva.

André fica vermelho como um morango, cai de joelhos e não acha palavras… Por fim, ele diz:

– Agora, estou contente. Bendito seja o Senhor!

– Sim. Levanta-te. Não digas aos outros que ela veio.

– Guardarei silêncio, Senhor.

– Agora vai. Escuta: está aí ainda Judas de Simão?

– Sim, ele quis vir conosco… contando… muitas mentiras. Por que é que ele faz assim, Senhor?

– Porque é um jovem viciado. Dize-me a verdade: vós brigastes com ele?

– Não. O meu irmão se sente feliz demais com o seu menino, para ter vontade de brigar. E os outros… Tu sabes… são mais prudentes. Com certeza, em nossos corações ficamos muito aborrecidos. Mas depois da ceia ele vai embora… Outros amigos… diz ele. Oh! e despreza as meretrizes!…

– Sê bom, André. Tu também deves estar feliz esta tarde…

– Sim, Mestre. Eu também tenho a minha invisível, mas doce paternidade. Eu já me vou.

200.7 Passa mais algum tempo, e depois sobem em grupo os apóstolos com o menino e João de Endor. Acompanham-nos as mulheres, com os diversos pratos e as luzes. Por último, vem Lázaro com Simão. Logo que entram na sala, exclamam:

– Ah! Era daqui que saía! –e farejam o ar saturado de um perfume de rosas, saturado, por mais escancaradas que estejam as portas–. Mas, quem foi que perfumou assim esta sala? Terá sido Marta? –perguntam muitos.

– Minha irmã não saiu de casa hoje, depois do jantar, responde Lázaro.

– Quem terá sido, então? Algum sátrapa assírio? –caçoa Pedro.

– O amor de uma redimida –diz Jesus, sério.

– Ela podiaela ter poupado esta inútil exibição de redenção e dar tudo o que gastou aos pobres. Eles são tantos e sabem que nós lhes damos. Eu não tenho mais nem um vintém, diz, irritado, Iscariotes. E ainda temos que comprar o cordeiro, alugar a sala para o Cenáculo e…

– Mas eu vos ofereci tudo!… –diz Lázaro.

– Mas não é justo. O rito perde a beleza. A Lei diz: “Tomarás o cordeiro para ti e tua casa.” Não diz: “Aceitarás o cordeiro.”

Bartolomeu se vira, de repente, abre a boca, mas logo a fecha. Pedro fica vermelho, pelo esforço feito para calar-se. Mas Zelotes, que está em sua casa, acha que pode falar, e diz:

– Essas são sutilezas rabínicas… Eu te peço que deixes de lado isso tudo e, em compensação, conserves o respeito para com o meu amigo Lázaro.

– Muito bem, Simão! –Pedro — se não fala — é capaz de explodir–. Muito bem. Parece-me também que aqui se esqueçe um pouco demais de que só o Mestre tem o direito de ensinar…

Pedro diz aquelas palavras “que aqui se esquece”, com um esforço verdadeiramente heróico, para não dizer: “que Judas se esquece”.

– É verdade… mas estou nervoso. Desculpa, Mestre.

– Sim. Eu também te respondo. A gratidão é uma grande virtude. Eu sou muito grato a Lázaro. Assim como aquela redimida foi grata a Mim. Eu espalho sobre Lázaro o perfume da minha bênção, também por aqueles, entre os meus discípulos, que não sabem fazer isso. Eu, chefe de todos vós. A mulher derramou a meus pés o perfume de sua alegria de ser salva. Ela reconheceu o Rei, e veio ao Rei, antes de muitos outros, sobre os quais o Rei tem feito a efusão de muito mais amor do que sobre ela. Deixai que ela faça o que fez, e não a critiqueis. Ela não poderá estar presente à minha aclamação, nem à minha unção. A cruz dela já está em suas costas. Pedro, tu disseste que parecia ter passado por aqui algum sátrapa assírio. Em verdade, Eu te digo que, nem mesmo o incenso dos Magos, tão puro e precioso, era mais suave do que este. A essência deste foi dissolvida no pranto, e por isso é que ela é tão penetrante: a humildade sustém o amor e o torna perfeito. Vamos sentar-nos à mesa, amigos…

E, com o oferecimento da refeição, cessa a visão.



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