204. 204. A fé e a alma são explicadasaos pagãos com a parábola dos templos.
29 de junho de 1945.
204.1Na paz do sábado, Jesus está descansando perto de um campo de linho todo em flor, pertencente a Lázaro. Ele está mais do que perto, eu diria que Ele está submerso no meio do linho e, sentado à beira de um sulco, absorto em seus pensamentos. Junto dele só se vê alguma silenciosa borboleta, ou alguma lagartixa rastejando e que olha para Ele com seus olhinhos de azeviche, levantando a cabecinha triangular para cima da garganta clara e palpitante. E nada mais. Nesta hora já adiantada do meio-dia, cala-se até o menor sopro de vento por entre as altas hastes.
De longe, talvez lá do jardim de Lázaro, está fazendo-se ouvir o canto de uma mulher e, junto com ele, os gritos festivos de um menino, que está brincando com algum outro. Depois, uma, duas, três vozes exclamam: “Mestre!” “Jesus!”
Jesus volta a si e se levanta. E, por mais que o linho, em seu completo crescimento, já esteja bem alto, Jesus emerge bem por cima deste mar verde e azul.
– Lá está Ele, João –grita Zelotes.
E João, por sua vez, chama:
– Mãe, o Mestre está aqui, no meio do linho.
E, enquanto Jesus vai-se aproximando do caminho que vai para as casas, eis que Maria chega perto dele.
– Que queres, mãe?
– Meu filho, chegaram pagãos com umas mulheres. Dizem que ficaram sabendo por Joana que estavas aqui. Dizem também que Te ficaram esperando durante todos estes dias, perto da fortaleza Antônia…
– Ah! Compreendi! Eu já vou. Onde estão eles?
– Na casa de Lázaro, em seu jardim. Ele é amado pelos romanos e não tem repugnância por eles, como nós temos. Ele os fez entrar, com os seus carros, no amplo jardim, para não escandalizar a ninguém.
– Está bem, mãe. 204.2São soldados e damas romanas. Eu sei.
– E que quererão de Ti?
– Aquilo que muitos de Israel não querem: Luz.
– Mas, que pensarão sobre como és e quem és? Deus, talvez?
– Deus, do modo deles, sim. Para eles é fácil acolher a ideia de uma encarnação de um deus em carne mortal, mais do que para nós.
– Então, conseguiram crer na tua fé…
– Ainda não, minha mãe. Primeiro é preciso destruir a deles. Por enquanto, Eu sou para eles um sábio, um filósofo, como eles dizem. Mas, ou por este desejo veemente de conhecer doutrinas filosóficas, ou porque essa tendência deles para crer que é possível a encarnação de um deus, Eu sou muito ajudado a levá-los à verdadeira Fé. Podes crer, eles são mais ingênuos, em seus pensamentos, do que muitos em Israel.
– Mas, serão eles sinceros? Dizem que o Batista…
– Não. Se dependesse deles, João estaria livre e em segurança. Quem não é rebelde, é deixado sossegado. Antes, te digo, para eles o ser profeta — eles os chamam de filósofos, porque toda elevação da sabedoria para deles é sempre filosofia — é uma garantia para serem respeitados. Não fiques preocupada, minha mãe. Dali não me virá mal…
– Mas os fariseus… se souberem, que irão dizer, até de Lázaro? Tu… és Tu, e deves levar a palavra ao mundo. Mas Lázaro!… Já é tão ofendido por eles…
– Mas ele é intocável. Eles sabem que ele é protegido por Roma.
– Eu Te deixo, meu Filho. Aí vem Maximino, para levar-te aos pagãos –e Maria, que havia caminhado ao lado de Jesus durante todo aquele tempo, se retira ligeira, indo para a casa de Zelotes, enquanto Jesus entra por um portãozinho de ferro, aberto no muro do jardim, em uma parte mais afastada dele, lá onde o jardim se transforma em pomar, isto é, perto do lugar onde, mais tarde, haveria de ser sepultado Lázaro.
Lá está também Lázaro e ninguém mais:
– Mestre, tomei a liberdade de hospedá-los…
– Fizeste bem. Onde estão?
– Lá naquela sombra de buxos e loureiros. Como vês, estão afastados pelo menos uns quinhentos metros da casa.
– Está bem, está bem. 204.3Que a luz venha a todos vós!
– Salve, Mestre! –assim o saúda Quintiliano, vestido como civil.
As mulheres se levantam para saudá-lo. São Plautina, Valéria e Lídia, e mais uma, já idosa, que não sei quem seja, se é da mesma condição, ou de condição inferior. Todas estão vestidas de modo muito simples e nada as distingue.
– Nós quisemos ouvir-te. Tu não vieste mais. Eu estava… de guarda à tua chegada. Mas não consegui Te ver.
– Eu também não vi mais um soldado, que me tratou amigavelmente na Porta dos Peixes. Chamava-se Alexandre…
– Alexandre? Não tenho certeza se é aquele. Mas sei que, tempos atrás, tivemos que remover, para acalmar os judeus, um soldado culpado de… ter falado contigo. Agora ele está em Antioquia. Mas talvez volte. Puxa! Como são aborrecidos os… os que querem dar ordens, logo agora que nos estão submetidos! É preciso, então, agir com muita habilidade, antes que as coisas piorem… Eles nos tornam a vida difícil, podes crer… Mas Tu és bom e sábio. Vais falar para nós? Talvez daqui a pouco eu tenha que deixar a Palestina. Gostaria de ter alguma coisa de Ti como lembrança.
– Eu vos falarei. Nunca decepcionei. Que quereis saber?
Quintiliano olha para as mulheres, como quem pergunta…
– O que quiseres, Mestre –diz Valéria.
204.4 Plautina se levanta de novo, e diz:
– Estive pensando muito… teria que conhecer tantas coisas… tudo, para julgar. Mas, se me for permitido fazer uma pergunta, eu gostaria de saber como é que se constrói uma fé, a tua, por exemplo, sobre um terreno que Tu disseste que está destituído da verdadeira fé. Disseste que as nossas crenças são vazias. Então, ficamos sem nada. Como chegar a ter fé?
– Vou tomar como exemplo uma coisa que vós tendes. Os templos. Os vossos edifícios sagrados, verdadeiramente belos e cuja única imperfeição é a de serem dedicados ao nada, eles vos podem ensinar como é que se pode chegar a ter uma fé e onde colocar a fé. Vede bem. Onde são eles construídos? Que lugar é possivelmente escolhido para eles? Como são construídos? Geralmente estão em áreas espaçosas, livres e elevadas. E, se não for espaçosa e livre, então se faz que fique sendo, faz-se a demolição de tudo o que a estorva ou que lhe cria obstáculos. Se o lugar não é elevado, então se faz que fique mais alto, construindo pedestais mais altos que os de costume, de três degraus, que são usados para os templos já colocados sobre alguma elevação natural. Fechados em um recinto sagrado, quase sempre formado por colunatas e pórticos, dentro dos quais estão encerradas as árvores consagradas aos deuses, fontes e altares, as estátuas e estelas são precedidas somente pelo propileu, depois do qual está o altar, onde são feitas as preces ao nume. Diante deste, há um lugar para o sacrifício, porque o sacrifício vem antes da oração. Muitas vezes, e especialmente nos mais grandiosos, o peristilo os circunda de uma grinalda de mármores preciosos. Na parte interna, há um vestíbulo anterior, externo ou interno em relação ao peristilo, a cela do nume e o vestíbulo posterior. Mármores, estátuas, frontões, acrotérios e tímpanos, todos limpos, preciosos, decorados, que fazem do templo um edifício muito nobre até para as vistas mais incultas. Não é assim?
– Assim é, Mestre. Tu os viste e estudaste muito bem –confirma e elogia Plautina.
– Mas, pelo que consta, nunca saíste da Palestina –exclama Quintiliano.
– Não saí nunca para ir a Roma nem a Atenas. Mas não ignoro a arquitetura da Grécia nem a de Roma, nem o gênio do homem que decorou o Partenon. Eu estava presente, porque Eu estou em toda parte, onde há vida e manifestação de vida. Lá, onde um sábio estiver pensando, um escultor esculpindo, um poeta compondo, uma mãe cantando sobre um berço, um homem se cansando sobre os sulcos, um médico lutando contra as doenças, um vivente respirando, um animal vivendo, uma árvore vegetando, lá estou Eu junto com Aquele do qual Eu venho. No estrondo do terremoto ou no fragor dos raios, na luz das estrelas ou no fluxo das marés, no vôo da águia ou no zumbido do mosquito, Eu estou com o Criador Altíssimo.
– De forma que… Tu… Tu sabes tudo? E o pensamento e as obras dos homens? –pergunta Quintiliano.
– Eu sei.
Os romanos olham um para o outro, assombrados.
204.5 Um longo silêncio, e depois, timidamente, Valéria faz este pedido:
– Desenvolve o teu pensamento, Mestre, para que saibamos o que fazer.
– Sim. A fé se constrói, como se constróem os templos, dos quais tanto vos orgulhais. Faz-se espaço para o templo e liberdade ao redor dele. E se procura uma elevação para ele.
– Mas, onde é que está o templo, para que nele se coloque a fé, esta verdadeira deidade? –pergunta Plautina.
– Não é uma deidade a fé, Plautina. É uma virtude. Não existem deidades na verdadeira fé. Mas só há um único e verdadeiro Deus.
– Então, Ele fica lá em cima sozinho no seu Olimpo? E que é que Ele faz, se está sozinho?
– Ele se basta a Si mesmo, e se ocupa com todas as coisas que existem na criação. Eu te disse antes: até no zumbido do mosquito Deus está presente. Não duvides, Ele não se aborrece. Ele não é um pobre homem, dono de um imenso império, mas que se sente odiado e no qual vive tremendo. Ele é o Amor, e vive amando. Sua vida é um contínuo Amor. Ele se basta a Si mesmo, porque é infinito e poderosíssimo, é a Perfeição. Mas, tantas são as coisas criadas que vivem por sua contínua vontade, que Ele não tem tempo para aborrecer-se. O aborrecimento é o fruto do ócio e do vício. No Céu do verdadeiro Deus não há ócio, nem vício. Mas, dentro de pouco tempo, Ele terá, além dos Anjos, que agora o servem, um povo de justos, que se alegram nele e esse povo sempre se irá tornando mais numeroso, com os que crerem no verdadeiro Deus, nos tempos futuros.
– Os Anjos seriam os gênios? –pergunta Lídia.
– Não. São seres espirituais, como é Deus que os criou.
– E os gênios, então, que é que são?
– Do modo que vós os imaginais, são mentira. Eles não existem, do modo que os imaginais. Mas, por essa necessidade instintiva do homem de procurar a verdade, — e isto por um estímulo da alma, que está viva e presente até nos pagãos e que neles está sofrendo, porque está decepcionada em seus desejos, porque está esfomeada em sua saudade do Deus Verdadeiro, de quem só ela se recorda, no corpo em que ela mora e que é guiado por uma mente pagã, — vós também percebestes que o homem não é somente carne, mas que ao seu corpo perecível está unida alguma coisa imortal. Também o perceberam as cidades e as nações. Por isso é que credes, e sentis a necessidade de crer nos “gênios.” E dais a vós mesmos um gênio individual, o da família, o da cidade, o das nações. Vós tendes o “gênio de Roma.” Tendes o “gênio do imperador.” E os adorais como a divindades menores. Entrai na verdadeira fé. Tereis o conhecimento e a amizade do vosso anjo, ao qual deveis veneração, mas não adoração. Só Deus deve ser adorado.
204.6 – Tu disseste: “Estímulo da alma que está viva e presente, até nos pagãos, e sofrendo neles, porque decepcionada.” Mas a alma, de quem vem? –pergunta Públio Quintiliano.
– Vem de Deus. Ele é o Criador.
– Mas, não nascemos nós da mulher que se uniu a um homem? Também os nossos deuses foram gerados assim.
– Os vossos deuses não existem. Eles são os fantasmas produzidos pelo vosso pensamento, que sente a necessidade de crer. Porque esta necessidade é mais imperiosa do que a de respirar. Até mesmo quem diz que não crê, ainda crê. Em alguma coisa ele crê. O simples fato de dizer: “Eu não creio em Deus” pressupõe alguma outra fé. Em si mesmo, talvez, em sua própria mente soberba. Mas, crer, se crê sempre. É como o pensamento. Se vós dizeis: “Eu não quero pensar”, ou então: “Eu não creio em Deus”, só por estas duas frases que dizeis, já estais mostrando que pensais que não quereis crer n’Aquele que pensais que existe, e no qual não quereis pensar. Quanto ao homem, para serdes exatos em exprimir o conceito, deveis dizer assim: “O homem é gerado, como todos os animais, pela união entre macho e fêmea. Mas a alma, isto é, aquela coisa que faz a diferença entre o animal-homem e o animal bruto, essa vem de Deus. Ele a cria, cada vez que um homem é gerado, ou melhor, é concebido em um seio, e a une a esta carne que, se assim não fosse, seria simplesmente a carne de um animal.”
– E nós a temos? Nós, pagãos? Pelo que dizem os teus conterrâneos, não pareceria… –diz, irônico, Quintiliano.
– Todos os nascidos de mulher a têm.
– Mas, Tu disseste que o pecado a mata. Como pode, então, estar ela viva em nós pecadores? –pergunta Plautina.
– Vós não pecais contra a fé, pois credes que estais na Verdade. Quando conhecerdes a Verdade, se persistirdes no erro, aí estareis pecando. Igualmente, muitas coisas que para os israelitas são pecado para vós não são. Porque nenhuma lei divina vo-lo proíbe. O pecado é quando alguém, conscientemente, se rebela contra a ordem dada por Deus e diz: “Sei que o que faço é mal. Mas eu quero fazê-lo assim mesmo.” Deus é justo. Ele não pode punir a quem faz o mal, pensando que está fazendo o bem. Ele castiga a quem, tendo tido modo de conhecer o Bem e o Mal, escolhe este último, e nele persiste.
– Então, em nós a alma está viva e presente?
– Sim.
– Ela sofre? Pensas mesmo que ela se lembra de Deus? Nós não nos lembramos do útero que nos trouxe. Nem poderíamos dizer como ele era por dentro. A alma, se eu entendi bem, é espiritualmente gerada por Deus. Poderá ela recordar-se disso, se o corpo não se lembra do longo tempo em que esteve no útero?
– A alma não é bruta, Plautina. O feto, sim. Tão é verdade que a alma é dada quando o feto já é formado1. E sofre, porque tem desejo de Deus, o Verdadeiro Deus, do qual ela vem, e tem fome de Deus. Aí está porque é que ela estimula o corpo entorpecido a procurar aproximar-se de Deus.
204.7 – Então, nós temos uma alma, como a têm aqueles que vós chamais os “justos” do vosso povo? E é igual mesmo à deles?
– Não, Plautina. Conforme o sentido que estás querendo dizer, ela muda. Se queres falar quanto à origem e natureza de nossas almas, elas são em tudo iguais às de nossos santos. Mas, se queres referir-te à formação, então Eu te digo que aí elas são diferentes. Se queres referir-te à perfeição alcançada antes da morte, então a diferença pode ser absoluta. Mas isso não acontece só convosco, que sois pagãos. Também um filho do nosso povo pode ser absolutamente diferente de um santo, na vida futura. A alma passa por três fases. A primeira é a de sua criação. A segunda é a da recriação. A terceira, da perfeição. A primeira é comum a todos os homens. A segunda é própria dos justos que, com sua vontade, levam a alma a um renascimento ainda mais completo, unindo suas boas ações à bondade da obra de Deus, e tornam por isso a alma já espiritualmente mais perfeita do que a primeira, formando, entre a primeira e a terceira um elo de conjunção. A terceira é própria dos bem-aventurados, ou santos, se assim vos agrada dizer, os quais passaram milhares e milhares de graus acima da alma inicial deles, adaptada ao homem, e dela fizeram um ser capaz de repousar em Deus.
204.8 – Como é que podemos dar espaço, liberdade e elevação para a alma?
– Destruindo as coisas inúteis que tendes no vosso eu. Livrando-o de todas as ideia s erradas e, com os detritos dessas demolições, fazer uma elevação para o templo soberano. A alma vai sendo levada cada vez mais para o alto, pelos três degraus.
Oh! Vós romanos gostais dos símbolos. Olhai agora os três degraus, à luz do símbolo. Eles podem dizer-vos os seus nomes: penitência, paciência, perseverança. Ou então: humildade, pureza, justiça. Ou ainda: sabedoria, generosidade e misericórdia. Ou enfim o esplendido trinômio: fé, esperança, caridade. Olhai ainda o símbolo da cinta que, adornada e robusta, cinge a área do templo. É preciso saber rodear a alma, rainha do corpo, templo do espírito eterno, com uma barreira que a defenda, sem, no entanto, impedir-lhe os raios da luz, nem oprimi-la com a vista de sujeira. Uma cinta segura e lavrada, livre do desejo do amor ao que é inferior: a carne e o sangue, e voltada para o que é superior: o espírito. Lavra-a com a vontade. Apara-lhe os cantos, cuida das rachaduras, tira as manchas, reforça os veios fracos do mármore de nosso eu, a fim de que ele seja perfeito, ao redor da alma. E, ao mesmo tempo, da cinta colocada como defesa do templo, faze um misericordioso refúgio para os mais infelizes, que não conhecem o que é a caridade. Os pórticos são a efusão do amor, da piedade, do desejo de que os outros venham a Deus, semelhantes a braços amorosos, que servem de véu para o berço de um órfão. E, para lá da cinta, as plantas mais belas e mais cheirosas, homenagem ao Criador. Semeai sobre o terreno, que antes estava nu, e depois, cultivai as plantas, que são as virtudes de todos os nomes. A segunda cinta, viva e florida, ao redor do sacrário. E, entre as plantas, entre as virtudes, estão as fontes, outro amor, outra purificação, antes de aproximar-se do propileu, perto do qual, e antes de subir ao altar, deve-se fazer o sacrifício da carnalidade, um esvaziar-se-se em sangue das luxúrias. E depois ir além, passar ao altar, para aí colocar a oferenda, e depois aproximar-se da cela onde está Deus, superando o vestíbulo. E a cela o que será? Uma abundância de riquezas espirituais, porque nunca nada é demais para fazer cornijas para Deus. Entendestes? –perguntastes-me como se constrói a fé. E Eu vos disse: “Segundo o método pelo qual se levantam os templos.” Vedes que é verdade. 204.9Tendes ainda alguma coisa a dizer-me?
– Não, Mestre. Eu acho que Flávia escreveu as coisas que disseste. Cláudia as quer saber. Não as escreveste?
– Exatamente –diz a mulher, passando-lhe as tabuinhas enceradas.
– Está gravado. Teremos tempo para relê-las –diz Plautina.
– É cera. Apaga-se. Escrevei-as em vossos corações. Não se apagarão mais.
– Mestre, são escombros de templos vazios. Nós os jogamos contra a tua palavra, para enterrá-los. Mas é um longo trabalho –diz Plautina, com um suspiro.
E termina dizendo:
– Lembra-te de nós em teu Céu…
– Ficai certas de que Eu o farei. Eu vos deixo. Ficai sabendo que a vossa vinda foi para Mim muito agradável. Adeus, Públio Quintiliano. Lembra-te de Jesus de Nazaré.
As mulheres o saúdam, e vão por primeiro. Depois, pensativo, vai indo Quintiliano. Jesus olha para eles, que vão indo em companhia de Maximino, que os guia até onde estão os carros.
204.10 – Que achas, Mestre? –pergunta Lázaro.
– Acho que há muitos infelizes neste mundo.
– Eu sou um deles.
– Por que, meu amigo?
– Porque todos vem a Ti e Maria não. A ruína dela será maior?
Jesus olha para ele, e sorri.
– Tu estás sorrindo? Não tens pena de que Maria ainda continue inconvertível? Não tens dó de mim, que estou sofrendo? Marta não faz outra coisa, senão chorar, desde a tarde de segunda-feira. Quem era aquela mulher? Não sabes que, durante um dia inteiro, ficamos esperando que fosse ela?
– Eu estou sorrindo, porque tu és uma criança impaciente… E sorrio porque acho que estais desperdiçando vossas forças e vossas lágrimas. Se tivesse sido ela, Eu teria ido correndo para vos dizer.
– E, então, não era ela mesmo?
Jesus exclama:
– Oh! Lázaro!…
– Tens razão. Paciência. Paciência ainda!… Eis aíi, Mestre, as jóias que me deste para vender. Transformaram-se em dinheiro para os pobres. Eram muito belas. De mulher.
– Eram daquela mulher.
– Eu imaginava. Ah! Se tivessem sido de Maria… Mas ela, mas ela!… Eu perco a esperança, meu Senhor!…
Jesus o abraça, e fica um pouco sem dizer nada. Depois, Ele diz:
– Eu te peço que não fales destas jóias, seja com quem for. Ela deve desaparecer das admirações e dos apetites, como uma nuvem que o vento leva para outro lugar, sem deixar delas nenhum traço no azul.
– Fica tranquilo, Mestre… e, em compensação, trazei-me Maria, a nossa infeliz Maria…
– A paz esteja contigo, Lázaro. O que Eu prometi, o farei.
1 A alma... se lembra, como já indicou mais acima em 204.5, além disso em 94.7 - 121.7 - 154.7 (com nota) - 157.5 - 169.5 - 344.7 (nas palavras de uma criança) - 428.4 (com nota) - 534.6 (nas palavras de um idoso) - 554.10 - 556.8. Maria Santíssima, pois, “não fui nunca privada da lembrança de Deus”, como se lê em 4.6 e como foi ilustrado em 10.8/10 e nas últimas linhas de 11.4. Da alma de Maria Santíssima se fala ainda em 136.6 e em 348.9/10. Uma explicação luminosa sobre a conhecida “lembrança das almas”, que é diferente daquela concebida por Sócrates, é de 8 de setembro de 1945 e se encontra no volume “I quaderni dal 1945 al 1950” (Os cadernos de 1945 a 1950).