349. 349. A Trasfiguração sobre o monte Tabore o epiléptico curado aos pés do monte.Um comentário para os prediletos.
3 de dezembro de 1945.
349.1 Quem dentre os homens não terá visto, pelo menos uma vez, uma manhã serena de março? E, se esse homem existe, ele é um grande infeliz, porque deixa de conhecer uma das coisas mais belas da natureza, que acabou de despertar com a chegada da primavera, tornada virgem, mocinha, como devia ser no seu primeiro dia.
Nesta beleza, que é pura sob todos os aspectos, — das ervas novas e cobertas de orvalho, até as florzinhas que se entreabrem, como umas criancinhas que nascem ao primeiro sorrir da luz do dia, até aos passarinhos, que despertam, e batem as asas, soltando seu primeiro pio interrogativo, como um prelúdio para todos os seus exercícios de canto daquele dia, até ao próprio cheiro do ar, que perdeu, durante a noite, pelo banho que lhe deram as orvalhadas, e pela ausência do homem, toda aquela carga de poeira, de fumaça e de odor de corpos humanos, — é que vão indo Jesus, os apóstolos e os discípulos. Está com eles também Simão de Alfeu.
Vão em direção ao sudeste, atravessando as colinas, que fazem uma coroa em torno de Nazaré, passam para além de uma torrente, atravessam uma planície estreita, que fica por entre as colinas de Nazaré e um grupo de montes a leste. 349.2Esses montes são precedidos pelo cone meio truncado do Tabor, que me faz lembrar estranhamente, em seu cume, a lanterna dos nossos carabineiros, vista de perfil:
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Eles chegam ao monte. Jesus pára e diz:
– Pedro, João e Tiago de Zebedeu, venham comigo para subirmos ao Monte. E vós, espalhai-vos pela base do Monte, dividindo-vos pelas estradas que a rodeiam, e orai ao Senhor. Lá pela tarde espero estar de novo em Nazaré. Portanto, não vos afasteis muito. A paz esteja convosco.
E, virando-se para os três por Ele chamados, diz:
– Vamos.
E começa a subida, sem virar-se para trás e com um passo tão ligeiro, que faz ficar cansado Pedro, que vai logo atrás dele.
Num momento de parada, Pedro, muito corado e suado, lhe pergunta, já com um fôlego curto:
– Mas, para onde vamos? No monte não há casas. No alto está aquela velha fortaleza. Queres ir pregar lá?
– Para isso Eu teria ido pela outra vertente. Mas tu estás vendo que eu virei as costas para ela. Não iremos à fortaleza, e quem estiver nela nem nos verá. Eu vou unir-me ao meu Pai e vos quis trazer comigo porque Eu vos amo. Vamos depressa!
– Oh! Meu Senhor! Não poderíamos, ao contrário, andar um pouco mais devagar e falar de tudo o que ouvimos e vimos ontem, o que nos fez ficar acordados durante a noite inteira para falarmos do que aconteceu?
– Aos encontros marcados com Deus deves ir sempre depressa. Força, Simão Pedro! Lá em cima vos farei descansar.
E recomeça a subir…
349.3(Diz Jesus:
– Colocai aqui a Transfiguração, acontecida que foi vista a 5 de agosto de 1944, mas sem o ditado unido à mesma. Acabei de copiar a Transfiguração do ano passado. P.M. copiará o que Eu te mostro agora).
5 de agosto de 1944.
349.4 Eu estou com o meu Jesus sobre um alto monte. Com Jesus estão Pedro, Tiago e João. Sobem ainda mais e seus olhares se espalham por horizontes abertos, que um belo e sereno dia faz que fiquem bem claros por todos os lados e até nos pontos mais distantes.
O monte não faz parte de nenhuma cordilheira de montanhas, como é a da Judéia, mas se ergue isolado, em relação ao lugar em que estamos, com o oriente à nossa frente, o norte à esquerda, a oeste o cume, que ainda se levanta por algumas centenas de passos.
O monte é bem alto e nossos olhares podem ver grandes distâncias ao redor. O lago de Genezaré parece um retalho do céu que desceu para se ajustar por entre o verde da terra, como uma turquesa de forma oval, encerrada no meio de esmeraldas de diversas tonalidades, como um espelho que tremeluz, e se encrespa a qualquer leve sopro do vento, e sobre o qual deslizam, rápidas como uns gaviões, as barcas com suas velas desdobradas, ligeiramente inclinadas para as ondas azuis, muito semelhantes, em seu vôo, a uns alciões brancos, que passam à flor das ondas, em busca de presa. Depois, da grande turquesa sai um veio, de um azul mais pálido, onde o álveo é mais fundo e mais escuro, onde as margens se aproximam e a água também é mais profunda e escura, por causa da sombra que ali projetam as árvores, que crescem viçosas à beira do rio, nutridas por sua umidade. O Jordão mais parece uma pincelada quase retilínea dada sobre o verde da planície. Alguns pequenos povoados estão espalhados sobre a planície, de um lado e do outro do rio. Alguns são apenas um punhado de casas, outros são maiores, já com ares de pequenas cidades. As estradas mestras são como riscos amarelados, através do verde. Mas, do lado de cá do monte, a planície é muito mais cultivada e fértil, muito bonita. Vêm-se as diversas culturas em suas diversas cores, sorrindo ao belo sol, cujos raios descem de um céu sereno.
Devemos estar agora na primavera e talvez seja março, se é que eu estou calculando bem a latitude da Palestina, pois estou vendo os trigais já altos mas ainda verdes, formando ondas ao vento, como um mar de esmeralda, e vejo os penachos das mais precoces entre as árvores frutíferas, que já se vêm mostrando, como pequeninas nuvens brancas e róseas, sobre este pequeno mar vegetal. Depois, vêem-se os prados, todos em flor e o feno já alto sobre o qual as ovelhinhas pastam, e parecem uns pontinhos de neve, amontoada aqui e ali por cima do verde.
Bem perto do monte, sobre as colinas que formam sua base, umas colinas baixas e de pequeno comprimento, há duas pequenas cidades, uma do lado sul, outra do lado norte. A planície é muito fértil e se estende bastante, também em largura, para o sul.
349.5 Jesus, depois de uma breve parada à sombra de uma moita de arbustos, parada esta que Jesus concedeu, certamente por estar com dó de Pedro, que nas subidas fica evidentemente cansado, começa a subir de novo. E vai até o fim, no cume, num ponto aonde há um pequeno planalto gramado, dentro de um semicírculo, formado por algumas árvores, do lado da costa.
– Descansai, meus amigos. Eu vou até ali para rezar.
E, com a mão, mostra um grande rochedo que se ergue sobre o monte e que, assim, não fica virado para a costa, mas para o monte, para o cume.
Jesus se ajoelha na terra gramada, apóia as mãos e a cabeça no rochedo, na mesma posição que Ele irá tomar em sua oração no Horto. O sol não o atinge porque o cume lhe serve de anteparo. Mas o resto do espaço gramado está cheio de sol até o limite da sombra da beira arborizada, sob a qual estão sentados os apóstolos.
Pedro tira as sandálias, sacode delas a poeira e as pedrinhas e fica assim, com seus pés cansados sobre a grama fresca, quase deitado com a cabeça sobre um ramo verde, que se estendeu mais do que os outros para longe do seu tronco, como se fosse um travesseiro.
Tiago faz como ele mas, para ficar mais cômodo, escolhe logo o tronco de uma árvore, sobre o qual põe a sua capa e, sobre ela, as costas.
João fica sentado e observa o Mestre. Enquanto isso, a calma do lugar, o ventinho fresco, o silêncio e o cansaço vencem também a ele, e sua cabeça se inclina para o peito, e as pálpebras se fecham sobre os olhos. Nenhum dos três está dormindo profundamente, mas estão com aquela sonolência de verão que nos faz ficar meio tontos.
349.6 Eles são sacudidos por uma luz tão viva que chega a anular a luz do sol e invade e penetra até por baixo do verde das moitas e das árvores, sob as quais eles foram colocar-se.
Eles abrem os seus olhos espantados e vêem Jesus transfigurado1.
Ele está agora tal e qual como o vejo nas visões do Paraíso. Naturalmente, Ele está sem as Chagas e sem o estandarte da Cruz. Mas a majestade do Rosto e do Corpo é a mesma, a mesma também é a luminosidade, a mesma é a veste que, de um vermelho escuro se muda no diamantífero e perlífero tecido imaterial, que o reveste no Céu. Seu rosto é um sol, de uma luz sideral, mas muito mais intensa, e nele seus olhos de safira irradiam luz. Ele parece mais alto agora, como se seu estado de glorificação tivesse aumentado sua estatura. Eu não saberia dizer se a luminosidade, que faz o planalto ficar quase fosforescente, se ela provém dele, ou se, à sua própria vem misturar-se a que Ele tem concentrada sobre o seu Senhor, que é toda a luz que há no Universo e nos Céus. Só sei que é uma coisa indescritível.
Jesus agora está em pé, eu diria que Ele está elevado acima da terra, porque, entre Ele e o verde do prado, há como que uma evaporação de luz, um espaço criado unicamente por uma luz, sobre o qual parece que Ele se levanta. Mas é uma luz tão viva, que eu poderia até enganar-me, e o fato de eu não estar vendo mais o verde da grama sob os pés de Jesus poderia estar sendo provocado por esta luz intensa, que vibra e que faz ondas, como se vê às vezes nas grandes fogueiras. As ondas aqui são de uma cor branca, incandescente.
Jesus está com o Rosto levantado para o Céu, e sorri diante de uma visão que o eleva.
Os apóstolos ficam com um pouco de medo disso, e o chamam, porque não lhes está parecendo mais que Ele seja o seu Mestre, de tão transfigurado que Ele está:
– Mestre, Mestre –eles o chamam em voz baixa, mas cheios de ansiedade.
Ele não os ouve.
– Está em êxtase –diz Pedro, tremendo–. Que será que Ele está vendo?
Os três se puseram em pé. Quereriam aproximar-se de Jesus, mas não têm coragem.
349.7 A luz aumenta ainda mais, pois duas chamas desceram do Céu, e vieram colocar-se aos lados de Jesus. Quando elas pousaram sobre o planalto, o véu delas se abriu, e apareceram dois luminosos e majestosos personagens. Um deles e mais velho, de olhos penetrantes e sérios, e com uma barba longa e bipartida. De sua fronte partem uns raios de luz, que me fazem compreender que é Moisés. O outro é mais jovem, magro, barbudo e peludo, mais ou menos como o Batista, com o qual eu diria que ele se parece, por sua estatura, sua magreza, sua compleição e severidade. Enquanto que a luz de Moisés é clara como a de Jesus, especialmente nos raios da fronte, a que sai de Elias é solar, é a de uma chama viva.
Os dois profetas tomam uma posição de reverência, diante do seu Deus Encarnado e, por mais que Ele lhes fale com familiaridade, eles não abandonam sua posição de reverência. Eu não compreendo nenhuma palavra do que disseram.
Os três apóstolos caem de joelhos, trêmulos, com o rosto entre as mãos. Eles quereriam ver, mas estão com medo. Finalmente, Pedro diz:
– Mestre, Mestre, Escuta-me.
Jesus vira o olhar, com um sorriso, para o seu Pedro, que desabafa, e diz:
– Como é bonito estar aqui contigo, com Moisés e Elias. Se quiseres, vamos fazer aqui três tendas: para Ti, para Moisés e para Elias, e nós ficaremos aqui para vos servirmos.
Jesus ainda está olhando para ele, e sorri mais vivamente. Olha também para João e para Tiago. É um olhar que abraça a todos com amor. Também Moisés e Elias olham fixamente para os três. Os olhos deles cintilam. Parecem raios que penetram nos corações.
Os apóstolos não têm coragem de dizer nada. Atemorizados, eles guardam silêncio. Parecem um pouco embriagados, como quem está atordoado. Mas, quando um véu, que não é uma névoa, que não é um raio, envolve e separa os três gloriosos, atrás de uma tela, ainda mais luminosa do que aquela que já os rodeava, e os esconde à vista dos três, uma voz poderosa e harmoniosa vibra, e enche por só o espaço, aí os três caem com o rosto sobre o gramado.
– Este é o meu Filho amado, no qual Eu me comprazo. Ouvi-o.
Pedro, ao jogar-se de bruços, exclama:
– Misericórdia de mim, pecador! É a Glória de Deus que desce!
Tiago perdeu fôlego. João murmura com um suspiro, como se estivesse para desfalecer:
– É o Senhor que está falando!
349.8 Ninguém ousa levantar a cabeça, ainda que o silêncio se tenha tornado completo. Por isso eles não vêem nem mesmo a volta da luz à sua natureza de luz solar, para mostrar que Jesus Cristo está sozinho e que Ele tornou a ser visto como de costume, com sua veste vermelha. Ele vai caminhando na direção deles, sorrindo, e os sacode, toca neles e os chama pelo nome.
– Levantai-vos. Sou Eu. Não temais! diz Ele, porque os três não têm coragem de levantar o rosto e estão invocando a misericórdia divina sobre os seus pecados, temendo que seja o Anjo de Deus que quer mostrá-los ao Altíssimo.
– Levantai-vos, pois. Eu vo-lo mando –repete Jesus, dando-lhes uma ordem.
E eles levantam o rosto e vêem Jesus que está sorrindo.
– Oh! Mestre, meu Deus! –exclama Pedro–. Como faremos agora para vivermos a teu lado, agora que vimos a tua glória? Como faremos para viver entre os homens, nós, homens pecadores, agora que ouvimos a Voz de Deus?
– Devereis viver a meu lado e ver a minha glória até o fim. E sede dignos disso, porque o tempo está próximo. Obedecei ao meu e vosso Pai. Voltemos agora para o meio dos homens, porque Eu vim para estar entre eles e para levá-los a Deus. Vamos. Sede santos pela lembrança desta hora, fortes e fiéis. Tereis parte na minha mais completa glória. Mas, por enquanto, não faleis2 nisto que vistes a ninguém.
Nem aos companheiros. Quando o Filho do homem tiver ressuscitado dos mortos, e tiver voltado para a glória do Pai, então podereis falar. Porque então, vai ser preciso crer para que se tenha parte em meu Reino.
– Mas, não deve vir Elias para preparar o teu Reino? Assim dizem os rabis.
– Elias já veio, e preparou os caminhos do Senhor. Tudo acontece como foi revelado. Mas os que ensinam a Revelação não a conhecem, nem a compreendem, e não vêem nem reconhecem os sinais dos tempos e os enviados de Deus. Elias já vol-tou uma vez. Na segunda vez ele virá, quando os últimos tempos já estiverem perto, a fim de preparar os últimos para Deus. Mas agora ele veio para preparar os primeiros para Cristo, e os últimos não o quiseram reconhecer, submeteram-no a tormentos e o condenaram a morte. O mesmo farão com o Filho do homem, porque os homens não querem reconhecer o que é para o seu bem.
Os três inclinam a cabeça, pensativos e tristes, e vão descendo pelo caminho, por onde subiram juntos com Jesus.
[3 de dezembro de 1945.]
349.9 … E é ainda Pedro que diz, em uma parada no meio da descida:
– Ah! Senhor: Eu digo também, como tua mãe dizia ontem: “Por que nos fizeste isso?”, e digo ainda: “Por que nos disseste isso?” As tuas últimas palavras cancelaram em nossos corações a alegria da gloriosa vista. Grande dia de medo este! Primeiro, fez-nos medo aquela grande luz que nos despertou, mais forte do que se o monte ardesse ou que se a lua tivesse descido a irradiar luz sobre o planalto, diante de nossos olhos. Depois o teu aspecto e aquilo de te destacares do solo como se fosses ir embora voando. Eu fiquei com medo de que Tu, aborrecido pelas maldades de Israel, voltasses ao Céu, talvez por ordem do Altíssimo. Depois, fiquei com medo vendo a aparição de Moisés, que o povo do seu tempo não podia olhar, de tanto brilhava em seu rosto o reflexo de Deus, e ainda era homem, ao passo que agora é um espírito feliz e aceso por Deus, e Elias… Misericórdia Divina! Eu pensei que tinha chegado ao meu último momento e todos os pecados de minha vida, desde quando roubava frutas na despensa quando era pequeno até o último, quando te aconselhei mal, há poucos dias, tudo isso me veio a mente. Com que temor eu me arrependi! Depois, pareceu-me que aqueles dois justos gostassem de mim e criei coragem para falar. Mas depois até o amor deles por mim me fazia medo, porque eu não mereço o amor de espíritos como aqueles. E depois… e depois!… O medo dos medos! A voz de Deus!… Javé falou! E a nós! Ele nos disse: “Ouvi-o!” A Ti Ele te proclamou “seu Filho-amado, no qual Ele se compraz.” Que medo! Javé!… a nós!… Certamente só mesmo uma força como a tua pode conservar-nos vivos!… Quando Tu tocaste em nós e sentíamos teus dedos queimando como pontas de fogo, eu tive o último dos espantos. Achei que tinha chegado a hora de ser julgado e que o Anjo me estivesse tocando para tirar-me a alma e levá-la ao Altíssimo… Mas, como foi que fez tua mãe para ficar vendo, percebendo e continuando viva, naquela hora de que falaste ontem, sem que Ela morresse, Ela que estava sozinha, era uma jovenzinha, e estava sem Ti?
– Maria, a sem Mancha, não podia ter medo de Deus. Eva também não tinha medo dele enquanto foi inocente, e Eu lá estava. Eu, o Pai e o Espírito. Nós, que estamos no Céu e na terra e em todos os lugares, e que tínhamos o nosso Tabernáculo no coração de Maria –diz docemente Jesus.
– Que coisa! Que coisa! Mas depois Tu falaste de morte. E acabou-se toda alegria… Mas, por que tudo só havia de acontecer conosco, os três? Não ficava bem que fosse dada a todos esta visão da tua glória?
– Justamente porque vós já estais desmaiando só por ouvir falar da morte, e morte por meio de um suplício do Filho do homem, o Homem-Deus vos quis fortalecer para aquela hora e para sempre com o conhecimento prévio do que Eu serei depois da Morte. Recordai-vos de tudo isso, para que o possais dizer a seu tempo. Compreendestes?
– Oh! Sim, Senhor. É impossível esquecer. E seria inútil falar naquilo. Todos diriam que estávamos “embriagados.”
349.10 Tornam a ir para o vale. Mas, chegando a um certo ponto, Jesus dobra por um caminho íngreme, que vai na direção de Endor, isto é, para o lado oposto àquele onde Ele deixou os discípulos.
– Não os encontraremos –diz Tiago–. O sol está começando a descer. Eles devem estar reunindo-se para esperar-te no lugar onde os deixaste.
– Vêm e não fiques criando pensamentos tolos.
E, de fato, assim como uma mata se abre sobre uma pradaria que vai-se inclinando para baixo até chegar à estrada mestra, eles vêem, de repente, todo o grupo dos discípulos, aumentado por alguns viandantes curiosos, por uns escribas, vindos não sei de onde e que se movimentam junto à base do monte.
– Ai de mim! Escribas! E já estão discutindo! –diz Pedro, mostrando-os.
E vai descendo os últimos metros de má vontade.
Mas até aqueles que estão lá mais em baixo os viram e lhe fazem sinais, pondo-se depois a correr para Jesus, e gritando:
– Mas como foi, Mestre, que vieste para este lado? Nós estávamos indo para o lugar combinado. Lá nos detiveram os escribas com suas discussões e um pai angustiado.
– Sobre que estáveis discutindo uns com os outros?
– Sobre um endemoninhado. Os escribas zombaram de nós porque não pudemos livrá-lo. Judas se intrometeu no assunto desde o começo, por teimosia. Mas foi inútil. Então, nós lhes dissemos: “Resolvam vocês.” Eles responderam: “Nós não somos exorcistas.” Por acaso passaram dois que vinham de Caslot-Tabor entre os quais havia dois exorcistas. Mas eles também nada puderam. Aí vem o pai para te fazer o pedido. Atende-o.
349.11 De fato, um homem vem para frente em atitude de súplica, ajoelha-se diante de Jesus, que está sobre o prado em declive, de tal modo que fica pelo menos uns três metros acima da estrada e bem visível a todos.
– Mestre –diz-lhe o homem–, eu ia indo para Cafarnaum com o meu filho para procurar-te. Eu ia te levando este infeliz, que é o meu filho, a fim de que Tu o livrasses, Tu que expulsas os demônios e curas todas as doenças. Ele freqüentemente é tomado por um espírito mudo. E, quando o espírito o toma, ele só sabe dar uns gritos roucos, como um animal que está sendo degolado. O espírito o derruba no chão, e ele lá fica rolando, rangendo os dentes, espumando como um cavalo quando morde o freio ou corre o risco de morrer afogado ou queimado, ou então despedaçado, pois o espírito mais de uma vez o jogou na água, no fogo ou de cima das escadas. Os teus discípulos já experimentaram, mas não conseguiram. Oh! Bom Senhor. Tem dó de mim e do meu filho!
Jesus se inflama em seu poder, ao gritar:
– Ó geração perversa, ó turba de Satanás, legião rebelde, povo incrédulo e cruel do Inferno, até quando Eu deverei estar em contacto contigo? Até quando Eu terei que te suportar?
Ele está cheio de majestade, de modo que se fez um silêncio completo e cessam os sorrisos escarnecedores dos escribas.
349.12 Jesus diz ao pai:
– Levanta-te e traze-me aqui o teu filho.
O homem sai dali, e depois volta com outros homens, no meio dos quais está um rapaz de seus doze a catorze anos. É um belo rapaz, mas com um olhar um tanto hebetado, como se estivesse atordoado. Na fronte avermelhada ele tem uma grande ferida e mais abaixo se nota uma cicatriz antiga. Mal ele vê Jesus, que o está fitando com seus olhos que o atraem, e o rapaz dá um grito rouco, começando a contorcer-se convulsivamente por todo o corpo, para depois cair por terra, espumando e virando os olhos, de tal modo que deles só se vê aparecer um globo branco, enquanto ele vai rolando por terra numa característica convulsão epiléptica.
Jesus anda alguns passos mais para frente, a fim de chegar perto dele, e diz:
– Desde quando isto lhe acontece? Responde-me em voz alta, a fim de que todos possam ouvir.
E o homem, gritando, enquanto multidão ao redor o aperta e os escribas vão colocar-se em um ponto mais alto do que onde está Jesus, para poderem dominar a cena, diz:
– Desde pequenino. É como eu te disse: muitas vezes ele cai no fogo, na água ou cai das escadas e das árvores, porque o espírito o assalta de repente e o joga também no chão para acabar com ele. Está todo cheio de cicatrizes e queimaduras. Já é muito bom que ele não tenha ficado cego por causa das labaredas da lareira. Nenhum médico, nenhum exorcista, nem mesmo os teus discípulos puderam curá-lo. Mas se Tu, como eu creio firmemente, podes fazer alguma coisa, tem piedade de nós e socorre-nos.
– Se tu podes crer, tudo me é possível, porque tudo é concedido a quem crê.
– Oh! Senhor, se eu creio! Mas, se ainda não creio o suficiente, aumenta Tu a minha fé, para que seja completa e obtenha o milagre –diz o homem chorando, ajoelhado junto ao filho que está, mais do que nunca, em convulsões.
349.13 Jesus se ergue, dá dois passos para trás e, enquanto a multidão mais ainda o aperta, grita bem alto:
– Espírito maldito, que fazes ficar surdo e mudo o rapaz e o atormentas, Eu te ordeno: sai dele e não entres nunca mais!
O rapaz, mesmo estando deitado no chão, dá uns saltos medonhos, faz que a cabeça toque nos pés, fazendo um arco, dá uns gritos desumanos e depois, tendo dado um último salto no qual ele se vira de bruços, batendo a fronte e a boca em uma pedra saliente acima da grama e que fica vermelha por causa do sangue, fica imóvel.
– Morreu! –gritam muitos.
– Pobre rapaz!
– Pobre pai! –e assim se compadecem os melhores.
E os escribas, zombeteiros, dizem:
– Ficaste bem servido pelo Nazareno!
Ou, então:
– Mestre, e agora? Desta vez Belzebu te obrigou a fazer uma triste figura… –e riem maldosamente.
Jesus não responde a nenhum deles. Nem mesmo ao pai, que fez virar o filho e está enxugando o sangue da fronte e dos lábios feridos, gemendo e invocando Jesus. Mas o Mestre se inclina e pega pela mão o rapaz. Este, então, abre os olhos, dando um grande suspiro, como se estivesse despertando de um sono, assenta-se e sorri. Jesus o puxa para Si, faz que ele se ponha de pé e o entrega ao pai, enquanto a multidão prorrompe em ovações de entusiasmo e os escribas fogem, acompanhados pelas vaias da mesma multidão.
– E agora vamos –diz Jesus aos seus discípulos.
E, tendo-se despedido de todos, põe-se a rodear o monte, indo pelo caminho por onde veio esta manhã.
349.14Diz Jesus:
– E agora aqui o P.M. pode colocar o comentário à visão de 5 de agosto de 1944 (Caderno A930), que começa por estas palavras3: “Não te escolho somente para conheceres as tristezas do teu Mestre e as suas dores. Quem sabe estar comigo na dor, deve ter parte comigo na glória.” E tu, descansa, ó fiel pequeno João, pois o teu descanso é bem merecido. A minha paz seja para ti uma alegria.
[5 de agosto de 1944.]
349.15 Diz Jesus:
– Eu te preparei para meditares na minha Glória. Amanhã a Igreja a celebra. Mas Eu quero que o meu pequeno João a veja em sua verdade, para compreende-la melhor. Eu não te escolho somente para conheceres as tristezas do teu Mestre e as suas dores. Quem sabe estar comigo na dor, deve ter parte comigo na alegria.
Quero que tu, diante do teu Jesus, que se te mostra, tenhas os mesmos sentimentos de humildade e arrependimento dos meus apóstolos.
Nada de soberba. Serias castigada perdendo-me.
Contínua lembrança de quem sou Eu e de quem és tu.
Contínuo pensamento sobre tuas fraquezas e a minha perfeição, para teres um coração lavado pela contrição. Mas, junto com isso, também muita confiança em Mim. Eu disse: “Não temais. Levantai-vos. Vamos. Vamos para o meio dos homens, porque Eu vim para estar com eles. Sede santos, fortes e fiéis para vos lembrardes desta hora.” Eu digo ainda a ti e a todos os meus prediletos entre os homens aqueles que me possuem de maneira especial.
Não tenhais medo de Mim. Eu me mostro para elevar-vos, e não para reduzir-vos a cinzas. Levantai-vos: que a alegria do dom vos dê vigor e não vos torne obtusos, querendo saborear um quietismo e crendo-vos já salvos, porque Eu vos mostrei o Céu. Vamos juntos por entre os homens. Eu vos convidei para obras sobre-humanas, com visões sobre-humanas e lições, a fim de que possais servir-me de uma ajuda maior. Euvos associo à minha obra. Mas Eu nunca conheço repouso. Porque o mal não descansa nunca e o Bem deve estar sempre ativo para anular o mais que puder a obra do Inimigo. Nós descansaremos quando chegar o Tempo. Agora é preciso andar incansavelmente, trabalhar continuamente, consumir as forças sem parar no trabalho da messe de Deus. Que o meu contato contínuo vos santifique, a minha lição contínua vos fortaleça, que o meu amor de predileção vos faça fiéis contra todas as insídias. Não sejais como os antigos rabinos, que ensinavam a Revelação e depois não acreditavam nela, a ponto de não reconhecerem os sinais dos tempos e os enviados de Deus. Reconhecei os precursores do Cristo no seu segundo advento, porque as forças do Anticristo estão em marcha e, fazendo uma exceção para a medida que me impus a Mim mesmo, pois Eu conheço que vós estais bebendo certas verdades, não por um espírito sobrenatural, mas por uma sede de curiosidade humana. Eu vos digo em verdade o que eles pensarão ser uma vitória sobre o Anticristo, a paz que está próxima, que não será mais que uma pausa, para dar tempo ao inimigo de Cristo para retemperar-se, curar as feridas, reunir o seu exército para uma luta ainda mais cruel.
Reconhecei, vós que sois as “vozes” deste vosso Jesus, do Rei dos reis, do Fiel e Veraz, que julga e combate com justiça e será o Vencedor da Besta, e dos servos e dos profetas dela, reconhecei o vosso Bem e segui-o sempre.
Que nenhum aspecto mentiroso vos seduza e nenhuma perseguição vos aterre. A vossa “voz” diga as minhas palavras. A vossa vida seja para esta obra. E tereis sorte na terra, com o Cristo, com o seu Precursor e com Elias, uma sorte cruenta ou atormentada com sevícias morais, sorri a vossa sorte futura e segura, que tereis com o Cristo, com o seu Precursor, com o seu Profeta.
Sereis seus pares no trabalho, na dor e na glória. Aqui Eu, mestre e Exemplo. Lá, Eu Prêmio e Rei. Possuir-me será a vossa felicidade. Será o esquecer-vos da dor. Será tudo o que todas as revelações ainda são insuficientes para fazer-vos compreender, porque a alegria da vida futura é muito superior à nossa capacidade de imaginar, como criaturas que estamos assim ainda unidas á carne.
1 transfigurado. Em um pedaço de papel, inserida entre as páginas de uma cópia datilografada, MV escreveu: Nota sobre a Transfiguração. Para afastar as artimanhas de Satanás e as armadilhas do futuro, e não são desconhecidas para Deus, o Pai, inimigos do Verbo de Deus encarnado envolveu em aspectos comuns a todos os nascidos de mulher, não só, desde que o Cristo era “o filho, e o filho do carpinteiro”, mas mesmo quando ele era o Mestre. Somente a sabedoria e o milagre o distinguem de outros. Mas em Israel, embora em menor grau, se conheciam outros mestres (os profetas) e operadores de milagres. Esta foi a intenção a fim de experimentar a fé dos seus eleitos: os apóstolos e discípulos. Eles deviam “acreditar sem ver” coisas extraordinárias e divinas. Então eles viam um homem douto e santo que também operava milagres, mas que em tudo mais foi semelhante a eles em suas necessidades humanas. No entanto, para confirmar os três, após o anúncio da morte futura na cruz os havia perturbado, ele agora se revela em toda a glória de sua natureza divina. Depois disso, nenhuma dúvida de que a morte prevista na cruz tinha havido em seus seguidores mais próximos, não poderia mais subsistir. Eles tinham visto Deus no homem que seria crucificado. Foi uma manifestação das duas naturezas unidas hipostaticamente. Evento inegável que ele não poderia deixar dúvidas. E o Filho — Deus manifestado que une o Pai — Deus, com suas palavras e céu representado por Moisés e Elias. Depois de ter abalado sua fé com o anúncio de sua morte, Jesus restaura, e até aumenta a fé com sua transfiguração.
2 não faleis… Prudencia, perfeitano Cristo — é a nota de MV numa cópia datilografada — ele fez isso para evitar um fanatismo de veneração e de ódio, tanto prematuro e perigoso. Algumas linhas abaixo, de Elias, na exata mesma cópia datilografada MV: O Elias “está de volta, uma vez”, que alude a Jesus, foi o Batista.
3 estas palavras… Em vez disso, denunciar o comentário desde o início, porque a parte seria omitir algumas linhas apenas. (Note-se que MV transcreve a palavra glória no “ditado” original, que se segue, é uma alegria).
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