250. 250. Aos discípulos vindos com Isaque,a parábola do lodo que se torna chama.João de Endor é alma vítima.
11 de agosto de 1945.
250.1É justamente às margens da profunda torrente, que Jesus vai encontrar Isaque, com muitos discípulos conhecidos e desconhecidos.
Entre os conhecidos estão o sinagogo de Águas Belas, Timoneu; José, acusado de incesto em Emaús; o jovem que deixou de ir sepultar o pai para acompanhar Jesus; Estêvão; o leproso Abel, purificado um ano antes, perto de Corozaim com o seu amigo Samuel. Aí está também o barqueiro de Jericó, Salomão e muitos outros e outros, que eu reconheço, mas dos quais não me recordo absolutamente do lugar onde os vi, nem de seus nomes. São rostos conhecidos e já são tantos, tantos conhecidos como rostos de discípulos. E depois outros, que são conquistas de Isaque, ou dos próprios discípulos nomeados acima, que acompanham o núcleo principal, enquanto estão esperando um encontro com Jesus.
O encontro vai ser afetuoso, alegre e respeitoso. Isaque está radiante em sua alegria por ver o Mestre e para poder mostrar-lhe o seu rebanho novo. E, como prêmio, ele pede uma palavra de Jesus para o grupo que ele tem consigo.
– Sabes de algum lugar tranquilo onde possamos reunir-nos?
– Na extremidade do golfo há uma praia deserta, na qual há caminhos de pescadores e que não são frequentadas nesta estação, porque elas são insalubres e porque a estação da pesca dos peixes a serem salgados já terminou. Agora eles vão para a Siro-Fenícia pescar moluscos. Muitos deles já creem em Ti, por terem te ouvido falar nas cidades marítimas e por terem encontrado os discípulos e eles têm me cedido as casinhas para o nosso repouso. Voltamos para cá, depois de uma missão. Porque há muito que fazer nesta costa.. Ela está totalmente corrompida em tantas coisas. Eu gostaria de chegar até a Siro-Fenícia, e poderia fazê-lo por mar, porque o litoral está muito abrasado pelo sol, para que se possa ir por ele a pé. Mas eu sou pastor, não sou marinheiro e entre estes não há ninguém que saiba trabalhar com a vela.
Jesus o ouve atentamente, com um leve sorriso, e está um pouco inclinado, pois Ele fica muito alto, quando está à frente do pequeno pastor que, como um soldado, está referindo tudo ao seu general, e lhe responde:
– Deus te ajuda pela tua humildade. Se Eu aqui sou conhecido, é por causa de ti, discípulo, e não por causa de outros. 250.2Agora vamos perguntar aos do lago se estão dispostos a velejar pelo mar e iremos, se pudermos, à Siro-Fenícia.
Jesus se vira, então, à procura de Pedro, André, Tiago e João que estão em animada conversação com alguns discípulos enquanto Judas Iscariotes está atrás, cumprimentando Estêvão, e Zelotes com Bartolomeu e Filipe, estão perto das mulheres. Os outros quatro estão perto de Jesus.
Os quatro pescadores chegam logo.
– Estais dispostos a viajar de barca pelo mar? –pergunta-lhes Jesus.
Os quatro olham-se um ao outro, perplexos. Pedro começa a despentear o cabelo, enquanto reflete. Depois pergunta:
– Mas, para onde? Muito ao largo, no mar? Mas nós somos peixes de água doce…
– Não, ao longo da costa, até Sidon.
– Eu acho que se pode. Que dizeis a isso?
– Eu também acho. Mar ou lago sempre é a mesma coisa: é água –diz Tiago.
– Ou melhor: será mais belo e fácil –diz João.
– Eu não sei por que o julgas assim –lhe responde seu irmão.
– Por seu amor ao mar. Quem ama uma coisa, vê tudo o que é bom nela. Se tu amasses assim uma mulher, serias um esposo perfeito –caçoa Pedro, sacudindo afetuosamente João.
– Não. Eu digo porque em Ascalon vi que as manobras são iguais, e a navegação é muito serena –responde João.
– Então, vamos! –exclama Pedro.
– Mas seria sempre melhor levarmos alguém do lugar. Nós não conhecemos este mar nem a profundidade das águas por aqui –observa Tiago.
– Oh! Eu nem penso nisso! Nós temos Jesus conosco! Antes, eu não me sentia seguro, mas depois que Ele acalmou o lago! Vamos, vamos com o Mestre a Sidon. Talvez haja coisas boas a fazer –diz André.
– Então, iremos. Tu procurarás as barcas para amanhã. Faze que Judas de Simão te dê a bolsa.
250.3E juntos, misturados os apóstolos e os discípulos, — e não se pode dizer em que festa estão, e são aqueles que já são bem conhecidos de Jesus — voltam por onde vieram, e se dirigem à cidade, andando ao redor dela pela periferia, até alcançarem a ponta extrema da baía, que se projeta como braço encurvado para o mar. Os poucos casebres, espalhados pela costa, saibrosa e curta, representam a parte mais miserável da cidade, a mais despovoada, e onde se fica só de passagem. Agora as casinhas são cubos com paredes roídas pela salinidade e pela velhice, todas fechadas e, quando os discípulos as vão abrindo, vão mostrando sua miséria enfumaçada e seus móveis reduzidos só mesmo ao mínimo indispensável.
– Aí estão elas. São muito cômodas e limpas, ainda que não sejam bonitas –diz Isaque que lhes faz honra.
– Bonitas não são, mas pobrezinhas. Em Águas Belas havia um palácio real, em comparação. E ainda havia quem se queixasse! –resmunga Pedro.
– Mas para nós são uma fortuna.
– Certo, muito bem! O que importa é ter um teto, e nos querermos bem. Oh! Olha aqui nosso João. Como vais? Onde estavas?
Mas João de Endor, ainda que, sorrindo para Pedro, vai correndo prestar sua veneração a Jesus, que o saúda com palavras muito boas.
– Eu não mandei que ele viesse, porque ele não estava bem… Acho melhor que ele fique aqui. Ele sabe tratar bem com os da cidade e com quem pede notícias do Messias… –diz Isaque.
De fato, o homem de Endor está muito mais magro do que antes. Mas seu rosto está sereno. O emagrecimento torna mais delicados os seus modos, pelos quais ele nos leva a pensar em alguém que já está sofrendo o martírio duplo da carne e do espírito.
Jesus o observa e lhe pergunta:
– Estás doente, João?
– Não mais do que estava, antes de te ver. Isto, quanto à carne. Mas na alma, se é que eu me julgo bem, vou ficando curado das minhas feridas particulares.
Jesus olha ainda para o olhar pacífico dele, para aquela fronte escavada nas têmporas, e não diz mais nada. Mas põe-lhe a mão sobre o ombro e entra com ele em uma casinha, para onde foram levadas bacias com água do mar, para refrescarem os pés cansados, e moringas de água fresca para matarem a sede, enquanto lá fora, sobre uma mesa rústica, à sombra de um suporte de plantas trepadeiras, estão sendo preparadas as mesas. E é bonito, enquanto o crepúsculo vem descendo e o mar murmura as orações da tarde com leve marulhar da ressaca sobre a praiazinha saibrosa, ver a cena de Jesus com as mulheres e os apóstolos, sentados à rústica mesa, enquanto os outros, parte sentados no chão, e outra parte em cadeiras ou cestas emborcadas, fazem um círculo ao redor da mesa principal. Depressa acabou a ceia, e mais depressa ainda foi tirada a mesa, porque os pratos eram muito poucos e só para os hóspedes mais importantes. O mar tornou-se já de um anil azul escuro em uma noite ainda sem luar. Toda sua majestade se revela é nesta hora triste e solene, própria das costas marinhas.
250.4Jesus, com toda sua altura, vestido de branco por entre as sombras cada vez mais escuras, levanta-se da mesa e vai para o meio do pequeno grupo de discípulos, enquanto as mulheres se retiram. Isaque e algum outro vão acendendo sobre a areia pequenas fogueiras para alumiar a noite ou para conservar longe as nuvens de pernilongos, que parecem estar vindo dos brejos próximos.
– A paz esteja com todos vós.
A misericórdia de Deus nos une, antecipando-se ao tempo fixado e dando uma recíproca alegria aos nossos corações. Eu perscrutei todos estes vossos corações moralmente bons, como demonstra o fato de estardes aqui, à minha espera, para que Eu vos forme, espiritualmente ainda imperfeitos, como o demonstram certas reações vossas, que mostram como em vós ainda perdura o velho homem de Israel, com todos os seus conceitos e preconceitos, e ainda não saiu disso, como a borboleta sai da larva, o homem novo, o homem do Cristo, que do Cristo recebe a ampla, a luminosa e misericordiosa mentalidade, e ainda mais ampla, a caridade. Mas não vos sintais molestados, se Eu vos perscrutei e vos li em todos os vossos segredos. Um Mestre deve conhecer os seus alunos, para poder corrigi-los em seus defeitos, e, podeis crer-me, se ele é um bom mestre, não fica aborrecido com os mais defeituosos, mas pelo contrário, para eles ele se inclina mais, a fim de melhorá-los. E vós sabeis que Eu sou um bom Mestre.
E agora vamos ver juntos essas reações e esses preconceitos. Procuremos considerar juntos o motivo pelo qual aqui estamos, e a alegria que este fato de estarmos juntos nos dá. Saibamos bendizer ao Senhor, que sempre do bem de alguém em particular, obtém também um bem coletivo.
250.5Eu ouvi dos vossos lábios a vossa admiração por João de Endor e vossa admiração maior ainda por ele se professar um pecador convertido, e porque sobre aquela sua antiga qualidade e sobre esta nova é que ele apoia a sua tese de pregação àqueles que ele quer trazer a Mim. É verdade. Ele era um pecador. Agora é um discípulo. Muitos de vós já vieram ao Messias por meio dele. Vede, pois, que justamente com aqueles meios, que o velho homem de Israel desprezaria, é que Deus cria o novo povo de Deus.
Agora Eu vos peço que deixeis de julgar, com juízo doentio, a presença de uma irmã, que o velho Israel não compreende como possa ser discípula. Eu ordenei que as mulheres fossem descansar. Mas não foi somente o desejo de dar-lhes repouso, mas o de poder dar-vos uma santa avaliação do que é uma conversão, e de impedir que cometais pecado contra o amor e contra a justiça. Foi esta a razão pela qual dei aquela ordem, que certamente entristeceu as discípulas.
Maria de Magdala, a grande pecadora de Israel, a que não tinha desculpas para o seu pecado, voltou para o Senhor. E de quem haverá ela de esperar fé e misericórdia, senão de Deus e dos servos de Deus? Todo Israel, e com Israel os estrangeiros que estão entre nós, aqueles que bem a conhecem e a julgam com severidade, agora que ela não é mais cúmplice deles em suas devassidões, criticam esta ressurreição e zombam dela.
Ressurreição. É a palavra mais exata. Ressuscitar uma carne, não é o maior milagre. Este é um milagre sempre relativo, porque destinado a ser um dia anulado pela morte. Eu não dou imortalidade ao que ressuscitou na carne, mas dou eternidade ao ressuscitado no espírito. E, enquanto um morto na carne não une a sua vontade de ressurgir à minha, e por isso não existe mérito de sua parte, no ressuscitado no espírito está presente a sua vontade, e ela é até a primeira a estar presente. Por isso, não está ausente o mérito do ressuscitado.
Não vos digo isto para justificar-me. Somente a Deus devo prestar contas de minhas ações. Mas vós sois os meus discípulos. Os meus discípulos hão de ser segundos Jesus. Não deve haver neles nenhuma ignorância e nenhuma daquelas inveteradas culpas, pelas quais muitos estão unidos a Deus somente de nome.
250.6Tudo é capaz de boas ações. Até as coisas aparentemente menos aptas para sê-lo. Quando uma matéria se apresenta à vontade de Deus, ainda que fosse a mais inerte, gelada, suja, pode transformar-se em movimento, chama, beleza pura.
Eu vos cito uma comparação tirada do1 livro dos Macabeus.
Quando Neemias foi reenviado pelo rei da Pérsia a Jerusalém, no Templo reconstruído e no altar purificado quiseram que se oferecessem os sacrifícios. Neemias se lembrava de como, no momento da captura por parte dos persas, os sacerdotes que se ocupavam do culto de Deus foram apanhar o fogo do altar e o esconderam em um lugar secreto, no fundo de um vale, em um poço profundo e seco, e fizeram isso tão bem e tão secretamente, que só eles ficaram sabendo onde estava o fogo sagrado. Disto se lembrava Neemias e, lembrando-se disso, tomou os netos daqueles sacerdotes, para que fossem àquele lugar que, antes de morrer, os sacerdotes haviam revelado aos seus próprios filhos, transmitindo assim o segredo de pais para filhos, e lá apanhassem o fogo do sacrifício. Mas, descendo os netos ao poço secreto, não acharam fogo mas densa água, lodo podre, pesado, que chegou até ali, depois de se ter filtrado de todas as cloacas entupidas da Jerusalém devastada. E eles foram dizer isso a Neemias. Mas ele ordenou que fosse apanhada aquela água e lhe levassem. E feito pôr a lenha sobre o altar, sobre a lenha, os sacrifícios, aspergiu abundantemente tudo, para que todas as coisas ficassem aspergidas com aquela água lodosa. O povo espantado e os sacerdotes escandalizados olharam e fizeram aquilo com respeito, somente porque era Neemias que estava mandando. Mas quanta tristeza nos corações! Quanta desconfiança! Como no céu havia nuvens a tornar triste o dia, assim nos corações a dúvida a tornar melancólicos os homens. Mas o sol rompeu as nuvens e desceu com os seus raios sobre o altar, e a lenha, borrifada com a água lodosa, se acendeu com grande fogo e logo consumiu o sacrifício, enquanto os sacerdotes rezavam, com as orações compostas por Neemias e com os hinos mais belos de Israel, até que se queimou todo o sacrifício. E, para persuadir à multidão de que Deus pode, mesmo com as matérias menos adequadas, mas usadas para um fim reto, produzir prodígios, Neemias ordenou que o resto da água fosse derramado sobre grandes pedras. E as pedras molhadas também soltaram chamas, e nestas elas se consumiram, desaparecendo na grande luz que vinha do altar.
250.7Cada alma é um fogo sagrado posto por Deus no altar do coração, a fim de que sirva para queimar o sacrifício da vida, com amor ao Criador da mesma. Cada vida é um holocausto, se for bem usada, e cada dia é um sacrifício a ser consumado com santidade. Mas, vêm os salteadores, os opressores do homem e de sua alma. O fogo se afunda no fundo do poço. E isso, não por alguma necessidade santa, mas por alguma estultícia nefasta. E lá, submerso durante séculos por todas as sentinas dos vícios, torna-se ele lama podre e pesada, até que desça naquela profundeza um sacerdote, e leve de novo para a luz do sol aquela lama, colocando-a sobre o holocausto do seu próprio sacrifício. Porque, ficai sabendo, não basta o heroísmo a quem quer se converter. Exige-se também o de quem quer convertê-lo. Digo até que este deve preceder àquele, porque as almas se salvam é pelo nosso sacrifício. Porque é assim que se consegue que a lama se transforme em chama e Deus julgue perfeito e agradável à sua santidade o sacrifício que se consuma.
É então que, não bastando ainda para persuadir ao mundo que uma lama arrependida é ainda mais ardente do que fogo comum, ainda que seja fogo consagrado, pois o fogo comum só serve para queimar lenha e vítimas, isto é, matérias adequadas para serem queimadas, eis que esta lama arrependida se torna tão poderosa, que acende e queima até as pedras, que são materiais incombustíveis.
E não vos pergunteis de onde vem a esta lama tal propriedade? Não sabeis?
Eu vo-lo digo: porque, no ardor do arrependimento, eles se fundem com Deus, chama com chama. Chama que sobe, chama que desce. Chama que se oferece amando, chama que se concede amando. Abraço de dois que se amam, que se reencontram, que se unem, fazendo uma só coisa. E, uma vez que a chama maior é a de Deus, esta transborda, domina, penetra, absorve, e a chama do barro arrependido não é mais a chama relativa de uma coisa criada, mas a chama infinita de uma Coisa Incriada, do Altíssimo, Potentíssimo, Infinito, de Deus.
Isto é que são os grandes pecadores, verdadeiramente convertidos, que generosamente se entregaram à conversão, sem nada guardarem do passado, queimando como primeira coisa a si mesmos, em sua parte mais pesada, com a chama que se levanta de sua lama, tendo corrido ao encontro da Graça, e movidos por Ela. Em verdade, em verdade Eu vos digo que muitas pedras em Israel serão atacadas pelo fogo de Deus, por meio destas fornalhas ardentes que queimarão sempre mais, até a consumação da criatura humana e que continuarão a queimar as pedras, tibiezas, incertezas, timidezes da Terra, lá do seu trono no Céu, como verdadeiros espelhos ardentes sobrenaturais, que recolhem as Luzes Unas e Trinas para fazê-las convergir sobre a humanidade e acendê-las em Deus.
250.8Eu vos repito que não tinha necessidade de justificar as minhas ações, mas Eu quis que penetrásseis no meu conceito e o fizésseis vosso. Por enquanto, e para outros casos futuros semelhantes, quando Eu já não estiver convosco.
Um conceito errôneo, uma suspeita farisaica de contaminar a Deus, levando-lhe um pecador arrependido, não vos impeça nunca de fazer esta obra, que é um coroamento perfeito da missão a que Eu vos destino. Tende sempre presente que Eu não vim salvar os santos, mas os pecadores. E fazei vós de modo semelhante, porque o discípulo não é mais do que o Mestre e, se Eu não tenho repugnância de tomar pela mão os refugos da Terra, que sentem necessidade do Céu, que a sentem finalmente, jubilosos; então, Eu os levo para Deus, porque esta é a minha missão e, se toda conquista é uma justificação da minha Encarnação, que mortifica o Infinito, não tenhais repugnância em fazê-lo vós também, ó homens limitados que, mais ou menos todos conhecestes a imperfeição, feitos vós da mesma natureza que os vossos irmãos pecadores, homens que Eu elejo como salvadores, para que seja continuada a minha obra nos séculos dos séculos da Terra, como se Eu estivesse continuando a viver nela em uma existência secular.
E tal será, porque a união dos meus sacerdotes será como a parte vital do grande corpo da minha Igreja, da qual Eu serei o Espírito animador e, ao redor dessa parte vital, concentrar-se-ão todas as infinitas partículas dos que creem, a formar um único corpo, que do meu Nome tirará o seu nome. Mas, se faltasse a vitalidade na parte sacerdotal, poderiam ter vida as infinitas partículas? É verdade que Eu, enquanto estou aqui, poderia estender a minha Vida até às partículas mais longínquas, deixando de lado as cisternas e os canais entupidos ou inúteis, que opõem resistência ao ministério deles. Porque a chuva cai onde quer e as partículas boas, capazes por si mesmas de querer a vida, viveriam do mesmo modo a minha Vida. Mas, que seria, então, o cristianismo? Apenas uma vizinhança de umas almas com outras. Vizinhas e, no entanto, separadas por canais e cisternas, que já não são um laço de união, distribuindo a cada partícula o sangue vital, que vem de um centro único. Mas haveria muros e precipícios de separação, através dos quais as partículas se olhariam, humanamente hostis umas às outras, sobrenaturalmente aflitas, dizendo em seus espíritos: “Contudo, nós éramos irmãos e tais ainda nos sentimos, por mais que nos tenham separado!” Há uma vizinhança. Não uma fusão. Não um organismo. E, sobre esta ruína, resplandeceria, doloroso, o meu amor…
E ainda. Não penseis que isto valha somente para os cismas religiosos. Não. Vale também para todas as almas que ficam sozinhas, porque os sacerdotes se recusam a ampará-las, a ocupar-se com elas, a amá-las, indo contra a sua missão, que é a de dizer e de fazer o que Eu digo e faço, isto é: “Vinde a Mim vós todos, que Eu vos conduzirei a Deus.”
250.9Ide agora em paz, e Deus esteja convosco.
O povo se dispersa lentamente, indo cada um para as casinhas que os hospedam. Levanta-se também João de Endor, que sempre tomou apontamentos, enquanto Jesus estava falando, deixando-se atormentar pela proximidade do fogo para poder ver o que estava escrevendo. Mas Jesus o faz parar, dizendo-lhe:
– Fica um pouco com o teu Mestre.
E o conserva perto de Si, até que todos se tenham afastado.
– Vamos até aquela pedra à beira d’água. A lua já vai ficando mais alta, e já se pode ver o caminho.
João concorda, sem nada responder. Afastam-se uns duzentos metros, mais ou menos, das casas, assentam-se em uma grande pedra, que eu não sei se são os escombros de um molhe ou a última ponta de algum recife, que se afundou no mar, ou então as ruínas de algum casebre meio engolido pelas águas, que talvez tivessem avançado, durante séculos, pelo litoral adentro. Só sei que da pequenina praia pode-se subir, apoiando os pés em buracos e saliências, que formam como que degraus, do lado do mar, a parede desce quase reta, e mergulha na água azul. Neste momento, porém, por causa da maré, este obstáculo está rodeado de água, que resmunga e o esbofeteia levemente, depois foge, soltando um som como o de uma grande expiração, para calar-se em seguida por um momento e voltar outra vez, sempre com um movimento e um som regulares, produzido por novas bofetadas, expirações e silêncios, como em uma música sincopada. Assentam-se exatamente no alto do rochedo batido pelo mar. A lua está fazendo uma estrada prateada sobre a superfície das águas, e faz que o mar fique de um azul muito escuro e que, antes do surgir do astro, não era mais do que uma vastidão tenebrosa, dentro de uma noite sem luz.
250.10– João, não dizes ao teu Mestre a causa por que está sofrendo o teu
corpo?
– Tu o sabes, Senhor. Mas não digas “está sofrendo.” Dize: “Está se consumindo.” É mais exato, e Tu sabes, e sabes que ele se consome com alegria. Obrigado, Senhor. Eu também me reconheço na lama que se torna chama. Mas eu não terei tempo de acender as pedras. Meu Senhor, eu morrerei logo. Muito eu sofri pelo ódio do mundo e muito eu me alegro pelo amor de Deus. Mas eu não me queixo da vida. Aqui eu poderia ainda pecar e faltar com a missão a que nos destinas. Duas vezes eu já faltei em minha vida. A minha missão de mestre, porque nela eu devia saber encontrar com que formar a mim mesmo e não me formei. A minha missão de marido, porque eu não soube formar minha mulher. Mas era lógico: se eu não havia sabido formar a mim mesmo, não podia formá-la. Eu poderia faltar também à minha missão de discípulo. E faltar para contigo, eu não quero. Seja, pois, bendita a morte, se ela vem levar-me para onde não se pode pecar! Mas, se eu não tiver a sorte do discípulo que ensina, terei a sorte do discípulo que é vítima, e essa será a que mais se parece com a tua. Tu disseste esta tarde: “Queimando, em primeiro lugar, a si mesmos.”
– João, é uma sorte que suportas, ou é uma oferta que fazes?
– Uma oferta que faço, se é que Deus não despreza a lama que se faz fogo.
– João, tu já fazes muitas penitências.
– Os Santos as fazem, a começar por Ti. É justo que as faça aquele que tem muito que pagar. Mas Tu talvez aches que as minhas não são agradáveis a Deus? Proíbes que eu as faça?
– Eu nunca crio obstáculos para as boas aspirações de uma alma enamorada. Eu vim para pregar com fatos que no sofrimento está a expiação e na dor está a redenção. Eu não posso contradizer-me.
– Obrigado, Senhor. Será a minha missão!
250.11– Que escrevias, João?
– Oh! Mestre! Algumas vezes o velho Félix reaparece com seus hábitos de mestre. E fico pensando em Marziam. Ele tem uma vida inteira para pregar o teu nome, mas ele não está, por sua idade, presente às tuas pregações. Fiquei pensando em anotar certos ensinamentos que Tu nos deste, e que o menino não ouviu, ocupado em seus brinquedos, ou longe de Ti com um de nós. Nas tuas palavras, até nas menores, há tanta sabedoria! As tuas conversações familiares são já um ensinamento e tratam das coisas de cada dia, a respeito de coisas bem pequeninas, mas que são as mais importantes da vida, porque acumulando-se, as pequeninas formam uma grande soma, que exige paciência, constância, resignação, para que a vida seja vivida com santidade. Mais fácil é cumprir um grande, e fazer um grande e único ato heroico, do que mil e dez mil pequenas coisas, que exigem uma constante presença da virtude. E, no entanto, não se chega ao ato grande, tanto no mal, como no bem, — e eu sou atraído pelo mal,— se não se faz o exercício de acumular pequenos atos por muito tempo, atos aparentemente insignificantes. Eu comecei a matar, quando, cansado da frivolidade de minha mulher, olhei para ela com o primeiro olhar de desprezo. Para Marziam eu anotei as tuas pequenas lições. E esta tarde eu senti desejo de anotar a tua grande lição. Deixarei o meu trabalho para o menino, a fim de que ele se recorde de mim, o velho mestre, e para que ele tenha o que de outro modo não teria. É o seu esplêndido tesouro. As tuas palavras. Tu dás licença?
– Sim, João. Mas fica em paz em tudo, como este mar. Estás vendo? Para ti seria abrasador andar ao ardor do sol, pois a vida apostólica já é um verdadeiro ardor. Já lutaste tanto em tua vida. Deus te está chamando a Si neste plácido luar, que tudo ameniza e purifica. Caminha na doçura de Deus. E Eu te digo: Deus está contente contigo.
João de Endor pega a mão de Jesus e a beija, murmurando:
– Contudo, teria sido também bonito dizer ao mundo: “Vem a Jesus!”
– Tu dirás isso lá do Paraíso, sendo tu também um espelho ardente. Vamos, João. Eu gostaria de ler o que escreveste.
– Aqui está, Senhor. E amanhã eu te darei o outro rolo, no qual anotei as tuas palavras.
Descem do seu rochedo e, em um alvíssimo luar, que transformou em prata o saibro da margem, voltam para as casas. E saúdam-se, João inclinando-se e Jesus abençoando-o, com a mão colocada sobre a cabeça dele e dando-lhe a sua paz.
1 tirada do 2 Macabeus 1,18-36.
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