585. 585. O sábado antes da entrada em Jerusalém. Judeus e peregrinos em Betânia. O Sinédrio decide.
27 de março de 1947.
585.1Amor e ódio é que levam muitos dos peregrinos a se reunirem em Jerusalém, e muitos moradores de Jerusalém a irem para Betânia sem nem esperar que o pôr do sol tenha terminado. Pelo contrário! O sol mal começou a pôr-se quando os primeiros deles já chegaram à casa de Lázaro. E a Lázaro, que tendo sido chamado pelos servos ficou admirado por essa violação do sábado, porque os primeiros que chegaram foram justamente os mais conhecidos entre os judeus como intransigentes, eles dão esta resposta verdadeiramente farisaica:
– Lá da Porta do Rebanho já não se via mais o disco do sol e então começamos a caminhar, pensando que certamente não teríamos passado a meta prescrita antes que o sol descesse atrás das cúpulas do Templo.
Lázaro tem um sorrisinho irônico em um rosto apático. Porque ele está são, está de belo aspecto, mas gordo não está. E lhes responde de um modo educado, mas também com um leve sarcasmo:
– Que quereis ver? O Mestre respeita o seu sábado. E descansa. Ele não se limita a deixar de ver o disco do sol para considerar que o repouso cessou. Mas fica esperando que se apague o último raio para dizer: “O sábado terminou.”
– Nós sabemos que ele é perfeito! Nós o sabemos! Mas se nós erramos isso é uma razão a mais para vê-lo. Só um pouco, apenas para que Ele nos absolva.
– Sinto muito. Isso eu não posso fazer. O Mestre está cansado e repousa. Eu não irei perturbá-lo.
585.2Mas outras pessoas chegam e são peregrinos de outros lugares, que estão pedindo e insistindo para verem Jesus. Junto com os hebreus estão misturados os gentios e, com estes, os prosélitos. E ficam observando, olhando de soslaio para Lázaro como se ele fosse um ser irreal. E Lázaro suporta, e vai respondendo com paciência a quem lhe faz perguntas. Mas não dá ordens aos servos para abrirem a cancela.
– És tu o homem que ressuscitou da morte? –pergunta um que, pelo aspecto, é certamente de um sangue misturado, porque de hebreu só tem o característico nariz um tanto grosso e inclinado, enquanto que o sotaque e o modo de vestir-se o denunciam como estrangeiro.
– Sou eu, para dar glória a Deus, que me fez voltar da morte e fazer-me servo do seu Messias.
– Mas foi uma verdadeira morte? –perguntam outros.
– Perguntai isso àqueles judeus notáveis. Eles vieram aos meus funerais e muitos estiveram presentes à minha ressurreição.
– Mas que foi que sentiste? Onde estavas? De que é que te lembras? Quando tornaste a viver, que foi que aconteceu em ti? Como foi que Ele te ressuscitou? Não se pode ver o sepulcro em que estavas? De que foi que morreste? Estás bem mesmo agora? Não tens mais nem o sinal das feridas?
Lázaro, com paciência, vai procurando responder a todos. Mas se lhe é fácil dizer que está bom mesmo e que até os sinais das feridas desapareceram em todos esses meses que já passaram, desde que ele ressuscitou, ele não pode dizer o que sentiu e como é que foi ressuscitado. E responde:
– Eu não sei. Achei-me vivo no meu jardim, entre os meus servos e minhas irmãs. Quando me livraram do sudário, eu vi o sol, a luz, tive fome, comi, gozei da vida e do grande amor do Rabi por mim. O resto, mais do que eu, sabem-no dizer aqueles que estavam presentes. Lá estão três que estão falando. E lá mais dois, que acabaram de chegar.
(Esses últimos são João e Eleazar, sinedritas; os três que estão falando são dois escribas e um fariseu que viu de fato a ressurreição de Lázaro, mas dos quais eu não me lembro os nomes).
– Eles não falam conosco, que somos gentios! Ide, vós que sois judeus, interrogá-los… 585.3Mas tu, pelo menos, mostra-nos o sepulcro onde estiveste.
São insistentes a mais não poder. Lázaro resolve decidir-se. Diz qualquer coisa aos servos e depois se volta para as pessoas:
– Ide por aquela estrada que passa por esta e pela outra minha casa. Eu irei ao vosso encontro para levar-vos até o sepulcro, ainda que o que se pode ver lá seja apenas um buraco aberto numa rocha.
– Não importa. Vamos! Vamos!
– Lázaro! Para! Nós também podemos ir ? Ou para nós é proibido o que se concede a estrangeiros? –diz um escriba.
– Não, Arquelau. Vem tu também, se para ti não é contaminação aproximar-te de um sepulcro.
– Não, porque ele não contém a morte.
– Mas a conteve por quatro dias. E por muito menos do que isso já somos reputados impuros em Israel! Aquele que roça suas vestes em alguém que tocou num cadáver, vós dizeis que ele está imundo. E o meu sepulcro ainda exala cheiros de morte, embora esteja aberto há tanto tempo.
– Não importa. Nós nos purificaremos.
Lázaro olha para os dois fariseus, João e Eleazar, e lhes diz:
– Vós também vindes?
– Sim, vamos.
585.4Lázaro vai logo para o lado cercado com sebes altas e compactas como uns muros, abre uma cancela colocada em uma delas e aparece ao lado da estrada que vai para a casa de Simão, fazendo sinal para os que estão esperando, a fim de que vão para a frente.
E ele os conduz para o sepulcro. Um roseiral em flor contorna a entrada dele, mas seu perfume não é suficiente para acabar com o mau cheiro que emana de uma tumba aberta. Sobre a rocha inclinada, que está sob o arco florido, leem-se estas palavras. “Lázaro, vem para fora!”
Os mal-intencionados veem logo aquelas palavras e sem demora dizem:
– Por que mandaste esculpir lá aquelas palavras? Não o devias1 ter feito!
– Por quê? Na minha casa eu faço o que quero e ninguém pode acusar-me de pecado se eu fiz gravar sobre a rocha, para ficarem indestrutíveis as palavras do grito divino que me restituiu à vida. Quando eu estiver lá dentro e não puder mais celebrar o poder misericordioso do Rabi, que o sol ainda as leia sobre a pedra, que as plantas as aprendam dos ventos que acariciam os passarinhos e as flores continuem, por meio de mim, a bendizer o grito do Cristo que me livrou da morte.
– Tu és um pagão! Um sacrílego é o que tu és! Tu blasfemas contra o nosso Deus. Tu celebras o sortilégio do filho de Belzebu. Cuidado, Lázaro!
– Eu vos faço lembrar que eu estou em minha casa e que vós estais em minha casa, e viestes sem terdes sido convidados e para fins ultrajantes. Vós sois piores do que estes, que são pagãos, mas reconhecem que há um Deus no ressuscitador.
– Anátema! Tal Mestre, tal o discípulo. Que horror! Vamos! Para fora desta cloaca imunda. Corruptor de Israel, o Sinédrio se lembrará de tuas palavras.
– E Roma se lembrará dos vossos complôs. Fora! Saí!
Lázaro, sempre manso, se lembra de que ele é filho de Teófilo e os expulsa como a um bando de cães.
585.5Só ficaram os peregrinos de diversos lugares e pedem, e ficam esperando e implorando para verem o Cristo.
– Vós o vereis na cidade. Agora, não. Não posso.
– Ah! Então, Ele vai à cidade? Vai mesmo? Não estarás mentindo? Irá mesmo se eles o odeiam tanto?
– Ele vai. Agora, ide tranquilos. Estais vendo como a casa descansa? Não se vê nenhuma pessoa, nem se ouve uma voz. Já vistes o que queríeis ver: o ressuscitado e o lugar de sua sepultura. Agora, ide. Mas não façais que a vossa curiosidade fique estéril. Que o fato de já me terdes visto, e vivo prova vivente do poder de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus e Messias Santíssimo, possa levar-vos todos pelo caminho Dele. Por esta esperança eu fico contente de ter ressuscitado: porque eu espero que o milagre possa sacudir os duvidosos e converter os pagãos, tornando-os persuadidos de que um só é o verdadeiro Deus e um só é o verdadeiro Messias: é Jesus de Nazaré, o Mestre santo.
O povo se espalha descontente, mas, se um vai-se embora, outros dez chegam, porque sempre gente nova está chegando. Mas Lázaro consegue, com a ajuda de alguns servos, mandar para fora todos e fechar as cancelas.
585.6Ele dá um sinal de que vai retirar-se, com esta ordem:
– Vigiai, para que não forcem as cancelas nem as transponham. Logo chegará a tarde e eles irão para os seus refúgios –quando vê sair de detrás dele, de um matagal de murtas, Eleazar e João–. Que é isso? Eu não vos tinha visto e achava que…
– Não nos expulses. Escondemo-nos numa moita para não sermos vistos. Precisamos falar com o Mestre. Viemos nós, porque somos menos suspeitos do que José e Nicodemos. Mas não quereríamos ser vistos por ninguém, a não ser por ti e pelo Mestre… São de confiança os teus servos?
– Na casa de Lázaro o costume é ver e ouvir somente o que agrada ao patrão e não saber de nada por meio de estranhos. Mas vinde. Por este caminho, por entre estas duas paredes de verdura, mais opacas do que um muro.
E ele os guia, indo por aquele trilho, que está entre as duas barreiras impenetráveis dos buxos e dos loureiros.
– Ficai aqui. Eu vos trarei Jesus…
– Que ninguém fique sabendo!…
– Não temais.
585.7A espera dura pouco. Logo, pelo caminho meio escuro por causa do cruzamento dos ramos, aparece Jesus, todo de branco em sua veste de linho, e Lázaro fica no fim do caminho como se fosse um guarda ou por prudência. Mas Eleazar lhe diz, e mais do que dizer, lhe faz um sinal: “Vem aqui.” Lázaro se aproxima enquanto Jesus saúda os dois, que se inclinam profundamente.
– Mestre, e tu, Lázaro, escutai. Mal se espalhou a notícia de que Tu vieste e estás aqui, o Sinédrio se reuniu na casa de Caifás. Tudo o que lá se está fazendo é um abuso… E ficou decidido… Não te iludas, Mestre. Toma cuidado, Lázaro. Que não vos engane uma paz fingida, uma aparente sonolência do Sinédrio. É um fingimento, Mestre. Um fingimento para atrair-te e prender-te sem que a multidão se agite e se prepare para defender-te. A tua sorte está marcada e o decreto não muda. Que seja amanhã, ou daqui a um ano, mas se cumprirá. O Sinédrio não se esquece nunca de suas vinganças. Ele espera, sabe esperar a ocasião propícia, e depois… E tu também, Lázaro. Querem dar cabo de ti, prender-te, suprimir-te, porque por tua causa muitos os abandonam para seguirem o Mestre. Tu bem que o disseste, com uma palavra justa, és o testemunho do seu poder. E querem destruir tal testemunho. As multidões logo se esquecem e eles sabem disso. Ao desaparecerem tu e o Rabi, muitos ardores se apagarão.
– Não, Eleazar. Elas lançarão labaredas! –diz Jesus.
– Oh! Mestre, mas que acontecerá se Tu fores morto? Que nos valerá que a fé em Ti lance labaredas, se isso acontecer, se Tu fores suprimido? Eu esperava poder dizer-te apenas uma coisa alegre e fazer-te um convite: a minha esposa em breve dará à luz o filho que a tua justiça fez florescer, trazendo a paz2 entre dois corações sacudidos por uma tempestade. Nascerá em Pentecostes. Eu quereria dizer-te que viesses abençoá-lo. Se Tu entrares na minha casa, toda desventura estará para sempre longe dela –diz o fariseu João.
– Eu te dou, desde já, a minha bênção…
– Ah! Tu não queres ir à minha casa! Não crês que eu te seja fiel! Mas eu o sou, Mestre! Deus o está vendo!
– Eu o sei. É que… por Pentecostes, Eu não estarei mais no meio de vós.
– Mas o menino nascerá na casa de campo…
– Eu sei… Mas não estarei aqui. Assim mesmo, tu, tua esposa, o nascituro e os outros filhos que já tens, todos têm a minha bênção. Obrigado por terdes vindo. Agora, ide. Conduze-os pelo caminho que vai para lá da casa de Simão. Que não sejam vistos… Eu volto para casa. A paz esteja convosco…
1 Não o devias, em conformidade com a prescrição de: Levítico 26,1.
2 trazendo a paz, como narra o capítulo 409.
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