281. 281. No Templo para a festa dos Tabernáculos.As condições para seguir Jesus. A parábolados talentos e a parábola do bom samaritano.
20 de setembro de 1945.
281.1Jesus se dirigiu para o Templo. À sua frente, foram, em grupos, os discípulos; acompanham-no em grupo as discípulas, isto é, sua Mãe, Maria de Cléofas, Maria Salomé, Susana, Joana de Cusa, Elisa de Betsur, Anália de Jerusalém, Marta e Marcela. Madalena não está. Ao redor de Jesus estão os doze apóstolos e Marziam.
Jerusalém vive nestes dias as pompas dos seus dias de solenidades. Vem gente por todas as estradas e de todos os lugares. Ouvem-se cantos, discursos, murmúrio de preces, imprecações dos guias dos asnos, algum choro de criança. Acima de tudo isso, vê-se, ao passar de uma para outra casa, o céu limpo e um sol, cujos raios descem alegres, a reavivar as cores das vestes, intensificando as cores mortiças dos suportes e das árvores, que podem se entrever aqui e ali, do outro lado dos muros dos jardins fechados ou dos terraços.
De vez em quando, Jesus cruza com pessoas conhecidas, e as saudações são mais ou menos respeitosas, conforme os humores dos que se encontram. Por exemplo, é uma saudação profunda e tranquila a de Gamaliel, o qual olha fixamente para Estêvão, que do grupo dos discípulos lhe sorri, e que Gamaliel, depois de ter-se inclinado para Jesus, chama para um lado e lhe diz umas poucas palavras, voltando depois Estêvão para o seu grupo. Respeitosa é a saudação do velho sinagogo Cléofas de Emaús, que chega com os seus concidadãos ao Templo. Áspera como uma maldição é a saudação com que lhe respondem os fariseus de Cafarnaum.
281.2Jogarem-se ao chão, para beijar os pés de Jesus, cobertos pelo pó dos caminhos, é o gesto dos camponeses de Jocanã, chefiados pelo intendente. A multidão fica parada para observar, assombrada, aquele grupo de homens que, com um grito, se precipitam aos pés de um jovem homem, que não é um fariseu, nem algum escriba famoso, que não é nenhum sátrapa nem cortesão prestigioso, e alguns perguntam quem é ele, e um murmúrio se ouve:
– É o Rabi de Nazaré, o que dizem ser o Messias.
Prosélitos e pagãos se aglomeram, então, curiosos, apertando o grupo contra o muro, e criando um estorvo na pequenina praça, até que chegam uns guiadores de asnos, que os espalham, dizendo em altas vozes suas imprecações contra aquele estorvo. Mas a multidão, separando as mulheres dos homens, logo se reúne de novo, exigente e brutal, naquela sua manifestação, que não deixa de ser de fé. Todos querem tocar nas vestes de Jesus, dizer-lhe uma palavra, fazer-lhe perguntas. Mas é um esforço inútil, porque a própria pressa deles, sua ânsia, sua inquietação fazendo força a fim de irem para frente, empurrando-se uns aos outros, tudo isso faz que ninguém o consiga, e até os pedidos e as perguntas se transformam num grande rumor incompreensível.
O único que não toma parte naquela cena é o avô de Marziam, o qual acaba de responder com um grito ao grito do netinho e, logo depois de ter prestado sua veneração ao Mestre, foi apertar contra o seu peito o neto e, ficando assim, descansando ainda sobre os calcanhares, mas com os joelhos no chão, assentou-o no seu colo, e olha admirado para ele e o acaricia, com lágrimas e beijos de alegria, faz-lhe perguntas, e o fica escutando. O velho já está no Céu, de tão feliz que se sente.
Chegam as milícias romanas, pensando que está havendo alguma briga, e fazem que se lhes abra caminho. Mas, quando veem Jesus, sorriem, e vão-se retirando tranquilamente, limitando-se a aconselhar os presentes a deixarem livre a dupla encruzilhada. E Jesus logo obedece, aproveitando-se do espaço feito pelos romanos, que vão alguns passos à sua frente, como para abrir-lhe caminho, mas na verdade o fazem para irem voltando ao seu posto da guarda, pois esta está agora muito reforçada, como se Pilatos estivesse sabendo que no meio daquela multidão há muitos descontentes com ele, e temesse subversões nestes dias em que Jerusalém está cheia de hebreus de todas as partes. É bonito vê-lo andar, precedido pelo pelotão de soldados romanos, como um rei para o qual se abre caminho, enquanto ele vai indo para as suas possessões.
Ele disse, ao virar-se, ao menino e ao velho:
– Ficai juntos e acompanhai-me.
E ao intendente:
– Peço-te que me deixes os teus homens. Eles serão meus hóspedes até à tarde.
O intendente, obsequioso, responde:
– Tudo o que quiseres seja feito –e vai-se embora, depois de uma profunda inclinação.
281.3O Templo já está perto, e aquele formigueiro humano, parece mesmo com as formigas, quando já estão perto da entrada do buraco, pois está agora mais numeroso, quando um dos camponeses do Jocanã grita:
– Eis aqui o patrão! –e cai de joelhos para saudar, sendo imitado pelos outros.
Jesus fica de pé, no meio de um grupo de prostrados, pois os camponeses se haviam posto unidos a Ele, e Ele gira seu olhar para o lado de onde veio aquele grito, e seu olhar se encontra com o olhar de um empertigado fariseu, que não me é desconhecido, mas que não sei mais onde por mim foi visto.
O fariseu Jocanã está com outros de sua casta. É um amontoado de estofos preciosos, de franjas, de fivelas, de cintos, de filactérios, mais amplos do que os comuns. Jocanã está atento, olhando para Jesus: é um olhar de pura curiosidade, mas não é desrespeitoso. Pelo contrário, faz sua saudação todo rijo com apenas uma inclinação de cabeça. Mas é sempre uma saudação, à qual Jesus responde com respeito. Também outros dois ou três fariseus saúdam, enquanto outros olham com desprezo, ou fingem que estão olhando para outro lado, e somente um é que profere uma ofensa, e certamente assim o é, porque, como estou vendo, quem está perto de Jesus estremece, e o próprio Jocanã se vira um pouco para fulminar com o olhar o ofensor, que é um homem mais novo do que ele, de feições sombrias e duras.
Depois de terem passado por eles, os camponeses criam coragem para falar, e um deles diz:
– É Doras, Mestre, aquele que Te amaldiçoou.
– Deixa-o. Eu vos tenho a vós, que me abençoais –diz calmamente Jesus.
Apoiado em uma arquitrave, em companhia de outros, está Manaém, e, logo que vê a Jesus, o abraça, com uma exclamação de alegria:
– Dia de alegria é este, porque Te encontrei.
E vai para perto de Jesus, acompanhado pelos que estão com ele. E o venera, sob a sombreada arquitrave, que faz que ressoem as vozes, como se estivessem debaixo de uma cúpula.
Na mesma hora em que lhe está prestando sua veneração, vão passando ao lado do grupo dos apóstolos os primos Simão e José com outros nazarenos… que não o saúdam… Jesus olha para eles, amargurado, mas nada diz.
Judas e Tiago falam um com o outro, excitados, e Judas está inflamado de ira, e em seguida parte dali correndo, sem parar, ainda que o irmão o queira deter. Mas Jesus o faz voltar, dizendo-lhe energicamente:
– Judas, vem cá!
E o inquieto filho de Alfeu volta atrás…
– Deixa que o façam. São sementes que ainda não perceberam a primavera. Deixa-os na escuridão da gleba renitente. Eu penetrarei nela do mesmo modo, ainda que a gleba se torne de jaspe em torno da semente. A seu tempo, Eu farei isso.
Mas, mais forte do que a resposta de Judas de Alfeu, é o pranto, que ressoa, da Maria de Alfeu, que ficou desolada. É o pranto longo de uma pessoa envilecida… Contudo, Jesus não se vira para ir consolá-la, por mais que tenha sido bem ouvida aquela lamentação, emitida debaixo da arquitrave cheia de ecos…
Ele continua a falar com Manaém, que lhe diz:
– Estes que estão comigo são discípulos de João. Querem, como eu, ser teus.
– A paz esteja com os bons discípulos. Lá adiante estão Matias, João e Simão, que já estão comigo para sempre. Eu vos escolho, como os escolhi porque me são caros todos os que do Santo Precursor vêm a Mim.
281.4Chegaram ao muro do Templo.
Jesus dá ordem a Iscariotes e a Simão, Zelotes, para que adquiram o necessário para o rito e as ofertas. Depois, chama o sacerdote João, e lhe diz:
– Tu, que és deste lugar, procurarás convidar algum levita, que sabes que é digno de conhecer a Verdade. Porque realmente neste ano Eu posso celebrar uma festa de alegria. Nunca mais será tão doce o dia…
– Por quê, Senhor? –pergunta o escriba João.
– Porque estou convosco ao redor de Mim, visível ou por vosso espírito.
– Mas estaremos sempre aqui! E conosco muitos outros –afirma, com veemência, o apóstolo João. E todos fazem coro com ele.
Jesus sorri, e fica calado, enquanto o sacerdote João, junto com Estêvão está entrando no Templo, a fim de cumprir a ordem. Jesus, atrás deles, lhes grita:
– Ide esperar-nos no Pórtico dos Pagãos.
Eles entram e, quase em seguida, encontram Nicodemos, que lhes faz uma profunda inclinação, mas não se aproxima de Jesus. Mas ele tem para com Jesus um sorriso cheio de paz.
Enquanto isso, as mulheres vão parando onde podem. Jesus com os homens vai fazer a oração, no lugar dos hebreus, depois volta atrás, tendo cumprido todos os ritos, para ir reunir-se aos que o estão esperando no Pórtico dos Pagãos.
As séries de pórticos são muito longas e muito altas, cheias de pessoas que estão ouvindo as leituras feitas pelos rabis. Jesus se dirige ao ponto, onde vê que estão parados os dois apóstolos e os dois discípulos, que Ele mandou na frente. Logo se forma um círculo ao redor dele, e aos apóstolos e discípulos se unem também muitas outras pessoas, que estavam espalhadas pelo bem frequentado pátio de mármore. A curiosidade é tão grande, que até alguns dos alunos dos rabis, não sei se espontaneamente ou se mandados por seus mestres, aproximam-se do círculo formado ao redor de Jesus.
281.5Jesus faz uma pergunta à queima-roupa:
– Por que vos apertais ao redor de Mim? Dizei-o. Tendes rabis conhecidos e sábios, bem vistos por todos. Eu sou o Desconhecido e Mal Visto. Por que é, então, que vindes a Mim?
– Porque nós te amamos –dizem alguns.
E outros:
– Porque Tu tens palavras diferentes das dos outros.
E outros ainda:
– Para ver os teus milagres.
E:
– Porque já te ouvimos falar.
E ainda:
– Porque somente Tu tens palavras de vida eterna, e obras que estão de acordo com as tuas palavras.
E, finalmente:
– Porque queremos unir-nos aos teus discípulos.
Jesus olha para as pessoas, à medida que vão falando, como se quisesse traspassá-las com seu olhar, para ler as suas mais secretas sensações, e alguns, não resistindo àquele olhar, se afastam, ou, quando não, vão esconder-se atrás de alguma coluna, ou de pessoas mais altas do que eles.
Jesus retoma:
– Mas, sabeis vós o que quer dizer, e o que é ‘vir atrás de Mim’? Eu respondo apenas a estas perguntas, porque não merece resposta a curiosidade, e porque quem tem fome das minhas palavras é, por consequência, meu amigo e desejoso de unir-se a Mim. Portanto, entre os que já falaram, há dois grupos: os curiosos, que Eu deixo de lado, e os cheios de vontade, aos quais Eu ensino, sem enganos, qual é a severidade desta vocação.
281.6Vir a Mim como discípulo quer dizer renunciar a todos os amores por causa de um só amor: o meu. O amor egoísta para consigo mesmos, o amor culpável para com as riquezas, ou à sensualidade, ou ao poder, o amor honesto para com a esposa, o amor santo para com a mãe, o pai, o amor amável dos e aos filhos e irmãos, tudo deve ceder lugar ao meu amor, se quiserdes ser meus. Em verdade, Eu vos digo que mais livres do que uns passarinhos, que voam pelos ares, devem ser os meus discípulos, mais livres do que os ventos, que percorrem os ares, sem que ninguém os detenha, nem as pessoas, nem nenhuma outra coisa. Livres, sem pesados grilhões, sem laços de um amor material, e até sem as mais leves barreiras, como são as das teias de aranha. O espírito é como uma delicada borboleta, fechada ainda dentro do pesado casulo da carne, que pode tornar-lhe pesado o vôo, ou refreá-lo completamente, até por uma irisdescente e impalpável teia de aranha: a aranha da sensibilidade, da falta de generosidade no sacrifício. Eu quero tudo, sem reservas. o espírito precisa dessa liberdade de dar, dessa generosidade de dar, para poder estar certo de que não está embaraçado pela teia de aranha das intenções, dos hábitos, das reflexões, dos medos, estendida, com numerosos fios por aquela aranha monstruosa, que é satanás, ladrão de almas.
Se alguém quer vir a Mim, e não odeia santamente a seu pai, à sua mãe, à sua mulher, aos seus filhos, aos seus irmãos e irmãs, e até à sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Eu disse: “não odeia santamente.” Vós em vosso coração estais dizendo: “O ódio, que Ele assim está ensinando, nunca é santo. Portanto, Ele está em contradição.” Não. Eu não me contradigo. Eu mando odiar o pesadume do amor, isto é, o lado apaixonado e carnal do amor ao pai e à mãe, à esposa e aos filhos, aos irmãos e irmãs e à própria vida, mas antes Eu ordeno que se ame, com a liberdade que não pesa, e que é própria dos espíritos, aos parentes e à vida. Amai-os em Deus e por Deus, não pondo a Deus em segundo lugar, depois deles, mas ocupai-vos e preocupai-vos em levá-los até onde o discípulo chegou, isto é, a Deus Verdade. Assim amareis santamente aos parentes a à vida, e conciliareis os dois amores, e fareis liames de sangue, que não são pesos, mas são asas, não são culpa, mas justiça.
Até a vossa vida deveis estar prontos a odiar para acompanhar-me. Odeia sua vida aquele que, sem medo de perdê-la, nem de torná-la humanamente triste, a põe a meu serviço. Mas isso não é mais do que uma aparência de ódio. É um sentimento erroneamente chamado “ódio” pelo pensamento do homem, que não sabe elevar-se, do homem todo terreno, pouca coisa superior aos brutos. Na realidade, esse ódio aparente, que consiste em dizer não às satisfações sensuais da existência para dar sempre mais vasta vida ao espírito, é Amor. Amor é o mais alto que existe, o mais abençoado. Isto de negar a si mesmo as baixas satisfações, isto de interditar a si a sensualidade dos afetos, isto de sair à procura de censuras e comentários injustos, isto de correr o risco de punições, repúdios, maldições, talvez até de perseguições, é uma sequência de sofrimentos. Mas é necessário abraçá-los e tomá-los sobre nós como uma cruz, um patíbulo sobre o qual se expiam todas as culpas passadas, a fim de irmos justificados para Deus, do qual se obtém toda graça verdadeira, poderosa, a santa graça de Deus para todos aqueles que nós amamos. Quem não leva a sua cruz, e não vem com ela atrás de Mim, quem não sabe fazer isso, não pode ser meu discípulo
281.7Pensai, pois, muito nisso, vós que dizeis: “Nós viemos porque queremos unir-nos aos teus discípulos.” Não é vergonha, mas uma sabedoria, saber cada um pesar-se a si mesmo, julgar-se, e confessar a si mesmo e aos outros: “Eu não tenho qualidades para ser discípulo” Por que não? Os pagãos têm como base dos seus ensinamentos a necessidade de “conhecerem-se a si mesmos”, e vós, israelitas, não saberíeis fazer isso para conquistardes o Céu?
Porque, lembrai-vos bem disso, felizes aqueles que virão a Mim. Mas, melhor do que vir, para depois trair a Mim e Aquele que me enviou, melhor é não vir mesmo, e permanecerem como filhos da Lei, como até agora fostes. Ai daqueles que, tendo dito “Eu venho”, causam dano depois ao Cristo, sendo uns traidores do ideal cristão, escandalizando os pequenos, os bons! Ai deles! E, no entanto, haverá desses, e haverá sempre.
Imitai, pois aquele que quer edificar uma torre. Antes, ele calcula, atentamente, a despesa que terá, e faz as contas do dinheiro que tem, para ver se tem com que levá-la a termo, a fim de que, tendo terminado os fundamentos, não possa levantar a obra, por não ter mais dinheiro. Nesse caso, ele perderia também o que tinha antes, ficando sem a torre e sem seu dinheiro e, em troca disso, receberia as zombarias do povo, que diria: “Esse aí começou a construir, e não pôde acabar. Agora ele pode encher seu estômago com as ruínas de sua obra inacabada.”
Imitai também os reis da terra, fazendo que os pobres acontecimentos do mundo sirvam de ensinamento sobrenatural. Eles, quando querem mover uma guerra contra outro rei, examinam antes, com calma e atenção, todas as circunstancias pró e contra, meditam se as vantagens da conquista valem mesmo o sacrifício das vidas dos súditos, estudam se vai ser possível conquistar aquele lugar, se o seu exército que é só a metade do exército do seu rival, ainda que mais preparado para o combate, será, ou não, capaz de vencer. E, justamente pensando se dez mil vão ser capazes de vencer vinte mil, antes que se trave o primeiro combate, manda ao encontro do seu rival uma embaixada com ricos presentes, e, aplacando o seu rival, que já havia suspeitado de alguma coisa, ao ver aquelas mobilizações das tropas feitas pelo outro, o desarmam, com provas de amizade, anulam as suspeitas e fazem com ele um tratado de paz, na verdade sempre muito mais vantajoso, tanto humana, como espiritualmente, do que uma guerra.
Assim deveis fazer vós, antes de começardes a nova vida, e pôr-vos em marcha contra o mundo. Porque isto é que é ser meus discípulos: ir contra a turbulenta e violenta corrente do mundo, da carne, de satanás. E, se não sentis em vós mesmos a coragem de renunciar a tudo por meu amor, não venhais a Mim, porque não podeis ser meus discípulos.
281.8– Está bem. Isto que Tu dizes é verdade –admite um escriba, que entrou no meio do grupo–. Mas, se nos despojarmos de tudo, com que é que te serviremos depois? A Lei tem mandamentos, que são como umas moedas, que Deus dá ao homem, para que ele, usando delas, com elas possa comprar a vida eterna. Mas Tu dizes: “Renunciai a tudo”, e te referes ao pai, à mãe, às riquezas, às honras. Deus, com efeito, deu estas coisas e nos disse, pela boca de Moisés, que as usássemos com santidade, para aparecermos justos aos olhos de Deus. E Tu, se nos tiras tudo isso, que nos dás?
– O verdadeiro amor, como Eu disse, ó rabi. Eu vos dou minha doutrina, que não tira da antiga Lei nem um jota, mas, ao contrário, a aperfeiçoa.
– Nesse caso, todos somos igualmente discípulos, porque todos possuímos as mesmas coisas.
– Todos as temos, segundo a Lei de Moisés. Mas não todos, segundo a lei aperfeiçoada por Mim, segundo o Amor. Pois nem todos conseguem, segundo ela, a mesma soma de merecimentos. Também entre os meus próprios discípulos nem todos conseguem ter uma soma de merecimentos em medida igual, e algum entre eles, não só não terá tal soma, mas acabará perdendo até a sua última moeda, que é a sua alma.
– Como? A quem mais é dado, mais sobrará, os teus discípulos e, melhor ainda, os teus apóstolos Te seguem em tua missão, e estão a par de teus modos, receberam em grande abundância, receberam muito os discípulos efetivos, receberam menos os que são discípulos só de nome, e nada receberam os que, como eu, não te ouvem, a não ser por acaso. É claro que muitíssimo receberão no Céu os apóstolos, muito os discípulos, menos os discípulos só de nome, e nada os que são como eu.
– Humanamente, é claro, e mal, também humanamente. Porque nem todos são capazes de fazer frutificar os bens que receberam. Escuta esta parábola, e perdoa, se aqui fico ensinando por um tempo demasiado longo. Mas Eu sou uma andorinha de passagem, e não paro, senão por pouco tempo, na casa do Pai, tendo vindo para o mundo todo, e não querendo, este pequeno mundo, que é o Templo de Jerusalém, permitir que Eu recolha o véu e permaneça lá onde a glória do Senhor me está chamando.
– Por que dizes isto?
– Porque é verdade.
O escriba olha ao redor de si, e inclina a cabeça. Que seja verdade, ele o vê escrito em muitíssimos rostos de sinedritas, rabis e fariseus, que foram chegando e aumentando a aglomeração ao redor de Jesus. Há rostos esverdeados pela bílis, ou avermelhados pela ira, olhares que valem por palavras de maldição e por cusparadas de veneno, rancor que fermenta de todo lado, desejo de ultrajar o Cristo, mas que fica só no desejo, por medo dos muitos que estão ao redor do Mestre com devoção, e que estão prontos a fazer tudo para defendê-lo, e por medo também do castigo por parte de Roma, que trata com benignidade o manso Mestre galileu.
281.9Jesus continua, calmo, a expor, com a parábola, o seu pensamento:
– Um homem, estando para fazer uma longa viagem e ficar ausente por muito tempo, chamou todos os seus servos, e pôs nas mãos deles todos os seus bens. A um entregou cinco talentos de prata, a outro dois de prata e a um somente um talento de ouro. A cada um conforme a sua posição e sua habilidade. Depois partiu.
Ora, o servo, que tinha recebido cinco talentos de prata, saiu dali, e foi negociar de modo inteligente os seus talentos, de tal modo que, em pouco tempo, eles lhe renderam outros cinco. O que havia recebido dois talentos de prata fez o mesmo, e dobrou a soma recebida. Mas aquele a quem o patrão mais havia dado, um talento de ouro puro, tomado pelo medo de não saber administrar, pelo medo dos ladrões e de mil outras coisas, que sua fantasia criava, mas sobretudo por sua preguiça, fez um buraco bem fundo no chão, e lá escondeu o dinheiro do seu patrão.
Passados muitos e muitos meses, o patrão voltou. Mandou chamar logo os seus servos, para que entregassem o dinheiro recebido.
Chegou primeiro aquele que havia recebido cinco talentos de prata, e disse: “Aqui estão, meu senhor. Tu me deste cinco. E eu, achando que não ficaria bem deixar de fazer que tudo o que me deste produzisse fruto, pus-me a trabalhar, e te consegui outros cinco talentos. Mais do que isso não pude fazer…” “Bem. Muito bem, servo bom e fiel. Foste fiel no pouco, forte, corajoso e honesto. Eu te darei agora autoridade sobre muito. Vem participar da alegria do teu senhor.”
Depois, veio o outro, o dos dois talentos, e disse: “Eu tomei a liberdade de usar dos teus bens para tua vantagem. Aqui estão as contas que te farão ver como usei o teu dinheiro. Estás vendo? Eram dois talentos de prata. Agora, são quatro. Estás contente, meu senhor?” E o patrão deu àquele servo bom a mesma resposta que deu ao primeiro servo.
Veio por último aquele em quem o patrão depositou a maior confiança, e que dele havia recebido o talento de ouro. Ele o tirou de onde o tinha guardado, dizendo: “tu me confiaste o maior valor, porque sabes que eu sou prudente e fiel, assim como eu também sei que és intransigente e exigente, que não toleras perdas em teu dinheiro, mas que, se te acontece um mau negócio, logo queres recuperar o que perdeste nas costas do primeiro que aparecer, pois em verdade gostas de fazer colheitas onde não semeaste, e recolhes onde não espalhaste, e não perdoas um centavo ao teu banqueiro, ou ao teu feitor, por nenhum motivo. O dinheiro há de ser tanto, como tu dizes. Por isso, eu, com medo de diminuir este tesouro que recebi, fui escondê-lo. Não confiei em ninguém, nem em mim mesmo. Agora, eu o desenterrei, e te entrego. Aqui está o teu talento.”
“Servo mau e preguiçoso! Na verdade, não me tiveste amor, porque não me conheceste bem e não zelaste pelo meu bem-estar, pois deixaste improdutivo o talento. Tu traíste a estima que eu havia posto em ti, e te desmentes a ti mesmo, te acusas e te condenas. Tu, que sabias que eu colho onde não semeei, e recolho onde nada espalhei, por que, então, nada fizeste para que eu pudesse ceifar e colher? Foi assim que correspondeste à minha confiança? É assim que dizes conhecer-me? Por que não levaste o dinheiro aos banqueiros, e eu o teria de volta, retirado com juros? Sobre isto, com um cuidado especial eu te havia chamado a atenção, e tu, estulto, preguiçoso, não fizeste caso da minha observação. Que te seja, pois, tomado o talento e todos os outros bens, e que ele seja dado ao que recebeu os dez talentos.”
“Mas aquele já recebeu dez, enquanto que este vai ficar sem nada…, lhe disseram.”
“É isso mesmo. A quem já tem, e também porque ele trabalha, será dado ainda mais, até que ele possua em grande abundância. Mas a quem nada tem, porque não quis ter, ser-lhe-á tirado o que ele recebeu. E, quanto a este servo inútil, que traiu a minha confiança, e deixou improdutivos os meus dons, jogai-o para fora de minha propriedade, e que ele se vá chorando, e roendo-se em seu coração.”
Esta é a parábola. Como estás vendo, ó rabi, a quem mais tinha, menos sobrou, porque não soube merecer e conservar o dom de Deus. Pois foi dito que um daqueles, que tu chamas discípulos só de nome, e que têm por isso bem pouca coisa para negociar, e, do mesmo modo, entre os que me ouvindo apenas por acaso, como tu dizes, e, tendo como única moeda a sua alma, não cheguem a ter o talento de ouro, e os juros do mesmo também, que será tirado de um dos que mais receberam. Infinitas são as surpresas do Senhor, porque infinitas são as reações do homem. Vereis pagãos que chegarão à vida eterna, e samaritanos que possuirão o Céu, e vereis israelitas e seguidores meus perderem o Céu e a Vida eterna.
281.10Jesus se cala, e, como se quisesse acabar com toda a discussão, Ele se vira para o muro do Templo. Mas um doutor da Lei, que se havia sentado para ouvir com atenção, estando por baixo da série de pórticos, levantou-se e foi diante dele, perguntando-lhe:
– Mestre, que devo fazer para conseguir a vida eterna? Tu respondeste já a outros. Responde a mim também.
– Por que queres me tentar? Por que é que queres mentir? Estás esperando que Eu diga alguma coisa diferente da Lei, porque Eu acrescento a ela alguns conceitos mais luminosos e perfeitos? Que está escrito na Lei? Responde-me: Nela, qual é o mandamento principal?
– “Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças, com toda a tua inteligência. Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.”
– Aí está. Respondeste bem. Faze isso e terás a vida eterna.
– E quem é o meu próximo? O mundo está cheio de gente boa e má, conhecida e desconhecida, amiga ou inimiga de Israel. Qual é o meu próximo?
– Um homem ia descendo de Jerusalém para Jericó, pelas gargantas das montanhas, e caiu nas mãos dos ladrões que, depois de o terem ferido, o despojaram de tudo o que ele tinha, e até de suas vestes, deixando-o mais morto que vivo, à beira da estrada.
Pelo mesmo caminho passou depois um sacerdote, que havia terminado o seu turno no Templo. Oh! Ele vinha ainda perfumado com os incensos do Santo! E teria devido ter também uma alma perfumada de bondade sobrenatural e de amor, tendo estado na Casa de Deus, quase em contato com o Altíssimo. O sacerdote estava com pressa de chegar à sua casa. Olhou, por isso, para o ferido, mas não parou. Assim ele passou apressado, deixando o infeliz à margem da estrada.
Passou um levita. Iria contaminar-se, logo ele que tinha que servir no Templo? Nunca! Sungou sua veste, para não ficar suja de sangue, lançou um olhar de relance sobre aquele que estava gemendo e sangrando e apressou seus passos em direção do Templo.
Um terceiro, vinha da Samaria, e se dirigia para o vau. Ele era um samaritano. Viu o sangue, parou, descobriu o ferido, quando o crepúsculo já estava chegando ao fim, apeou-se do seu jumento, aproximou-se do ferido, reanimou-o com um bom gole de vinho, rasgou o próprio manto, para fazer dele faixas, e, tendo lavado e untado as feridas, primeiro usando o vinagre, e depois o azeite, ele o enfaixou com amor e, tendo colocado o ferido sobre o jumento, foi guiando o animal com cuidado, consolando, ao mesmo tempo ao ferido com boas palavras, sem preocupar-se por estar cansado, nem desprezando-o por ser ele de nacionalidade judaica. Tendo chegado à cidade, levou-o até um albergue, passou ao lado dele a noite inteira, e, ao romper do dia, vendo que ele havia melhorado, o recomendou ao albergador, pagando-lhe antecipadamente com alguns denários, e dizendo-lhe; “Toma cuidado dele, como se o fizesses a mim próprio. Na minha volta, tudo o que tiveres gasto com ele eu to pagarei, e bem pago, se o tiveres feito bem.” E lá se foi.
– Doutor da Lei, responde-me: Qual daqueles três foi o “próximo” para o que caiu nas mãos dos ladrões? Terá sido o sacerdote? Terá sido o levita? Oh! Não. Ou não foi o samaritano, que nem perguntou quem era o ferido, nem por que é que estava ferido, nem ficou pensando se fazia mal em socorrê-lo, perdendo o seu tempo e o dinheiro, nem se estava se arriscando a que alguém o acusasse de ter ferido o homem?
O Doutor da Lei respondeu:
– O “próximo” foi este último, porque teve misericórdia.
– E faze tu também de modo semelhante, e estarás amando o próximo, e a Deus no próximo, e merecerás a vida eterna.
281.11Ninguém mais ousa falar, e Jesus se aproveita disso para reunir as mulheres, que estavam esperando perto do muro, a fim de com elas ir novamente para a cidade. Agora aos discípulos ajuntaram-se dois sacerdotes, ou melhor, um sacerdote e um levita, muito jovem este último, e de um ar patriarcal o outro.
Mas Jesus agora está falando com a Mãe, tendo no meio, entre Ele e Ela, Marziam. E Ele pergunta a Maria:
– Tu me ouviste, Mãe?
– Sim, meu Filho, e à tristeza de Maria de Cleófas ajuntou-se a minha. Ela chorou, pouco antes de entrar no Templo…
– Eu sei, Mãe. Eu sei também o motivo disso. Mas ela não deve chorar. Só deve rezar.
– Oh! Ela reza tanto! Nestas tardes, debaixo de sua cabana, por entre os filhos que estavam dormindo, ela rezava e chorava. Eu a ouvia chorar, através da parede pouco espessa feita com ramagens. Ter que ver, a poucos passos José e Simão, vizinhos um do outro, mas tão separados!… E ela não é a única a chorar. Comigo chorou Joana, que te parece tão serena…
– Por quê, Mãe?
– Porque Cusa… Está com uma conduta… inexplicável. Um pouco, ele a ajuda em tudo. E um pouco ele a rejeita em tudo. Quando estão sozinhos, onde ninguém os vê, é o marido exemplar de sempre. Mas, se com eles estiverem outras pessoas da Corte, o que é normal, ele se torna autoritário e indiferente para com sua mansa esposa. Ela não compreende o porquê.
– Eu te vou dizer. Cusa é servo de Herodes. Compreende-me, Mãe. Ele é “servo.” Eu não digo isso à Joana, para não aumentar sua dor. Mas assim é. Quando ele não teme a repreensão ou a decisão do soberano, ele é Cusa, o bom. Mas, quando ele pode temer aquelas coisas, já não é como era.
– Será porque Herodes está muito irritado por causa de Manaém e…
– É porque Herodes está louco pelo remorso tardio de ter cedido a Herodíades. Mas Joana já tem tanto bem em sua vida. Agora, ela deve trazer, por debaixo do seu diadema, o cilício.
– Anália também está chorando…
– Por quê?
– Porque o esposo dela toma partido contra Ti.
– Que ela não chore. Dize isto a ela. O que Eu digo é uma decisão. É uma bondade de Deus. O sacrifício dela trará de novo Samuel para o bem. Por enquanto, isto a deixará livre das pressões do matrimônio. Eu lhe prometi tomá-la comigo. Ela me precederia na morte…
– Meu Filho!
Maria aperta a mão de Jesus, com um rosto que fica muito pálido.
– Mãe querida! É pelos homens. Tu o sabes. É por amor dos homens. Bebamos o nosso cálice de boa vontade. Não é verdade?
Maria engole as lágrimas, e responde:
– Sim.
Um “sim” dilacerado e muito dilacerante.
281.12Marziam levanta o seu rostinho, e diz a Jesus:
– Por que dizes estas coisas feias que causam dor à Mamãe? Eu não te deixarei morrer. Como defendi os cordeirinhos, assim Te defenderei.
Jesus o acaricia e, para elevar o moral dos dois aflitos, pergunta ao menino:
– Que estarão fazendo agora as tuas ovelhinhas? Não estás com saudade delas?
– Oh! Eu estou contigo. Mas eu sempre penso nelas, e pergunto a mim mesmo: “Será que Porfíria as levou a pastar? E terá tomado cuidado para que o Espuma não vá para o lago?” O Espuma é muito esperto, sabes? A mãe dele o chama, chama… Mas, nada. Ele faz o que quer. E a Neve, tão gulosa, que come até ficar doente? Sabes, Mestre? Eu compreendo o que é ser sacerdote em teu Nome. Eu o compreendo melhor do que os outros. Eles (e acena com a mão para os apóstolos que vem vindo atrás) dizem tantas bravatas… fazem tantos projetos… para depois. Eu digo: “irei ser pastor. Como para as ovelhinhas, eu o serei para os homens. E isso bastará.” A minha e tua Mamãe me falou ontem de um ponto tão bonito dos profetas… e me disse: “É exatamente assim o nosso Jesus.” E eu, em meu coração, disse: “E eu também serei exatamente assim.” Depois, eu disse à nossa Mamãe: “Por enquanto, eu sou um cordeirinho, mas depois serei pastor. Jesus, ao contrário, agora é Pastor, e depois é também Cordeiro. Mas tu és sempre a Cordeira, somente a nossa Cordeira, branca, bela, querida, que tem palavras mais doces que o leite. É por isso que Jesus é apenas Cordeiro, porque nasceu de ti, Cordeirinha do Senhor…”
Jesus se inclina, e o beija com carinho. Depois, pergunta:
– Tu, então, queres mesmo ser sacerdote?
– Certamente, meu Senhor! Para isso procuro tornar-me bom e saber muito. Vou sempre a João de Endor. Ele me trata sempre como homem, e com muita bondade. Eu quero ser pastor das ovelhas desviadas, e médico-pastor das feridas e machucadas, como diz1 o Profeta. Oh! Que beleza! –e o menino dá um salto, batendo as mãos.
– Que viu este tisiu, para estar assim tão alegre? pergunta Pedro, indo para a frente.
– Ele está vendo o seu caminho. Com toda a clareza. Até o fim. E Eu consagro essa sua visão com o meu “sim.”
281.13Param diante de uma casa alta que, se não me engano, fica perto do subúrbio de Ofel, mas em um lugar mais nobre.
– Vamos parar aqui?
– Esta é a casa que Lázaro me ofereceu para o banquete da alegria. Maria já está aqui.
– Por que ela não veio conosco? Teria ficado com medo das zombarias?
– Oh! Não. Eu apenas lhe dei esta ordem.
– Por quê, Senhor?
– Porque o Templo é mais susceptível do que uma esposa grávida. Enquanto Eu puder, e não por covardia, não quero provocá-lo.
– Isso não te adiantará nada, Mestre. Eu, se estivesse em teu lugar, o provocaria. E o derrubaria do Monte Mória, com todos os que estão dentro dele.
– Tu és um pecador, Simão. É preciso rezar por nossos semelhantes, e não matá-los.
– Eu sou pecador. Mas Tu, não… e deverias fazê-lo.
– Haverá quem o faça. Depois que a medida do pecado for atingida.
– Que medida?
– Uma medida tão grande, que encherá o Templo todo, transbordando para Jerusalém. Tu não podes entender… Oh! Marta! Abre então, para o Peregrino a tua casa!
Marta se apresenta e faz abrir. Entram todos para um longo átrio, que termina em um pátio calcetado, que tem quatro árvores, uma em cada canto. Uma vasta sala se abre no meio do terreno, e pelas janelas abertas se vê toda a cidade, com seus sobe-desces. Concluo daí que a casa esteja sobre as encostas do sul ou do sudeste da cidade. A sala está preparada para muitos, muitos hóspedes. Mesas e mais mesas estão colocadas, umas paralelas às outras. Uma centena de pessoas pode aí comodamente tomar refeição. Chega Maria Madalena, que estava noutro lugar, ocupada nas preparações, e se prostra diante de Jesus. Chega também Lázaro, com um sorriso de contentamento em seu rosto doentio. Pouco a pouco vão entrando os hóspedes, alguns um pouco acanhados, outros mais desembaraçados. Mas a gentileza das mulheres faz que todos se sintam à vontade.
281.14O sacerdote João apresenta a Jesus os dois que ele trouxe do Templo.
– Mestre, meu bom amigo Jônatas e meu jovem amigo Zacarias. São verdadeiros israelitas sem malícia e sem ódio.
– A paz esteja convosco. Sinto-me alegre por ter-vos aqui. O rito há de ser observado também nestes encontros familiares. É bonito ver a Fé antiga dar sua mão amiga à nova Fé, que vem do mesmo tronco que ela. Sentai-vos a meu lado, enquanto não chega a hora da refeição.
Toma a palavra o patriarcal Jônatas, enquanto o jovem levita olha para cá para lá, espantado, e talvez também atemorizado. Penso que ele queira tomar um ar de desenvoltura, mas na verdade ele se está sentindo como um peixe fora d’água. Por sorte, Estêvão vem em seu socorro, e lhe apresenta, um depois do outro, os apóstolos e discípulos principais.
O velho sacerdote, cofiando a barba de neve, diz:
– Quando João veio a mim, precisamente a mim, seu mestre, para mostrar-me a sua cura, eu tive vontade de conhecer-te. Mas, Mestre, eu quase não saio mais do meu recinto. Já estou velho… Mas eu esperava ver-te, antes de morrer. E Javé me ouviu. Louvor a Ele seja dado! Hoje eu te ouvi no Templo. Tu superas Hilel, o velho, o sábio. Eu não quero, ou melhor, não posso duvidar de que Tu sejas aquilo que o meu coração vem esperando. Mas Tu sabes o que é ter bebido por quase oitenta anos a fé de Israel, como ela se tornou durante séculos de… um testemunho humano? Ela se fez nosso sangue. Eu já estou velho assim! Ouvir-te é como ouvir a água, que sai de uma fonte fresca. Oh! Sim! Uma água virgem. Mas eu… mas eu estou saciado da água cansada, que vem de tão longe… que se torna uma água pesada, contendo tanta coisas. Como é que farei para sair desta saturação, para poder gostar de Ti?
– Crer em Mim e me amar. Não é preciso nada mais para o justo Jônatas.
– Mas em breve eu morrerei. Estarei ainda em tempo de crer em tudo aquilo que dizes? Não conseguirei mais nem acompanhar todas as tuas palavras, nem a conhecê-las por boca de outros. E, então?
– Tu as aprenderás no Céu. Só morre para a Sabedoria o condenado… Mas quem morre na graça de Deus chega à Vida, e vive na Sabedoria. Que crês tu que Eu seja?
– Não podes ser senão o Esperado, do qual foi precursor o filho do meu amigo Zacarias. Tu o conheceste?
– Era meu parente.
– Oh! Então, Tu és parente do Batista?
– Sim, sacerdote.
– Ele morreu… e não posso chamá-lo de infeliz, porque morreu fiel à justiça, depois de haver cumprido sua missão, e porque…Oh! Que tempos atrozes estes em que vivemos! Não será melhor voltarmos aos de Abraão?
– Sim. Mais atrozes ainda virão, sacerdote.
– Tu o dizes? Estás referindo-te a Roma, não?
– Não somente a Roma. Israel culpado será disso a primeira causa.
– É verdade. Deus nos está castigando. Nós o merecemos. Contudo, também Roma… 281.15Ouviste falar dos galileus mortos por Pilatos, enquanto estavam consumando um sacrifício? O sangue deles misturou-se com o sangue da vítima. E até perto do altar! Até perto do altar!
– Eu ouvi falar.
Todos os galileus estão fazendo tumulto por causa desse abuso. Eles estão gritando:
– É verdade que ele era um falso Messias. Mas, por que matar os seus seguidores, depois de já o terem matado? E, por que naquela hora? Eram eles, por acaso, mais pecadores?
Jesus restabelece a paz, e depois diz:
– Vós nos perguntais se eram mais pecadores aqueles, do que muitos outros galileus, e se é por isso que eles foram mortos? Não. Eles não eram. Em verdade, Eu vos digo que eles pagaram, e que muitos outros pagarão, se não vos converterdes ao Senhor. Se todos não fizerdes penitência, morrereis todos do mesmo modo, na Galileia e em outros lugares. Deus está sendo odiado pelo seu povo. Eu vo-lo digo. Não é necessário crer que os que morreram tenham sido sempre os piores. Cada um examine-se a si mesmo, julgue-se a si mesmo, e não ao outro. Também aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, não eram os mais culpados em Jerusalém. Eu vo-lo digo. Fazei, fazei penitência, se não quereis ser esmagados como eles, e também em vosso espírito. 281.16Vem, sacerdote de Israel. A mesa está posta a ti, porque o sacerdote é sempre o que há de ser honrado, por causa da Ideia que ele representa e evoca, cabe a ti, que és o patriarca entre nós, que somos todos mais jovens, oferecer e abençoar.
– Não, Mestre! Não. Diante de Ti, não posso. Tu és o Filho de Deus!
– Contudo, ofereces o incenso diante do altar. E, por acaso, não crês que lá está Deus?
– Sim, que eu o creio! Com todas as minhas forças!
– E, então? Se não tremes ao ofereceres o incenso, diante da Glória Santíssima do Altíssimo, por que quererás tremer, diante da Misericórdia, que veio vestir-se de carne, para trazer também a ti a bênção de Deus, antes que chegue a noite? Oh! Vós de Israel não sabeis que justamente para que o homem possa aproximar-se de Deus sem morrer, Eu coloquei sobre a minha Divindade insuportável o véu da carne. Vem e crê e sê feliz. Em ti Eu venero todos os sacerdotes santos, desde Aarão, até o último que for sacerdote de Israel com justiça, até a ti, talvez, porque em verdade, a santidade sacerdotal está enlanguescendo entre nós, como uma planta desamparada.
1 diz, em Ezequiel 34,16.
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