119. 119. Os discursos de Águas Belas: Eu souo Senhor teu Deus. Jesus batiza como João.
27 de fevereiro de 1945.
119.1 O número de pessoas é, pelo menos, o dobro de ontem. Há também as que pertenciam a classes menos populares. Alguns vieram montados em burrinhos, e estão agora tomando sua refeição debaixo do telheiro, depois de terem amarrado seus animais nas estacas, à espera do Mestre.
O dia está frio, mas sereno. As pessoas conversam entre si e os mais instruídos explicam quem e o Mestre porque fala naquele lugar.
Alguém pergunta:
– Mas Ele é maior do que João?
– Não. Ele é diferente. Eu era de João, que é o Precursor, e é a voz da justiça. Este é o Messias, e é a voz da sabedoria e da Misericórdia.
– Como é que sabes disto? –perguntam-lhe muitos.
– Assim me disseram três dos discípulos, que sempre estiveram com o Batista. Se soubésseis ! Eles o viram nascer. Pensem, que Ele nasceu da luz. Era uma luz tão forte, que eles, que eram pastores, tiveram que sair do ovil, entre os animais aterrorizados, e viram que Belém inteira estava em fogo e depois, do céu vieram uns anjos que, com suas asas, apagaram o fogo, e na terra estava Ele, o Menino nascido da luz. E aquele fogo todo transformou-se em uma estrela…
– Não diga, não acredito!
– Sim, foi assim. Foi o que me disse alguém que trabalhava na estrebaria em Belém, quando eu era menino. Ele se gaba de poder contar isso, agora, que o Messias é homem.
– Não é assim. A estrela veio depois, veio com aqueles magos do oriente, dos quais um era parente de Salomão e, portanto, do Messias, porque o Messias é descendente de Davi. E Davi é o pai de Salomão, e Salomão amou a rainha de Sabá, porque era bonita e pelos presentes que lhe levou, e dela teve um filho, que é de Judá, apesar de ser de além Nilo.
– Mas, que é que estás dizendo? Estás doido?
– Não. Queres dizer que não é verdade que o parente lhe trouxe os aromas, como é o costume entre os reis daquela linhagem?
– Eu sei que é verdade –diz um outro–. Foi assim, porque Isaque é um dos pastores e é meu amigo. Pois bem, o Menino nasceu em uma estrebaria da casa de Davi. Era a profecia…
– Mas Ele não é de Nazaré?
– Deixai-me falar. Nasceu em Belém, porque era descendente de Davi, e foi no tempo do edito. Os pastores viram uma luz, que mais bela não há, e o menor deles, porque era um inocente, foi o primeiro a ver o anjo do Senhor que falou com uma música de harpa, dizendo: “Nasceu o Salvador. Ide e adorai”, e depois anjos e anjos cantaram: “Glória a Deus e paz aos homens bons.” E os pastores foram e viram o pequenino, em uma manjedoura, entre um boi e um asno, e a Mãe e o pai. E o adoraram, e depois o levaram para a casa de uma boa mulher. O Menino crescia como todos, bonito, bom, um amor de menino. Depois, os magos vieram de além do Eufrates e de além do Nilo, porque tinham visto uma estrela e reconhecido nela a estrela de Balaão. Mas o Menino já era capaz de caminhar. E o rei Herodes ordenou o extermínio, por ciúme do reino. Mas o anjo do Senhor os tinha advertido do perigo, e os pequeninos de Belém morreram, mas não Ele, que havia fugido para Matarea. Depois, voltou a Nazaré para trabalhar como carpinteiro e, quando chegou o seu tempo, depois que o Batista, seu primo, o havia anunciado, iniciou sua missão, indo, antes, procurar os seus pastores. A Isaque Ele livrou da paralisia, depois de trinta anos de enfermidade. E Isaque não se cansa de apregoá-lo. Esta é a verdade.
– Mas os três discípulos do Batista disseram mesmo essas palavras! –disse o primeiro, mortificado.
– E elas são verdadeiras. O que não é verdade é a descrição feita pelo moço da estrebaria. Ainda se gaba disso? Faria bem em ir dizer aos belemitas que sejam bons. Nem em Belém nem em Jerusalém pode fazer pregação.
– Sim! Imagina se os escribas e fariseus vão querer ouvir as palavras dele! Eles são víboras e hienas, como lhes chama o Batista.
119.2 – Eu gostaria de ficar curado. Estás vendo? Estou com uma perna gangrenada. Quase morri para chegar até aqui no lombo de um burro. Mas o tinha procurado em Sião, e não estava mais lá… –diz um.
– É que o ameaçaram de morte… –responde outro.
– Cães!
– Sim. De onde é que estás vindo?
– De Lida.
– Fica longe!
– Eu… eu queria falar-lhe de um erro meu… Eu o disse ao Batista… mas tive que sair de lá, de tanto que me censurou. Acho que não posso mais ser perdoado… –diz ainda um outro.
– Que foi que fizeste de mal?
– Fiz muito mal. A Ele vou dizer. Que achais? Será que vai me amaldiçoar?
– Não. Eu o ouvi falar em Betsaida. Estava lá por acaso. Que palavras!! Estava falando de uma pecadora. Ah! Quase gostaria de ser ela, para merecê-las!!! –diz um velho imponente.
119.3 – Eis que vem vindo –gritam vária vozes.
– Misericórdia! Estou envergonhado! –diz o culpado, e faz como quem quer fugir.
– Para onde queres fugir, meu filho? Estarás com o coração tão escuro, para teres ódio da Luz, a ponto de quereres fugir dela? Terás pecado tanto, para ter medo de Mim: o Perdão? Mas que pecado terás cometido? Nem mesmo se tivesses matado a Deus, precisarias temer, desde que tivesses em ti um verdadeiro arrependimento. Não chores! Ou melhor, vem aqui, vamos chorar juntos.
Jesus que, tendo levantado uma mão, impôs ao fugitivo uma parada, agora o conserva abraçado a si, e depois se vira para quem o está esperando, e diz:
– Só um momento, para reerguer este coração. E depois irei a vós.
Ele se afasta para além da casa, esbarrando, ao dobrar o canto, contra a mulher velada, que lá estava em seu lugar de escuta. Jesus a olha fixamente, por um momento, depois dá ainda uns dez passos e para:
– Que foi que fizeste filho?
O homem cai de joelhos. É um homem dos seus cinquenta anos. Um rosto queimado por muitas paixões, e devastado por um tormento secreto. Ele estende os braços e grita:
– Para gozar com as mulheres toda a herança paterna, matei minha mãe e meu irmão… Não tive mais paz… A minha comida… sangue! O meu sono… pesadelos! O meu prazer… Ah! no seio das mulheres, no grito de luxúria delas, eu sentia o gelo de minha mãe morta e os estertores de meu irmão envenenado. Malditas as mulheres dos prazeres, áspides, medusas, moreias insaciáveis, ruína, ruína, minha ruína!
– Não amaldiçoes. Eu não te amaldiçoo…
– Não me amaldiçoas?
– Não. Eu choro e tomo sobre Mim o teu pecado!! Como ele é pesado! Seu peso me quebra os membros. Mas Eu o abraço apertado para destruí-lo para ti… e a ti dou o perdão. Sim. Eu perdoo o teu grande pecado.
Jesus estende as mãos sobre a cabeça do homem, soluçante e reza:
– Pai, também para ele o meu Sangue será derramado. Por ora, eis o pranto e a oração. Pai, perdoa, pois ele está arrependido. O teu Filho, a cujo julgamento cada coisa foi entregue, assim o quer!!!
Fica assim por alguns minutos ainda, depois se inclina, levanta o homem e lhe diz:
– Tua culpa está perdoada. A ti agora cabe expiar, com uma vida de penitência, tudo o que resta do teu delito.
– Deus me perdoou? E a mãe? E o irmão?
– O que Deus perdoa, por todos é perdoado. Vai e não peques mais.
O homem chora mais forte e lhe beija a mão. Jesus o deixa entregue ao seu pranto. Volta em direção à casa. A mulher do véu faz um movimento, como querendo ir-lhe ao encontro, mas depois inclina a cabeça e não se move. Jesus passa diante dela, sem olhá-la.
119.4 Chega ao seu lugar. Fala:
– Uma alma voltou ao Senhor. Seja bendita a sua onipotência, que arranca das espirais demoníacas as almas que Ele criou, e as leva para o caminho dos Céus. Por que aquela alma se perdera? Porque tinha perdido a Lei de vista.
Está dito1 no Livro que o Senhor se manifestou no Sinai em todo o seu terrível poder, para dizer: “Eu sou Deus. Esta é a minha vontade. E estes são os raios que Eu preparei para aqueles que forem rebeldes à vontade de Deus.” E, antes de falar, ordenou que ninguém do povo subisse para contemplar Aquele que é, e que também os sacerdotes se purificassem, antes de se aproximarem do limite marcado por Deus, para que não fossem fulminados. Isto porque era tempo de justiça e de prova. Os Céus estavam fechados, como por uma pedra, sobre o mistério do Céu e sobre a ira de Deus, e somente as lâminas da Justiça dardejavam do Céu, sobre os filhos culpados. Mas agora não. Agora o Justo chegou para consumar toda a justiça, e chegou o tempo, no qual, sem raios e sem limites, a Palavra divina fala ao homem, para dar-lhe Graça e Vida.
119.5 A primeira palavra do Pai e Senhor é esta: “Eu sou o Senhor teu Deus.”
Não existe um instante do dia em que esta palavra não soe, e não seja escrita pela voz e pelo dedo de Deus. Onde? Por toda parte. Tudo o proclama continuamente. Da erva à estrela, da água ao fogo, da lã ao alimento, da luz às trevas, da saúde à doença, da riqueza à pobreza. Tudo diz: “Eu sou o Senhor. Por Mim é que tens isto. Um pensamento meu é que te dá isto, um outro o tira de ti, e não há força de exércitos, nem de defesas que te possa preservar da minha vontade”. Grita na voz do vento, canta no riso das águas, perfuma na fragrância da flor, incide-se no dorso das montanhas e sussurra, fala, chama, grita nas consciências: “Eu sou o Senhor teu Deus.”
Não vos esqueçais disto nunca! Não fecheis os olhos, os ouvidos, não estranguleis a consciência, para não ouvirdes esta palavra. De tal modo ela é, que chega o momento em que ela é escrita pelo dedo de fogo de Deus sobre a parede da sala do banquete, ou sobre a onda agitada do mar, sobre os lábios sorridentes da criança ou sobre a lividez do velho que está morrendo, sobre a rosa fragrante ou sobre o fétido sepulcro. E assim chega o momento em que, entre a embriaguez do vinho e do prazer, entre o turbilhão dos negócios, ou no repouso da noite, ou em um passeio solitário, ela levanta a sua voz e diz: “Eu sou o Senhor teu Deus”, e não esta carne que estás beijando ávido, e não este alimento que com voracidade devoras, e não este ouro que avaramente acumulas, nem este leito sobre o qual ficas preguiçoso. E não adianta o silêncio, nem o estar sós, nem o estar dormindo, para fazê-la calar-se.
“Eu sou o Senhor teu Deus”, o Companheiro que não te abandona, o Hóspede que não podes expulsar. És bom? Eis que o Hóspede e Companheiro é um bom Amigo. És mau e culpado? Eis que o Hóspede e Companheiro se torna o Rei irado, e não te deixa em paz. Mas não te deixa, não deixa, não deixa. Só aos condenados é concedido que se separem de Deus. Mas a separação é um tormento insaciável e eterno.
119.6 “Eu sou o Senhor teu Deus”, e acrescenta: “que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão.” Oh! Que em verdade agora o diz com propriedade! De qual Egito, de que Egito Ela te tira, para levar-te para a Terra Prometida, que não é aqui neste lugar, mas no Céu! O Reino eterno do Senhor, no qual não haverá mais fome nem sede, nem frio nem morte, mas tudo destilará alegria e paz, e de paz e alegria ficarão saciados todos os espíritos.
Agora Ele vos tira da verdadeira escravidão. Eis o Libertador. Sou Eu. Venho para quebrar vossas correntes. Todo dominador humano um dia pode morrer deixando livres os povos escravizados. Mas satanás não morre. É eterno. E é o dominador, que vos colocou em grilhões, para arrastar-vos para onde ele quer. O Pecado está em vós. E o Pecado são as correntes com que satanás vos prende. Eu venho quebrar essas correntes. Em nome do Pai, Eu venho. E por desejo meu. Por isso, eis que se cumpre a incompreendida promessa: “Eu te tirei do Egito e da escravidão.”
Agora, isto está cumprindo espiritualmente. O Senhor vosso Deus vos tira da terra do ídolo, que seduziu os progenitores, arranca-vos da escravidão da culpa, reveste-vos de graça, admite-vos em seu Reino. Em verdade vos digo que aqueles que vierem a Mim, poderão, com a doçura da voz paterna, ouvir o Altíssimo dizer em seus felizes corações: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te atraio a Mim, livre e feliz.”
Vinde. Voltai o vosso coração e rosto, vossa oração e vontade para o Senhor. A hora da graça chegou.
119.7 Jesus terminou. Passa abençoando e acariciando uma velhinha e uma menina pequena, moreninha, toda sorridente.
– Cura-me, Mestre. Estou muito mal! –diz o doente da gangrena.
– Antes a alma, antes a alma. Faz penitência…
– Dá-me o batismo, como João. Não posso ir até ele. Estou doente.
– Vem.
Jesus desce em direção ao rio, que está dos prados e do bosque. Tira as sandálias, e o mesmo faz o homem que até lá tinha ido, arrastando-se com suas muletas. Descem à beira do rio e Jesus, fazendo concha com as duas mãos juntas, derrama a água sobre a cabeça do homem, que está dentro do rio, com a água batendo-lhe pelo meio das canelas.
– Agora, tira fora as faixas –manda Jesus, enquanto sobe de volta para o caminho.
O homem obedece. A perna está curada. A multidão grita de admiração.
– Eu também!
– Eu também!
– Também eu quero receber de Ti o batismo –gritam muitos.
Jesus, que já vai indo a meio caminho, se vira:
– Amanhã. Agora ide e sede bons. A paz esteja convosco.
Tudo termina e Jesus volta para casa, entra na cozinha que está escura, não obstante sejam ainda as primeiras horas da tarde.
119.8 Os discípulos se reúnem ao seu redor. E Pedro pergunta:
– Aquele homem que levaste para trás da casa, que é que tinha?
– Necessidade de purificação.
– Mas ele não voltou, nem estava aqui para pedir batismo.
– Ele foi onde Eu o mandei.
– Onde?
– À expiação, Pedro.
– Ao cárcere?
– Não. À penitência para o resto de sua vida.
– Então, ele não se purifica com a água?
– O pranto também é água.
– Isto é verdade. 119.9Agora que fizeste o milagre, quem sabe quantos virão!! Hoje já eram o dobro….
– Sim. Se Eu tivesse que fazer tudo, não poderia. Vós tereis que batizar. Primeiramente um de cada vez. Depois, sereis em dois, três, muitos. E Eu pregarei e curarei os doentes e os culpados.
– Nós iremos batizar? Oh! Eu não sou digno disso! Livra-me Senhor, dessa missão! Eu é que preciso ser batizado!
Pedro está de joelhos, suplicando.
Mas Jesus se inclina e diz:
– Exatamente tu é que vais batizar primeiro. A partir de amanhã.
– Não, Senhor! Como vou fazer, se estou mais preto do que aquela chaminé?
Jesus sorri da humilde sinceridade do apóstolo, que está de joelhos apoiando no Seu colo as suas grossas mãos de pescador. E depois o beija na fronte, no limite dos cabelos grisalhos e ásperos, que se encaracolam:
– Eis. Eu te batizo com um beijo. Estás contente?
– Iria fazer logo outro pecado para ganhar mais um!
– Isto não. Não se zomba de Deus, abusando dos seus dons!
– E a mim, não dás um beijo? Algum pecado eu também tenho –diz Iscariotes.
Jesus o olha fixamente. Seu olhar, tão mutável, passa da luz da alegria, que o tornava claro enquanto falava com Pedro, a uma profundidade severa, e diria, cansada, e diz:
– Sim… também a ti. Vem. Eu não faço injustiça com ninguém. Sê bom, Judas. Se tu quisesses!! És jovem. Tens uma vida inteira para subir sempre, até à perfeição da santidade…
E o beija.
– Agora tu, Simão, meu amigo. E tu, Mateus, minha vitória. E tu, sábio Bartolomeu. E tu, Filipe fiel. E tu, Tomé, de risonha vontade. Vem, André, que trabalhas em silêncio. E tu, Tiago, do primeiro encontro. E agora tu, a alegria do teu Mestre. E tu, Judas, meu companheiro de infância e de juventude. E tu, Tiago, que me fazes lembrar do Justo, no aspecto e no coração. Eis, todos, todos… Mas lembrai-vos de que o meu amor é muito, mas que é necessária também a vossa boa vontade. Amanhã dareis um passo avante em vossa vida de discípulos. Mas pensai que cada passo à frente é uma honra e um compromisso.
119.10 – Mestre… Um dia disseste2 a mim, a João, a Tiago e ao André que nos irias ensinar a rezar… Eu acho que, se nós rezássemos como Tu rezas, seríamos capazes de ser dignos do trabalho que estás querendo de nós –diz Pedro.
– E Eu também te respondi então: “Quando estiverdes bem formados, Eu vos ensinarei a oração sublime. Para deixar-vos a minha oração. Mas, mesmo essa será nada, se for dita só com a boca. Por enquanto, elevai-vos para Deus com a alma e a vontade.” A oração é um dom que Deus concede ao homem, e que o homem doa a Deus.
– Mas como? Não somos ainda dignos de rezar? Israel inteiro reza… –diz Iscariotes.
– Sim, Judas. Mas pelas obras de Israel, podes ver como ele reza. Eu não quero fazer de vós uns traidores. Quem reza com o exterior, mas em seu interior está contra o bem, é um traidor.
119.11 – E os milagres, quando é que no-los vais mandar fazer? –continua Judas a perguntar.
– Nós, nós fazermos milagres? Misericórdia eterna! Já é bom beber a água pura! Mas fazer milagres? Rapaz, estás delirando?
Pedro está escandalizado, espantado, fora de si.
– Foi Ele que disse3 a nós na Judeia. Por acaso, não é verdade?
– Sim. É verdade. Eu o disse. E vós o fareis. Mas, enquanto em vós houver carne demais, não tereis milagres.
– Nós jejuaremos –diz Iscariotes.
– Não adianta. Por carne Eu quero dizer as paixões corrompidas, a tríplice fome, e, atrás dessa pérfida trindade, o acompanhamento dos seus vícios… Semelhantes a filhos de uma união bígama e suja, a soberba da mente gera, com a avidez da carne e do poder, todo o mal que há no homem e no mundo.
– Por Ti, nós tudo deixamos –insiste Judas.
– Mas não deixastes a vós mesmos.
– Então, precisamos morrer? Contanto que estejamos Contigo, nós o faríamos. Eu, pelo menos…
– Não. Não peço a vossa morte material. Peço que morra em vós a animalidade e a satanicidade, e esta não morre, enquanto a carne for saciada, com a mentira, o orgulho, a ira, a soberba, a gula, a avareza e a preguiça estiverem em vós.
– Somos tão homens, perto de Ti, tão santo! –murmura Bartolomeu.
– E foi sempre santo assim. Nós o podemos dizer –afirma o primo Tiago.
– Ele sabe como somos… Nós não devemos nos sentir abatidos por isso. Somente dizer-lhe: Dá-nos cada dia a força de servir-te. Se nós disséssemos: “Somos sem pecado”, estaríamos enganados e enganando. Enganando a quem? A nós mesmos, que sabemos o que somos, ainda que não o queiramos dizer? A Deus, a quem não se engana? Mas, se dissermos: “Somos fracos e pecadores. Ajuda-nos com a tua força e o teu perdão”, Deus então não nos desiludirá, e em sua bondade e justiça, nos perdoará e purificará as iniquidades de nossos pobres corações.
– Feliz de ti, João. Pois a Verdade fala em teus lábios, que têm o perfume da inocência, e só beijam o adorável Amor –diz Jesus, levantando-se e atraindo sobre o seu coração o predileto, que falou lá do seu canto escuro.
1 Está dito, em Êxodo 19,10-25. Inicia aqui um série de discursos que ilustram o Decálogo, transmitido em: Êxodo 20,1-17; Deuteronômio 5,1-22. A leio dos 10 mandamentos é tratada ou citada outras vezes na obra, por exemplo em: 288.4 (como lei natural) – 293.5 – 329.10 – 335.9 – 397.1 – 414.9 – 452.7/11 – 453.6 – 455.15 – 471.7 – 472.6/7 – 476.8 – 486.8 – 493.4/5 – 534.7 – 565.4 – 576.6 – 592.12.18 – 600.26 – 604.7 – 632.38 – 635.17. No espírito do Decálogo estão o mandamento de amar a Deus (Deuteronômio 6,5) e o de amar o próximo (Levitíco 19,18), como em: 122.10 – 196.5 – 277.3 – 279.2 – 281.10 – 295.4 – 444.3 – 596.2.10.
2 um dia disseste... em 62.2; e repetirá a promessa em 149.3.
3 Foi Ele que disse, em 72.3.