449. 449. O pequeno Alfeu não amado pela mãe.
25 de junho de 1946.
449.1 – Apanhai provisões e roupas para muitos dias. Iremos a Hipo, e de lá a Gamala e Afeca, para descermos de lá a Guerguesa, e voltarmos para cá antes do sábado –ordena Jesus que está de pé na soleira da casa, acariciando distraidamente uns meninos de Cafarnaum, que vieram saudar ao seu grande Amigo, logo que o sol, ao pôr-se, já não está mais tão forte, e as pessoas podem sair de suas casas. Jesus é um dos primeiros a fazer isso na cidadezinha que está saindo do torpor asfixiante das horas ensolaradas.
Os apóstolos não parecem estar muito entusiasmados com a ordem recebida. Eles se olham uns aos outros, olham para o sol ainda um pouco forte, põem as mãos nas paredes das casas, ainda quentes, põem o pé descalço no chão, e dizem:
– Está quente como um tijolo na caieira… –dando a entender, com toda essa pantomima, que é uma coisa de loucos sair para viajar…
Jesus se afasta da ombreira em que estava apoiado, e diz:
– Quem não estiver disposto a ir, que fique. Não obrigo a ninguém. Mas não quero deixar esta região sem uma palavra.
– Mestre, que te parece? Vamos todos… Só que nos parecia ainda cedo para começar a viagem…
– Antes da festa dos Tabernáculos, quero ir para o setentrião, portanto muito mais longe, em viagem sem barca. Logo se vê que agora é que se deve fazer esta faixa da região, onde muitas estradas podem deixar de ser usadas, porque temos o lago.
– Tens razão. Eu vou preparar as barcas…
E Simão de Jonas vai, com seu irmão e os dois filhos de Zebedeu, e alguns discípulos, preparar a partida.
Jesus fica com Zelotes, os primos, Mateus, Iscariotes, Tomé e os inseparáveis Filipe e Bartolomeu, que já estão preparando suas sacolas e enchendo os odres, pondo de novo dentro das sacolas pães, frutas e tudo mais que é necessário.
449.2 Um menino buliçoso vem choramingar entre os joelhos de Jesus.
– Por que estás chorando, Alfeu? –pergunta Jesus, inclinando-se para beijá-lo. Nada… E uma choradeira mais forte.
– Ele viu as frutas e as quer –diz, aborrecido, Iscariotes.
– Oh! Pobrezinho! Tem razão. Não é necessário fazer passar certas coisas diante dos olhos das crianças, sem que se lhes dê um pouco. Toma, meu filho, não chores –diz Maria de Alfeu, tirando um cacho dourado de um sarmento colocado num cesto com todas as folhas e cachos ainda a ele pegados.
– Não quero a uva… –e chora com grande barulho.
– Certamente ele quer água com mel –diz Tomé.
E lhe oferece a sua garrafinha, dizendo:
– Os meninos gostam disso, e lhes faz bem também aos meus sobrinhos…
– Não quero a tua água… –e o choro cresce no tom e na intensidade.
– Mas, que queres então? –pergunta, entre sério e aborrecido, Judas de Alfeu.
– Duas bofetadas, isto é o que queres –diz Iscariotes.
– Por quê? Pobre menino! –pergunta Mateus.
– Porque nos está aborrecendo.
– Oh! Se tivéssemos que dar sopapos em todos os que nos aborrecem, teríamos que passar a vida distribuindo-os –diz, com muita calma, Tomé.
– Talvez ele não se sinta bem. Frutas e água, água e frutas… dá dores no corpo –observa Maria Salomé, que está entre as discípulas.
– E aquele ali já tem muito, se já come pão, frutas e bebe água. São tão pobres –diz Mateus, que conhece, por sua experiência de exator, todas as crianças de Cafarnaum.
– Que tens, meu filhinho? Estás sentindo aqui? Não. Não dói…
–diz Maria do Cléofas, que está de joelhos, diante do menino.
– Oh! Minha mãe! Mas isso é um capricho dele. Não o estás vendo? Tu porás em mau costume a todos.
– Eu não te pus em mau costume, meu Judas. Mas eu te amei. E não te parecia verdade, meu filho, que eu te amava, até o ponto de proteger-te contra os rigores de Alfeu…
– É verdade, minha mãe… Eu te censurei sem razão.
– Não faz mal, meu filho. Mas, se queres ser apóstolo, procura saber ter vísceras de mãe para com os fiéis… Eles são como crianças, sabes?… E é preciso ter um paciente amor para com eles…
– Falaste bem, Maria –aprova-a Jesus.
449.3 – Vamos acabar tendo que ser instruídos pelas mulheres –resmunga Judas Iscariotes–. E talvez até pelas mulheres pagãs.
– Sem dúvida. Elas vos superarão muito, se permanecerdes como estais, e tu mais do que todos os outros, Judas. Serás superado por todos, pelos pequeninos, pelos mendigos, pelos ignorantes, pelas mulheres, pelos gentios…
– Poderias dizer que eu sou o aborto do mundo e chegarias logo ao que queres dizer –respondeu Judas com um sorriso cheio de bílis.
– Os outros já estão chegando… e será conveniente partir, não?
–diz Bartolomeu, para interromper a cena, que está fazendo que muitos sofram, mas de maneiras diferentes.
O choro do menino atinge seu ponto mais alto.
– Mas, afinal! Que estás querendo? Que tens?
E Iscariotes o empurra e o sacode rudemente para arrancá-lo de entre os joelhos de Jesus, aos quais o pequenino se agarrou, sobretudo para desafogar sobre o inocente a sua ira.
– Quero ficar contigo! Contigo! E tu, vai-te embora… ou levas pancadas, pancadas…
449.4 – Ah! Oh! Pobre menino! É verdade! Desde que ela se casou de novo, estes do primeiro marido… são como uns mendigos… como se não fossem nascidos dela… Ela os manda por aí, como uns mendigos e… oh! nada de pão para eles… –diz a mulher do dono da casa, que parece conhecer bem os fatos e os protagonistas deles.
E termina:
– Seria necessário alguém que os tomasse por filhos a estes três abandonados…
– Não o digas a Simão de Jonas, mulher. Tu farias que a sogra dele te odiasse até à morte, agora mais do que nunca, pois ela está mais irritada contra ele e contra nós todos. Ainda nesta manhã ela cobriu de insolências Simão e Marziam e a mim, que estava com ele… –diz Mateus.
– Não o direi a Simão. Mas assim é…
– E tu, não os tomarias? Estás sem filhos… –diz Jesus, olhando fixamente para ela…
– Eu? Oh! isso me agradaria… Mas nós somos pobres… e depois… Tomé… Agora ele tem netos… e eu também… e…
– Principalmente tu não tens vontade de fazer o bem aos teus semelhantes… Mulher, ontem tu estavas criticando os fariseus daqui como duros de coração, criticavas os cidadãos como duros diante de minhas palavras. Mas tu, que fazes de diferente, tu, que há mais de dois anos me conheces?
A mulher inclina a cabeça, amarfanhando sua veste… Mas não diz nenhuma palavra em favor do pequenino, que continua a chorar.
449.5 – Estamos prontos, Mestre –grita Pedro, que acabou de chegar.
– Oh! Pobre ser! Ele é perseguido! –suspira Jesus, num gesto de desconforto, levantando os braços e agitando-os…
– Meu Filho!… –conforta-o Maria, que até agora tinha ficado calada.
E basta aquela palavra dela para consolar a Jesus.
– Ide adiante, vós, com as provisões. Eu vou, com minha Mãe, à casa do menino –ordena Jesus a quem está chegando e a quem já estava com Ele, e põe-se a caminho com sua Mãe, que pegou no colo o menino…
Vão para o campo.
– Que lhe dirás, meu Filho?
– Minha Mãe, que queres que Eu diga a uma que não tem amor em suas vísceras de mãe, nem mesmo para com os que nasceram de seu ventre?
– Tens razão… E então?
– E então… Rezemos, minha Mãe.
Vão caminhando e rezando.
449.6 Uma velha os interpela:
– Estais levando Alfeu à Meroba? Dizei-lhe que já é tempo de ela cuidar deles. Deverão forçosamente virar uns ladrões… e, como uns gafanhotos, ficam lá aonde chegam… Mas eu tenho queixas contra ela, não contra aqueles três infelizes… Oh! Como é injusta a morte! Não podias deixar vivo Jacó e fazer que ela tivesse morrido…
– Mulher, velha como tu estás, ainda não és sábia? E dizeres essas palavras, logo tu, que podes morrer a qualquer minuto? Em verdade, és tu tão injusta como Meroba. Arrependei-vos disso, e não pequeis mais…
– Perdão, Mestre… É que a culpa dela me faz disparatar…
– Sim. Eu te perdoo. Mas não digas mais nada, nem para ti mesma, daquelas palavras. Não é com a maldição que se reparam os erros. É com o amor. Se Meroba morresse, a sorte deles mudaria? Talvez o viúvo tomasse outra mulher, teria filhos de um terceiro leito, e estes teriam um madrasta… E assim seria mais pesada a sorte deles.
– É verdade. Eu sou velha e estulta. Lá está Meroba. Já começou a rogar pragas. Eu te deixo, Mestre. Não quero que ela pense que eu te falei dela. Ela é uma víbora…
Mas a curiosidade é mais forte do que o medo da víbora, e a velhinha, ainda que se afaste de Jesus e Maria, assim o faz também de acordo com os seus interesses, inclinando-se aqui e ali para arrancar o mato, que está perto de uma fonte, para poder escutar sem ser vista.
449.7– Estás aqui? Que foi que fizeste? Aqui em casa! Sempre andando, como uns animais vadios, como uns cães sem dono, como…
– Como filhos sem mãe. Mulher, tu sabes que são um mau testemunho para uma mãe os filhos que não estão agarrados na saia dela?
– É porque eles são maus…
– Não. Há trinta meses que Eu venho aqui. Antes, quando Jacó era vivo, e nos primeiros meses de viuvez, a coisa não era assim. Depois, tornaste a tomar marido… e, junto com a lembrança de tuas primeiras núpcias, perdeste também a lembrança de teus filhos. Mas que diferença há entre eles e esse que agora está crescendo em teu seio? Olha para aquela pomba… Que cuidado ela tem com aquele pombinho… E, no entanto, ela já está chocando outros ovos… Olha lá aquela ovelha. Não amamenta mais o cordeiro que nasceu antes, porque já está grávida de uma outra prole. E, no entanto, olha como ela o lambe sobre o pequenino focinho, e se deixa incomodar no lado pelo vigoroso cordeirinho? Não me respondes? Mulher, tu rezas ao Senhor?
– Certamente, pois não sou pagã.
– E como podes falar ao justo Senhor, se tu és injusta? Como podes ir à sinagoga e ouvir a leitura dos rolos, quando falam do amor de Deus para com os seus filhos, sem que sintas o remorso no coração? Por que ficas calada e petulante assim?
– Porque eu não te pedi estas tuas palavras… Não sei porque me vens perturbar… O meu estado merece respeito.
– E o estado de tua alma, não? Por que não respeitas os direitos de tua alma? Eu sei o que me estás querendo dizer: que um acesso de cólera poderá pôr em perigo a vida do nascituro… Mas da vida de tua alma não tomas cuidado? Ela é mais preciosa do que a de um nascituro… Tu sabes disso… O teu estado pode terminar com a morte. E queres enfrentar aquela hora com a alma perturbada, doente e injusta?
– Meu marido diz que Tu és um dos que não se deve escutar. Eu não te escuto. 449.8Vem cá, Alfeu… E faz o gesto de virar-se, por entre os gritos do menino, que já sabe que vai receber pancadas, por isso não quer deixar os braços de Maria que, suspirando, procura persuadi-la, e se vira para a mulher, dizendo:
– Sou Mãe, eu também, sei compreender muitas coisas. E sou mulher… Portanto, sei compadecer-me das mulheres. Estás com um período não bom, não é verdade? Sofres, e não sabes sofrer… ficas irritada em tais condições. Minha irmã, escuta. Se eu te desse agora o pequeno Alfeu, tu serias injusta com ele e contigo mesma. Deixa-o comigo por poucos, oh! por poucos dias. Verás que, quando não o tiveres mais, suspirarás por ele… porque um filho é tão doce que quando vai para longe de nós, nos sentimos pobres, geladas, sem luz…
– Pois fica, fica com ele! Antes ficasses também com os outros dois… Mas eu nem sei onde eles estão…
– Eu fico com ele, sim. Adeus, mulher. Vem, Jesus.
Maria rapidamente se vira e se afasta com um soluço…
– Não chores, minha Mãe.
– Não a julgues, meu Filho…
As duas frases se cruzam, piedosas ambas, depois, com um pensamento único, as duas bocas se abrem, para dizerem estas mesmas palavras:
– Se não compreendem nem os amores naturais, poderão algum dia compreender o amor que existe na Boa Nova?
E, olhando um para o outro, este Filho e esta Mãe, por cima da cabecinha do inocente, que se abandona, confiante e feliz agora, entre os braços de Maria…
– Teremos um discípulo, além dos que já foram previstos, minha Mãe!
– E ele terá dias de paz…
449.9 – Vistes, hein? Surda, surda como um címbalo furado… Eu vo-lo havia dito… E agora? E depois?
– E agora é paz. E depois, queira Deus que seja piedade de algum coração… Por que não será o teu, mulher? Um copo d’água dado por amor é valorizado no Céu. Mas a quem ama um inocente por amor de Mim… Oh! que felicidade para os que amam os pequenos e os salvam do mal…
A velhinha fica pensativa… Jesus entra por um atalho, que vai para o lago, e vai para lá, tirando o menino dos braços de Maria, para ajudá-lo a subir mais facilmente para a barca, levanta o menino o mais que pode para mostrá-lo, e sorri com um rosto iluminado, dizendo aos que já estão nas barcas:
– Olhai! Desta vez certamente teremos uma pregação frutuosa, porque temos um inocente conosco –e sobe com segurança para cima da tábua, que flutua, e entra na barca, indo sentar-se perto de sua Mãe, enquanto a barca vai-se afastando da margem e tomando imediatamente a direção do sudeste, no rumo de Hipo.