328. 328. Até Alexandrecene, dos irmãos de Hermion.


12 de novembro de 1945.

328.1 Chegam de novo à estrada, depois de um longo giro através dos campos e depois de terem atravessado a torrente, passando por uma pinguela de tábuas chiantes, que só serve mesmo para passagens de pessoas: é mais uma passarela, do que uma ponte.

E a marcha continua pela planície, que vai se tornando sempre mais estreita, porque as colinas avançam sobre o litoral, e tanto, que depois se passar por mais uma torrente, que também tem sua ponte romana, a estrada deixa a planície, para continuar no monte, bifurcando-se na ponte com uma outra menos íngreme, que se estende para o nordeste por um vale, enquanto este, por onde Jesus quer ir, seguindo a indicação do cipo romano: “Alexandrecene – m.v°”.

É uma verdadeira e propriamente dita escada no monte rochoso e escarpado, que mergulha seu focinho agudo no Mediterrâneo, que se vai desdobrando sem-pre mais à vista, à medida que se sobe. Só os pedestres e os burros é que percorrem esta estrada, esta escadaria, como seria melhor dizer. Mas talvez se-ja porque ela serve para se atalhar muito, pois é também muito batida e as pessoas estão observando, curiosas, este grupo de galileus, tão pouco vistos por aqui, e que a vão percorrendo.

– Este deve ser o cabo da tempestade –diz Mateus, mostrando o promontório, que se lança no mar.

– Sim, lá embaixo está o povoado, do qual o pescador nos falou1 –confirma Tiago de Zebedeu.

– Mas, quem terá feito esta estrada?

– Quem sabe de quando é? Obra fenícia, talvez…

– Lá do alto veremos Alexandrecene, para lá da qual está o Cabo Branco. Lá verás muito mar, meu João! –diz Jesus, pondo um braço ao redor das costas do apóstolo.

– Ficarei alegre com isso. Mas, daqui a pouco, chega a noite. Onde iremos parar?

– Em Alexandrecene. Estás vendo? A estrada já começa a descer. Mais abaixo ela é plana até à cidade, que se pode ver lá em baixo.

328.2 – É a cidade da mulher de Antigônio2… Como poderemos fazer para contentá-la? –diz André.

– Sabes, Mestre, ela nos disse: “Ide a Alexandrecene. Meus irmãos têm empórios lá, e são prosélitos. Fazei que eles ouçam falar do Mestre. Nós também somos filhos de Deus…”, e chorava, porque é pouco tolerada como nora… de tal modo, que nunca os irmãos vão a ela, e ela não tem notícias deles… –explica João.

– Nós iremos procurar os irmãos da mulher. Se eles nos acolherem como peregrinos, nós teremos meios de fazê-la contente…

– Mas, como faremos para dizer que a vimos?

– Ela é dependente de Lázaro. E nós somos amigos de Lázaro –diz Jesus.

– É verdade. Tu falarás…

– Sim. Mas apressai o passo, para encontrarmos a casa. Sabes onde é?

– Sim. Perto do Castelo. Eles têm muito relacionamento com os romanos, aos quais vendem muitas coisas…

– Está bem.

328.3 Terminam rapidamente a estrada, toda plana, bonita, uma verdadeira estrada consular, que certamente vai unir-se com as do interior, ou melhor, que certamente continua para o interior, depois de ter lançado suas ramificações rochosas em escadarias, ao longo da costa e a cavaleiro do promontório.

Alexandrecene é mais uma cidade militar do que civil. Ela Deve ter uma importância estratégica, que eu não sei qual é. Agachada como ela está entre dois promontórios, mais parece uma sentinela colocada de guarda naquele trecho do mar. Agora, que os olhares já podem ver um e outro cabo, pode-se ver também como sobre eles é grande o número de torreões militares, que formam uma corrente com os da planície e os da cidade, onde, perto da costa, se ergue o imponente castelo.

Entram na cidade, depois de terem atravessado uma outra pequena torrente, situada justamente perto das portas, e se dirigem para o molhe da fortaleza, de aspecto severo, olhando, curiosos, ao redor de si, e sendo também curiosamente observados.

Os soldados são em grande número, e parece que têm bom relacionamento com os cidadãos, o que faz que os apóstolos fiquem murmurando por entre dentes:

– Gente fenícia! Gente sem honra!

328.4 Chegam aos armazéns dos irmãos de Hermion, enquanto os últimos fregueses estão saindo carregados com as mais variadas mercadorias, que podem ser desde os panos, tecidos para enxugar louças, até o feno, o óleo e os mantimentos que estão nos celeiros e depósitos. O cheiro dos couros, das especiarias, das palhas, de lãs ainda não trabalhadas, enche o amplo espaço, através do qual se chega ao pátio, vasto como uma praça, sob cujos pórticos estão os diversos depósitos.

Aparece um homem barbudo e moreno.

– Que quereis? Alimentos?

– Sim… e também alojamento, se não ficas aborrecido por alojar peregrinos. Estamos vindo de longe, e nunca estivemos por aqui. Acolhe-nos em nome do Senhor.

O homem olha atentamente para Jesus, que falou em nome de todos. O homem o perscruta… Depois diz:

– Para dizer a verdade, eu não costumo dar alojamento. Mas Tu me agradas. És galileu, não é mesmo? São melhores os galileus do que os judeus. Nestes há muita bazófia. Eles não nos perdoam porque temos um sangue não puro. Fariam eles melhor se procurassem ter uma alma pura. Vem, entra para cá que eu já volto. Vou fechar, porque já é noite.

De fato, a luz já é de crepúsculo, e o é ainda mais no pátio, que está atrás do poderoso castelo.

Entram em uma sala e vão-se assentando em umas cadeiras espalhadas por aqui e por ali.

O homem já está de volta com dois outros, um mais velho e outro mais novo. Ele lhes mostra os hóspedes, que se levantam saudando, e diz:

– Aí estão. Que vos parece? A mim me parecem honestos…

– Sim. Fizeste bem –diz o mais velho ao seu irmão.

E depois, virado para os hóspedes, ou melhor, para Jesus, que claramente está dando a entender que é o chefe, e lhe pergunta:

– Como vos chamais?

– Jesus de Nazaré, Tiago e Judas, também de Nazaré. Tiago e João de Betsaida, e também André e Mateus, que é de Cafarnaum.

– Como é que viestes parar aqui? Estais sendo perseguidos?

– Não. Estamos evangelizando. Já percorremos mais de uma vez a Palestina, da Galiléia até a Judéia, de um até o outro mar. E até no além-Jordão, na Auranítida já estivemos. Agora, viemos até aqui… para ensinar.

– Um rabi aqui? Para nós isso é espantoso, não é mesmo, Filipe e Elias? –pergunta o mais velho.

– E muito. De que casta sois vós?

– De nenhuma. Eu sou de Deus. Crêem em Mim os bons do mundo. Eu sou pobre, amo os pobres, mas não desprezo os ricos, aos quais Eu ensino o amor e a misericórdia, o desapego das riquezas, assim como ensino aos pobres a amar a sua pobreza, confiando em Deus, que não deixa ninguém perecer. 328.5Entre os amigos ricos e discípulos meus está Lázaro de Betânia…

– Lázaro? Temos uma irmã casada com um servo dele.

– Eu sei. Também por isso é que Eu vim. Para dizer-vos que ela vos manda saudações, e vos ama.

– Tu a viste?

– Eu não. Mas estes que estão comigo, e que foram mandados por Lázaro a Antigônio.

– Oh! Que é que estais dizendo? Que Hermion está fazendo? Ela está feliz mesmo?

– O esposo e a sogra gostam muito dela. O sogro a respeita… –diz Judas Tadeu.

– Mas não lhe perdoa o sangue da mãe. Dize isto também!

– Ele está para lhe perdoar. Ele nos disse grandes louvores a respeito dela. Ela tem quatro meninos muito bonitos e bons. Isto a faz muito feliz. Mas ela os traz sempre no coração e disse que virá trazer-vos o Mestre Divino.

– Mas… como… Tu és o… És aquele que chamam o Messias, és Tu?

– Eu sou.

– És verdadeiramente o… Disseram-nos em Jerusalém que Tu és e que Te chamam o Verbo de Deus. É verdade?

– Sim.

– Mas Tu o és para aqueles de lá, ou para todos?

– Para todos. Podeis crer que Eu sou Aquele?

– Crer não custa nada, e ainda menos quando se espera que a coisa que se crê pode tirar-nos o que nos faz sofrer.

– É verdade, Elias. Mas, não digas assim. É um pensamento muito impuro, muito mais do que o sangue mestiço. Alegra-te, não pela esperança de que caia o que te faz sofrer como homem, pelo desprezo dos outros, mas alegra-te pela esperança de conquistar o Reino dos Céus.

– Tens razão. Eu sou um meio pagão, Senhor…

– Não te rebaixes. Eu amo também a ti e por ti também Eu vim.

328.6 – Eles devem estar cansados, Elias. Tu os estás detendo com discursos. Vamos para a ceia e depois leva-os ao lugar do repouso. Aqui não há mulheres… Nenhuma de Israel nos quis e nós queríamos uma delas… Perdoa, pois, se a casa te parecer fria e desabitada.

– O vosso bom coração a tornará ornada e aquecida.

– Quanto tempo ficas por aqui?

– Não mais de um dia. Eu quero ir para Tiro e Sidon, e gostaria de estar em Aqzib, antes do sábado.

– Não podes, Senhor! Sidon está longe!

– Amanhã Eu gostaria de falar aqui.

– A nossa casa é como um porto. Sem sair dela, terás ouvintes ao teu gosto e tanto mais, porque amanhã a feira é grande.

– Então vamos e que o Senhor vos recompense pela vossa caridade.

1 falou conosco no passeio de barco a partir de Ptolemaida a Tiro, 318.5.
2 da mulher Antigonio, nas dez linhas mencionadas abaixo, é Hermione, encontrada em 323.8.


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