535. 535. Judas Iscariotes chamadoa depor em casa de Caifás.
2 de dezembro de 1946.
535.1Não estou vendo Jesus, nem Pedro, nem Judas de Alfeu, nem Tomé. Mas estou vendo os outros nove, que vão caminhando na direção do subúrbio de Ofel.
O povo que vai indo pelas estradas não é a grande multidão das festas da Páscoa, do Pentecostes e dos Tabernáculos. É, mais ou menos, só o povo da cidade. Vê-se que as Encênias não eram muito importantes e não exigiam a presença dos hebreus em Jerusalém. Somente aqueles que por acaso estavam na cidade, ou então os das cidades vizinhas de Jerusalém, é que iam à cidade e subiam ao Templo. Os outros, por causa da estação ou conforme o caráter próprio da festa, ficavam em suas cidades e em suas casas.
Porém, muitos discípulos, aqueles que por amor do Senhor deixaram casa e parentes, interesses e trabalhos, estão em Jerusalém e se uniram aos apóstolos. Não vejo, porém, Isaque, nem Abel, nem Filipe, nem Nicolau, que foi acompanhar Sabéia em Aera. Falam entre si, narrando e ouvindo narrar todos os fatos transcorridos no tempo que estiveram dispersos. Dir-se-ia, porém, que já viram o Mestre, talvez no Templo, porque não se admiram de sua ausência. Caminham lentamente e, a cada pouco, param como à espera, olhando adiante e atrás, olhando pelos caminhos que descem de Sião nesta estrada que conduz para as portas meridionais da cidade.
535.2Já por duas vezes Iscariotes, que está quase atrás de todos, e fala como um orador para um pequeno grupo de discípulos cheios de boa vontade, mas não de ciência, é chamado pelo nome por alguns judeus que estão acompanhando o grupo, sem se misturarem com ele, não sei com que intenções ou se encarregados de alguma coisa. E por duas vezes Iscariotes faz um jogo de ombros e nem se vira para eles. Mas na terceira vez ele é obrigado a voltar-se, porque um judeu deixa o seu grupo, abre com arrogância o grupo dos discípulos, pega Judas pela manga e o obriga a parar, dizendo-lhe:
– Vem cá fora um momento, que precisamos falar-te.
– Não tenho tempo e não posso –responde Iscariotes.
– Vai, vai. Nós te esperamos. Pois enquanto não vemos Tomé, não podemos sair da cidade –diz André, que está mais perto dele.
– Está bem, ide adiante que eu irei logo –diz Judas, sem nenhum sinal de boa vontade para fazer o que vai fazer.
Tendo ficado sozinho, diz ao seu importunador:
– E então? Que queres? Que quereis? Não parastes ainda de aborrecer?
– Oh! Oh! Que ares são estes teus? Quando te chamávamos para dar-te dinheiro não achavas que te estivéssemos aborrecendo! Estás soberbo, homem! Mas existe quem te possa tornar humilde… Lembra-te disso.
– Eu sou um homem livre e…
– Não. Tu não és livre. Livre é aquele que de modo nenhum podemos fazer escravo. E tu sabes o nome dele. Tu!… Tu és escravo de tudo e de todos e, em primeiro lugar, do teu orgulho. É só isso. E olha que se não fores antes da hora sexta à casa de Caifás, ai de ti!
É um “ai” verdadeiramente ameaçador.
– Está bem. Eu irei. Mas seria melhor que me deixásseis quieto…
– Como?! Que queres dizer, ó vendedor de promessas, que não serves para nada…
Judas, com um empurrão, se livra do que o está segurando e sai correndo, dizendo:
– Eu direi, quando estiver lá.
535.3Reúne-se aos outros do seu grupo. Está pensativo e de mau humor. Preocupado, André lhe pergunta:
– Más notícias, ou não? Talvez da tua mãe?…
Judas que havia olhado para ele com maus olhos a princípio, pronto para dar uma resposta azeda, torna-se mais humano, e diz:
– Isto mesmo. Notícias pouco boas… Tu sabes… a estação… Agora… pois eu lembrei-me de uma ordem do Mestre. Se aquele homem não me tivesse feito parar, ter-me-ia esquecido até disso. Mas ele me deu o nome do lugar onde mora e, por aquele nome, recordei-me da ordem recebida. Pois bem. Agora, quando eu for tratar disso, irei também à casa daquele homem, e ficarei sabendo melhor…
André, tão simples e honesto como é, longe está de suspeitar que seu companheiro possa estar mentindo. E diz, preocupado:
– Mas vai, vai já. Direi eu aos outros. Vai, vai! Sai da agitação…
– Não, não. Eu devo esperar Tomé, por causa do dinheiro. De um momento para outro…
E os outros, que haviam parado para esperar, olham como eles que vêm chegando.
– Judas recebeu tristes notícias –diz, pensativo, André.
– Sim… em poucas palavras. Depois, ficarei sabendo melhor, quando for fazer o que devo…
– Que é? –pergunta Bartolomeu.
535.4– Lá vem Tomé correndo –diz, ao mesmo tempo, João.
E disso se aproveita Judas para não responder.
– Será que eu vos fiz esperar muito? É que eu queria fazer tudo… e bem feito. Olhai que bela bolsa. Boa para os pobres. O Mestre ficará contente.
– Estávamos precisando dela. Não tínhamos nem uns trocados para os mendigos –diz Tiago de Alfeu.
– Dá-me –diz Iscariotes, estendendo a mão para a pesada bolsa que Tomé tem nas mãos.
– Mas era o que faltava… Jesus me encarregou da venda e eu devo entregar o dinheiro nas mãos dele.
– Dize-lhe quanto deu. Agora entrega-o a mim, que estou com pressa de ir.
– Não. Eu não te entrego. Jesus me disse, enquanto íamos para o Sixto: “Depois me darás o total.” E eu vou fazer isso.
– De que estás com medo? De que eu te livre do peso ou tire de ti o merecimento pela venda? Em Jericó também eu vendi, e bem vendido. Há anos que eu tenho sido encarregado de ficar com o dinheiro. O direito é meu.
– Ora! Escuta! Se queres levantar uma questão por causa disso, que o faças. Eu fiz o que fui encarregado de fazer e, quanto ao mais, não me importo. Toma, toma. Há muitas outras coisas mais bonitas do que isso!
E Tomé passa a bolsa para Judas.
– Na verdade, se o Mestre disse… –diz Filipe.
– Mas não fiques sofisticando! E vamos andar, já que estamos todos juntos. O Mestre disse que devemos estar em Betânia antes da sexta. E mal temos tempo para isso –diz Tiago do Zebedeu.
– Então, eu vos deixo. Vós ireis para frente. Eu vou e volto.
– Mas isso não. Ele falou bem claro: “Ficai todos juntos” –diz Mateus.
– Todos unidos, vós. Mas eu devo ir. Agora que tive notícias de minha mãe!…
– O assunto pode entender-se também assim. Se ele recebeu ordens que nós não sabemos… –diz, conciliador, João.
Os outros, menos André e Tomé, parecem pouco inclinados a deixá-lo ir. Mas, afinal, dizem:
– Pois bem, vai! Mas, faze-o logo, e sê prudente…
E Judas escapa, saindo por uma ruazinha que vai para a colina de Sião, enquanto os outros continuam a andar.
535.5– Mas não é justo. Não fizemos bem. O Mestre havia dito: “Ficai sempre juntos e sede bons.” Desobedecemos ao Mestre. Eu fico meio incomodado com isso –diz, depois de algum tempo, Zelotes.
– Eu também pensava assim… –responde-lhe Mateus.
Os apóstolos estão todos em grupo desde quando tiveram que decidir sobre suas tarefas. Tenho notado que os discípulos sempre se afastam com respeito, quando os apóstolos se reúnem para discutir.
Bartolomeu diz:
– Vamos fazer assim. Despachamos estes que nos acompanham. Desde já. Sem ficarmos esperando chegar à estrada de Betânia. E depois dividamo-nos em dois grupos e fiquemos a esperar Judas, uma parte na estrada baixa e os outros pela alta. Os que andam mais depressa, pela estrada baixa, e os outros, pela alta. Ainda que o Mestre chegue antes de nós, nos verá chegar juntos, porque, antes de Betânia, um grupo esperará o outro.
A ideia foi aceita. Eles despacham os discípulos. E depois vão juntos até o lugar onde se pode tomar o caminho para o Getsêmani e a estrada alta sobre o Monte das Oliveiras, e também, margeando o Cedron, toma-se a estrada baixa para a Betânia e Jericó…
535.6Entrementes, Judas vai correndo como um perseguido. Por algum tempo continua a subir pela estrada estreita que leva para o alto de Sião, na direção do poente, depois dobra para uma ruazinha ainda menor, quase um beco, que, em vez de subir, desce para o sul. Ele está cheio de suspeitas. Vai correndo, e de vez em quando olha para trás, como se estivesse espantado. Sua maior suspeita é a de estar sendo perseguido.
A ruazinha, toda torta, de uma até a outra esquina, construída assim fora das normas de construção, se abre para a planura do campo. Do outro lado do vale há outra colina, para além dos muros. É uma colina baixa, coberta de oliveiras, que aparece do lado de lá do árido pedregal do vale do Hinon. Judas vai correndo mais depressa, passando por entre as sebes que fazem os limites entre as pequenas hortas das últimas casas aos lados dos muros, as pobres casas dos pobres de Jerusalém, e para sair da cidade não toma a porta de Sião, que está perto deles, mas vai correndo para cima, para uma outra porta, um pouco para o lado do ocidente. Já está fora da cidade. Vai trotando como um poldro, para agir logo. Passa, como se fosse um vento, por perto de um aqueduto, e depois, sem dar ouvidos aos lamentos, vai passando por perto das grutas dos leprosos de Hinon. É claro que procura os lugares evitados pelos outros…
Judas vai em linha reta para a colina coberta de oliveiras, solitária, ao sul da cidade. Ele dá um respiro de alívio quando chega aos declives, e dá passos mais vagarosos, arruma melhor o capuz na cabeça, a cintura, a veste, que ele havia sungado, e olha, fazendo anteparo com a mão, porque o sol está batendo em seus olhos, do lado do oriente, justamente do lado por onde passa a estrada baixa que vai para Betânia e Jericó. Mas ele não vê nada que o perturbe. Pelo contrário, um canto da colina até que lhe serve de cortina entre ele e a estrada. Ele sorri. Começa de novo a subir lentamente para fazer passar a sufocação que lhe veio na colina. E, nesse ínterim, ele conversa consigo mesmo, em silêncio. Depois para, tira a bolsa do seio, observa-a, depois torna a colocá-la onde estava, tendo antes dividido o conteúdo, passando uma parte para a sua bolsa, talvez para que o volume que ele vai levando no seio diminua de tamanho..
535.7Há uma casa no meio das oliveiras. Uma bela casa. É a mais bonita da colina, porque as outras casinhas que estão espalhadas nas encostas, não sei se são dependências da bela casa ou se são independentes e de outros donos. Ele chega até lá depois de atravessar uma espécie de avenida coberta com saibro, por entre oliveiras perenes plantadas em ordem. Bate em uma porta. Faz-se reconhecer. Entra. Vai com segurança até para lá do átrio, a um pátio quadrado, em cujos lados há muitas portas. Ele empurra uma delas.
Entra numa vasta sala onde estão diversas pessoas, entre as quais eu reconheço o rosto, dissimulado e odiento ao mesmo tempo, de Caifás, o ultrafarisáico de Elquias, o de fuinha do sinedrita Félix, junto com o de víbora, que é o de Simão. Além desses, estão Doras, o filho de Doras, cada vez mais semelhante a seu pai nas feições, e com ele estão Cornélio e Tolmai. E aí estão os outros escribas, Sadoque e Ananias, já velho com muitos anos, mumificado mas jovem em suas maldades, Calachebona, o ancião, Natanael ben Faba e depois um certo Doro, um Simão, um José, um Joaquim, que eu não conheço. Enquanto Caifás os vai chamando pelos nomes, eu os escrevo. E ele termina assim: “… estão reunidos aqui para te julgarem.”
Judas está com um semblante curioso: de medo, de irritação e também de violência. Mas ele está calado. Não dá mostras de sua arrogância. Os outros o rodeiam escarnecendo dele e cada um diz o que quer.
– E então? Que foi que fizeste com o nosso dinheiro? Que é que nos dizes, ó homem sábio, homem que faz tudo, logo e bem? Onde é que está o trabalho que fazes? Tu és um mentiroso, um palrador que nada vale. Onde é que está a mulher? Nem aquela tu tens mais? E, assim, em vez de servir-nos, serves a Ele? É assim que nos ajudas?
É um ataque cheio de ódio, de gritos e ameaças, de cujas palavras não me lembro bem.
535.8Judas os deixa gritar à vontade. E quando eles se cansam e perdem o fôlego, ele fala:
– Eu fiz o que pude. Que culpa tenho disso se Ele é um homem que ninguém pode fazer pecar? Queríeis provar a sua virtude, foi o que dissestes. E eu vos dei a prova de que Ele não peca. Com isso, eu vos servi naquilo que queríeis. Por acaso, conseguistes vós colocá-lo na posição de um acusado? Não. De todas as vossas tentativas de fazê-lo parecer um pecador, de fazê-lo cair numa armadilha, Ele saiu mais engrandecido do que antes. E, então, se não tivestes resultado com o vosso ódio, terei eu, que não o odeio, que estou somente desiludido por ter perseguido um pobre inocente, santo demais para poder ser um rei, e um rei que desbarate os seus inimigos? Que mal foi que Ele me fez, para que eu lhe faça mal? Digo assim, porque penso que vós o odiais a ponto de o quererdes ver morto. Eu não posso mais crer que vós quereis somente persuadir ao povo de que Ele é um doido e persuadir-nos, a mim e aos outros, de que Ele assim seja, e isso, a nós, para o nosso bem, e a Ele, por piedade para com Ele. Vós sois generosos demais para comigo e muito furiosos por vê-lo acima do mal, para que eu possa crer. Vós me perguntais o que foi feito com o vosso dinheiro. Fiz com ele o que vós sabeis que foi feito. Para convencer a mulher eu tive que gastar e gastar muito… E não consegui convencê-la com facilidade e…
535.9– Mas cala-te. Nada disso é verdade. Ela era louca por Ele e certamente veio logo. Afinal, tu garantiste, porque dizias que ela te havia confessado. Tu és um ladrão. Quem é que vai saber para que foi que serviu o nosso dinheiro?
– Para arruinardes a minha alma, ó assassinos de uma alma! Para fazerdes de mim um traidor, alguém que não tem mais paz, alguém que se sente suspeitado junto a Ele e a seus companheiros. Porque, ficai sabendo, Ele descobriu o que eu estava fazendo. Oh! Antes me tivesse esmagado! Pois Ele me defende, me protege, me ama!… O vosso dinheiro! Mas para que é que eu fui pegar a primeira moeda?
– Porque tu és um desgraçado. Até agora, gozaste com o nosso dinheiro, e agora choras por tê-lo perdido. Falso! Até agora, não foi feito nada, e as multidões crescem em número ao redor dele, estão sempre mais fascinadas. A nossa ruína se aproxima e por culpa tua!
– Minha? E por que, então, não ousastes prendê-lo e acusá-lo de querer fazer-se rei? Vós me dissestes também que era inútil, porque Ele não tem fome de poder. E por que não o induzistes a pecar contra a sua missão, vós que sois tão valentes?
– Porque Ele escapou de nossas mãos. É um demônio que se desfaz, como fumaça, quando quer. É como uma serpente: fascina, não se pode fazer mais nada se ficar olhando para nós.
– Se olha para os seus inimigos, que sois vós. Pois eu vejo que, se Ele olha para aqueles que não o odeiam com todo o seu ser, como vós odiais, então o olhar dele faz que nos movamos e trabalhemos. Oh! O seu olhar! Por que Ele me olha assim e quer fazer-me bom, a mim, que sou um monstro para comigo mesmo e para vós, que me fazeis ser um monstro dez vezes pior?!
– Que palavrório! Tu nos havias garantido, para o bem de Israel, que nos terias ajudado. Mas não compreendes, infeliz, que esse homem é a nossa ruína?
– Nossa? De quem?
– Ora, do povo todo! Os romanos…
– Não. É somente vossa a ruína. Temeis por vós mesmos. Vós sabeis que Roma não se enfurecerá contra nós por causa dele. Vós estais sabendo disso, como eu sei, como o povo sabe. Mas vós tremais, porque sabeis, temeis que Ele vos expulse para fora do Templo, do Reino, de Israel. E Ele faria bem. Bem faria ao limpar de vós a sua eira, ó hienas imundas, ó sujeiras, ó víboras…
Ele está furioso.
535.10Eles o pegam, o sacodem e, por sua vez, se tornam furiosos e quase que o derrubam… Caifás lhe grita de frente:
– Está bem. Assim é. Mas se assim é, nós temos o direito de defender o que é nosso. E visto que as pequenas coisas já não bastam para persuadi-lo a fugir, a deixar-nos livre o campo, então vamos agora por nós mesmos, deixando-te para trás, ó servo covarde, ó gastador de palavras. E depois Dele, serviremos a ti também, não tenhas dúvida, e…
Elquias tapa a boca de Caifás e diz com sua fleuma glacial de serpente venenosa:
– Não. Assim não. Tu estás exagerando, Caifás. Judas tem feito o que pode. Não o deves ameaçar. Afinal, os interesses dele não são os mesmos que os nossos?
– Mas serás tu um estulto, ó Elquias? Terei eu os interesses desse homem? O que eu quero é que Ele seja esmagado. E Judas quer que Ele triunfe, para triunfar com Ele, como tu dizes… –grita Simão.
– Calma, calma! Vós dizeis sempre que eu sou severo. Mas eis que hoje eu sou o único bom. É preciso entender e ter compaixão de Judas. Ele nos ajuda como pode. É nosso bom amigo, mas é, naturalmente, também amigo do Mestre. O coração dele está angustiado… Ele quereria salvar o Mestre, a si mesmo e a Israel. Como conciliar coisas assim tão opostas? Deixemo-lo falar.
Os cães se acalmam… Finalmente, Judas pode falar. E diz:
– Elquias tem razão. Eu… Que quereis de mim? Ainda não sei exatamente o que é. Eu fiz o que pude. Não posso fazer mais. Ele é muito maior do que eu. Ele lê o meu coração… e nunca me trata como eu mereço. Eu sou um pecador e Ele sabe, e me perdoa. Se eu fosse menos vil, deveria… Matar-me é o que eu deveria fazer, para pôr-me na impossibilidade de fazer-lhe mal.
Judas se assenta, aniquilado. Com o rosto entre as mãos, os olhos arregalados e fixos no vazio, ele sofre visivelmente na luta entre os seus instintos opostos.
– Ó doido! Que queres que eu saiba? Tu fazes assim porque estás arrependido por te teres adiantado! –exclama aquele que chamam de Cornélio.
– E se fosse assim? Oh! Se fosse assim! Se eu estivesse realmente arrependido e capaz de persistir em tal arrependimento!…
– Ora, estais vendo? Estais ouvindo? Pobre do nosso dinheiro!
–grasna Cananias.
– Temos que lidar com um que nem sabe o que quer. Escolhemos um que é pior do que um beócio! –acentua Félix.
– Beócio? Um fantoche é o que deves dizer. O Galileu o puxa por um fio e ele vai atrás do Galileu. Nós o puxamos para nós e ele vem atrás de nós –grita Sadoque.
– Pois bem. Se sois mais valentes do que eu, fazei vós o que se deve. Eu, a partir de hoje, não estou mais interessado. Não fiqueis mais esperando nenhum aviso, nenhuma palavra. Eu não mais poderei dá-la a vós, porque Ele já está suspeitando e me vigia…
– Mas não disseste que Ele te perdoa?
– Sim. Ele me perdoa. Mas é justamente porque Ele sabe tudo. Sabe tudo! Sabe tudo! Oh!
E Judas aperta as mãos sobre o rosto.
– Então, vai-te, vai-te embora, mulher com veste de homem, desventurado, pervertido! Vai-te, vai-te embora! Nós mesmos agiremos. Mas cuidado, toma cuidado para não falares disso a Ele, porque senão te faremos pagar.
– Eu vou! Eu me vou! Antes nunca tivesse vindo. 535.11Mas recordai-vos do que eu já vos disse. Ele encontrou teu pai, Simão, e o teu cunhado, Elquias. Não creio que Daniel tenha falado. Eu estava presente e não os vi falando em particular. Mas o teu pai! Não falou, pelo que dizem os meus condiscípulos. Ele nem revelou o teu nome. Limitou-se a dizer que seu filho o desprezou porque ele amava o Mestre e não aprovava a sua conduta. Mas já disse que nós nos vemos e que eu vou à tua casa… E poderia dizer também o resto. Técua não fica no fim do mundo… Não digais depois que fui eu que falei, quando muita gente já sabe dos vossos propósitos.
– Meu pai não falará nunca mais. Está morto –diz vagarosamente Simão.
– Morto? Tu o mataste? Que horror! Porque eu te disse onde ele estava?…
– Eu não matei ninguém. Eu não saí de Jerusalém. Há muitas maneiras de morrer. Ficas espantado porque um velho que vai cobrar umas moedas seja morto? Afinal a culpa foi dele. Se tivesse ficado quieto, se não tivesse olhos, ouvidos e língua para ver, ouvir e desaprovar, estaria ainda sendo honrado e servido na casa de seu filho…
–diz com uma lentidão exasperante, Simão.
– Afinal… tu o fizeste matar? Parricida!
– Tu és um maluco. O velho foi espancado, caiu, machucou a cabeça e morreu. Uma desgraça. Uma simples desgraça. Foi mal para ele, que encontrou um malandro a lhe exigir o pedágio…
– Eu te conheço, Simão. E não posso crer… Tu és um assassino.
Judas empalidece.
E o outro lhe ri na cara, repetindo:
– E tu estás delirando. Vês um delito onde houve apenas uma desgraça. Uma simples desgraça. Eu fiquei sabendo somente anteontem e tomei as providências. Para vingar e prestar honra. Mas se eu pude prestar honra ao cadáver, não pude agarrar o assassino. Certamente um ladrão qualquer, descido do Adonim, para matar nas feiras as suas presas. Quem é que o apanha mais?
– Eu não creio… Não creio… Deixai-me ir!… Sois piores do que uns chacais… Fora! Fora! –e apanha o manto que havia caído, procurando sair.
535.12Mas Cananias o pega como uma ave de rapina:
– E a mulher? Onde está a mulher? Que disse ela? Que fez? Tu o sabes?
– Eu não sei de nada… Deixa-me ir…
– Tu mentes! És um mentiroso! –grita Cananias.
– Não o sou. Eu juro. Ela veio. Isto é certo. Mas ninguém a viu. Eu não a vi, pois tive que partir imediatamente com o Rabi. Também os meus companheiros não sabem. Eu os interroguei habilmente. Vi as joias despedaçadas que Elisa levou para a cozinha… e mais do que isso não sei. Eu juro pelo Altar e pelo Tabernáculo!
– E quem é que pode acreditar em ti? Tu és um homem vil. Como atraiçoas o Mestre, podes trair também a nós. Mas ai de ti!
– Eu não atraiçoo. Juro pelo Templo de Deus!
– Tu és um perjuro. O teu rosto o diz, Tu serves a Ele e não a nós.
– Não. Juro pelo Nome de Deus.
– Dize, então, esse Nome, para confirmar o teu juramento.
– Eu o juro por Javé!
E fica da cor da terra ao pronunciar o Nome de Deus. É assim. Treme, balbucia, não sabe nem dizê-lo como costuma ser pronunciado. Parece dizer um J, um agá e um ve muito arrastados, eu diria que termina em uma aspiração. Eu o reconstruiria assim: Jeacveh, de um modo estranho, afinal.
Um silêncio, parecendo cheio de medo, foi o que se fez na sala. Até se afastaram de Judas… Mas depois Doras e um outro dizem:
– Repete aquele mesmo juramento para garantir que servirás somente a nós…
– Isso, não. Malditos! Isso, não. Eu vos juro que não vos traí e que não vos denunciarei ao Mestre. E com isso já faço um pecado. Mas meu futuro eu não o faço depender de vós. De vós, que amanhã, em nome do juramento, poderíeis impor-me… qualquer coisa, ainda que fosse um delito. Não! Denunciai-me como um sacrílego ao Sinédrio, denunciai-me como assassino aos romanos. Eu não me defenderei. Eu me farei matar… e será uma coisa boa para mim. Mas eu não quero mais… nunca mais…
E, com esforços violentos se livra de quem o segura e foge dali, gritando:
– Mas ficai sabendo que Roma está de olhos em vós e que Roma ama o Mestre…
Uma forte batida da porta, que ressoa por toda a casa, é sinal de que Judas escapou daquele covil de lobos.
535.13Olham-se no rosto… A raiva e talvez o medo, os torna lívidos… E não podendo desafogar sua ira e seu medo de alguém, eles se agarram pelos cabelos uns aos outros. Cada um procura pôr nas costas do outro a responsabilidade pelos passos dados e pelas consequências que disso possam advir. Um censura uma coisa e outro, outra. Um pelo passado, outro pelo futuro. Um grita: “Fizestes mal ao maltratá-lo. Agora sereis descobertos!”, e outro diz: “Foste tu que quiseste seduzir Judas.” Alguém propõe: “Vamos correr atrás dele, com dinheiro, com desculpas.”
– Ah! Isso, não –grasna Elquias, que é o mais censurado–. Deixai-me agir e devereis dizer-me que tenho sabedoria. Judas, não tendo mais dinheiro, ficará manso. Oh! Manso como um cordeirinho! –e se ri como uma serpente–. Ele ficará teimoso hoje, amanhã, talvez durante um mês… Mas depois… Ele é viciado demais para poder viver naquela pobreza que o Rabi lhe ensina… e voltará para nós… Ah! Ah! Deixai-me agir! Eu sei…
– Sim… Mas enquanto isso… Tu ouviste? Os romanos estão de olhos em nós. Os romanos o amam! E é verdade. Mesmo nesta manhã, e na de ontem e de anteontem, eles o estavam esperando no Átrio dos pagãos. As mulheres da Torre Antônia sempre lá estão… Elas vêm até de Cesaréia para ouvi-lo…
– São caprichos de mulheres! Eu não me preocupo com isso. O homem é bonito. E fala bem. Elas são loucas por esses faladores demagogos e filósofos. Para elas o Galileu é um desses e nada mais. E serve para elas se divertirem em seu ócio. É preciso ter paciência para se sair bem. Paciência e astúcia. E coragem também. Mas vós não as tendes. E quereis agir sem aparecer. Eu já vos disse o que é que vou fazer. Mas vós não quereis…
– Eu tenho medo do povo. O povo o ama muito. Amor aqui. Amor ali… Quem vai pôr a mão nele? Se o expulsam, nós seremos expulsos… É preciso… –diz Caifás.
– É preciso não deixar que escape mais a ocasião. Quantas já temos perdido! Na primeira ocasião que se apresentar, é necessário fazer pressão sobre os que estão na dúvida entre nós, e depois agir até com os romanos.
– Dizer isso é fácil! Mas quando é que iremos ter ocasião para pô-lo em prática? Ele não peca, não quer o poder, não…
– Se ocasião não existe, é preciso criá-la… E agora vamos. Por enquanto… amanhã o ficaremos vigiando… O Templo é nosso. Fora dele Roma comanda. Fora está o povo para defendê-lo. Mas dentro do Templo…