616. 616. A manhã da Ressurreição.Oração de Maria.
1º de abril de 1945.
616.1As mulheres retomam seus trabalhos com os óleos que, durante a noite, expostos ao frio do pátio, solidificaram-se, virando uma pasta muito densa.
João e Pedro acham que é bom pôr em ordem o Cenáculo, limpando as louças, mas depois recolocando tudo como se a Ceia tivesse terminado pouco antes.
– Assim Ele mandou fazer –diz João.
– E disse também: “Não durmais!” Ele Disse ainda: “Não sejas soberbo, Pedro. Não sabes que a hora da prova está para chegar?” E acrescentou: “Tu Me tornarás a negar…”
Pedro chora novamente, enquanto diz com profunda dor:
– E eu o reneguei!
– Basta, Pedro! Agora voltaste ao que eras! Ponhamos um “basta” a este tormento!
– Nunca! Não basta nunca! Se eu ficasse velho como os primeiros patriarcas, vivesse os setecentos ou novecentos anos de Adão e de seus primeiros netos, eu não deixaria nunca de ter esse tormento.
– Não esperas em sua misericórdia?
– Sim. Se eu não cresse nisso, seria como Iscariotes: um desesperado. Mas, ainda que Jesus me perdoe lá do seio do Pai, para onde Ele voltou, eu não me perdoo. Eu! Eu! Eu que disse: “Não o conheço”, porque naquele momento era perigoso conhecê-lo, porque eu tive vergonha de ser discípulo dele, porque eu tive medo de ser torturado… Ele estava a caminho da morte, e eu… eu pensei em salvar minha vida. E para salvá-la eu o rejeitei, como uma mulher pecadora que, depois de dar à luz o filho, rejeita o fruto do seu seio, pois é perigoso tê-lo consigo, antes que volte o marido que de nada sabe. Essa mulher é pior do que uma adúltera, e eu… sou pior do que…
616.2Atraída pelos gritos, entra Maria Madalena.
– Não grites assim. Maria te escuta. Está muito exausta! Não tem mais forças para nada, e tudo lhe faz mal. Os teus gritos, inúteis e imoderados, lhe dão novamente o tormento por aquilo que fostes…
– Estás vendo? Estás vendo, João ? Uma mulher quer fazer-me calar a boca. E ela tem razão. Porque nós homens, consagrados ao Senhor, temos sabido somente mentir e escapulir. As mulheres é que têm sido valentes. Tu, que és pouco mais do que uma mulher, pela tua idade e pureza, soubeste permanecer firme. E nós, os valentes, os fortes, o que fizemos foi fugir. Oh! Com que desprezo o mundo deverá estar se referindo a mim! Dize-o a mim, mulher! Tu tens razão! Dá um pontapé em minha boca, pois eu menti. Na sola da sandália talvez ainda haja um pouco do Sangue dele. E somente aquele Sangue misturado com a lama da estrada é que talvez possa dar um pouco de perdão, um pouco de paz ao que o renegou. Por isso, eu devo habituar-me ao desprezo do mundo! Que é que eu sou? Dizei-me: o que sou eu?
– Tu és uma grande soberba –responde calmamente Madalena–. A dor? Isso também. Mas podes crer que, de dez partes da tua dor, cinco, para não te ofender dizendo seis, são pela dor de seres alguém que pode ser desprezado. Mas, na verdade, eu te desprezarei se continuares somente a gemer e a ficar desgastado, como faz uma mulher avoada. O que é um fato, é um fato. E não são os gritos adoidados que irão consertar a situação e encerrar o assunto. Eles só servem para chamar a atenção e para pedir uma compaixão que não está sendo merecida. Sê viril em teu pensamento. Nada de gritaria. Faze.
616.3Eu… tu sabes quem eu era… Mas quando entendi que eu era mais desprezível do que um vômito, não entrei em agitações. Fiz. Publicamente. Sem ser indulgente e sem pedir indulgência. O mundo me desprezava? Tinha toda razão. Eu merecia. O mundo dizia: “É um novo capricho da prostituta” e dava um nome de blasfêmia ao fato de eu ir até Jesus? Tinha razão. O mundo recordava a minha conduta anterior, o que justificava todo tipo de pensamento. Pois bem! O mundo teve de se persuadir que Maria não era mais pecadora. Com os fatos eu persuadi o mundo. Faze o mesmo, e cala-te.
– Tu és muito severa, Maria –observa João.
– Mais comigo mesma do que com os outros. Eu reconheço. Eu não tenho a mão leve da Mãe. Ela é o Amor. Eu… oh! Eu!… Tenho subjugado a minha sensualidade com o chicote de minha vontade. E ainda farei mais. Achas que eu me perdoei por ter sido a Luxúria? Não. Mas eu só digo isso à minha pessoa. E o direi sempre. Morrerei consumida neste secreto lamento por ter sido a corruptora de mim mesma, nesta dor inconsolável de ter-me profanado e de não ter podido oferecer a Ele outra coisa melhor do que um coração pisoteado… Olha… eu trabalhei mais do que todas as outras na confecção dos bálsamos… E com mais coragem do que as outras, eu o descobrirei… Oh! Meu Deus! Como estará a essa altura! (Maria de Magdala empalidece só ao pensar nisso). Eu o cobrirei com novos bálsamos, removendo os que certamente estão todos corrompidos sobre aquelas chagas sem número… Eu o farei, pois as outras ficarão parecendo uns lírios depois de um aguaceiro… Mas sinto a dor por ter que fazer isso com estas minhas mãos que fizeram tantas carícias lascivas, e aproximar-me de sua Santidade com esta minha carne manchada… Eu gostaria… gostaria de ter a mão da Mãe Virgem, para fazer a última unção…
Maria agora está chorando, sem fazer barulho. E como é diferente daquela Madalena teatral, que sempre nos foi apresentada! É aquele mesmo choro sem rumor que ela teve no dia do seu perdão na casa do Fariseu1.
616.4– Tu achas que… as mulheres ficarão com medo? –pergunta Pedro.
– Com medo, não… Mas ficarão perturbadas diante do seu Corpo, certamente já corrompido… inchado… enegrecido. E, além disso, isso é quase certeza, ficarão com medo dos guardas.
– Queres que eu vá? Eu e João?
– Ah! Isso, não. Iremos todas nós. Porque, assim como estivemos todas lá em cima, também é justo que estejamos todas ao redor do seu leito de morte. Tu e João, ficai aqui. Ela não pode ficar sozinha!…
– Então, Ela não vai?
– Nós não a deixaremos ir!
– Ela está convencida de que Ele ressurgirá… E tu?
– Eu, depois de Maria, sou a que mais crê. Eu acreditei sempre que assim pudesse acontecer. Ele o dizia. E Ele não mente nunca… Ele!… Oh! Antes eu o chamava de Jesus, de Mestre, de Salvador e Senhor… Agora, porém, sinto que Ele é tão grande que eu nem sei, não ouso mais dar-lhe um nome… Que lhe direi quando o vir?…
– Mas crês mesmo que Ele ressurgirá?…
– Mais um! Oh! Com isso de dizer-vos que eu creio e de ouvir-vos dizer que não credes, acabarei não crendo, nem eu! Mas eu acreditei e acredito. Acreditei e lhe preparei, há tempo, sua veste. E para amanhã, pois amanhã é o terceiro dia, eu a trarei para cá, pronta…
– Mas, tu não dizias que Ele estará enegrecido, inchado e feio?
– Feio, nunca. Feio é o pecado. Mas… mas, sim! Estará enegrecido. Pois, sim. Lázaro não estava podre? E, no entanto, ele ressurgiu. E teve suas carnes recuperadas. Mas, estou dizendo! Calai vossa boca, ó descrentes! Também em mim a razão humana diz: “Ele está morto e não reviverá.” Mas o meu espírito, o espírito “Dele”, pois que eu recebi um novo espírito dele, grita, e os seus gritos se parecem com os sons agudos das tubas de prata, dizendo: “Ressurge! Ressurge! Ressurge!” Por que é que me fazeis chocar como um pequeno navio contra os escolhos de vossa dúvida? Eu creio! Eu creio, meu Senhor! Lázaro, ainda que angustiado, obedeceu ao Senhor e ficou em Betânia… E eu, que sei quem é Lázaro de Teófilo: um homem forte, e não uma lebre medrosa, posso medir o seu sacrifício de ter que permanecer na sombra e não perto do Mestre. Mas ele obedeceu. E foi mais heroico nessa obediência do que se tivesse tomado as armas do inimigo. Eu acreditei e creio. E aqui estou. Na expectativa, como Ela. Mas deixai-me ir. O dia está começando. Logo se poderá enxergar o suficiente, e iremos ao Sepulcro…
E Madalena lá se vai, com seu rosto manchado de lágrimas, mas sempre forte.
616.5Ela torna a entrar onde está Maria.
– O que é que Pedro tinha?
– Uma crise de nervos. Mas já passou.
– Não sejas exigente, Maria. Ele está sofrendo.
– Eu também. Mas vê que eu não te pedi nem mesmo uma carícia. Ele já foi até cuidado por ti… E eu acho que somente Tu, minha Mãe, é que tens necessidade de consolo. Minha Mãe, santa, amada! Mas cria coragem… Amanhã já é o terceiro dia. Nós nos fecharemos aqui dentro, nós duas, as suas enamoradas. Tu, a Enamorada santa, e eu a pobre enamorada… Mas eu sou como posso, com tudo de mim mesma. E o ficaremos esperando… Eles, aqueles que não creem, nós os fecharemos lá, com as suas dúvidas. E aqui eu colocarei muitas rosas… Hoje mesmo, farei que tragam a arca… Agora irei ao palácio e darei ordens a Levi. Para longe de nós essas coisas horríveis! O nosso Ressuscitado não as deve ver… Mas muitas rosas… E Tu porás um vestido novo… Ele não deve ver-te como estás. Eu te pentearei, lavarei este teu pobre rosto que as lágrimas desfiguraram. Eterna menina, e farei como se fosse tua mãe. Afinal, terei a felicidade de ter cuidados maternos para com uma criatura que é mais inocente do que um recém-nascido! Querida!
E com sua exuberância afetiva, Madalena aperta ao peito a cabeça de Maria, que está sentada, e a beija, a acaricia, arruma-lhe atrás das orelhas as mechas de cabelos que estão desalinhados, enxuga as novas lágrimas, que ainda continuam a cair, e descem sempre por sobre o linho de sua veste…
616.6As mulheres entram com luzes e ânforas e vasos de bocas largas. Maria de Alfeu traz um almofariz pesado.
– Não se pode ficar do lado de fora. Está ventando um pouco, e as candeias se apagam –explica ela.
Elas se põem a um lado. Sobre uma mesa estreita, mas comprida, põem todas as suas coisas e, em seguida, dão um último retoque nos seus bálsamos, misturando tudo com um pó branco, que elas vão tirando a mancheias de um saquinho, completando a já pesada pomada de essências. Misturam tudo, trabalhando com capricho, para depois encherem com a mistura um vaso de boca larga. Em seguida, elas o põem no chão. Fazem com um outro a mesma coisa. E o perfume e as lágrimas vão caindo sobre as resinas.
Maria Madalena diz:
– Não era esta a unção que eu esperava poder preparar para Ti.
Pois é ela, Maria Madalena, que, com mais experiência do que as outras, vai sempre regulando e dirigindo a composição de um perfume tão penetrante, que elas pensam em abrir a porta e deixar semiaberta a janela que dá para o jardim, logo que chega a aurora.
Todas choram mais alto depois da observação dita bem baixinho pela Madalena.
Terminaram. Todos os vasos estão cheios. Elas saem com as ânforas vazias, com o almofariz já tendo prestado o seu serviço, e com muitas lanternas. Só sobraram duas no pequeno quarto, e as luzes delas estão trêmulas, e parece que estão soluçando, elas também, ao palpitar de suas chamas…
Tornam a entrar as mulheres e elas fecham de novo as janelas, porque a manhã está fresquinha. Põem seus mantos e pegam uns sacos grandes nos quais colocam os vasos com o bálsamo.
616.7Maria se levanta e procura por seu manto. Mas todas se aglomeram ao seu redor para persuadi-la a não ir.
– Não estás podendo andar, Maria. Há dois dias que não tomas alimento. Só tens tomado um pouco d’água.
– Sim, Mãe. Deixa que faremos tudo logo e bem. E em seguida voltaremos.
– Não temas. Nós o embalsamaremos como um rei. Estás vendo que bálsamo precioso nós fizemos?! E bastante!…
– Não nos descuidaremos de nenhum membro ou ferida, e colocaremos tudo em seus lugares com nossas mãos. Somos fortes e somos mães. E o colocaremos como a um menino no berço. E os outros só terão o trabalho de fechar e terminar sua tarefa.
Mas Maria insiste:
– É o meu dever! –diz Ela–. Sempre fui eu que cuidei dele. Somente nestes três anos em que Ele esteve em contato com o mundo, cedi aos outros o trabalho de cuidar dele quando Ele estava longe. Mas agora que o mundo o rejeitou e o renegou, Ele é meu de novo. E eu me torno sua serva.
Pedro que havia se aproximado da porta com João, sem ser visto pelas mulheres, foge de lá para algum canto escondido a fim de chorar sobre o seu pecado. E João fica perto de um umbral da porta. Mas não diz nada. Bem que ele quereria sair. Mas resolve fazer o sacrifício de ficar perto da Mãe.
616.8Maria Madalena reconduz Maria à sua cadeira. Ajoelha-se diante dela, abraça-a nos joelhos levantando em sua direção o rosto cheio de dor e de amor, e lhe promete:
– Ele, com o seu Espírito, sabe de tudo e vê tudo. Mas ao seu Corpo, com os beijos, eu exprimirei o teu amor, o teu desejo. Eu sei o que é o amor. Eu sei que aguilhão, que fome é amar. Que saudade de estar com quem é o amor para nós. E isso está presente também nos amores sórdidos que parecem ouro, mas são lama. E quando a pecadora descobre aquilo que é o amor santo pela Misericórdia viva entre nós, que os homens não souberam amar, então pode-se compreender melhor o que é o teu amor, Mãe. Tu sabes que eu sei amar. E tu sabes que Ele disse isso2 naquela noite do meu verdadeiro nascimento, lá, às margens do nosso lago sereno, que Maria sabe amar muito. Agora, esse meu amor exuberante — como água que transborda de uma bacia inclinada, como a roseira em flor que se joga de uma muralha em direção ao chão, como chama que, encontrando uma labareda, toma forma e cresce — derramou-se sobre Ele totalmente, e Dele-Amor extraiu nova potência… Oh! A minha potência de amar não foi capaz de substituí-Lo sobre a Cruz!… Mas aquilo que eu não pude fazer por Ele — sofrer, sangrar, morrer em seu lugar, em meio à zombaria do mundo todo, feliz, feliz, feliz de sofrer em seu lugar, e, tenho certeza, o estame da minha pobre vida teria sido queimado mais pelo amor triunfal do que pelo patíbulo infame; e das cinzas teria desabrochado a nova, a cândida flor da nova vida pura, virgem, desconhecedora de tudo aquilo que não é Deus — tudo isso que eu não pude fazer por Ele, posso fazer por ti agora… Mãe, que amo com todo o meu coração. Confia em mim. Eu que soube, na casa de Simão o fariseu, acariciar tão docemente os seus pés santos, agora, com a alma que desabrocha sempre mais para a Graça, saberei ainda mais docemente acariciar os seus membros santos, medicar as feridas, embalsamar mais com o meu amor, mais com o bálsamo extraído do meu coração espremido pelo amor e pela dor, do que com os unguentos… E a morte não corroerá aquelas carnes que deram e receberam tanto amor. A morte fugirá. Porque o Amor é mais forte que a morte. O Amor é invencível. E eu, Mãe, embalsamarei de amor — o teu perfeito, o meu total — o meu Rei de Amor.
Maria beija esta apaixonada que soube encontrar, finalmente, Aquele que merece tanta paixão, e cede aos seus desejos.
616.9As mulheres saem levando as lanternas. No quarto fica uma só. Por último, sai Madalena, depois de um último beijo à Mãe, que fica.
A casa está toda escura e silenciosa. A estrada está ainda escura e vazia.
João pergunta:
– Então, não me quereis mesmo?
– Não. Podes ajudar aqui. Adeus.
João volta para Maria.
– Elas não me quiseram… –diz em voz baixa.
– Não fiques mortificado com isso. Elas estão com Jesus. E tu estás comigo. João, vamos rezar um pouco juntos. Onde está Pedro?
– Não sei. Talvez esteja em casa. Mas eu não o vejo. É… Eu pensava que ele fosse mais forte… Eu também estou sofrendo, mas ele…
– Ele tem duas dores. E tu tens uma só. Vem cá. Rezemos também por ele.
E Maria vai dizendo devagar o Pai Nosso. Depois ela acaricia João, dizendo-lhe:
– Vai procurar Pedro. Não o deixes sozinho. Ele tem ficado tanto na escuridão, nestas últimas horas, que não suporta nem mesmo a leve luz do mundo. Sê tu, João, o apóstolo para o teu irmão transtornado. Começa com ele a tua pregação. Ao longo do teu caminho, e será longo, encontrarás sempre outros semelhantes a ele. Começa o teu trabalho por ele…
– Mas que é que eu vou dizer-lhe?… Eu não sei… Tudo o faz chorar…
– Fala-lhe do preceito do amor, que Ele ensinou. Dize-lhe que somente tem medo quem ainda não conhece bem a Deus, pois Deus é Amor. E se ele te disser: “Eu pequei,” responde-lhe que Deus amou tanto os pecadores, que, por causa deles, nos mandou o seu Unigênito. Dize-lhe que tão grande amor deve ser correspondido com amor. E o amor faz crescer a confiança no Boníssimo Senhor. E essa confiança não nos deixa temer o julgamento dele, porque com ela recebemos juntas a Sabedoria e a Bondade divinas, e podemos dizer: “Eu sou uma pobre criatura. Mas Ele o sabe. E me dá o Cristo como garantia de perdão e coluna de sustentação. A minha miséria é vencida pela minha união com Cristo.” É em nome de Jesus que tudo é perdoado… Vai, João. Dize-lhe isto. Eu fico aqui com o meu Jesus…
E acaricia o Sudário
João sai, fechando a porta atrás de si.
616.10Maria se coloca de joelhos como na noite anterior, com o rosto no Rosto do véu da Verônica. Ela reza e fala com o seu Filho. Forte para dar força aos outros, quando está sozinha se rende sob a sua cruz esmagadora. Contudo, de vez em quando, como uma chama que não está mais sujeita a ser abafada, sua alma se eleva com uma esperança, que Nela não pode morrer. Aliás, que cresce com o passar das horas. E exprime a sua esperança também no Pai. A sua esperança e o seu pedido.
616.11(Aqui a senhora pode colocar, tal e qual, porque não houve modificações, a oração feita no ano passado, o lamento dessa aurora pascal do dia 21 de fevereiro de 1944)
21 de fevereiro de 1944.
[…]
616.12– Jesus, Jesus! Não voltaste ainda? A tua pobre Mamãe não resiste mais imaginar-te morto. Tu o disseste e ninguém te entendeu. Mas eu te entendi! “Destruí o Templo de Deus e Eu o reedificarei em três dias.” Este é o início do terceiro dia. Oh! meu Jesus! Não esperes que chegue ao fim para voltares à vida, à tua Mamãe que precisa ver-te vivo para não morrer recordando-te morto, que precisa ver-te belo, sadio, triunfante, para não morrer recordando-te naquele estado no qual te deixou!
616.13Oh! Pai! Pai! Devolve o meu Filho! Que eu o veja retornar como homem e não um cadáver, Rei e não um condenado. Depois, eu bem sei, Ele retornará a Ti, ao Céu. Mas eu o terei visto curado de tanto mal, forte depois de tanto langor, triunfante depois de tanta luta, eu o terei visto Deus depois de tanta humanidade suportada em favor dos homens. E me sentirei feliz mesmo perdendo a proximidade com Ele. Eu saberei que Ele está Contigo, Pai santo, saberei que Ele está livre para sempre da Dor. Agora, ao invés, não posso, não posso esquecer que Ele está em um sepulcro, que está lá massacrado pelo sofrimento sem fim ao qual o submeteram; que Ele, o meu Filho-Deus, assumiu a mesma sorte dos homens na escuridão de um túmulo, Ele, o teu Vivente.
Pai, Pai, escuta a tua serva. Por aquele “sim”… Eu nunca te pedi nada pela minha obediência aos teus desejos. Era a tua vontade, e a tua vontade era a minha. Nada eu podia exigir pelo sacrifício da minha vontade a Ti, ó Pai Santo. Mas agora, por aquele “sim” que eu disse ao Anjo mensageiro, ó Pai, escuta-me!
Ele já está livre das torturas, porque cumpriu tudo com a agonia de três horas, depois das crueldades da manhã. Mas eu, há três dias que estou nesta agonia. Tu estás vendo o meu coração e percebes as palpitações dele. O nosso Jesus disse que não cai uma pena de um passarinho sem que Tu a vejas, e que não morre uma flor no campo sem que tu não a consoles da aflição, com o teu Sol e o teu orvalho. Oh! Pai, eu morro com esta dor. Trata-me como ao passarinho que tu revestes com novas penas, e à flor que tu aqueces e dessedentas com a tua piedade. Eu vivo enregelada pela dor. Não tenho mais sangue nas veias. Uma vez ele se transformou todo em leite, para nutrir o teu e meu Filho. Mas agora ele se transformou todo em pranto, porque eu não tenho mais o Filho. Eles o mataram, Pai, e Tu sabes de que modo!
616.14Não tenho mais sangue! Eu o derramei com Ele na noite de Quinta-feira, na Sexta-feira funesta. Sinto frio como quem está sem uma gota de sangue. Não tenho mais o sol, porque Ele morreu, o meu Sol santo, o meu Sol abençoado, o Sol que nasceu do meu seio para a alegria de sua Mãe, para a saúde do mundo. Não tenho mais refrigério, porque não tenho mais a Ele, a fonte mais doce para a sua Mãe, que bebia a sua palavra, que saciava sua sede com a sua presença. Sou como uma flor num terreno ressecado.
Morro, morro, Pai santo. Não tenho medo de morrer, porque Ele também morreu. Mas como farão esses pequeninos, esse pequeno rebanho do meu Filho, esse rebanho tão frágil, tão amedrontado, tão volúvel, se não há quem o sustente? Eu sou um nada, Pai. Mas pelo desejo do meu Filho sou como uma fileira de soldados. Defendo, defenderei a sua Doutrina e a sua herança assim como uma loba defendo os seus filhotes. Eu, ovelha, tornar-me-ei loba para defender aquilo que é do meu Filho e, portanto, aquilo que é Teu.
616.15Tu viste, Pai. Oito dias atrás esta cidade despojou os seus olivais, despojou suas casas, despojou seus jardins, despojou seus habitantes e ficou rouca de tanto gritar: “Hosana ao Filho de Davi; bendito Aquele que vem em nome do Senhor.” E enquanto Ele passava sobre os tapetes de ramos, de vestes, de tecidos, de flores, os cidadãos o mostravam, dizendo: “É Jesus, o Profeta de Nazaré da Galileia. É o Rei de Israel.” E enquanto ainda não se haviam murchado aqueles ramos e a voz ainda estava rouca de tanto “hosana,” eles mudaram o seu grito em acusações e maldições, e em pedido de morte; e com os ramos, usados para o triunfo, fizeram bastões para fustigar o teu Cordeiro, que eles conduziam à morte. Se fizeram tudo isso enquanto Ele estava entre eles e lhes falava, lhes sorria, olhava-os com aquele olhar que derretia o coração, e até as pedras tremiam se recebiam aquele olhar, e Ele os ajudava e os formava, o que farão quando Ele tiver voltado a Ti?
Os seus discípulos, Tu os viste. Um deles o traiu. Os outros fugiram. E bastou que Ele fosse atacado para que eles fugissem como ovelhas medrosas, e nem souberam ficar ao redor dele quando Ele estava morrendo. Somente um, o mais novo deles, é que ficou. Agora vem vindo o ancião. Mas ele já o renegou uma vez. Quando Jesus não estiver mais aqui para olhá-lo, saberá ele permanecer na Fé?
616.16Eu sou um nada, mas um pouco do meu Filho está em mim, e o meu amor preenche a minha imperfeição e a anula. Assim, eu me torno algo de útil à causa do teu Filho, à sua Igreja, que nunca terá paz e que precisa fincar raízes profundas para não ser arrancada pelos ventos. Eu serei Aquela que a cura. Como a horticultora atenta, vigiarei para que cresça forte e ereta, desde sua manhã. Depois, não me importarei de morrer. Mas não consigo viver se ficar por mais tempo sem Jesus.
Oh! Pai, que abandonaste o teu Filho para o bem dos homens, mas que depois o confortaste, porque certamente o recebeste em teu seio depois da morte, não me deixes mais no abandono. Eu sofro e ofereço para o bem dos homens. Mas conforta-me agora, ó Pai! Pai, piedade! Piedade, meu Filho. Piedade, Divino Espírito. Lembra-te da tua Virgem!
[1º de abril de 1945]
616.17Depois, prostrada por terra, Maria parece estar rezando com aquele seu gesto, mais do que com o seu coração. Ela está mesmo parecendo uma pobre coisa destruída. Parece aquela flor morta de sede, da qual ela mesma falou.
Ela não percebe nem mesmo o tremor de um breve, mas violento terremoto, que faz gritar e fugir o dono e a dona da casa, enquanto Pedro e João, pálidos como cadáveres, se arrastam até a soleira do quarto. Mas vendo-a assim, absorta em sua oração, se esquecem de tudo o que não é Deus e se retiram, fechando a porta; e voltam espavoridos para o Cenáculo.
1 na casa do Fariseu, no capítulo 236.
2 disse isso em 239.4 e repetiu isso em 550.7, onde lhe falou sobre o bálsamo verdadeiro, aquele do amor, “que Ele apreciará infinitamente”.
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