338. 338. Judas Iscariotes perde o poder do milagre.A parábola do cultivador.
22 de novembro de 1945.
338.1 A estrada que vai para Sefet deixa a planície de Corozaim para enfrentar um grupo proeminente de montanhas, muito coberto de matas. Um curso d’água desce do meio desses montes, e certamente se dirige para o lago de Tiberíades.
Os peregrinos ficam esperando nesta ponte que os alcancem os outros mandados ao lago Meron. E não precisam esperar muito. Pontuais ao encontro combinado, eles estão chegando bem dispostos, e se reúnem com alegria ao Mestre e aos companheiros, contando como foi a sua viagem, abençoada por alguns milagres feitos cada vez por cada um de “todos os apóstolos”, como dizem eles. Mas Judas de Keriot corrige:
– Menos por mim, que não cheguei a conseguir nada.
E sua humilhação, ao confessar isso, é bem penosa.
– Nós te havíamos dito que era porque tínhamos em nossa frente um grande pecador –responde-lhe Tiago de Zebedeu.
E se explica:
– Sabes, Mestre? Era Jacó, que está muito doente. E ele Te invoca por isso, porque está com medo da morte e do julgamento de Deus. Mas está mais avarento do que nunca, agora que está prevendo um verdadeiro desastre em suas colheitas, completamente arruinadas pela geada. Ele perdeu todo o trigo, que ia servir de semente, e agora não tem com que semear outro, porque está doente e porque sua empregada, extenuada pelo cansaço e pela fome — pois ele economiza até a farinha para o pão, tomado como ele vive, pelo medo de ficar um dia sem comida, — não tem meios nem para arar o campo. Nós talvez tenhamos pecado, porque trabalhamos todo o dia de sexta-feira até além do pôr-do-sol, e até às últimas claridades, chegando a usar fachos e fogueiras bem acesas para podermos ver, nós aramos uma grande extensão de terreno. Filipe, João e André sabem agir e eu também. Nós nos esfalfamos… Simão, Mateus e Bartolomeu vinham atrás de nós, limpando os torrões do trigo nascido e morto, e Judas foi, em teu Nome, pedir um pouco de semente a Judas e a Anás, prometendo-lhes a nossa visita de hoje. Ele conseguiu, e do bom… Então, nós dissemos: “Amanhã iremos semear.” Por isso é que tardamos um pouco. Porque nós começamos no início do pôr-do-sol. Que o Eterno nos perdoe por causa do motivo pelo qual pecamos. Judas, entrementes, permanecia junto ao leito de Jacó para convertê-lo. Ele sabe falar melhor do que nós. Pelo menos assim quiseram dizer, por sua conta, também Bartolomeu e o Zelotes. Mas Jacó estava surdo a todos os argumentos. Ele queria a cura, porque a doença lhe traz grandes gastos e ele já estava maltratando a empregada, xingando-a de preguiçosa. Judas procurava acalmá-lo, quando ele ficava dizendo “Eu me converterei se ficar curado”, e então Judas lhe impôs as mãos. Jacó, porém, continuou doente como antes. E Judas, aborrecido, no-lo disse. Nós, então, tentamos, por nossa vez, fazer o mesmo, antes de nos irmos deitar, mas não conseguimos o milagre. Agora Judas está dizendo que é porque ele não está em boas graças contigo, havendo-te desagradado, e está abatido. Nós lhe dissemos que era porque tínhamos à nossa frente um pecador obstinado, que pretende conseguir tudo o que deseja, marcando limites e dando ordens, até a Deus. Quem é tem razão?
– Vós sete. Dissestes a verdade. 338.2E Judas e Anás, como vão os campos deles?
– Um pouco arruinados. Mas eles têm meios, e a tudo se proveu, a tudo. Eles, porém são bons. Toma. Mandam-te esta oferta e estes alimentos. Esperam ver-te alguma vez. O que nos contrista é o estado de espírito de Jacó. Eu teria querido curar-lhe a alma, mais do que o corpo… –diz André.
– E nos outros lugares?
– Oh! No caminho para Deberet, perto do povoado, curamos — foi Mateus — um homem, que estava com as febres, e estava voltando de um médico, que o tinha declarado desenganado. Permanecemos na casa dele, e a febre não voltou, do pôr-do-sol até à aurora, e ele dizia que estava sentindo-se bem, e com suas forças. Depois, em Tiberíades, foi André que curou um barqueiro, que havia quebrado um ombro, caindo de cima da ponte. Ele impôs-lhe as mãos, e o ombro ficou curado. Imagina, como ficou aquele homem! Quis transportar-nos, sem que lhe pagássemos, a Magdala e a Cafarnaum, depois a Betsaida, e lá ele ficou, porque lá estão os discípulos Timoneu, de Aera, Filipe de Arbela, Hermasteu e Marcos de Jiosa, um dos que foram libertados1 do demônio perto de Gamala. Também o barqueiro José quer ser discípulo… Os meninos, que estão em casa de Joana, vão bem. Nem parecem mais aqueles. Estavam no jardim, e brincavam com Joana e Cusa…
– Eu os vi. Também eu passei por lá. Continuai.
– Em Magdala, esteve Bartolomeu, que converteu um coração viciado e curou um corpo entregue ao vício. Como ele falou bem! Mostrou que a desordem do espírito gera a desordem do corpo, e que toda concessão feita à desonestidade degenera na perda da tranqüilidade, da saúde, e, enfim, da alma. Quando ele o viu arrependido e persuadido, impôs-lhe as mãos, e o homem ficou curado. Queriam deter-nos em Magdala. Mas nós obedecemos, seguindo depois da noite para Cafarnaum. Lá estavam cinco, que pediam de Ti uma graça. E estavam querendo voltar para casa, sem terem sido atendidos. Nós os curamos. Não vimos ninguém, porque reembarcamos sem demora para Betsaida, a fim de evitarmos as perguntas de Eli, de Urias e seus companheiros. 338.3Em Betsaida! Mas, conta tu, André, ao teu irmão… –termina Tiago de Zebedeu, que sempre falou.
– Oh! Mestre! Oh! Simão. Mas, se tivéssemos visto Marziam! Não se pode mais reconhecê-lo!…
– Oh! Que sorte! Não terá ele virado uma mulher? –exclama e pergunta Pedro.
– Não, pelo contrário! Um belo jovem alto e esguio, por causa do seu grande crescimento… Uma coisa maravilhosa! Tivemos dificuldade em conhecê-lo. Está alto como tua mulher, e como eu…
– Oh! Está bem, Nem eu, nem tu, nem Porfiria somos umas palmeiras! Quando muito, podemos ser comparados a uns pés de abrunheiro… –diz Pedro, que, mesmo tendo dito isso, está muito alegre, ao ouvir dizer que seu filho adotivo está muito crescido.
– Sim, meu irmão. Na festa das Encênias, ele era ainda um meninozinho pouco desenvolvido, que mal chegava até nossos ombros. Agora se tornou de verdade um jovem homem, tanto na estatura, como na voz e na seriedade. Ele fez como aquelas plantas, que ficam sem crescer durante muitos anos e depois, de repente, pegam um crescimento espantoso. Tua mulher teve muito trabalho para encompridar as vestes dele, e para fazer novas. E ela as faz com muitas dobras e grandes orlas na costura, porque ela prevê que Marziam ainda vai crescer mais. E ele cresce ainda mais em sabedoria. Mestre, a humildade sábia do Natanael te havia dito que, por quase dois meses, Bartolomeu foi mestre do menor e mais heróico dos discípulos, que se levanta antes do raiar do dia, para ir pastorear as ovelhas, rachar a lenha, buscar água, acender o fogo, varrer, ir fazer as compras, por amor de sua mãe adotiva e depois, na parte da tarde, até alta noite, estuda e escreve como um pequeno doutor. E veja só! Ele reuniu todos os meninos de Betsaida e, aos sábados, lhes explica pequenas passagens da Sagrada Escritura. Desse modo, os pequenos que, para não ficarem perturbando as funções, são excluídos da sinagoga, têm também o seu dia de oração, como os grandes. E dizem-me as mães, que é belo ouvi-lo falar e que os meninos gostam dele e lhe obedecem, e lhe têm respeito e vão se tornando bons. Que discípulo ele vai ser!
– Mas olha! Olha. Eu… estou comovido… Meu Marziam! Mas também em Nazaré, que heroísmo o daquela menina, chamada Raquel, não é?
Pedro parou, e deixou aquelas palavras no ar, ficando muito corado, por medo de ter falado demais.
Por sua sorte, Jesus o socorre, enquanto que Judas está muito pensativo e distraído ou finge estar assim. Jesus diz:
– Isto mesmo, a Raquel. Lembras bem. Está curada. E os campos vão dar muito trigo. Por lá passamos Eu e Tiago. Tudo isso pode obter o sacrifício de um menino justo.
– Em Betsaida, foi Tiago que fez o milagre sobre um pobre estropiado, e Mateus, na estrada, perto da casa do Jacó, curou um menino. Mas hoje mesmo, na praça daquela aldeia, ao lado da ponte, Filipe e João curaram, o primeiro deles um doente, e o segundo um menino endemoninhado.
338.4 – Todos vós fizestes bem. Muito bem. Agora vamos até aquele povoado, que está nas encostas, e lá ficaremos em alguma casa, para dormirmos.
– E Tu, Mestre meu, que foi que fizeste? Como está Maria? E a outra Maria –pergunta João.
– Estão bem e saúdam a todos vós. Estão preparando as vestes e tudo mais que é preciso para a peregrinação da primavera. E não vêem a hora de acabar tudo, para poderem estar conosco.
– Também Susana e Joana e nossa mãe estão igualmente ansiosas –diz sempre João.
Bartolomeu diz:
– Também minha mulher, com as filhas, quer ir este ano, depois de tantos anos, a Jerusalém. Diz ela que nunca mais será tão belo como neste ano… Não sei por que ela diz isso. Mas ela afirma que o sente em seu coração.
– Certamente então também a minha irá. Ela não me disse nada… Mas o que Ana faz também o faz Maria –diz Filipe.
– E as irmãs de Lázaro? Vós que as tendes visto… –pergunta Simão Zelotes.
– Elas obedecem, sofrendo, à ordem do Mestre e a necessidade… Lázaro está sofrendo muito, não é verdade, Judas? Está quase sempre de cama. Mas é com muita ansiedade que esperam o Mestre –diz Tomé.
– Logo virá a Páscoa, e iremos à casa de Lázaro.
– Mas, que foi que fizeste em Nazaré e em Corozaim?
– Em Nazaré saudei os meus parentes, os amigos e os parentes dos dois discípulos. Em Corozaim falei na sinagoga e curei uma mulher. Permanecemos na casa da viúva, cuja mãe morreu. Foi uma dor e, ao mesmo tempo, um consolo, por causa dos poucos recursos e pelo tempo que eu tomava dela, que precisava prestar assistência à enferma, e fazer seu trabalho de viúva, que era o de pôr-se a fiar, por conta de outros. Mas ela nunca perdeu a esperança. Ela tem o necessário garantido, e com isso se faz pagar. José vai todas as manhãs à oficina de um carpinteiro no Poço de Jacó, para aprender o ofício.
338.5 – Os de Corozaim são melhores? –pergunta Mateus.
– Não, Mateus. São sempre piores –confessa sinceramente Jesus–. Eles nos maltrataram. Os mais poderosos, é claro. Não o povo simples.
– É um lugar muito ruim. Não vamos mais lá –diz Filipe.
– Com isso ficaria triste o discípulo Elias, a viúva, a mulher que foi curada hoje e os outros bons…
– Sim. Mas são tão poucos, que… eu não tomaria mais o meu tempo com aquele lugar. Tu o disseste: “É impossível ser trabalhado” –diz Tomé.
– Uma coisa é a resina, e outra são os corações. Alguma coisa sobrará, como a semente enterrada debaixo de camadas e mais camadas de terra muito compacta. Haverá muita coisa para emergir. E que finalmente emergirá. Assim vai ser Corozaim. Um dia nascerá o que Eu semeei. Não devemos ficar cansados com as primeiras derrotas. 338.6Ouvi esta parábola: Poderia ser intitulada “A Parábola do Bom Cultivador.”
Um rico tinha uma grande e bela vinha, na qual havia também figueiras de diversas qualidades. Na vinha trabalhava um empregado dele, experiente vinhateiro, e podador de árvores frutíferas, que cumpria o seu dever com amor para com o seu patrão e para com as plantas. Todos os anos o rico, na melhor estação, ia muitas vezes à sua vinha, para ver como iam amadurecendo as uvas e os figos, e provar alguns deles, apanhando-os das árvores com suas mãos. Mas, um dia, quis dirigir-se a uma figueira que era de ótima qualidade, a única planta daquela qualidade, que havia na vinha. Até aquele dia, como nos dois anos precedentes, ele só encontrou folhas, e nada de frutos. Então, ele chamou o vinhateiro, e lhe disse: “Há três anos que eu venho procurando fruto nesta figueira, e só encontro folhas. Compreende-se que ela parou de produzir frutos. Corta-a, pois é inútil que ela fique aqui ocupando um lugar, e tomando o teu tempo, para depois não chegar a nada. Corta-a, queima-a, limpa depois o terreno das raízes dela e, no lugar, coloca uma plantinha nova. Com alguns anos ela dará fruto.” O vinhateiro era um homem paciente e amoroso, e respondeu: “Tens razão. Mas deixa-me experimentar, por um ano ainda. Eu não vou cortar a planta. Mas vou, com maior cuidado, capinar o solo ao redor dela, vou adubá-la e podá-la. Talvez ela não frutifique ainda. Se, depois desta última prova, ela não der fruto, então obedecerei ao teu desejo, e a cortarei.”
Corozaim é a figueira que não dá frutos. Eu sou o Bom Cultivador. O rico impaciente sois vós. Deixai agir o Bom Cultivador.
338.7 – Está bem. Mas a tua parábola não chegou ao fim. A figueira, um ano depois, produziu fruto? –perguntou o Zelotes.
– Não produziu fruto, e foi cortada. Mas o cultivador ficou justificado, por cortar uma árvore ainda nova e bonita, porque ele fez todo o seu dever. Eu também quero ser justificado, por causa daqueles nos quais deverei descer o machado, e arrancá-los da minha vinha, para pô-los onde só há plantas estéreis ou venenosas, ninhos de serpentes, sugadoras dos sucos da terra, parasitas ou tóxicas, que desgastam ou prejudicam seus companheiros, os discípulos, ou então, que vão penetrando, deslizando, com suas raízes maléficas, para proliferarem, sem terem sido chamados à minha vinha, rebeldes a todo enxerto, e que aí penetraram só para espionar, denegrir e tornar estéril o meu campo.
A estes Eu os cortarei, quando tudo tiver sido tentado para convertê-los. E, por enquanto, antes do machado, Eu levanto a tesoura e a faca do podador, arranco as folhas e faço o enxerto. Oh! Será um trabalho duro. Para Mim, que o faço, e para aqueles que o sofrerão. Mas vai ser feito. A fim de que se possa dizer no Céu: “Ele fez tudo até o fim, mas eles se tornaram cada vez mais estéreis e maus, ainda mais do que antes de por Ele serem podados, enxertados, cavados ao redor, adubados com suor e lágrimas, com cansaços e sangue”… 338.8Eis aqui o povoado. Ide todos à frente, e pedi alojamento. Tu, Judas de Keriot, fica comigo.
Ficam sós e, na penumbra da tarde, vão andando um perto do outro, no maior dos silêncios.
Finalmente, Jesus diz, como se estivesse falando só consigo mesmo:
– Contudo, ainda que se tenha caído fora da graça de Deus, por ter violado sua Lei, sempre se pode voltar a ser o que éramos antes, se renunciarmos ao pecado…
Judas nada responde.
Jesus continua:
– E, se chegamos a compreender que não se pode mais ter o poder de Deus, porque Deus, porque Deus não está onde está Satanás, com facilidade ainda se pode remediar, preferindo o que Deus concede ao que a soberba quer.
Judas fica calado.
Jesus, — e já estão passando pela primeira casa do povoado, — sempre como se estivesse falando a Si mesmo, diz:
– E ter que pensar que Eu sofri áspera penitência, para que ele se arrependa, e volte ao seu Pai…
Judas tem um sobressalto, levanta a cabeça, olha para Ele… mas não diz nada.
Também Jesus olha para ele… e depois lhe pergunta:
– Judas, a quem é Eu estou falando?
– A mim, Mestre. É por causa de Ti que eu não tenho mais poder. Porque Tu mo tiraste, para aumentar o de João, de Simão, de Tiago, de todos, menos a mim. Tu não me amas, é isto. E eu terminarei não te amando, e maldizendo a hora em que te amei, arruinando-me aos olhos do mundo, por um rei tímido, que se deixa dominar até pelo povo. Não era isso que eu esperava de Ti!
– Nem Eu também de ti. Mas Eu nunca te enganei. Eu nunca te constrangi. Por que, então, permaneces ao meu lado?
– Porque eu te amo. Não posso mais me separar de Ti. Tu me atrais e me causas arrepios. Eu te desejo como o ar que respiro… e me fazes medo. Ah! Eu sou um maldito. Sou um condenado. Por que não tiras de mim o demônio, Tu que podes fazer isso?
O rosto do Judas está lívido e transtornado, louco, cheio de medo e de ódio… Ele já faz pensar, ainda que de longe, na máscara satânica do Judas da Sexta-Feira Santa.
E Jesus faz pensar, com esse seu Rosto, no Nazareno flagelado que, sentado no pátio do Pretório sobre o alguidar emborcado, está olhando para os que zombam dele, com toda a sua piedade amorosa. Ele fala, e parece que já um soluço está em sua voz:
– Porque em ti não há arrependimento, mas somente ira contra Deus, como se Ele fosse o culpado do teu pecado.
Judas solta, por entre os dentes, uma feia imprecação…
338.9 – Mestre, nós achamos vagas, cinco em um lugar, três em outro e uma em dois outros. Não foi possível fazer melhor –dizem os discípulos.
– Está bem. Eu fico com Judas de Keriot –diz Jesus.
– Não. Eu prefiro ficar só. Estou inquieto. E não te deixarei descansar.
– Como quiseres tu… Então, ficarei com Bartolomeu. Vós fareis o que quiserdes. Enquanto isso vamos para onde há mais lugares, a fim de podermos cear juntos.
1 um dos que foram libertados, em 186.7.
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