259. 259. Lição sobre a Igreja e os Sacramentosa Tiago de Alfeu, que realiza um milagre.
21 de agosto de 1945.
259.1Jesus deixa o planalto do Carmelo, e desce pelos caminhos cobertos de orvalho, através dos bosques, que vão se enchendo cada vez mais de trinados e de vozes, sob sol da manhã, que já vem dourando a encosta oriental do monte. Quando a leve neblina produzida pelo calor vai-se evaporando sob o sol, toda a planície de Esdrelon aparece, na beleza dos seus pomares e vinhedos, plantados perto das casas. Parece um tapete, quase totalmente verde, com uns poucos oásis amarelados, disseminados pelo meio de um redemoinho de cor vermelha, que são os campos, onde acabou de ser ceifado o trigo, e agora veem-se acesas as papoulas, encerradas na área em forma de engaste triangular, formado pelos montes Carmelo, Tabor e Hermon (o pequeno Hermon), e pelos montes mais distantes, cujos nomes eu não sei e que escondem o Jordão, unindo-se a sudoeste com os montes da Samaria.
Jesus se detém para olhar, pensativo, para toda aquela parte da Palestina. Tiago olha para Ele e diz:
– Estás olhando para a beleza desta região?
– Sim, também para ela. Mas, mais do que para ela, eu estou pensando nas peregrinações futuras e na necessidade de enviar-vos e de enviar, sem perda de tempo, os discípulos, não a um trabalho limitado como o de agora, mas a um trabalho realmente missionário. Temos regiões e mais regiões, que ainda não me conhecem e Eu não quero deixar lugares sem me conhecerem. Esta é a minha preocupação em todas as horas: andar, fazer, enquanto estou podendo, fazer tudo…
– De vez em quando, sucedem coisas que te fazem ir devagar.
– Mais do que Me fazerem ir devagar, Me levam a fazer alterações no itinerário a ser seguido. Pois nunca são inúteis as viagens que fazemos. E, enquanto isso, há tantas, tantas coisas para fazer… E também porque, depois de ter estado ausente de um lugar, quando a ele volto, encontro muitos corações que voltaram ao ponto em que estavam antes, e devo começar tudo de novo.
– Sim, é cansativa e desagradável esta apatia dos espíritos, esta volubilidade, e esta preferência pelo mal.
– É cansativa. Mas não digas desagradável. O trabalho de Deus nunca é desagradável. As pobres almas devem causar-nos piedade, não desagrado. Um pai nunca fica desgostoso pelas doenças do seu filho. E nós não devemos ficar desgostosos com ninguém.
259.2– Jesus, permites-me fazer-te algumas perguntas? Eu, até nesta noite mesmo, não dormi. Mas fiquei pensando muito, enquanto fiquei te olhando dormir! Durante o sono pareces ficar tão jovem, meu Irmão! Ficavas sorrindo, com a cabeça apoiada sobre um braço dobrado por baixo dela, justamente como fazem os meninos. Eu Te via bem por causa do luar bem claro que houve esta noite. E eu fiquei pensando. E muitas perguntas me subiram ao coração…
– Dize quais são.
– Eu dizia a mim mesmo: é preciso que eu pergunte a Jesus como poderemos chegar a ser esse organismo, ao qual Tu deste o nome de Igreja e no qual, se é que eu entendi bem, haverá hierarquias, estando nós nesta insuficiência. Tu nos dirás o que temos que fazer, ou nós é que deveremos pensar nisso?
– Eu, quando chegar a hora, vos mostrarei o começo dela. Nada mais. Durante a minha presença entre vós, Eu já vos vou mostrando as diversas classes com as diferenças entre apóstolos, discípulos e discípulas. Eu quero que, assim como os discípulos devem ter respeito e obediência para com os apóstolos, assim também os apóstolos tenham amor e paciência para com os discípulos.
– E, que deveremos fazer? Pregar-te sempre, e somente isso?
– Isto é essencial. 259.3Depois, devereis, em meu nome, absolver e abençoar, tornar a colocar no estado de graça, administrar os Sacramentos que Eu vou instituir…
– Que são essas coisas?
– São meios sobrenaturais e espirituais aplicados junto com meios materiais, modos para persuadir os homens que o sacerdote faz realmente alguma coisa. Tu estás vendo que o homem, se não vê, não crê. Ele tem sempre a necessidade de alguma coisa que lhe diga que alguma coisa existe. Por isso, quando Eu faço milagres, imponho as mãos, molho com a saliva ou dou um bocado de pão molhado. Eu poderia fazer o milagre somente com o meu pensamento. Mas, podes crer que, nesse caso, as pessoas diriam “Foi Deus que fez o milagre?” Elas diriam “Ficou curado, porque era hora de ficar curado.” E atribuiriam o merecimento ao médico, aos remédios ou à resistência física do doente. O mesmo acontecerá com os Sacramentos. Eles são formas de culto para administrar a Graça, conferindo-a ou fortalecendo-a nos fiéis. João, por exemplo, usava a imersão na água para dar uma ideia da limpeza, que exclui os pecados. Na realidade, mais do que a água, que servia para lavar os membros, era útil a mortificação de se confessarem sujos, pelos pecados que haviam feito. Eu também terei o batismo, o meu batismo, que não será simplesmente uma figura, mas será realmente uma detersão da mancha original da alma e a restituição à mesma do estado espiritual, que Adão e Eva possuíam, antes da sua culpa, mas agora já melhor, porque dado pelos merecimentos do Homem-Deus.
– Mas… a água não desce sobre a alma! A alma é espiritual. Quem será capaz de tocar nela no recém-nascido, no adulto, no velho? Ninguém.
– Estás vendo que admito que a água é um meio material, que não tem força sobre uma coisa espiritual? Portanto, não será a água, mas sim a palavra do sacerdote, membro da Igreja de Cristo, consagrado ao seu serviço ou de outro, que creia verdadeiramente, e que em casos excepcionais o substitua, operará o milagre da redenção da culpa original do que é batizado.
259.4– Está bem. Mas o homem comete também os seus próprios pecados…E esses outros pecados, quem lhos tirará?
– Sempre o sacerdote, Tiago. Se um adulto for batizado, junto com a culpa original, lhe serão canceladas as outras culpas. E, se o homem já é batizado e torna a pecar, o sacerdote o absolverá, em nome do Deus Uno e Trino e, pelo mérito do Verbo Encarnado, como faço Eu com os pecadores.
– Mas Tu és santo. Enquanto que nós…
– Vós deveis ser santos, porque tocais nas coisas santas e administrais o que é de Deus.
– Então, batizaremos muitas vezes um mesmo homem, como João que faz a imersão de um homem na água tantas vezes quantas o homem for a ele?
– João, no seu batismo, não faz mais do que uma purificação por meio da humildade daquele que vai para ser imergido. Eu já te disse isto. Vós não batizareis de novo a quem já foi batizado, a não ser que ele tenha sido batizado com uma fórmula não apostólica, mas cismática, e nesse caso se pode administrar um segundo batismo, fazendo-se uma pergunta clara ao batizando, se ele for adulto, se ele o quer, e uma clara afirmação de querer fazer parte da verdadeira Igreja. Nas outras vezes, para restabelecer a amizade e a paz com Deus usareis a palavra do perdão, unida aos méritos de Cristo, e a alma, que veio a vós com verdadeiro arrependimento e humilde acusação de si mesma, ficará absolvida.
259.5– E, se alguém não puder vir, porque está doente, a tal ponto que nem pode ser tirado do lugar onde se acha? Morrerá, então, no pecado? Ao sofrimento da agonia ainda se acrescentará mais esse do medo do juízo de Deus?
– Não. O sacerdote irá ao doente, e o absolverá. E lhe dará até uma forma mais ampla de absolvição, de um modo geral, mas para todos e cada um dos órgãos dos sentidos, pelos quais geralmente o homem chega ao pecado. Em Israel nós temos o óleo Santo, composto segundo a regra dada1 pelo Altíssimo, e com o qual é consagrado o altar, o Pontífice, os sacerdotes e os reis. O homem é realmente um altar. E rei ele se torna, por sua eleição para o trono do Céu; pode, portanto, ser consagrado com o Óleo da Unção. O óleo santo será, junto com o altar, parte do culto de Israel incluído na minha Igreja, embora com outros usos. Porque nem tudo em Israel é mau e deve ser repelido. Antes, muitas recordações da antiga estirpe estarão na minha Igreja, e uma será o óleo santo, usado também na Igreja para consagrar o altar, os pontífices e as hierarquias eclesiásticas todas, para consagrar os reis e os fiéis quando se tornarem os príncipes-herdeiros do reino ou, então, quando tiverem necessidade de maiores auxílios para poderem comparecer diante de Deus, com seus membros e sentidos limpos de toda culpa. A graça do Senhor socorrerá a alma e também o corpo, se a Deus lhe apraz, para o bem do doente. O corpo muitas vezes não reage contra as doenças, também por causa dos remorsos que lhe perturbam a paz e pela obra de satanás que, por aquela morte espera ganhar uma alma para o seu Reino e levar ao desespero os sobreviventes. O doente passa da angustia satânica e da perturbação interior à paz, mediante a certeza do perdão de Deus, que lhe obtém também o afastamento de satanás. E, visto que o dom da graça tinha por companheiro, em nossos primeiros pais, o dom da imunidade às doenças e de toda espécie de dor, o doente, restituído à graça, grande como a de um recém-nascido batizado com o meu batismo, pode obter também a vitória sobre a doença. Nisto ajudado também pelas orações dos irmãos na fé, nos quais existe a obrigação da piedade para com o enfermo, piedade não só corporal, mas sobretudo espiritual, tendendo a obter a salvação física e espiritual do irmão. A oração é já uma espécie de milagre, Tiago. A oração de um justo, como viste em Elias, muito pode fazer.
259.6– Eu te compreendo pouco, mas o pouco que eu compreendo já me enche de reverência pelo caráter sacerdotal dos teus sacerdotes. Se bem compreendo, teremos contigo muitos pontos em comum: a pregação, a absolvição, o milagre. Três sacramentos, portanto.
– Não, Tiago. Pregação e milagre não são sacramentos. Mas os Sacramentos serão mais. Serão sete, como o sagrado candelabro do Templo e os dons do Espírito do Amor. E em verdade, os Sacramentos são dons e são chamas, dados para que o homem arda diante do Senhor pelos séculos dos séculos. Haverá também o sacramento para as núpcias do homem. Isso é o que foi acenado2 no símbolo das núpcias santas de Sara de Raquel, libertada do demônio. Ele, aos esposos, dará todos os auxílios para uma santa convivência, segundo as leis e os desejos de Deus. Também o esposo e a esposa se tornam ministros de um rito: o da procriação. Também o marido e a mulher se tornam sacerdotes de uma pequena igreja: a família. Devem, por isso, ser consagrados para procriar com a bênção de Deus e para criar uma descendência na qual se bendiga o Nome Santíssimo de Deus.
– E a nós, os sacerdotes, quem nos consagrará?
– Eu, antes de deixar-vos. Vós, depois, consagrareis os sucessores e todos quantos associardes para propagarem a fé cristã.
– Tu nos ensinarás, não é mesmo?
– Eu e Aquele que Eu vos mandarei. E essa sua vinda será um Sacramento, voluntário, da parte de Deus Santíssimo em sua primeira epifania, e depois dado por aqueles que tiverem recebido a plenitude do sacerdócio. Será força e inteligência, será afirmação na Fé, será piedade santa e santo temor, será uma ajuda de conselho e de sabedoria sobrenatural, e a posse de uma justiça, que, por sua natureza e poder, tornará adulto a criança que a recebe. Mas tu não podes, por enquanto, compreender isto. Ele mesmo é que te fará compreender. Ele, o Divino Paráclito, o Amor Eterno, quando tiverdes chegado ao momento de recebê-lo em vós. E assim não podeis, por enquanto, compreender um outro Sacramento. É quase incompreensível para os anjos, de tão sublime. E, no entanto, vós, simples homens, o compreendereis em virtude da fé e do amor. Em verdade Eu te digo que quem o amar e nutrir com ele o seu espírito, poderá pisar o demônio sem ser danificado. Porque, então, Eu estarei com ele. Procura lembrar-te destas coisas, meu irmão. A ti é que tocará dizê-las aos companheiros e aos fiéis, muitas e muitas vezes. Vós, então, sabereis já por ministério divino, mas tu poderás dizer: “Ele me disse um dia, descendo do Carmelo. Tudo Ele me disse, porque eu estava sendo, desde aquele momento, destinado a ser o chefe da Igreja de Israel.”
259.7– Eis uma outra pergunta a fazer-te. Fiquei pensando nela esta noite. Mas serei eu que devo dizer aos companheiros: “Eu é que vou ser o chefe aqui?” Não me agrada. Se o ordenas, o farei. Mas não me agrada.
– Não tenhas medo. O Espírito Paráclito descerá sobre todos, e vos dará pensamentos santos para a glória de Deus em sua Igreja.
– E não haverá mais aquelas discussões tão… tão desagradáveis, que há agora? Também Judas de Simão não será mais causador de aborrecimentos?
– Não será mais, fica tranquilo. Mas divergências, ainda haverá. E por isso que Eu te disse: vela, e vela muito, sem te cansares nunca, fazendo o teu dever com firmeza.
– Ainda uma pergunta, meu Senhor. Em tempo de perseguição, como devo me comportar? Parece, pelo que Tu dizes, que eu terei que ficar sozinho dentre os Doze. Os outros, portanto, ir-se-ão embora para escaparem da perseguição. E eu?
– Tu continuarás no teu posto. Porque, se é necessário que não sejais exterminados, enquanto não estiver bem consolidada a Igreja, — isso justifica a dispersão de muitos discípulos e de quase todos os apóstolos —, nada justificaria a tua deserção e abandono por parte de ti da Igreja de Jerusalém. Ao contrário, quanto mais ela estiver em perigo, mais deverás zelar por ela, como se fosse a tua filha mais querida e prestes a morrer. O teu exemplo fortalecerá o espírito dos fiéis. Terão necessidade para superarem a prova. Quanto mais fracos os vires, mais deverás confortá-los, com compaixão e sabedoria. Se tu fores forte, não sejas sem piedade para com os fracos. Mas sustenha-os, pensando “Eu recebi tudo de Deus, para chegar a esta minha força. Humildemente devo dizê-lo e caridosamente devo agir pelos menos abençoados com os dons de Deus”, e dar, dar a tua força, junto com a palavra, com o socorro, com a calma, com o exemplo.
– E, se entre os fiéis houvessem malvados, causa de escândalos e servindo de perigo para os outros, que deverei fazer?
– Prudência, ao aceitá-los, porque é melhor serem poucos e bons do que muitos, e não bons. Tu conheces o velho apólogo das maçãs sãs e das maçãs doentes. Faça que não se repita na tua igreja. Mas, se tu também encontrares teus traidores, procura adverti-los de todos os modos, reservando os modos severos só como meios extremos. Mas, se se tratar apenas de pequenas culpas individuais, não sejas de uma severidade que assusta. Perdoa, perdoa… Faz mais um perdão com lágrimas e com palavras de amor, do que uma maldição, para redimir um coração. Se a culpa for grave, mas cometida por um repentino assalto de satanás, tão grave, que o culpado sinta necessidade de fugir da tua presença, vai tu à procura do culpado. Porque ele é o cordeirinho extraviado e tu és pastor. Não tenhas medo de te aviltares a ti mesmo descendo por estradas lamacentas, procurando por brejos e precipícios. A tua fronte se coroará, então, com a coroa do mártir do amor, que será a primeira das três coroas… E, se tu mesmo fores traído, como foi o Batista e muitos outros, porque cada santo tem o seu traidor, perdoa. Mais a este do que a qualquer outro. Perdoa, como Deus perdoou aos homens e como ainda perdoará. Chama ainda “filho” àquele que causará dor, porque o Pai os assim chama por minha boca e, em verdade, não existe homem que não tenha dado dor ao Pai dos Céus…
259.8Um longo silêncio enquanto vão atravessando pastos cheios de ovelhas pastando.
Enfim, Jesus pergunta:
– Não tens outras perguntas a fazer-me?
– Não, Jesus. E esta manhã compreendi melhor a minha tremenda missão…
– Porque hoje estás menos perturbado do que ontem. Quando for a tua hora, estarás ainda mais em paz e compreenderás melhor ainda.
– Recordarei todas essas coisas…todas… menos…
– Que, Tiago?
– Menos aquela que não me deixava olhar para Ti sem chorar, esta noite. Aquela que eu não sei se Tu mesmo me disseste — deverei crê-la dita por Ti —, ou se terá sido um susto a mim passado pelo demônio. Mas, como é que podes estar assim tão calmo, se… se aquelas coisas te devessem mesmo acontecer?
– E tu, ficarias calmo, se eu te dissesse: “Aqui está aquele pastor que, cansado, ainda está se arrastando por causa de uma junta contundida. Trata de curá-lo em nome de Deus?”
– Não, meu Senhor. Eu ficaria até como fora de mim, se eu fosse tentado a usurpar o teu lugar.
– E, se Eu te ordenasse?
– Eu o faria por obediência e já não teria nenhuma perturbação, porque estaria sabendo que Tu o queres, e ficaria sem medo de não saber fazer. Porque certamente Tu, ao mandar-me, me darias a força de fazer o que queres.
– Tu o dizes, e dizes bem. Vê, pois, como Eu, prestando obediência ao Pai, estou sempre em paz.
Tiago chora, inclinando a cabeça.
– Queres mesmo esquecer-te de tudo?
– Como Tu quiseres, Senhor.
– Há duas coisas a escolher: ou te esqueces, ou te lembras. Se te esqueceres, isso te livrará da dor e do silêncio absoluto junto aos companheiros, mas te deixará despreparado. Se te lembrares, isso te preparará para a tua missão, porque nada há melhor do que recordar-se do que sofre em sua vida o Filho do homem, para não se lamentar nunca, e para tornar-se espiritualmente viril, vendo tudo sobre o Cristo na mais luminosa das luzes. Escolhe.
– Crer, recordar, amar. Isto eu quereria. E morrer, quanto antes, Senhor –e Tiago chora continuamente, e sem fazer barulho.
Se não fossem suas lágrimas, que vêm deslizando por sobre sua barba castanha, não se saberia que está chorando.
Jesus o deixa assim. Finalmente, Tiago diz:
– E se, no futuro,Tu fizeres novas alusões ao teu martírio, eu devo dizer que sei?
– Não. Cala-te. José sabia calar-se em sua dor de esposo, que se julgava traído, e sobre o mistério da concepção virginal e da minha Natureza. Imita-o. Aquele também era um grande segredo. E, no entanto, ia sendo guardado, porque, se não fosse guardado, ou por orgulho ou por leviandade, teria posto em perigo toda a Redenção. Satanás é constante em vigiar, e em agir. Lembra-te. O teu falar agora seria dano a muitos. Cala-te.
– Eu me calarei… e o peso será dobrado…
Jesus não responde. Ele deixa que Tiago, tendo a cabeça protegida por um pano de linho, chore à vontade.
259.9Encontram-se com um homem, que vai levando um infeliz menino, amarrado às suas costas.
– É teu filho? –pergunta Jesus.
– Sim. Nasceu-me assim e matando a mãe. Agora, tendo morrido minha mãe também, quando vou para o serviço, levo-o aqui atrás, para vigiá-lo. Eu sou lenhador. Deixo-o sobre a grama, por cima do manto e, enquanto vou serrando as árvores, ele se diverte com as flores, meu pobre filho!
– Tens uma grande desventura.
– É, sim. Mas o que Deus quer, aceita-se em paz.
– Adeus, homem. A paz esteja contigo.
– Adeus. Paz a vós.
O homem sobe o monte, Jesus e Tiago continuam descendo.
– Quantas desventuras! Eu estava esperando que Tu o curasses! –suspira Tiago.
Jesus faz como se não tivesse entendido.
– Mestre, se aquele homem tivesse sabido que Tu és o Messias, talvez te tivesse pedido o milagre.
Jesus não responde.
– Jesus, Tu me deixas voltar lá atrás para ir dizer isso àquele homem? Tenho pena do menino. Já ando com o coração tão cheio de dor. Dá-me pelo menos a alegria de ver curado aquele menino.
– Então, vai. Eu te espero aqui.
259.10Tiago sai correndo. Alcança o homem, e o chama:
– Homem, para e escuta! Aquele que estava comigo é o Messias. Dá-me o teu menino, para que eu o leve a Ele. Vem, tu também, para vermos se o Mestre o cura.
– Vai tu, homem. Eu preciso serrar toda esta lenha. Já me atrasei, por causa do menino. E, se não trabalhar, não como. Sou pobre e ele me custa tanto. Eu creio no Messias, mas é melhor que tu lhe fales por mim.
Tiago se inclina para recolher o menino, deitado sobre a relva.
– Pega-o devagar –aconselha o lenhador–. Ele sente muitas dores.
De fato, mal Tiago faz um movimento para levantá-lo, o menino chora e se lamenta.
– Oh! Que pena! –suspira Tiago.
– É mesmo uma grande pena –diz o lenhador, que está serrando um tronco duro.
E acrescenta:
– Não poderias curá-lo, tu?
– Eu não sou o Messias. Eu sou apenas um discípulo dele…
– E, então? Os médicos aprendem com outros médicos. Os discípulos, com o seu Mestre. Vamos, sê bom. Não o faças sofrer. Experimenta, tu. Se o Mestre quisesse vir, o faria. Ele te mandou, porque não o quer curar ou, então, porque quer que o cures.
Tiago está perplexo. Depois, ele se decide. Põe-se de pé, ora, como viu Jesus fazer e depois ordena:
– Em nome de Jesus Cristo, Messias de Israel e Filho de Deus, fica curado.
E logo depois se ajoelha, dizendo:
– Oh! meu Senhor, perdão! Eu agi sem a tua licença. Mas foi por dó deste filho de Israel. Piedade, meu Deus. Por ele, e por mim pecador! –e desfaz-se em lágrimas, inclinado sobre o menino estendido. Suas lágrimas caem sobre as perninhas contorcidas e inertes.
259.11Jesus aparece no caminho. Mas ninguém o vê, porque o lenhador está trabalhando, Tiago está chorando, o menino está olhando curiosamente para ele e carinhosamente lhe pergunta:
– Por que estás chorando? –e estende a mãozinha para acariciá-lo e, sem perceber, assenta-se sozinho, levanta-se e abraça Tiago para consolá-lo.
É o grito de Tiago que faz com que o lenhador se vire e que ele veja seu filho de pé, sobre suas próprias pernas, já não mais mortas e contorcidas como antes. E, ao virar-se, o lenhador vê Jesus.
– Ei-lo! Ei-lo aí –grita ele, acenando por trás das costas de Tiago, que também se vira, e vê Jesus olhando para ele com um rosto cheio de luminosa alegria.
– Mestre! Mestre! Eu não sei como foi… a piedade… este homem… este pequenino… Perdão!
– Levanta-te. Os discípulos não são mais que o Mestre, mas podem fazer o que faz o Mestre, quando o fazem por uma santa causa. Levanta-te, e vem comigo. Sede benditos, vós dois, e lembrai-vos de que também os servos de Deus fazem as obras do Filho de Deus, e lá se vai, puxando atrás de Si Tiago, que vai sempre dizendo:
– Mas, como é que eu pude? Eu ainda não entendo. Com isso eu fiz um milagre em teu nome?
– Com a tua piedade, Tiago. Com o teu desejo de fazer-me ser amado por aquele inocente e por aquele homem, que acreditava e duvidava ao mesmo tempo. João, perto de Jábnia, fez milagre por amor, curando um doente, ao ungi-lo rezando. Tu aqui curaste com o teu pranto e a tua piedade. E com a tua confiança no meu nome. Estás vendo como é bom servir ao Senhor, quando no discípulo há reta intenção? Agora, vamos depressa, porque o homem vem vindo atrás de nós. Não é bom que os companheiros saibam disso, por enquanto. Dentro de pouco tempo vos mandarei em meu nome… (um grande suspiro de Jesus), como Judas de Simão está ansioso por fazer (outro grande suspiro) vós o fareis. Mas nem para todos isso será um bem. Atenção, Tiago! Simão Pedro, o teu irmão e também os outros, ficariam tristes ao saberem disso, como se fosse uma parcialidade. Mas não é. É para preparar, entre vós Doze, alguém que saiba guiar os outros. Vamos descer pelo leito desta torrente coberto de folhas secas, e assim faremos que desapareçam os nossos rastros… Tu ficas aborrecido com isso, por causa do menino. Mas nós o tornaremos a encontrar.
1 dada em Êxodo 30,22-33.
2 acenado talvez em Tobias 3,16-17.
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