478. 478. Em colóquio com José e Simão de Alfeuque vão à festa dos Tabernáculos.
22 de agosto de 1946.
478.1 Surge apenas o sol sobre os campos que, alegres, receberam uma chuva curta, que caiu certamente há pouco, pois a poeira da estrada ainda está molhada por ela, sem ter ainda chegado a tranformar-se em barro. Por isso é que eu digo que a chuva veio há pouco, que foi curta. É uma das primeiras chuvas de outono, uma ameaça das chuvas de novembro, que transformarão as estradas da Palestina em viscosas placas de lama. Mas esta de agora ainda é agradável para os viandantes, não faz mais do que molhar a poeira que é o outro flagelo da Palestina, reservado para os meses do verão, como a lama o é para os do inverno, para lavar a atmosfera, as folhas e as ervas que aí estão todas brilhando, limpas, aos primeiros raios do sol. Um ventinho suave, puro, está passando por sobre os olivais, que cobrem as colinas de Nazaré, e parece que uma revoada de anjos passa por entre as pacíficas plantas, pois as copas das árvores têm, com o barulho que fazem, um som de grandes asas batidas no voo, e brilham em sua cor de prata cheia de inscrustações, tombadas todas para uma lado, como se estivessem voando atrás da revoada angelical, seguindo o rasto de uma luz paradisíaca.
A cidade já ficou para trás alguns estádios, quando Jesus, que já andou tanto por atalhos sobre as colinas, afinal entra na estrada mestra, que de Nazaré vai para a planície do Esdrelon, pela estrada caravaneira que, de minuto a minuto, está se enchendo de peregrinos. Ele anda uns poucos estádios pela estrada, que em certo ponto se bifurca, ao lado de um marco miliário em cujos dois lados opostos está escrito: “Jafa-Simonia-Belém-Carmelo, a oeste, e Xalot-Naim-Citópolis-Enganim”, a leste, e vê, parados na beira da estrada os seus primos José e Simão que, juntos com João de Zebedeu, o saúdam logo.
– A paz esteja convosco. Já estais aqui? Eu pensava em parar aqui para vos esperar e que Eu seria o primeiro a chegar… mas já vos encontrei aqui –e os beija, visivelmente contente por vê-los.
– Tu não podias chegar primeiro. Foi por medo de que Tu passasses antes de nós que partimos à luz das estrelas, que logo ficaram cobertas pelas nuvens.
– Eu vos havia dito que me teríeis visto. Então, tu, João, não dormiste.
– Um pouco, Mestre, mas certamente sempre dormi mais do que Tu. Mas, não faz mal –e o rosto sereno de João está sorridente, como um verdadeiro espelho do seu caráter sempre alegre em todas as circunstâncias.
478.2 – E, então, meu irmão, tu me querias falar? –diz Jesus a José.
– Sim… Vem um pouco para dentro daquele vinhedo. Lá estaremos mais em paz –e, indo na frente, José de Alfeu vai entrando pelo meio de duas fileiras de videiras cujas uvas já foram apanhadas.
Só mesmo alguns esgalhos é que ficaram ainda nos sarmentos, que já estão para cair, por entre as folhas já lourejantes, para matar a fome do pobre e do peregrino, segundo as prescrições mosaicas.
Jesus, com Simão, o vai acompanhando. João fica na estrada, mas Jesus o chama, dizendo:
– Podes vir, João, tu és a minha testemunha.
– Mas… –diz o apóstolo, indeciso, olhando para os dois filhos de Alfeu.
– Não, não. Vem, sim. Nós até gostamos que tu ouças as nossas palavras –diz José, e, então João desce, por sua vez, para a vinha, para onde todos entram juntos, seguindo a curva das fileiras, até chegarem a algum ponto,onde não possam ser vistos da estrada.
478.3 – Jesus, eu tive muita alegria ao ver que tu me amas –diz José.
– E tu podias duvidar disso? Eu não te amei sempre?
– Eu também sempre te amei… Mas, no nosso amor, de uns tempos para cá, não nos compreendemos mais. Eu… não podia aprovar o que Tu fazias. Porque aquilo me parecia ser a tua ruína, a de tua Mãe e a nossa. Tu sabes… Todos nós, galileus já de idade, nos lembramos de como foi espancado Judas, um galileu, e de como tiveram que dispersar-se os parentes e os seguidores dele, tendo sido confiscados os seus bens. Quem não foi morto, foi mandado para as galeras e os seus bens confiscados. Eu não desejaria uma coisa dessas para nós. Porque… Sim, me parecia que nem devia ser verdade que, logo no meio de nós, da estirpe de Davi, é verdade, é que houvesse de acontecer isso… Não nos falta o pão, isto não, e por isso louvemos o Altíssimo. Mas onde está a grandeza real, que todas as profecias atribuem àquele que vai ser o Messias? És Tu a vara1 que bate para dominar? Luz Tu não foste, quando surgiste. Nem mesmo em tua casa nasceste! Oh! Eu sei bem as profecias. Nós somos uma madeira já seca. Mas nada nos dizia que o Senhor a tivesse revestido de folhas. E Tu, que és, senão um justo? Estes eram os pensamentos com os quais eu te combatia, gemendo por causa de nossa ruína. E, sobre este meu gemido, eis que vêm vindo os tentadores, a fazerem crescer ainda mais as minhas ideias de grandeza, de realeza… Jesus, o teu irmão foi um bobo. Eu acreditei neles, e te desagradei. É duro ter que confessar isso, mas eu o devo dizer. E Tu podes pensar que todo Israel estava comigo, bobo como eu, e, como eu, acreditando firmemente que o estilo do Messias não haveria de ser aquele que Tu nos mostravas… É duro ter que dizer: “Eu errei. Nós erramos e estamos errando. Isso desde muitos séculos.” Mas tua Mãe me explicou as palavras dos profetas.
Oh! Sim. Bem que tem razão Tiago. E tem razão Judas. Procurai ouvir essa razão, como eles dois as ouviram desde pequenos, e se verá que Tu és o Messias. Aí está. Os meus cabelos vão ficando brancos, pois eu não sou mais um menino, já não era nem mesmo quando Maria voltou do Templo desposada com José. E me lembro daqueles dias. E da reprovação2. Tudo, sim, Maria me explicou tudo, e foi para mim como uma luz para eu compreender quantas coisas Ela deixou de dizer, por humildade. Por isso é que eu digo: Tu és o Messias. Assim eu disse, e assim direi. Mas dizer isso ainda não era mudar de pensamento… porque o meu pensamento é que o Messias é Rei. As profecias o dizem… e é difícil poder-se compreender outroatributo no Messias, sem que Ele seja rei. 478.4Estás me acompanhando. Não estás cansado?
– Não. Eu estou escutando.
– Está bem. Aqueles que estavam seduzindo o meu coração voltaram, e queriam que eu te forçasse… Como eu não quis fazê-lo, o véu caiu do rosto deles, e eles apareceram como são. Os falsos amigos e os verdadeiros inimigos… E outros vieram, chorando como pecadores, e eu os ouvi. Eles repetiram as palavras que disseste na casa de Cusa… Agora eu sei que tu reinarás sobre os espíritos, isto é, serás Aquele no qual toda a sabedoria de Israel se concentra, para dar leis novas e universais. Em Ti está a sabedoria dos patriarcas e a dos juízes, a dos profetas e a de nossos avós Davi e Salomão, em ti está a sabedoria que guiou aos reis, a Neemias e Esdras. Em Ti está a que dirigiu os Macabeus. Toda a sabedoria de um povo, do nosso povo, do Povo de Deus. Eu compreendo que Tu darás ao mundo, que está todo sujeito ao teu poder, as tuas leis sapientíssimas. E verdadeiramente um povo de santos é o que será o teu povo. 478.5Mas, meu irmão, tu não podes fazer isso sozinho. Moisés, por muito menos, teve que escolher ajudantes. Ele tinha somente um povo. Tu… Tu tens o mundo todo! Tudo está a teus pés!… Ah! Mas para fazeres isso, é preciso que te faças conhecer… Por que estás sorrindo com os lábios, e ficando com esses olhos fechados?
– Porque eu estou ouvindo e perguntando a mim mesmo: “O meu irmão se esquece de que ele andou me censurando, porque eu me fazia conhecer, dizia que eu estava prejudicando à família toda!” Eis aí porque e que estou sorrindo. E também estou pensando que, há dois anos e seis meses que a única coisa que faço é procurar que me conheçam.
– É verdade. Mas… Quem é que te conhece? Uns pobres. Uns camponeses. Uns pescadores. E umas mulheres! Os dedos da mão não bastam para se contar, entre os que te conhecem, quem é que nãoé uma nulidade, sem valor algum. Eu digo que Tu te deves fazer conhecer é pelos grandes de Israel. Pelos Sacerdotes, pelos Príncipes dos Sacerdotes, pelos Anciãos, pelos Escribas, pelos grandes Rabis de Israel, por todos aqueles que são poucos, mas valem por uma multidão. Estes é que precisam conhecer-te! Eles são os que não te amam, pois entre as acusações que de Ti fazem, e que agora eu estou entendendo, mas que são falsas. Uma delas é verdadeira e justa: a de que Tu não te preocupas com eles. Por que não queres proceder, mostrando bem quem és, para conquistá-los com a tua Sabedoria? Tu, sobe para o Templo, toma posse do Pórtico de Salomão — pois Tu és da estirpe de Davi e Profeta, aquele lugar te está esperando, te espera como a nenhum outro, visto que tens direito a ele — e depois fala.
– Eu já falei. E eles me odiaram por causa disso.
– Insiste. E fala como rei. Não te lembras do poder, da majestade dos atos de Salomão? Se (é maravilhoso este se), se Tu és mesmo o Profetizado pelos profetas, como as profecias vistas com os olhos do espírito dão a entender, Tu és mais do que homem. Ele, Salomão, não era mais do que um homem. E, então, mostra-te como aquilo que és, e eles te adorarão.
– Adorar-me-ão os judeus, os príncipes, os chefes das famílias e das tribos de Israel? Não todos, mas quem quer que me adore, me adorará em espírito e verdade. Isto não será agora. Antes, eu devo cingir a coroa, tomar na mão o cetro e vestir a púrpura.
– Ah! Então, és rei, o serás logo! Tu o estás dizendo. É como eu pensava. É como muitos pensam!
– Em verdade, tu não sabes como é que eu reinarei. Somente Eu e o Altíssimo e umas poucas almas às quais o Espírito do Senhor se comprouve revelar, agora e nos tempos passados, sabemos como reinará o Rei de Israel, o Ungido de Deus.
478.6 – Mas escuta também a mim, meu irmão. Pois o José tem razão. Como queres que te amem, ou que te temam, se tu sempre evitas espantá-los? Não queres chamar Israel às armas? O velho grito de guerra e vitória, Tu não o queres dar? Então, pelo menos — pois esta não é a primeira vez que se sucedem as aclamações ao trono de Israel — então, quando nada, pelos hosanas do povo, pelo menos por teres sabido arrancar esses hosanas com o teu poder de Rabi e Profeta, faze-te rei –diz Simão de Alfeu.
– Eu já o sou. Desde todo o sempre.
– Sim. Assim no-lo disse um dos chefes do Templo. Tu nasceste rei dos judeus. Mas Tu não amas a Judeia. És um rei desertor, porque a ela nem vais. És um rei não santo, se não amas o Templo, onde a vontade do povo te ungirá rei. Sem a vontade de um povo, se a ele não queres impor-te pela violência, Tu não poderás reinar –rebate Simão.
– Sem a vontade de Deus, queres dizer, Simão. Que é a vontade do povo? Que é o povo? Para quem é o povo? Quem o governa como povo? Deus. Não te esqueças disso, Simão. E Eu serei o que Deus quiser. Pela vontade dele serei o que devo ser. Nada poderá impedir que Eu o seja. Não serei Eu que darei o toque de reunir. Israel estará todo presente à minha proclamação. Não terei Eu que subir ao Templo para ser aclamado. Para lá me levarão. Um povo inteiro para lá me levará, a fim de que Eu suba ao meu trono. Vós me acusais de não amar a Judeia… No coração desta cidade, em Jerusalém, Eu me tornarei o “Rei dos Judeus”. Saul não foi proclamado rei em Jerusalém, nem tampouco Davi, nem Salomão. Por enquanto, Eu irei publicamente ao Templo, e não tomarei posse, porque ainda não é a minha hora.
478.7 José retoma a palavra:
– Tu deixas passar a tua hora. O povo já está cansado de opressores estrangeiros e dos nossos chefes. Esta é a hora. Eu to digo. Toda a Palestina, menos a Judeia, mas não toda, te acompanha como Rabi, e mais ainda. És como uma bandeira levantada sobre o cume de um monte. Todos olham para Ti. És como uma águia, e todos acompanham o teu voo. És como um vingador. E todos estão esperando que Tu dispares a flecha. Vai. Deixa a Galileia, a Decápole, a Pereia, as outras regiões, e vai ao coração de Israel, à cidadela onde todo mal está encerrado, de onde deve vir todo bem, e conquista-a. Lá também há discípulos, mas são tíbios, porque pouco te conhecem. São poucos, porque não paras lá. São cheios de dúvidas, porque não fizeste lá as obras que fizeste em outros lugares. Vai, pois, para a Judeia, a fim de que lá eles vejam o que Tu és, por meio de tuas obras. Tu censuras os judeus, por não te terem amor. Mas, como podem ter-te amor, se vives escondido deles? Ninguém que procure e deseje ser aclamado em público, fica escondido para fazer suas obras, mas as faz de tal modo, que o público as veja. Se Tu, pois, podes fazer prodígios sobre os corações, sobre os corpos e sobre os elementos, vai até lá, e faze-te conhecer pelo mundo.
– Eu já vo-lo disse: ainda não é a minha hora. Ainda não chegou o meu tempo. A vós parece que sempre é o tempo justo, mas não é assim. Eu devo usar o meu tempo. Não antes, nem depois. Porque antes seria inútil. Eu me faria suprimir do mundo e dos corações, antes de haver concluído a minha obra. E o trabalho já feito não daria fruto, porque ainda não estaria concluído nem ajudado por Deus, o qual quer que Eu o realize, sem deixar de dizer nenhuma palavra nem de fazer nenhuma ação. Eu devo obedecer a Meu Pai. Nunca farei o que vós estais esperando, porque isso só serviria para prejudicar o plano de meu Pai.
Eu vos compreendo, e tenho pena de vós. Não guardo rancor de vós. Também, não sinto cansaço, nem tédio, pela vossa cegueira… Vós não sabeis, mas Eu sei. Vós não sabeis. Vós só vedes o exterior do rosto do mundo. Eu vejo a profundidade. O mundo vos mostra ainda um rosto bom. E não vos odeia, não porque vos ame, mas porque não mereceis o seu ódio. Vós sois muito pouca coisa. Mas ele me odeia, porque Eu sou um perigo para o mundo. Um perigo, por causa da falsidade, da cupidez, da violência que é o mundo.
478.8 Eu sou a Luz, e a luz ilumina. O mundo não ama a luz, porque ela revela as más ações do mundo. O mundo não me ama, não me pode amar, porque sabe que Eu vim para vencê-lo no coração dos homens e no rei tenebroso, que o domina e extravia. O mundo não quer convencer-se de que Eu sou o seu Médico e seu Remédio, e, como um louco, quereria abater-me, para não ser curado. O mundo ainda não quer persuadir-se de que Eu sou o Mestre, porque o que Eu digo é o contrário do que ele diz. Então ele procura sufocar a Voz que fala ao mundo para doutriná-lo sobre Deus, para mostrar-lhe a verdadeira natureza das suas ações, que são más.
Entre Mim e o mundo, há um abismo. E não por minha culpa. Eu vim para dar ao mundo a Luz, o Caminho, a Verdade e a Vida. Mas o mundo não me quer acolher e por isso minha luz se transforma em trevas, porque ela será a causa da condenação daqueles que não me quiseram. No Cristo está toda a Luz para aqueles, entre os homens, que o querem acolher, mas também estão no Cristo todas as trevas para aqueles que me odeiam e me repelem. Por isso, no começo dos meus dias mortais, Eu fui profeticamente indicado como “Sinal de contradição”. Porque, conforme o modo que Eu fui recebido, haverá salvação ou condenação, morte ou vida, luz ou trevas. Mas os que me acolhem, em verdade em verdade Eu vos digo que se tornarão filhos da Luz, isto é, de Deus, nascidos por terem acolhido a Deus, a Deus.
478.9 Portanto, se Eu vim para fazer dos homens filhos de Deus, como é que Eu posso fazer de Mim um rei, por amor ou por ódio, por simplicidade ou por malícia, como muitos em Israel estais querendo fazer? Não compreendeis que Eu estaria destruindo a Mim mesmo, isto é, ao messias, e não o Jesus de Maria e José de Nazaré. Eu destruiria o Rei dos reis, o Redentor, o nascido de uma virgem, chamado3 no livro dos Salmos, por um direito sobre-humano de origem divina? Não compreendeis que Deus não pode ser homem por outro motivo, mas pela perfeição de sua bondade, para salvar o homem, e que Ele não pode, não deve aviltar-se nas pobres coisas humanas? Não compreendeis que, se Eu aceitasse a coroa, este reino como vós o concebeis, Eu estaria confessando que sou um falso Cristo, mentiria a Deus, renegaria a Mim mesmo e ao Pai, e seria pior do que Lúcifer, porque privaria a Deus da glória de ter-vos, seria pior do que Caim para convosco, porque vos condenaria a um perpétuo exilio, longe de Deus, em um Limbo sem esperança do Paraíso.
Não entendeis nada disso? Não entendeis a armadilha dos homens para fazer-me cair nela? Nem a armadilha de Satanás para ferir o Eterno em seu Dileto e em suas criaturas, os homens? Não compreendeis que este é o sinal de que Eu sou mais do que homem, que Eu sou o Homem-Deus? Isto de Eu apetecer somente às coisas espirituais para dar-vos o Reino espiritual de Deus? Não compreendeis que o sinal que Eu…
– São as palavras de Gamaliel –exclama Simão.
– … que Eu não sou um rei, mas o Rei. É esse ódio do inferno inteiro e de todo o mundo para comigo? Eu devo ensinar, sofrer, salvar-vos. Isto Eu devo. E isto Satanás não quer, e também não oquerem os satanases. 478.10Um de vós me disse: “As palavras de Gamaliel.” Eis! Ele não é meu discípulo, e não o será nunca, enquanto Eu estiver neste mundo. Mas ele é um justo. Pois bem. Entre aqueles que me tentam e que vos tentam para um pobre reino humano, por acaso estará Gamaliel?
– Oh! Não! Estêvão disse que o rabi, tendo sabido que essa ideia veio de Cusa, exclamou: “O meu espírito estremece, perguntando a si mesmo se Ele poderá ser verdadeiramente o que diz ser. Mas toda pergunta cairia morta, antes de formar-se na mente, e para sempre, se Ele tivesse consentido numa coisa dessas. O Menino que eu ouvi dizia que a escravidão, como a realeza, não serão como eles pensavam, compreendendo mal os profetas, isto é, em coisas materiais, mas sim nas do espírito, por obra de Cristo, Redentor da Culpa e fundador do Reino de Deus nos espíritos. Eu me lembro daquelas palavras. E por elas é que eu avalio o Rabi. Se, ao avaliá-lo, Ele fosse inferior a esse valor, eu o rejeitaria como pecador e mentiroso. Eu tremi ao ver dissolver-se no nada a esperança que aquele Menino tinha feito crescer em vóz”, diz Simão.
– Sim. Mas, no entanto, ainda assim não diz o Messias –replica José.
– Ele está esperando um sinal –responde Simão.
– E Tu dai-lhe, então! E que seja eficaz.
– Eu lhe darei o que prometi. Mas agora, ainda não. Por enquanto, 478.11ide vós para a festa. Eu não irei publicamente como rabi, como profeta, para impor-me, porque ainda não chegou o meu tempo.
– Mas, pelo menos a Judeia Tu irás? Darás aos judeus as provas que os convençam? Para que não possam ficar dizendo…
– Sim. Mas crês que eles serão úteis para a minha paz? Meu irmão, quanto mais assim Eu fizer, mais serei odiado. Mas Eu vou te contentar. Eu lhes darei provas, que maiores do que elas não poderão existir… e lhes direi palavras capazes de transformar lobos em cordeiros e as duras pedras em cera macia. Mas delas não tirarão nenhum proveito.
E Jesus fica triste.
– Será que eu estou te fazendo sofrer? Eu estava falando para o teu bem.
– Não és tu que me fazes sofrer. Mas Eu gostaria que tu me compreendesses, que tu, meu irmão, visses em Mim o que sou. Eu quereria ir-me embora com a alegria de saber que és meu amigo. Um amigo compreende e defende os interesses do amigo…
– Eu te digo que o farei. Eu sei que te odeiam. Eu já o sei. Por causa disso é que eu vim. Mas Tu sabes disso. Eu velarei por Ti. Eu sou o mais velho. Rebaterei as calúnias. E pensarei em tua Mãe –promete José.
– Obrigado, José. É grande o meu peso, e tu o tornas leve. A dor é um mar que avança com suas ondas para submergir-me, com esse ódio… Mas, se Eu tiver vosso amor, isso não será nada. Porque o Filho do Homem tem um coração… e este meu coração tem necessidade de amor…
– E isso eu te darei. Sim. Pelos olhos de Deus que me estão vendo, eu te digo que to darei. Vai em paz, Jesus, para o teu trabalho. Eu te ajudarei. Nós te queriamos bem. Mas agora voltamos a ser o que éramos antes. Um pelo outro. Tu, o Santo, e eu o homem, mas os dois unidos para a glória de Deus. Adeus, meu irmão.
– Adeus, José.
Eles se beijam, depois chega a vez de Simão, que pede:
– Abençoa-nos, para que se abram os nossos corações para toda a Luz.
Jesus os abençoa e, antes de deixá-los, diz ainda:
– Eu vos confio minha Mãe…
– Vai em paz. Em nós ela terá dois filhos.
Eles se separam. 478.12Jesus volta para a estrada e, tendo João a seu lado, põe-se a caminhar com uma esbeltez juvenil.
Pouco tempo depois, João rompre o silêncio para perguntar:
– Mas José de Alfeu já está convencido, ou não?
– Ainda não.
– E, então? Para ele, quem és Tu? És o Messias? Um homem? Deus? Eu não entendi bem. Parece-me que ele…
– José é como um daqueles sonhos da manhã nos quais a mente já vai voltando para a realidade, saindo daquele sono pesado, que produzia uns sonhos irreais, e às vezes até pesadelos. Os fantasmas da noite vão-se afastando, mas a mente ainda flutua no sonho, que a gente quereria que não acabasse, porque ele é bonito… Assim é que ele está. Está se aproximando do despertar. Mas, por enquanto, acaricia ainda o sonho. E quase que o está agarrando. Porque para ele é belo. Mas é preciso saber receber aquilo que o homem pode dar. E louvar o Altíssimo pela transformação que aconteceu. Felizes as crianças. Para elas é tão fácil crer!
E Jesus passa um braço pela cintura de João, que sabe ser criança e crer, para dar-lhe um sinal do seu amor.
1 a vara, como em Miqueias 7,14.
5 reprovação, como se vê em 14.6.
2 nascesse em Belém de Judá, segundo a profecia de Miqueias 5,1.
7 chamado, como em Isaías 7,14; 9,5-6.
3 está escrito, no Salmo 110,1.
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