219. 219. Diversos frutos da pregaçãodos apóstolos na cidade de Ascalon.


15 de julho de 1945.

219.1 Obedientes à ordem recebida, os pequenos grupos dos apóstolos vão chegando, um depois do outro, para perto da porta da cidade. Jesus ainda não está lá. Mas logo Ele também vem chegando por uma ruazinha, que fica à beira do muro.

– O Mestre deve ter tido boa sorte –diz Mateus–. Olhai como Ele vem sorrindo.

Eles vão ao encontro dele, e saem todos juntos pela porta, para pegarem de novo a estrada mestra, que tem aos seus lados as hortas do subúrbio.

Jesus lhes pergunta:

– E então? Como foi a vossa ida? Que foi que fizestes?

– Foi muito mal –respondem juntos Iscariotes e Bartolomeu.

– Por quê? Que vos aconteceu?

– Aconteceu que pouco faltou para nos apedrejarem. E nós tivemos que escapar deles. Vamos embora desta terra de bárbaros. Vamos voltar para onde gostam de nós. Eu aqui não falo mais. Eu já não queria falar. Mas, depois, eu me deixei convencer, e Tu não me detiveste. E, no entanto, Tu sabes as coisas…

Iscariotes está inquieto.

219.2 – Mas, que foi que sucedeu contigo?

– Eu tinha ido com Mateus, Tiago e André. Nós nos tínhamos dirigido para a praça dos Julgamentos, porque lá há gente fina e que tem tempo a perder, ouvindo a quem fala. Mas nós decidimos que Mateus é que iria falar, por ser o mais apto para falar aos publicanos e aos clientes deles. E ele começou a falar, dizendo a dois, que estavam discutindo por disputarem um campo, em uma herança muito complicada: “Não vos odieis por uma coisa que perece, por uma coisa que não podeis levar convosco para a outra vida. Mas amai-vos, a fim de poderdes gozar dos bens eternos, conseguidos sem outra luta, a não ser contra as más paixões, que por nós devem ser vencidas, e assim nos tornarmos vencedores e possuidores do Bem.” Tu dizias assim, não é verdade? E depois ele continuou, enquanto dois ou três se aproximaram para escutar: “Escutai a Verdade, que ensina estas coisas ao mundo para que o mundo tenha paz. Vós estais vendo quanto se sofre por isso. Por esse excessivo interesse pelas coisas que morrem. Mas a terra não é tudo. Existe também o Céu, e no Céu está Deus, assim como na terra agora já está o Messias, o qual nos manda vir anunciar-vos que o tempo da Misericórdia chegou, e que não há pecador que possa dizer: ‘Eu não serei atendido’, porque, se alguém tem um verdadeiro arrependimento, recebe perdão, é atendido, é amado e convidado para o Reino de Deus.”

Muitas pessoas já se haviam ajuntado, e havia os que escutavam com respeito, havia os que faziam perguntas, e perturbavam Mateus. Eu já não dou respostas, para não estragar o discurso. Eu falo, e respondo a cada um no fim. Que eles guardem na memória o que querem dizer, e se calem. Mas Mateus queria responder logo!… E até nós éramos interrogados. Mas havia também os que zombavam dele, dizendo: “Eis aí mais um doido! Certamente ele vem daquela toca que é Israel. Os judeus são uma praga, que se alastra por toda parte! Eis aí, aí estão as suas eternas lorotas. Eles têm a Deus por compadre. Escuta o que estão dizendo. Deus está no fio da espada deles e na acidez de sua linguagem. Ei-los aí! Aí estão eles! Agora estão tirando para o baile o seu Messias. É mais algum outro frenético, que vai nos atormentar, como sempre foi nos séculos passados. Que a peste acabe com Ele e com sua raça!”

Então, eu perdi a paciência. Puxei para trás Mateus, que estava ainda falando e sorrindo como se lhe estivessem prestando honras, e comecei a falar eu, tomando Jeremias1 como base para o meu discurso: “Eis que as águas vem subindo do norte, e se tornarão uma torrente que inunda tudo…” “Ao rumor delas, eu disse, — porque a punição de Deus sobre vós, raça malfazeja, terá o rumor de muitas águas e serão forças armadas e celestes fundibulários do Céu, todos mobilizados por ordem dos chefes do Povo de Deus, para punir-vos por vossa obstinação — ao rumor delas, vós perdereis o vigor, cairão as vossas soberbas, vossos corações, vossos braços, afetos, tudo. Sereis exterminados como uns restos da ilha do pecado, porta do Inferno! Vós vos ensoberbecestes, porque vossa cidade foi reconstruída por Herodes? Mas sereis ainda mais arrasados, até o ponto de vos tornardes calvos sem remédio, assim ficareis; feridos por todos os castigos em vossas cidades e vilas, nos vales e nas planícies. A profecia não morreu ainda…” E, eu queria continuar, mas eles se arrojaram contra nós, e, somente porque uma providencial caravana ia passando por uma estrada é que pudemos salvar-nos, pois as pedras já estavam começando a voar. Acertaram os camelos e os cameleiros, e se formou uma confusão, e pudemos escapar dela por um fio. Depois ficamos parados em um patiozinho do subúrbio. Ah! Eu não venho mais aqui…

219.3 – Mas, desculpa, tu os ofendeste! A culpa é tua! Agora se compreende por que vieram tão hostis para nos expulsarem! –exclama Natanael.

E continua:

– Escuta, Mestre. Nós, isto é, Simão de Jonas, Eu e Filipe tínhamos ido para o lado da torre voltada para o mar. Lá havia marinheiros e capitães, que estavam carregando mercadorias para Chipre, para a Grécia e até para mais longe. Eles estavam maldizendo o sol, a poeira, o cansaço. Blasfemavam contra sua sorte de filisteus, escravos dos prepotentes, como eles diziam, quando podiam ser reis. Eles blasfemavam contra os Profetas, o Templo e todos nós. Eu queria ir-me embora de lá, mas Simão não quis, e disse: “Não, pelo contrário. Pois são justamente estes pecadores de quem nos havemos de aproximar. O Mestre faria assim e também nós devemos fazê-lo.” “Então, fala tu a eles”, dissemos eu e Filipe. “E, se eu não o sei fazer?”, disse Simão. “Então nós te ajudaremos”, respondemos nós. E então, Simão foi, sorridente, para o lado de dois, que estavam suados, e se haviam sentado sobre um grande fardo, que eles não conseguiam içar para o navio, e lhes disse: “Está pesado, não é?” “Mais do que pesado é o nosso cansaço. E precisamos terminar a carga, porque o capitão assim o quer. Ele não quer zarpar na hora da calmaria, porque nesta tarde o mar vai ficar muito agitado, e precisamos já ter ultrapassado os escolhos, para que não haja mais perigos.” “Escolhos no mar?” “Sim. Lá naquele ponto em que a água está fervendo. São lugares perigosos.” “São as correntes, não? É isso. O vento do sul lá vira a ponta, e bate contra aquela corrente…” “És marinheiro?” “Sou pescador. De água doce. Mas a água é sempre água. E o vento é sempre vento. Bebi água mais de uma vez, e minha carga foi para o fundo mais de uma vez. Bonito, mas perigoso é o nosso trabalho: mas em todas as coisas existe o belo e o perigoso, o bom e o mau. Nenhum lugar é só de maus, e nenhuma raça é só de cruéis. Com um pouco de boa vontade, sempre todos se põem de acordo, e sempre se encontra gente boa por toda parte. Vamos! Eu vos quero ajudar.” E Simão chama Filipe, dizendo: “Força! Pega de lá, que eu pego de cá, e essa boa gente nos guia até lá, por dentro do navio, até à estiva.” Os filisteus não queriam. Mas, depois deixaram fazer. Tendo levado para o lugar o fardo e mais alguns que estavam sobre a ponte, Simão começou a elogiar o navio, a falar bem do mar, da cidade tão bonita, vista do mar, a interessar-se pela navegação marítima e por cidades de outras nações. E todos ao redor se puseram a agradecer-lhe e a elogiá-lo… até que um deles lhe perguntou: “Mas de onde és tu? Serás nilótico?” “Não, sou do Mar da Galileia. Mas, como estais vendo, não sou um tigre.” “É verdade. Estás procurando trabalho?” “Sim.” “Eu te aceito, se quiseres. Vejo que és um marinheiro muito capaz, diz o capitão.” “Mas, em vez disso, eu te aceito.” “A mim? Mas, não disseste que estás procurando trabalho?” “É verdade. O meu trabalho é levar os homens ao Messias de Deus. Tu és um homem. És, pois, para mim um trabalho.” “Mas, eu sou filisteu!” “E, que quer dizer isso?” “Quer dizer que vós nos odiais, nos perseguis, desde o tempo dos tempos. Os vossos chefes sempre o disseram…” “Os Profetas, não é? Mas agora os Profetas são vozes que não urram mais. Agora o único e grande santo é Jesus. Ele não urra, mas chama com voz amiga. Ele não amaldiçoa, mas abençoa. Ele não traz doenças, mas as tira. Ele não odeia, e não quer que se odeie. Mas, pelo contrário, ele ama a todos, e quer que amemos até aos inimigos. No seu reino não haverá mais vencedores e vencidos, não mais escravos e livres, não mais amigos e inimigos. Não haverá mais essas distinções que fazem mal e que vieram da maldade humana; mas só existirão os seguidores dele, isto é, pessoas que vivem no amor, na liberdade, vitoriosas sobre tudo o que é peso e dor. Eu vos peço que queirais crer em minhas palavras, e sentir desejo dele. As profecias foram escritas. Mas Ele é ainda maior do que os Profetas; e, para quem o ama, as profecias terminaram. Estais vendo esta vossa bela cidade? Mais bela ainda a reencontraríeis no Céu, se chegásseis a amar a Nosso Senhor Jesus, o Cristo de Deus.”

Assim dizia Simão, bondoso e inspirado ao mesmo tempo, e todos o estavam escutando com atenção e respeito. Sim, respeito. Depois, por uma rua, se desentocaram, e saíram gritando uns moradores armados com paus e pedras, e nos viram, e pela veste conheceram que éramos forasteiros, agora compreendo, forasteiros da tua raça, Judas, e ficaram pensando que éramos da tua sociedade. Se não nos protegessem aqueles que eram do navio, estaríamos mal arranjados. Eles desceram até o mar uma chalupa e nos levaram, fazendo-nos desembarcar na praia que fica perto dos jardins do sul, e nós estamos voltando de lá junto com os que lá cultivam flores para os ricos daqui. 219.4Mas tu, Judas, estragas tudo! Que modo é aquele teu de insultar?

– Mas é verdade.

– É preciso saber usar dela. Pedro também não disse mentiras, mas soube falar –rebate Natanael.

– Oh! Eu! Eu procurei pôr-me no lugar do Mestre, e pensei: “Ele seria delicado assim. Então, eu também…” –diz simplesmente o Pedro.

– Eu gosto do estilo forte. É mais próprio de um rei.

– É a tua ideia de sempre! Tu não tens razão, Judas. Já faz um ano que o Mestre vem te corrigindo nesta ideia . Mas não aceitas as correções. Tu também estás obstinado no erro, como estes filisteus, aos quais queres te impor –acusa-o Simão Zelotes.

– Quando foi que Ele me corrigiu por isso? Além disso, cada um faz uso do modo que tem.

Simão Zelotes sente até um sobressalto, ao ouvir estas palavras e olha para Jesus, que está calado, e que, diante daquele olhar que traz lembranças, responde a ele com um leve e compreensivo sorriso.

– Isto não é razão –diz calmamente Tiago de Alfeu, e continua:– Nós estamos aqui para corrigir-nos, antes de corrigir os outros. O Mestre foi antes o nosso mestre. E não o teria sido, se não tivesse querido que nós mudássemos os nosso hábitos e ideias.

– Ele era Mestre por sua sabedoria…

– Era, ou é? –diz sério Tadeu.

– Quantas cavilações! É, sim, é.

– Ele é Mestre por tudo o mais. E não somente por sua sabedoria. O seu ensinamento se dirige a tudo que há em nós. Ele é perfeito e nós imperfeitos. Esforcemo-nos, pois, para o sermos também –aconselha mansamente Tiago de Alfeu.

– Não acho que eu tenha tido culpa. É porque são de uma raça maldita. Todos são uns perversos.

– Não. Não podes dizer isso –prorrompe Tomé–. 219.5João foi aos mais baixos de todos os pecadores, que levavam os peixes para as feiras. E, olha aqui este saco úmido. É peixe do mais saboroso. Eles dispensaram o que podiam ganhar, para no-lo dar. E, por temor de que o peixe pescado pela manhã, à tarde já não estivesse mais fresco, eles voltaram ao mar, e quiseram que nós fôssemos com eles. Parecia que estávamos no Mar da Galileia, e eu te garanto que, se o lugar nos fazia lembrar dele, também o faziam as barcas cheias de rostos atentos, e o que mais fazia lembrar dele era João. Ele parecia um outro Jesus. As palavras saíam dele doces como o mel, de sua boca risonha, e seu rosto cintilava como um outro sol. Como ele estava semelhante a Ti, Mestre! Eu fiquei comovido. Nós ficamos durante três horas no mar, na expectativa de que as redes, estendidas sobre as boias, estivessem cheias de peixes, e foram três horas de felicidade. Depois, eles queriam Te ver. Mas João disse: “Eu vos prometo um novo encontro em Cafarnaum”, como se lhes tivesse dito: “Eu vos prometo um novo encontro na praça de vossa cidade.” E eles também prometeram: “Nós iremos”, e tomaram nota. E nós tivemos que lutar para não sermos carregados com peixe demais. E eles nos deram do peixe mais fino. Vamos cozinhá-lo. Hoje de tarde teremos um grande banquete, para refazer-nos do jejum de ontem.

– Mas, que foi que falaste ainda? –pergunta Iscariotes, dolorosamente surpreso.

– Nada de especial. Eu falei de Jesus –responde João.

– Mas, como tu falas dele! João também citou os profetas. Mas os virou de cabeça para baixo –explica Tomé.

– De cabeça para baixo? –pergunta, espantado, Iscariotes.

– Sim. Tu dos profetas extraíste a aspereza, e João a doçura. Porque, afinal, até o rigor deles é amor, um amor exclusivo, violento, se assim o queres dizer, mas é sempre um amor para com as almas, que desejariam todas ser fiéis ao Senhor. Não sei se já refletiste nisto, tu, que foste educado entre os escribas. Eu, sim, ainda mais por ser um ourives. Também o ouro há de ser martelado e acrisolado, mas é para torná-lo mais bonito. Não é por ódio mas por amor. Assim os profetas são para com as almas. Eu compreendo isso, talvez justamente porque sou ourives. Ele citou Zacarias, em sua profecia2 contra Hadraque e Damasco, e chegou àquele ponto: “À vista disso, Ascalon será tomada pelo espanto, Gaza ficará coberta de grande tristeza, e também Acaron, porque desvaneceu-se sua esperança. Gaza não terá mais rei”, e se pôs a explicar como tudo isso aconteceu, porque o homem se afastou de Deus, e, falando da vinda do Messias, que é um perdão por amor, prometeu que, de uma pobre realeza, como os filhos da terra desejam para a sua nação, os homens, que seguirem o Messias em sua doutrina, chegarão a ter uma realeza eterna e infinita no Céu. Dizer isso, não é nada. Mas, ouvir isso! Parecia estar ouvindo uma música e subir, levado pelos anjos. E eis que os Profetas, que a ti deram pauladas, a nós nos deram peixes de fino sabor.

Judas se cala, desorientado.

219.6 – E vós? –pergunta Jesus aos primos e ao Zelotes.

– Nós fomos até os estaleiros, onde os calafates trabalham. Nós também preferimos ir aos pobres. Mas também havia ricos filisteus, que exerciam a supervisão da construção de seus navios. Não sabíamos quem é que deveria falar, e então fizemos o jogo dos pontos, como fazem os meninos. Judas estendeu sete dedos, eu quatro, e Simão dois. Então tocou a Judas. E ele falou –explica Tiago de Alfeu.

– E que foi que disseste? –perguntam todos.

– Eu me fiz conhecer francamente pelo que eu sou, dizendo-lhes que à hospitalidade deles eu pedia a bondade de acolher a palavra do peregrino, que via neles seus irmãos, pois tinham uma origem e um fim comuns, e a esperança não comum, mas cheia de amor, de poder levá-los comigo à casa do Pai e dar-lhes o nome de “irmãos” para sempre, na grande alegria do Céu. Eu disse depois: “Está dito3 em Sofonias, o nosso Profeta: ‘A região do mar será lugar de pastores… e aí eles terão suas pastagens e, de tarde, irão repousar nas casas de Ascalon’”, e eu desenvolvi o pensamento, dizendo: “O Pastor Supremo já chegou ao meio de vós. Não veio armado de flechas, mas de amor. E Ele vos estende os braços, e vos mostra as suas pastagens santas. Não se lembra do passado, senão para ter compaixão dos homens pelo grande mal que fazem a si mesmos e que já se fizeram, como uns meninos loucos, com o ódio, enquanto podiam estar livres de tão grande dor se eles o amassem uns aos outros, pois eles são irmãos: Esta terra, eu disse, será lugar de pastores santos, os servos do Pastor Supremo, que já sabem que aqui terão os seus pastos mais viçosos e os melhores rebanhos, e os corações deles, na tarde de suas vidas, poderão repousar, pensando nos vossos corações e nos dos vossos filhos, mais familiares do que as casas amigas, porque terão como patrão a Jesus, nosso Senhor.” Eles me compreenderam. Fizeram-me perguntas, ou melhor, fizeram-nos perguntas. E Simão narrou a sua cura e, meu irmão, a tua bondade para com os pobres. E a prova, ei-la aqui: Esta bolsa gorda para os pobres, que iremos encontrando pelo caminho. Também a nós, os Profetas não nos fizeram mal.

Iscariotes nem toma mais fôlego.

219.7– Pois bem –Jesus o conforta–, na outra vez, Judas já fará melhor. Ele achou que fazia o bem, fazendo assim. E, tendo assim agido para um fim honesto, não pecou de nenhum modo. E eu estou contente também com ele. Agir como apóstolo não é fácil. Mas depois vai-se aprendendo. Uma coisa me desagrada. não ter tido esse dinheiro antes, e não vos ter encontrado. Ter-me-ia ele servido para socorrer uma família infeliz.

– Podemos voltar atrás. Ainda é cedo… Mas, desculpa, Mestre. Como encontraste a família? Que lhe fizeste Tu? Será que não a evangelizaste?

– Eu? Eu fiquei passeando. Com o silêncio, Eu disse a uma meretriz: “Deixa o teu pecado.” Encontrei um menino, um tanto levado, e o evangelizei, trocando presentes com ele. Eu dei a fivela que Maria Salomé me havia pregado na veste, em Betânia, e ele me deu este trabalho feito por ele –e Jesus tira das dobras da veste o boneco caricatural.

Todos o observam e se riem.

– Depois, eu fui ver uns esplêndidos tapetes que um homem de Escalon faz para vender no Egito e em outras partes… depois fui consolar uma menina sem pai, e curar a mãe dela… E basta.

– E te parece pouco?

– Sim. Porque havia necessidade também de dinheiro, e Eu não o tinha.

– Mas, voltemos lá dentro, nós que… não demos aborrecimento a ninguém –diz Tomé.

– E o teu peixe –diz, caçoando, Tiago de Zebedeu.

– O peixe? Está aqui. Vós que tendes… o anátema em cima! Ide ao velho que nos hospeda, começai a prepará-lo. E nós vamos à cidade.

– Sim –diz Jesus–. Mas Eu vos mostrarei de longe a casa. Nela haverá pessoas. Eu não irei. Eles me entreteriam. Não quero ofender o hospedeiro que nos atende, faltando ao seu convite. A descortesia é sempre uma falta de caridade.

Iscariotes abaixa ainda mais a cabeça, e fica arroxeado, de tanto que muda de cor, lembrando-se de quantas vezes ele caiu naquela falta.

Jesus continua:

– Vós, ide à casa, e perguntai pela menina, não há outra menina, senão ela, e não podeis errar. Dareis a ela esta bolsa, e lhe direis: “Esta é Deus que te manda, porque soubeste crer. É para ti, a mamãe e os irmãozinhos.” Não digais nada mais. E voltai logo para trás. Vamos.

E o grupo se divide, indo Jesus com João, Tomé e os primos para a cidade, enquanto os outros vão para a casa do hortelão filisteu.



1 Jeremias, em seu oráculo contra os filisteus: Jeremias 47.
2 profecia que está em Zacarias 9,1-8.
3 Está dito na profecia de Sofonias 2,4-7.