75. 75. Jesus reencontra os pastores Elias e Levi.


11 de janeiro de 1945.

75.1 As montanhas vão ficando muito mais altas e selvosas do que aquelas de Belém, e elevam-se cada vez mais, em uma verdadeira cadeia de montanhas.

Jesus sobe na frente de todos, lançando o olhar à frente, em torno, como se procurasse alguma coisa. Ele não fala. Escuta mais as vozes da mata do que a dos discípulos, que vão alguns metros atrás Dele, conversando entre si.

Ouve-se ao longe um cincerro, mas o vento traz o seu som até Jesus. Ele sorri, e se volta para os outros:

– Estou ouvindo as ovelhas –diz Ele.

– Onde, Mestre?

– Parece-me que na direção daquela colina. Mas o bosque não me deixa ver.

João não diz nada. Tira o seu hábito — os mantos, todos os estão levando a tiracolo, enrolados, porque estão acalorados — e, só com a túnica curta, se abraça a um tronco alto e liso, que eu diria de um freixo, e sobe, vai subindo… até que vê:

– Sim, Mestre. Há muitos rebanhos e três pastores lá atrás daquele bosque.

Depois, ele desce, e vão tranqüilos.

– Serão eles?

– Nós perguntaremos, Simão, e se não são eles, nos dirão alguma coisa. Eles se conhecem entre si.

Depois de andarem cerca de uns cem metros, aparece um grande pasto verde, todo cercado por grossas e velhas árvores. 75.2Muitas ovelhas­ estão sobre o prado ondulado, pastando a basta erva. Três homens as estão olhando. Um deles é velho, já todo encanecido, os outros têm, um os seus trinta, e o companheiro seus quarenta anos, mais ou menos.

– Cuidado, Mestre. São mandriões… –aconselha Judas, ao ver que Jesus apressou o passo.

Mas Jesus nem lhe responde. E vai alto, bonito, com o sol poente lhe batendo no rosto, e com sua veste branca. Parece um anjo, de tão luminoso que está…

– A paz esteja convosco, amigos, Ele saúda, quando chega na entrada do prado.

Os três se viram, espantados. Há um silêncio. Depois, o mais velho pergunta:

– Quem és?

– Alguém que te ama.

– Serias o primeiro, depois de tantos anos. De onde vens?

– Da Galiléia.

– Da Galiléia? Oh!

O homem o olha atentamente. Os outros também já se aproximam.

– Da Galiléia –repete o pastor, e acrescenta em voz baixa, falando para si mesmo–: Ele também tinha vindo da Galiléia… De que lugar, Senhor?”

– De Nazaré.

– Oh! Diz-me, então. Terá voltado para lá um menino, com uma mulher chamada Maria e um homem chamado José, um menino ainda mais bonito do que a sua mãe, que flor mais bonita nunca se viu nas encostas de Judá? Um menino nascido em Belém de Judá, no tempo do edito? Um menino que fugiu depois, para a grande sorte do mundo. Um menino, que eu daria a vida para saber se ainda está vivo, se já é um homem feito!

– Por que dizes que foi a grande sorte do mundo o ter Ele fugido?

– Porque Ele era o Salvador, o Messias, e Herodes queria matá-lo. Eu não estava aqui, quando Ele fugiu com o pai e a mãe… Quando fiquei sabendo da matança, e voltei… — porque eu também tinha filhos (um soluço), Senhor, e uma mulher… (soluço) e ouvi dizer que estavam mortos (outro soluço), mas eu te juro pelo Deus de Abraão, por causa Dele eu tremia mais do que pela minha própria carne — fiquei sabendo que Ele tinha fugido, e nem pude fazer perguntas; nem pude ir recolher os corpos dos meus filhos degolados… Perseguido a pedradas, como se fosse um leproso, um imundo, um assassino… e precisei fugir para os bosques, levar uma vida de lobo… até que encontrei um patrão. Oh! Ana não existe mais… É duro e cruel… Se uma ovelha se aleija, se o lobo me pega um cordeiro, ou eu vou ser espancado até o sangue, ou vão tirar-me o meu pouco ganho, ou vou trabalhar nos bosques para os outros, fazer qualquer coisa, mas pagando sempre três vezes mais do que o justo valor. Mas não importa. Eu sempre tenho dito ao Altíssimo: “Deixa-me ver o teu Messias, deixa-me pelo menos saber que Ele está vivo, e tudo o que tenho sofrido é nada.” Senhor, eu te disse como fui tratado pelos belemitas e como estou sendo tratado pelo patrão. Eu podia ter retribuído ao mal com mal, ou praticar o mal, roubando, para não ter que sofrer com o patrão. Mas, eu só quis perdoar, sofrer, ser honesto, porque os anjos haviam dito: “Glória a Deus nos Céus altíssimos, e paz na terra aos homens de boa vontade.”

– Foi assim mesmo que os anjos disseram?

– Sim, Senhor, podes crê-lo Tu, ao menos Tu, que és tão bom. Fica sabendo Tu, pelo menos, e crede que o Messias já nasceu. Ninguém quer mais crer nisso. Mas os anjos não mentem… e nós não estávamos bêbados, como disseram. Este, que estás vendo, naquele tempo era um menino, e foi o primeiro a ver o anjo. Ele só bebia leite. Será que o leite pode embriagar? Os anjos disseram: “Hoje na cidade de Davi nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E vós o reconhecereis pelo seguinte: Encontrareis um Menino deitado em uma manjedoura, envolvido em faixas.”

– Foi assim mesmo que falaram? Não tereis entendido mal? Não estareis enganados, depois de tanto tempo?

– Oh! Não! Não é verdade, Levi? Para não nos esquecermos daquelas palavras — e nem o poderíamos, porque eram palavras do Céu, e foram escritas com o fogo do Céu em nossos corações — todas as manhãs, todas as tardes, quando o sol surge, quando brilha a primeira estrela, nós as dizemos como oração, como pedido de bênção, para termos força e conforto, em nome Dele e da mãe.

– Ah! Vós dizíeis: “O Cristo”?

– Não, Senhor. Nós dizemos: “Glória a Deus nos Céus altíssimos e paz na terra aos homens de boa vontade, por Jesus Cristo que nasceu de Maria em uma estrebaria em Belém e que, envolvido em faixas, estava em uma manjedoura, Ele que é o Salvador do mundo.”

75.3 – Mas em suma, a quem vós procurais?

– A Jesus Cristo, Filho de Maria, o Nazareno, o Salvador.

– Sou Eu.

Jesus resplandece ao dizer isso, manifestando-se a esses seus firmes amadores. Firmes, fiéis, pacientes.

– Tu! Oh! Senhor, Salvador, Nosso Jesus!

Os três se prostram por terra e beijam os pés de Jesus chorando de alegria.

– Levantai-vos. Levanta-te Elias, e tu, Levi, e tu que não sei quem és.

– José, filho de José.

– Estes são os meus discípulos: João, galileu, Simão e Judas, judeus.

Os pastores não estão mais com o rosto por terra, mas estão ainda de joelhos, largados para trás sobre os calcanhares, e adoram o Salvador com olhos de amor, com lábios que tremem de emoção, com rostos embranquecidos ou avermelhados pela alegria.

Jesus se assenta sobre a relva.

– Não, Senhor. Sobre a relva, Tu não, ó Rei de Israel!

– Deixai, amigos. Eu sou pobre. Para o mundo, Eu sou carpinteiro. Só sou rico de amor que tenho para com o mundo, e do amor que os bons me dão. Eu vim para estar convosco, para partir convosco o pão da tarde, para dormir ao vosso lado sobre o feno, e receber de vós um conforto…

– Oh! Conforto! Nós somos rudes e perseguidos.

– Eu também sou perseguido. Mas vós me dais o que Eu procuro: amor, fé e esperança que resiste através dos anos, e ainda dá flor. Estais vendo? Vós soubestes esperar, crendo sem dúvidas que era Eu. E Eu vim.

– Oh! Sim! Vieste. Agora, mesmo que eu morra, não tenho nada mais que me dê aquela pena por uma coisa que foi esperada, e não tida.

– Não, Elias. Tu viverás, até depois do triunfo de Cristo. Tu, que viste a minha aurora, deves ver também o meu fulgor. 75.4E os outros? Vós éreis doze: Elias, Levi, Samuel, Jonas, Isaque, Tobias, Jônatas, Daniel, Simeão, João, José e Benjamim. Minha mãe me dizia sempre os vossos nomes. Como sendo dos meus primeiros amigos.

– Oh!

Os pastores estão cada vez mais comovidos.

– Onde estão os outros?

– O velho Samuel morreu de idade, há vinte anos. José foi morto por ter combatido à porta do recinto, para dar tempo à esposa, que havia dado à luz poucas horas antes, para fugir com este aqui, que eu recolhi por amor ao amigo, e para… para ter ainda meninos ao meu redor. Também a Levi eu tomei comigo… Ele era um dos perseguidos. Benjamim é hoje pastor nas terras do Líbano, junto com Daniel. Simeão, João e Tobias, que agora tomou o nome de Matias em memória de seu pai, também ele assassinado, são discípulos de João. Jonas está na planície de Esdrelon, a serviço de um fariseu. Isaque está com os rins quebrantados, vive em uma miséria absoluta, e mora sozinho em Juta. Nós o ajudamos, como podemos… mas vivemos perseguidos, e o que lhe podemos dar é como gotas de orvalho em um incêndio. Jônatas agora é servo de um dos grandes de Herodes.

– Como pudestes, especialmente Jônatas, Jonas, Daniel e Benjamim ir trabalhar nesses serviços?

– Eu me lembrei de Zacarias, teu parente… Tua mãe me tinha mandado a ele. E, quando nos encontramos nos desfiladeiros da Judéia, fugitivos e malditos, eu os levei a ele. Ele foi bom. Protegeu-nos, matou-nos a fome. Procurou um patrão para nós. Fez o que pôde. Eu já havia pego todo o rebanho de Ana, encampado pelo herodiano… e fiquei com ele1… Tendo-se feito homem, o Batista, e começado a pregar, Simeão, João e Tobias o acompanharam.

– Mas agora o Batista está preso.

– Sim. Mas eles estão de ronda perto de Maqueronte, com um punha­do de ovelhas, para não levantar suspeitas, dadas por um homem rico, discípulo de João, teu parente.

– Eu gostaria de vê-los todos.

– Sim, Senhor. Nós iremos dizer a eles: “Vinde. Ele está vivo. Ele se lembra de nós e nos ama.”

– E vos quer entre os seus amigos.

– Sim, Senhor.

– Mas, antes, nós iremos a Isaque. E Samuel e José, onde estão sepultados?

– Samuel está em Hebron. Ficou a serviço de Zacarias. José… não tem sepultura, Senhor. Ele foi queimado com a casa.

– Não entre as chamas dos cruéis, mas entre as chamas do Senhor, e na glória, logo ele haverá de estar. Eu vo-lo digo. A ti, José, filho de José, Eu te digo. Vem cá, para que Eu te beije e para dizer um obrigado ao teu pai.

– E os meus meninos?

– São anjos, Elias. Anjos que repetirão o “Glória”, quando o Salvador for coroado.

– Coroado Rei?

– Não. Coroado Redentor. Oh! Cortejo dos justos e santos! E, na frente, as falanges, brancas e purpurinas dos pequenos mártires! E, abertas as portas do Limbo, eis que subiremos juntos ao Reino, onde não há morte. E depois, vós ireis e reencontrareis vossos pais, mães e filhos no Senhor! Crede.

– Sim, Senhor.

– Chamai-me Mestre. 75.5A tarde cai, a primeira estrela já está nascendo. Diz a tua oração antes da janta.

– Eu não. Diz tu.

– Glória a Deus nos Céus altíssimos, e paz na terra aos homens de boa vontade, que mereceram ver a Luz e servi-la. O Salvador está entre eles. O Pastor da estirpe real está no meio do seu rebanho. A Estrela da manhã já surgiu. Jubilai-vos, ó justos! Jubilai no Senhor. Ele, que fez a abóbada dos céus, e os semeou de estrelas, Ele que pôs, como limite para as terras, os mares, Ele que criou os ventos e o orvalho e regulou o curso das estações para dar pão e vinho aos seus filhos, eis que vos manda agora um Alimento mais alto: o Pão vivo que desce dos Céus, o Vinho da Videira eterna. Vinde, vós, primícias dos meus adoradores. Vinde conhecer o Pai em verdade, para o seguirdes na santidade e terdes Dele o prêmio eterno.

Jesus rezou de pé, com os braços estendidos, enquanto os discípulos e os pastores ficaram de joelhos.

Depois é servido o pão e uma escudela de leite tirado na hora, e como são três as escudelas, ou cabaças, não sei, primeiro comem Jesus, Simão e Judas. Depois João, ao qual Jesus passa a sua escudela, com Levi e José. Por último come Elias.

As ovelhas já não estão mais pastando, elas se reúnem em um grande grupo cerrado à espera de serem levadas ao seu cercado. Mas, ao contrário, vejo que os pastores as levam para o bosque, debaixo de um rústico galpão, feito de ramos tapados com cordas. E cuidam solícitos de preparar o feno que vai servir de cama para Jesus e os discípulos. Acendem-se as fogueiras, talvez por causa dos animais selvagens.

Judas e João, cansados, se deitam, e pouco depois estão dormindo. Simão queria fazer companhia a Jesus. Mas, pouco depois, também ele está dormindo, sentado sobre o feno e com as costas apoiadas a uma estaca. 75.6Ficam acordados Jesus e os pastores. E falam: de José, de Maria, da fuga para o Egito, da volta… E depois destas perguntas de amor, as perguntas mais altas: que fazer para servir a Jesus? Como poderão fazer isso, eles, rudes pastores?

E Jesus os instrui e explica:

– Agora Eu irei pela Judéia. Vós sereis sempre informados pelos discípulos. Depois Eu vos farei vir. No entanto, reuni-vos. Fazei que um saiba notícias do outro e da minha presença no mundo, como Mestre e Salvador. Como puderdes, fazei que todos saibam disso. Não vos prometo que acreditarão em vós. Eu sofri escárnio e maus tratos. Vós também os sofrereis. Mas, assim como soubestes ser fortes e justos nesta espera, sede-o mais ainda, agora que sois meus. Amanhã iremos para Juta, depois para Hebron. Podeis ir?

– Oh! Sim. As estradas são de todos e os pastos são de Deus. Só Belém está interditada pelo ódio injusto. Os outros lugares sabem… mas só zombam de nós, chamando-nos “beberrões.” Por isso pouco poderemos fazer aqui.

– Eu vos chamarei a um outro lugar. Não vos abandonarei.

– Por toda a vida?

– Por toda a minha vida.

– Não. Eu morrerei antes, Mestre. Sou velho.

– Pensas tu assim? Eu não. Um dos primeiros rostos que Eu vi foi o teu, Elias. E será um dos últimos. Levarei Comigo na pupila o teu rosto transtornado de dor pela minha morte. Mas depois será o teu a levar no coração o raiar de uma manhã triunfal, e com ele esperarás a morte… A morte: o encontro eterno com Jesus que tu adoraste pequenino. Também então os anjos cantarão o Glória: “pelo homem de boa vontade.”

Não ouço mais nada, a doce visão se ofusca. Termina.



1 Eu já havia pego todo o rebanho de Ana , encampado pelo herodiano... e fiquei com ele..., significa: O rebanho que pastava por conta de Ana foi tomado por erodiano e, por conseguinte, passei ao serviço dele.