391. 391. Cura do leproso Eliseu de Engadi.
22 de fevereiro de 1946.
391.1 Eles devem, talvez por conselho dos próprios moradores de Engadi, ter antecipado a hora da partida, porque já é noite fechada, e a lua está indo para cheia, e ilumina toda a cidade com uma luz muito clara. As pequenas estradas são como umas fitas de prata, por entre as casas em forma de cubos e os muros dos jardins, e a luz parece transformar a cal no mármore dos escultores, pelo efeito mágico do luar. As palmeiras e as outras árvores tomam também uma aparência fantástica, envolvidas pela fosforescência do luar. As fontes, os pequenos rios são pequenas cascatas e colares de diamantes. E, do meio da folhagem, os rouxinóis emitem colares de notas de ouro, unindo seus efeitos artísticos às vozes das águas que, durante a noite, parecem ter notas de um som mais nítido.
A cidade dorme. Mas alguns estão com Jesus que vai partir. São os homens das casas onde estavam hospedados Jesus e os apóstolos, e mais alguns outros moradores, que Ele uniu a eles. O sinagogo vai caminhando ao lado de Jesus. Oh! Ele não quer deixar de fazer esse acompanhamento, nem mesmo quando Jesus lhe pede que o faça, antes de entrarem pela campina afora. Eles vão, dirigindo-se à estrada que vai para Massada, e não pela estrada de baixo, que vai costeando o Mar Morto, e que eu ouço dizer que é insalubre e perigosa para por ela se viajar de noite. Mas eles vão pela estrada do interior, por cima dos cumes das colinas, que ficam à beira do lago.
Na noite de luar, como fica bonito o oásis! Parece que vamos caminhando por um lugar de sonho. Depois, o verdadeiro oásis termina, e as tamareiras vão-se tornando raras. Agora é o monte propriamente dito, com suas árvores de caule alto, com suas pradarias, com seus flancos cheios de cavernas, como quase todos os montes da Palestina. Mas eu diria que aqui elas aparecem mais vezes, com suas bocas estranhas, umas altas, outras achatadas; umas retas, outras enviesadas; umas redondas, pelo meado das encostas, outras reduzidas a simples rachaduras. Mas todas têm aspectos ameaçadores, vistas assim ao luar.
391.2 – Abraão, a estrada é mais lá embaixo. Por que é que estás querendo subir, prolongando o caminho, e seguindo por esta trilha intransitável? –adverte-o um homem de Engadi.
– É porque quero mostrar ao Messias uma coisa, e pedir-lhe que faça ainda uma coisa, a ser unida aos grandes benefícios que Ele nos fez. Mas, se vós estais cansados, voltai para casa, ou esperai-me aqui. Eu irei sozinho –respondeu o velho sinagogo, que vai coxeando, ofegante, por sobre a trilha escarpada e intransitável.
– Oh! Não. Nós vamos contigo. É que nos dá dó que te estejas cansando assim. O teu coração está aflito…
– Oh! Não é por causa do caminho! É outra coisa! É uma espada que penetra em meu coração… é uma esperança que o faz avolumar-se. Vinde, meus filhos, e ficareis conhecendo quanta dor, quanta dor havia no coração daquele que vos consolava de todas as vossas dores! Quanto… não digo desespero, isso não, mas a aceitação de que não havia por que iludir-se, por não ter nunca mais alegria, isso era o que havia, e que sempre vos dizia: que esperásseis no Senhor que tudo pode… Eu vos ensinei a crer no Messias… Vós estais lembrados de que, quando eu já podia fazê-lo sem causar-lhe prejuízo, eu falava com segurança sobre Ele? E vós dizíeis: “Mas é o morticínio feito por Herodes?” Ah! Sim! Era um grande espinho no coração! Mas eu me agarrava com todo o meu ser à esperança… Eu dizia: “Se Deus mandou a estrela a três, que nem eram de Israel, para convidá-los a ir adorar o Menino Messias, e os guiou até à pobre casa que os rabis de Israel nem sabiam que existia, nem os príncipes dos sacerdotes nem os escribas, e se em sonho os advertiu que não voltassem passando por Herodes, para assim salvar o Menino, não terá avisado, com o maior cuidado ao pai e à mãe para que fugissem levando salvo consigo aquele que era a esperança de Deus e do homem?” E a fé em sua salvação crescia, sendo em vão atacada pela dúvida dos homens e pelas palavras de outros… 391.3E quando… e quando a maior das dores de um pai me assaltou… quando eu tive que levar ao sepulcro um ser que estava vivo… e ter que dizer-lhe… dizer-lhe… “Fica aqui, enquanto durar a tua vida… e pensa que, se a lembrança das carícias maternas ou outro motivo te atraísse paras casas, eu deveria amaldiçoar-te, ferir-te em primeiro lugar, e deixar-te em algum ponto, onde nem mesmo o meu desolado amor te pudesse mais prestar socorro…”, quando eu tive que fazer isso, eu mais me agarrei à fé em Deus, Salvador do seu Salvador, e dizer a mim e ao meu filho… ao meu filho leproso… compreendeis? Leproso… dizer: “Inclinemos a cabeça diante da vontade do Senhor, e creiamos em seu Messias! Eu sou Abraão, tu és Isaque, imolado pela doença, não pelo fogo. Ofereçamos a dor, para termos o milagre…” E cada mês, a cada lua nova… ao vir até aqui escondido, carregado de alimentos, de vestes… de amor… de coisas que eu devia pôr longe do meu filho… porque eu devia voltar para perto de vós… meus filhos… e para perto da esposa cega, da esposa hebetada, que ficou cega e hebetada por causa da terrível dor… voltar para minha casa, sem ter mais filhos… sem ter mais a paz de um amor correspondido… na minha sinagoga e falar-vos de Deus… das suas grandezas… das suas belezas espalhadas por entre as criaturas… e eu tinha em meus olhos lembrança da aparência corroída do meu filho homem… e nem mesmo podia defendê-lo, quando eu ouvia murmurações contra ele, nas quais diziam que ele era um ingrato, ou um delinquente que fugiu de casa. E cada mês eu dizia, quando ia fazer aquela peregrinação de pai ao sepulcro do meu filho vivo, eu dizia a ele, para animar seu coração, e repetia: “O Messias já está na terra. Ele virá, e te curará…” No ano passado, pela Páscoa em Jerusalém, enquanto eu te estava procurando, no curto tempo em que eu fiquei longe de minha mulher cega, disseram-me: “Já está mesmo. Ele esteve aqui ontem. Curou também uns leprosos. Ele anda por toda a Palestina curando, consolando, ensinando.” Oh! Eu voltei tão depressa, que parecia um jovem a caminho das núpcias! Eu nem parei em Engadi, mas vim até aqui, e chamei o meu filho, o meu filho homem, a minha semente que está morrendo, e lhe disse: “Ele vai vir!” 391.4Senhor… Tu fizeste toda espécie de bem em nossa cidade. Parte, mas sem deixar a um que ainda está doente… Pois até às nossas plantas e aos nossos animais Tu abençoaste… E não quererás… Já curaste minha mulher… mas irás ter pena do fruto de suas vísceras?… Um filho para a mãe! Entrega um filho à sua mãe. Tu, o Filho perfeito da Mãe de todas as graças! Em nome de tua Mãe, tem piedade de mim, de nós!…
Todos juntos choram junto com o velho, que foi forte e dilacerante em suas palavras…
E Jesus o acolhe entre seus braços, enquanto ele está soluçando, e lhe diz:
– Não chores mais. Vamos ver teu Eliseu. A tua fé, a tua justiça, a tua esperança merecem isto, e mais ainda. Não chores, ó pai! E não tardemos mais a livrar do horror uma criatura.
– A lua já está se pondo. A estrada é muito difícil. Não poderíamos deixar para amanhã cedo? –dizem alguns.
– Não. As árvores que produzem resina estão aos montões ao redor de nós. Apanhai delas ramos e acendei-os, e vamos –ordena Jesus.
Sobem eles por um caminho estreito e difícil, que parece o leito que secou de alguma água pluvial. As tochas estão crepitando e soltando fumaça, uma luz avermelhada e um forte cheiro de resina pelo ar.
391.5 Uma caverna de entrada estreita, quase fechada por um matagal viçoso, que nasceu junto às margens de uma torrente, é o que se vê do outro lado de um estreito e pequeno planalto partido ao meio por uma fenda sobre a qual corre a torrente.
– Lá está o Eliseu, há anos… à espera da morte ou da graça de Deus… –diz o velho em voz baixa, mostrando a caverna.
– Chama o teu filho. Conforta-o. Que ele não tenha medo, mas fé.
E Abraão grita com força:
– Eliseu! Eliseu! Meu filho!
E repete o grito, tremendo de medo, por causa daquele silêncio, que é quem lhe responde.
– Será que ele morreu? –dizem alguns.
– Não. Morto, não. Está chegando ao fim de sua tortura! Mas não sem alguma alegria. Oh! Ele é o meu filho homem! –geme o pai.
– Não chores. Chama outra vez.
– Eliseu! Eliseu! Por que é que não respondes ao…
– Pai! Meu pai! Por que estás vindo fora do dia de costume? Será que minha mãe morreu, e que tu vens aqui para…
A voz, que parecia vir de longe, agora está perto, e é um espectro que se desloca de onde estava, seminu, todo corroído pela enfermidade… e ele, ao ver tantas pessoas com fachos acesos e bastões nas mãos, quem sabe o que ele fica pensando, e ele quer recuar, e grita:
– Meu pai, por que tu me atraiçoaste? Eu nunca saí daqui… Por que é que me vens trazendo os meus apedrejadores?
A voz de novo torna a parecer vir de longe, enquanto daquela aparição só restam de lembrança os ramos que ainda estão balançando.
– Anima-o. Dize-lhe que é o Salvador que está aqui –ajuda-o Jesus.
Mas o homem perdeu todas as forças… E chora desconsolado…
391.6Jesus fala com ele:
– Filho de Abrão e do Pai do Céu, escuta. Está cumprindo-se o que o justo teu pai já te profetizava. Aqui está o Salvador, e com ele estão os teus amigos de Engadi e os apóstolos do Messias, que vieram para se alegrarem com a tua ressurreição. Vem sem medo! Vem para a frente até à fenda da caverna, e Eu também irei para a frente, e tocarei em ti, e ficarás limpo da lepra. Vem sem medo ao Senhor que te ama!
Os ramos tornam a afastar-se, e o leproso, espavorido, olha para fora. Ele olha para Jesus, uma figura toda branca, que vai caminhando sobre a grama do pequeno planalto, e para no limite marcado pela fenda… Ele olha para os outros… especialmente para o pai que, como se estivesse fascinado, vem atrás de Jesus com os braços estendidos, e com o olhar fixo no rosto do leproso. Este chega para a frente, já mais encorajado. Vem mancando muito, por causa das feridas nos pés… estende os braços, com as mãos mutiladas pela doença… Chega até à frente de Jesus… Olha para Ele… E Jesus estende para a frente suas mãos muito bonitas, levanta os olhos para o céu, recolhe, parece recolher em Si todas as luzes de todas as estrelas sem conta e fazer irradiar delas um esplendor puríssimo sobre aquelas carnes impuras, cheias de pus, caindo aos pedaços, e que os fachos acesos e sacudidos para produzirem mais luz fazem que fiquem parecendo ainda mais pavorosas, àquela luz vermelha dos fachos.
Jesus se inclina sobre a fenda, toca com a ponta de um dos seus dedos as pontas dos dedos do leproso, e diz:
– Eu quero!
E diz isso com um sorriso, de uma beleza indescritível. E repete: “Eu quero” duas vezes. Depois Ele reza, e dá uma ordem com aquela palavra…
Em seguida, Ele se afasta da fenda, recua um passo, abrindo os braços em cruz, e diz:
– E, quando ficares purificado, agradece ao Senhor, pois tu lhe pertences. Lembra-te de que Deus te amou, porque foste um bom israelita e um bom filho. Toma uma esposa e filhos, e cria-os para o Senhor. Eis que foi anulada a tua amargura amaríssima. Bendize a Deus, e sê feliz!
Depois, Jesus se vira, e diz:
– Oh, vós, dos fachos, vinde para a frente, e vede o que o Senhor pode fazer por aqueles que o merecem.
Jesus abaixa os braços que, abertos como estavam e cobertos pelo manto, não deixavam que eles pudessem ver o leproso. Depois Ele se afasta.
391.7 O primeiro grito é o do velho, que estava ajoelhado atrás de Jesus:
– Filho! Meu filho! Tu estás como eras nos teus vinte anos! Estás belo como naquele tempo. Estás são como naquele tempo! Bonito, oh! mais bonito do que naquele tempo!… Oh! Tivesse eu uma tábua, um galho de árvore, qualquer coisa para chegar até onde estás!
E faz o gesto de quem quer atirar-se. Mas Jesus o detém:
– Não. Que a alegria não te leve a violar a Lei. Antes, ele deve se purificar. Olha para ele, beija-o com os teus olhos e com o coração, que agora está forte, como o tinhas durante tantos anos passados. E que sejas feliz…
De fato, este foi um milagre completo. Pois não foi somente uma cura, mas uma restauração daquilo que a doença havia destruído. E o homem, que está com os seus quarenta anos, está intacto, como se nunca houvesse sofrido nada. Somente ficou com uma grande magreza, que lhe dá um aspecto ascético de uma beleza não comum e sobrenatural. Ele agita os braços, ajoelha-se, bendiz… não sabe o que fazer para dizer a Jesus que lhe agradece. Enfim, ele vê umas flores por entre as ervas, e as colhe, as beija e, através da fenda, joga-as aos pés do Salvador.
391.8 – Vamos! Vós de Engadi, ficai, com o vosso sinagogo. Enquanto que nós, vamos para Massada.
– Mas vós não sabeis o… Não podeis ver…
– Sei. Eu sei o caminho. Eu sei tudo. Conheço as estradas da Terra e as do coração, pelas quais passam Deus e o Inimigo de Deus. Eu vejo quem acolhe a este ou aquele. Ficai! Ficai com a minha paz! Porque o dia já está chegando, e com os fachos acesos faremos claridade até o romper do dia. Abraão, vem cá, para que Eu te dê o beijo da despedida. O Senhor esteja sempre contigo, como esteve até agora, e com os teus e com a tua boa cidade.
– Não voltarás mais a ele, Senhor? Para veres minha casa feliz?
– Não. A minha estrada está para chegar ao seu fim. Mas no Céu tu estarás comigo, e os teus estarão contigo. Amai-me, e educai vossos filhos na fé de Cristo… Adeus a todos. Paz e bênção a todos os presentes e às suas famílias. Paz a ti, Eliseu. Que sejas perfeito, em reconhecimento ao Senhor. Vinde, vós, meus apóstolos…
E se põe à frente do pequeno cortejo, que levanta os fachos acesos, e vai para diante, passa ao redor de um penhasco saliente, e desaparece com sua veste branca. Depois, vão desaparecendo um por um, os apóstolos, vai ficando longe o barulho do tropel, e se tornando distante o avermelhado dos fachos chamejantes…
Ficam parados no pequeno planalto o pai e o filho, sentados sobre as beiras da fenda, contemplando um ao outro… E atrás, em grupo, em cochichos cheios de admiração, estão os de Engadi. Estão esperando o romper do dia para voltarem à cidade com a notícia da prodigiosa cura.