498. 498. Exortação a Tadeu e a Tiago de Zebedeuem seguida de uma discussão com Iscariotes.


21 de setembro de 1946.

498.1 – Queres mesmo ir por este caminho? Não me parece prudente por muitas razões… –objeta Iscariotes.

– Quais? Por acaso, não vieram a Mim até Cafarnaum, homens desses povoados, procurando saúde e sabedoria? Não são também eles filhos de Deus?

– Sim… Mas… Não é prudente para Ti andar muito perto de Maqueronte. É um lugar agourento que espera os inimigos de Herodes.

– Maqueronte está longe. Não tenho tempo de ir até lá. Eu quereria ir até Petra, e mais além. Mas não irei mais longe do que até o meio do caminho, e menos ainda. Seja como for, vamos…

– José te aconselhou…

– Que Eu ande por estradas bem vigiadas. Esta é exatamente a estrada do Além-Jordão que os romanos vigiam com muito cuidado. Eu não sou medroso, Judas, nem imprudente.

– Eu não me fiaria. Não me afastaria de Jerusalém. Eu…

– Mas deixa o Mestre agir. Ele é o Mestre, nós os seus discípulos. Quando foi que já se viu um discípulo aconselhar ao seu Mestre? –diz Tiago de Zebedeu.

– Quando? Não faz muitos anos que o teu irmão disse1 ao Mestre que não fosse por Acor e Ele o atendeu. Agora, que Ele atenda a mim.

– Tu és ciumento e prepotente. Se meu irmão falou e foi atendido, é sinal de que sua palavra era justa e foi ouvida. Bastava olhar para João naquele dia para se ver que era justo ouvi-lo!

– Oh! Com toda a sua sabedoria, nunca o soube defender e nunca saberá fazer isso. Mas, ao contrário, faz pouco tempo aquilo que eu fiz ao ir a Jerusalém.

– Tu fizeste o teu dever. Também o meu irmão o teria feito naquela ocasião, mas com outros modos, porque ele não sabe mentir, nem mesmo sobre coisas boas. Eu me sinto alegre com isso…

– Tu me estás ofendendo. Estás me chamando de mentiroso…

– E, então? Queres que eu diga que tu és sincero, se tu mentiste de um modo tão jeitoso que nem mudaste de cor?

– Eu o fazia…

– Sim. Eu sei. Eu o sei. Para salvar o Mestre. Mas eu não aceito isso, nenhum de nós aceita isso. Nós preferimos a resposta simples2 do velho. Preferimos calar-nos e ser chamados de bobos, até ultrajados, mas sem mentir. Começa-se por uma coisa boa e se acaba com uma coisa não boa.

– Quem é mau, sim. Não eu. Quem é bobo, sim. Não eu.

498.2 – Basta. Tendo razão, acabais não tendo razão, ou tendo uma razão diferente daquela que quereis ostentar, pois é uma falta de razão ir contra a caridade. O que Eu penso sobre asinceridade, todos vós o sabeis. O que Eu exijo na caridade, também. Vamos. Essas vossas discussões me fazem sofrer mais do que os insultos dos inimigos.

Jesus, evidentemente contrariado, põe-se a caminho rapidamente, sozinho, por um caminho que, sem precisarmos ser arqueólogos, compreende-se que é obra dos romanos. Ele vai para o lado do sul, num traçado quase reto a perder de vista, por entre duas cadeias de montanhas desiguais. É uma estrada monótona, escura, por causa das encostas cheias de bosques que a margeiam e impedem que nossa vista chegue até o horizonte, mas é bem conservada. De vez em quando, alguma ponte romana, lançada sobre torrentes e córregos que descem para o Jordão ou para o Mar Morto. Não sei precisamente porque os montes me impedem de ver, do lado do ocidente, onde é que devem estar o rio e o mar. Há também uma ou outra caravana na estrada, caravana que talvez vem subindo de novo do Mar Vermelho, e vai não sei para onde, com muitos camelos, cameleiros e mercadores de raça evidentemente diferente da hebraica.

Jesus vai sempre na frente sozinho. Atrás dele, divididos em grupos, vão os apóstolos, conversando uns com os outros. Os galileus vão à frente. Atrás vão os judeus juntos com André e João, e com os dois discípulos que se uniram a eles. Dos dois grupos, um está querendo consolar Tiago, que ficou deprimido pela severa repreensão do Mestre, e o outro procura persuadir Judas a não ficar sempre assim obstinado e agressivo. Mas os dois grupos estão concordes em aconselhar aqueles dois censurados a irem ao Mestre e fazerem as pazes com Ele.

– Eu? Mas eu vou a Ele, logo. Tenho certeza de estar com a razão. Eu sei o que tenho feito. Não fui eu que aconselhei o mal. Eu vou

–diz Iscariotes.

Ele é muito ousado, ou melhor, é um descarado. Judas acelera o passo para alcançar Jesus. Eu ficome perguntando, mais uma vez, se ele naqueles dias já não estaria pronto para trair, se já não conspirava com os inimigos de Cristo.

Tiago, ao contrário, sendo afinal o menos culpado, está tão abatido por ter feito Jesus sofrer que nem tem coragem de ir para a frente. Está olhando para ele o Mestre, que agora já está conversando com Judas. Olha para ele, e o desejo da palavra de perdão dele está patente em seu rosto. Mas o próprio amor que ele tem, um amor sincero, constante e forte lhe faz parecer imperdoável o que ele fez de mal.

498.3 Agora os dois grupos se reuniram, também Simão Zelotes, André, Tomé e Tiago dizem:

– Ora, vamos! Se tu não o conhecesses! Ele já te perdoou!

E, com muita acuidade de julgamento, Bartolomeu, ancião e sábio, diz, pondo a mão no ombro de Tiago:

– Eu te digo: para não levantar outras tempestades, Ele deu imparcialmente uma reprovação a vós dois. Mas o seu coração a estava dando somente a Judas.

– É assim, filho de Tolmai! O meu irmão consome-se a Si mesmo para suportar aquele homem que se obstina em tardar corrigir-se, e se cansa em procurar fazer que isso apareça… como nós estamos vendo. Ele é o Mestre, eu… sou eu… Mas, se eu fosse Ele, já o homem de Keriot não estaria mais conosco! –diz Tadeu com um reluzir em seus olhos muito bonitos, parecidos com os do Cristo.

– Tu achas? Tens alguma suspeita? Qual é? –dizem muitos.

– Nada. Nada de certo. Mas aquele homem não me agrada.

– Ele nunca te agradou, meu irmão. É uma rejeição irracional, porque nasceu no primeiro encontro. Tu a confessaste a mim. Ela é contrária ao amor. Deverias vencê-la e, se não por outra razão, para dares uma alegria a Jesus –diz com calma e persuasão Tiago de Alfeu.

– Tens razão, mas… eu não consigo chegar a tanto. 498.4Vem, Tiago, vamos juntos ao meu irmão.

E Judas de Alfeu pega resolutamente Tiago de Zebedeu pelo braço e o puxa consigo.

Judas percebe que eles vão chegando, vira-se para Jesus, depois diz a Jesus alguma coisa. Jesus para e os espera. Judas, com seu olhar malicioso, está observando o aflito apóstolo.

– Desculpa, afasta-te um pouco, que eu preciso falar com o meu irmão –diz Tadeu.

A frase é cortês, mas o seu tom é bem enxuto.

Iscariotes esboça um risinho e depois, com um sacudir de ombros, volta sobre os seus passos e vai unir-se aos outros.

– Jesus, nós somos pecadores… –diz Judas Tadeu.

– Eu é que sou pecador e não tu –murmura, de cabeça baixa, Tiago.

– Nós somos pecadores, Tiago, porque o que tu fizeste, eu pensei em fazer, o aprovei e o tenho no coração. Por isso, eu também estou em pecado. Porque do meu coração é que sai o juízo sobre Judas, contaminando a minha caridade. Jesus, não dizes nada aos teus discípulos que reconhecem o seu pecado?

– Que Eu tenho a dizer que vós ainda não estejais sabendo? Vós talvez estejais mudados pelas minhas palavras, em relação ao companheiro?

– Não. Não mais do quanto ele se tiver mudado por aquelas que lhe disseste –responde com sinceridade o seu primo, por si e pelos outros.

– Deixa estar, Judas, deixa estar! Eu errei. Trata-se de mim, eu devo tratar de mim e não dos outros. Mestre, não fiques preocupado comigo…

498.5– Tiago, Eu quereria de ti, e de todos, uma coisa. Eu sofro muito por muitas incompreensões que Eu encontro… por tantas persistentes resistências. Vós o estais vendo… Por um lugar que me dá alegria, há três outros não me dão, e me expulsam como a um malfeitor. Mas a compreensão que os outros não me dão, Eu gostaria de recebê-la pelo menos de vós. Que o mundo não me ame, que Eu me sinta sufocado por todo esse ódio, essa antipatia, inimizade, suspeita que me rodeiam, pelas torpezas de todas as espécies, pelos egoísmos, por tudo quanto só o meu infinito amor pelo homem me faz suportar. É penoso. Mas Eu o sofro ainda com paciência. Eu vim para sofrer isso da parte daqueles que odeiam a Salvação. Mas da parte de vós, não. Isso Eu não suporto! Isto de não serdes capazes de amar-vos uns aos outros e, portanto, de compreender-me. Isto de vós não aderirdes ao meu espírito, esforçando-vos para fazerdes o que Eu faço.

Crede, podeis crer todos vós, que eu não esteja vendo os erros de Judas e que Eu deixe de saber alguma coisa sobre ele? Oh! persuadi-vos de que não é assim. Mas, se Eu tivesse querido pessoas perfeitas no espírito, teria feito encarnarem-se anjos, me teria feito rodear por eles. Eu o teria podido fazer. Teria sido um verdadeiro bem? Não. De minha parte teria sido egoísmo e desprezo. Eu teria evitado a dor, que sinto pelas vossas imperfeições, teria desprezado os homens criados por meu Pai, tão amados por Ele, a ponto de mandar-me salvá-los. Da parte do homem teria sido um dano para o futuro. Terminada a minha missão, teria voltado ao Céu com os meus anjos, e o que teria sobrado de apto para continuar a minha missão, e quem? Qual o homem que teria podido esforçar-se para fazer o que Eu digo, se somente um Deus e alguns anjos tivessem dado o exemplo de uma vida nova, regulada pelo espírito? Foi necessário que Eu me revestisse de uma carne para persuadir o homem de que, querendo, ele pode ser casto e santo de todos os modos. Foi necessário que Eu tomasse dos homens, assim, aqueles que, com o seu espírito, responderam ao apelo do meu espírito, sem olhar se eram ricos ou pobres, doutos ou ignorantes, cidadãos ou aldeãos. E os tomasse, assim como os encontrasse, a minha vontade junto com a deles os fosse transformando lentamente em mestres de outros homens.

O homem pode crer em outro homem, em outro homem que ele está vendo. É difícil para o homem, de tão decaído que ele está, acreditar em Deus que ele não vê. Ainda não haviam terminado os raios no monte Sinai, e já aos pés do monte havia surgido a idolatria… Moisés ainda não havia morrido, aquele para cujo rosto não se podia olhar, já se estava pecando contra a Lei. Mas, quando vós, transformados em mestres, fordes como um exemplo, como um testemunho, como um fermento entre os homens, eles não poderão dizer: “Esses são como uns deuses, que desceram ao meio dos homens, e nós não podemos imitá-los”. Mas eles deverão dizer: “São homens como nós. Certamente neles haverá os mesmos estímulos e instintos que há em nós, as mesmas reações, e contudo eles sabem resistir aos estímulos e instintos, ter reações bem diversas das nossas, que são brutais.” E se persuadirão de que o homem se pode divinizar, contanto que queira entrar pelos caminhos de Deus.

Observai os gentios e os idólatras. Todo o Olimpo deles e os seus ídolos, porventura se tornarão bons? Não. Porque eles, se são incrédulos, dizem que seus deuses são mentira. Se acreditam, pensam assim: “Eles são deuses, e eu sou homem”, e não se esforçam para imitá-los. Por isso, procurai, vós, tornar-vos um outro Eu. E não tenhais pressa. O homem evolui lentamente, passando de animal racional a um ser espiritual. Suportai-vos uns aos outros. Suportai-vos. Ninguém é perfeito, mas somente Deus.

498.6 Agora tudo já passou, não é verdade? Transformai-vos com uma vontade firme, imitando Simão de Jonas que, em menos de um ano, deu passos de um gigante. No entanto, quem de vós era mais homem do que Simão, com todas as falhas de uma humanidade bem material?

– É verdade, Jesus. Aquele homem tem sido o meu estudo contínuo. A minha admiração –confessa Tadeu.

– Sim. Estou com ele desde a infância. Eu o conheço como se fosse um irmão. Mas agora eu tenho à minha frente um Simão novo. Eu te confesso que, quando disseste que ele era o nosso chefe, eu, e não somente eu fiquei perplexo. Parecia-me o menos indicado de todos. Simão comparado com o outro Simão e com Natanael! Simão comparado com o meu irmão e com os teus irmãos! Especialmente com estes cinco. Parecia-me ter sido um erro… Mas agora eu digo: “Tu tinhas razão.”

– Vós não vedes de Simão mais do que a superfície! Mas Eu o vejo em profundidade. Para ser perfeito ele tem ainda muito que fazer e padecer. Mas em todos vós eu gostaria de ver a boa vontade dele, sua simplicidade, sua humildade e o seu amor…

Jesus olha para a frente, parece que está vendo alguma coisa. Está absorto em seu pensamento, sorri diante do que está vendo. Depois baixa os seus olhos sobre Tiago e sorri.

– E então… estou perdoado?

– Eu gostaria de poder perdoar a todos como fiz a ti… Olha aquela cidade: deve ser a de Esebon. O homem disse: depois da ponte dos três arcos está a cidade. Esperemos os outros para entrarmos todos juntos na cidade.

1 disse, em 379.2 (episódio já lembrado pelo próprio Iscariotes em 422.6).
2 a resposta simples do velho, isto é, de Ananias, em 496.3.


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