353. 353. A segunda multiplicação dos pãese o milagre da multiplicação das Palavras.


28 de maio de 1944. 2 horas da madrugada do dia de Pentecostes.

353.1 Uma visão serena. Estou vendo um lugar que certamente não é uma planície. Mas também não é uma montanha. Há uns montes do lado oriental, mas um pouco distantes. Depois há uma valeta, e outras elevações mais baixas e meio achatadas. Há planaltos cobertos de mata. Parece que sejam as primeiras encostas de um grupo de colinas. Aqui o terreno é um pouco chamuscado e sem árvores. Há uma grama curta e rala, espalhada por um terreno pedregoso. Aqui e ali se vêem algumas moitas baixas de touceiras espinhosas. Para o lado do ocidente, o horizonte se alarga, amplo e cheio de luz. Da natureza não vejo outra coisa. Ainda é dia, mas eu diria que a tarde já começou, porque o ocidente está avermelhado pelo pôr-do-sol, ao passo que os montes do lado do oriente já estão arroxeados pela luz que se vai tornando crepuscular. É um começo de crepúsculo, que torna mais escuras as fendas profundas dos montes, e apenas arroxeadas as partes mais salientes.

Jesus está de pé sobre uma grande pedra e está falando a uma multidão muito, mas muito grande espalhada pelo planalto. Os discípulos estão ao redor dele. Ele, tendo ficado ainda mais alto, porque o rústico pedestal, sobre o qual está, o eleva, domina de lá uma multidão de todas as idades e condições sociais, que está ao redor dele.

Jesus deve ter feito milagres, pois ouço que está dizendo:

– Não a Mim, mas a Quem Me enviou deveis oferecer louvores e reconhecimento. E o louvor não há de ser o que nasce, como o som de um vento, de lábios distraídos. Mas aquele que sai do coração, o sentimento verdadeiro do vosso coração. Este é agradável a Deus. Que os curados amem ao Senhor com um amor de fidelidade. E que o amem os pais dos curados. Do dom de uma saúde reconquistada não façais mau uso. Mais do que das doenças do corpo, tende medo das do coração. E não queirais pecar. Porque todo pecado é uma doença. E há alguns deles que podem dar a morte. Agora, pois, todos os que agora estais alegres não destruais a bênção de Deus com o pecado. Acabar-se-ia a vossa alegria, porque as más ações tiram a paz, e onde não há paz não há alegria. Mas sede santos. Sede perfeitos, como vosso Pai quer. Ele o quer, porque vos ama, e àqueles que Ele ama, quer dar um Reino. Em seu Reino santo, porém, não entram senão aqueles que a fidelidade à Lei torna perfeitos. A paz de Deus esteja convosco.

353.2 E Jesus se cala. Cruza os braços sobre o peito e, com os braços assim cruzados, fica observando a multidão, que está ao redor. Depois, olha em volta de Si, levanta os olhos para o céu sereno e que vai ficando cada vez mais escuro, por causa da claridade da luz, que vai diminuindo. Fica pensando. Desce do seu penhasco. Fala com os discípulos:

– Tenho piedade deste povo. Ha três dias que ele me segue. Já não tem mais provisões consigo. Está longe de todos os povoados. Temo que os mais fracos sofram muito, se Eu os despedir sem dar-lhes antes alimento.

– E, como queres fazer, Mestre? Tu o dizes. Estamos longe de todos os povoados. Num lugar deserto destes, onde vamos encontrar pão? E quem nos daria dinheiro para irmos comprar pão para todos?

– Não tendes nada convosco?

– Temos uns poucos peixes e alguns pedaços de pão. É o resto da nossa comida. Mas não dá para ninguém. Se Tu os deres aos que estão perto, vai acontecer um tumulto. Ficamos nós sem eles, e não satisfarás a ninguém.

É Pedro quem fala.

– Trazei-me tudo o que tiverdes.

Levam-lhe um pequeno cesto, contendo sete pedaços de pão. Não há nenhum pão inteiro. Parecem grandes fatias, cortadas de alguns pães grandes. Os peixinhos também são um punhado de pobres bichinhos chamuscados nas labaredas.

– Fazei que esta multidão se assente, em círculos de cinqüenta, e que fique em silêncio, se quiser comer.

Os discípulos, em parte sobem para umas pedras, outra parte vai circulando pelo meio do povo, e têm um grande trabalho para colocá-los na ordem exigida por Jesus. Mas acabam conseguindo. Alguns meninos estão choramingando, porque estão com fome e com sono, outros estão chorando, porque, para fazê-los obedecer, as mães, ou algum outro parente, lhes deram uns tapas.

353.3 Jesus toma os pães, não todos, naturalmente: dois, um em cada mão, os oferece, depois os põe junto com os outros e os abençoa. Pega também os peixinhos, que são tão poucos que cabem quase todos na concha formada por suas longas mãos. Oferece-os também, e os põe juntos, e igualmente os abençoa.

– E agora tomai. Ide circulando pelo meio da multidão, e dai a cada um, com fartura.

Os discípulos obedecem.

Jesus, de pé, com sua figura branca dominando um povo sentado em grandes círculos, que cobrem todo o planalto, está observando e sorrindo.

Os discípulos vão indo, vão indo sempre mais para longe. Distribuem sem parar. E a cesta está sempre cheia de comida. O povo come, à medida que a tarde vai descendo, e se faz um grande silêncio e uma grande paz.

353.4Diz Jesus:

– Eis uma outra coisa que causará aborrecimento aos doutores difíceis. A aplicação que Eu faço desta visão evangélica. Eu não te faço meditar sobre o meu poder e a minha bondade. Nem sobre a fé e obediência dos discípulos. Nada disso. Eu te quero fazer ver a analogia do episódio com a obra do Espírito Santo.

Vê: Eu dou a minha palavra. Dou tudo o que vós podeis compreender e, portanto, também assimilar, para fazer daquilo o alimento para a alma. Mas vós vos tornastes tão tardos pelo cansaço e pela inapetência, que não podeis assimilar todo o valor nutritivo que existe em minha palavra. Vós precisaríeis de muitas, muitas palavras mais. Mas vós não sabeis receber muitas. Sois tão pobres em forças espirituais! A palavra vos pesa, sem chegar a dar-vos sangue e força. E eis que, então, o Espírito opera o milagre para vós. O milagre espiritual da multiplicação da Palavra. ComEla vos ilumina e assim se multiplica em todos os seus mais recônditos significados, de tal modo que vós, sem vos submeterdes a um peso que vos esmagaria sem vos fortalecer, vos nutrais dela e não caiais mais prostrados, ao longo do deserto desta vida.

Sete pães e poucos peixes!

Eu preguei durante três anos e, como diz1 o meu querido João, “se devesse escrever todas as palavras e os milagres que Eu disse e realizei para dar-vos um alimento abundante, capaz de levar-vos sem deficiências até o Reino, a terra não teria a capacidade de conter todos os vo1umes.” Mas, ainda que isso fosse feito, não teríeis podido ler um tal montão de livros. Vós não ledes nem mesmo, como deveríeis, o pouco que sobre Mim foi escrito. A única coisa que deveríeis conhecer, como conheceis as palavras mais necessárias desde a vossa mais tenra idade.

E então vem o Amor e multiplica. Também Ele, Uno comigo e com o Pai, tem “dó de vós que estais morrendo de fome” e, com um milagre que se vem repetindo há séculos, duplica, decuplica, centuplica as luzes, o alimento contido em cada uma das minhas palavras.

Eis aí, assim, um tesouro sem fundo, cheio de um alimento celeste. Ele vos é oferecido pela Caridade. Tomai dele sem medo. Quanto mais o vosso amor tomar dele, mais ele, que é fruto do Amor, aumentará o seu caudal.

353.5 Deus não conhece limites em suas riquezas nem em suas possibilidades. Vós sois relativos. Ele não. É infinito. Em todas as suas obras. E também nesta em que podeis dar a vós mesmos, a qualquer hora, em qualquer ocasião, aquelas luzes de que estais necessitando, justamente naquele momento. E, como no dia de Pentecostes, o Espírito que desceu sobre os Apóstolos deu-lhes a palavra que foi compreendida pelos Partos, Medos, Citas, Capadócios, do Ponto e da Frígia e, como se fosse para eles a língua nativa, aos Egípcios e aos Romanos, aos Gregos e aos Líbios, assim igualmente Ele vos dará conforto se estiverdes chorando, conselho se o estiverdes procurando, participação na alegria, se estiverdes alegres, tudo com a mesma Palavra.

Oh! É bem verdade, se o Espírito vos ilumina. “Vai em paz e não peques mais”, esta frase é um prêmio para quem não pecou, é um encorajamento para o que ainda está fraco mas que não quer pecar, é perdão para o culpado que se arrepende, é censura misturada com misericórdia para com aquele que mal tem uma sombra de arrependimento. E não é mais do que uma frase. E das mais simples. Mas quantas delas não estão no meu Evangelho! Quantas que, como botões de flor depois de uma boa chuva, em um ar de abril, abrem-se firmes no ramo sobre o qual antes só havia um botão aberto, e o vão cobrindo todo, para alegria de quem fica olhando para elas.

Descansa agora. Que a paz do Amor esteja contigo.

1 diz, em João 21,25.


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