355. 355. O novo discípulo, Nicolau de Antioquiae o segundo anúncio da Paixão.


9 de dezembro de 1945.

355.1 Jesus está sozinho no terraço da casa de Tomé em Cafarnaum. O povoado nada faz no sábado, pois o lugar está com um número de habitantes bem reduzido, visto que os mais zelosos nas práticas religiosas já partiram para Jerusalém. O mesmo acontece com aqueles que para lá vão com suas famílias, levando suas crianças, não podendo, por isso, fazer longas marchas e obrigando os adultos a muitas paradas, e a fazerem a viagem indo por trajetos mais breves. Assim, durante um dia de céu nublado, falta ainda ao povoado aquela nota festiva da meninada alegre.

Jesus está muito pensativo. Sentado em um banquinho baixo, a um canto, ao lado do parapeito, com as costas viradas para a escada, quase escondido pelo parapeito, Ele está com um cotovelo sobre o joelho, e apóia a fronte sobre a mão, com um ar de cansaço, quase de sofrimento.

355.2 É interrompido em sua meditação pela chegada de um meninozinho, que quer saudá-lo, antes de partir para Jerusalém. “Jesus! Jesus!” vai ele gritando, a cada degrau que sobe. Não está vendo Jesus, porque o pequeno muro o esconde à vista de quem estiver mais abaixo. E Jesus está tão concentrado, que não ouve a vozinha fina e aquele passo de um pombinho… de tal modo, que, quando o pequenino já está sobre o terraço, o Senhor ainda está naquela posição de sofrimento. E o menino fica com um pouco de medo. Ele pára à beira do terraço, põe um dedinho por entre os lábios, e fica pensando… Depois se decide, e, devagarzinho, vai indo para frente… já está quase junto às costas de Jesus… Inclina-se para ver o que Ele está fazendo, e diz:

– Não, Belo! Não chores… Por quê? Por causa daqueles homens feiosos de ontem? Bem que meu pai estava dizendo ao Jairo que eles são indignos de Ti… Mas Tu não deves chorar. Eu te quero bem. E assim também a minha irmãzinha, Tiago e Tobias, Joana e Maria e Miquéias e todos, todos os meninos de Cafarnaum. Não chores mais…

E se lhe agarra ao pescoço, todo carinhoso, e termina dizendo:

– Eu também vou chorar, e ficarei chorando sempre… durante toda a viagem…

– Não, Davi, Eu não choro mais. Tu me consolaste. Estás sozinho? Quando partireis?

– Depois do pôr-do-sol. Iremos de barca até Tiberíades. Vem conosco. Meu pai te quer bem, sabes?

– Eu o sei, meu caro. Mas devo ir a outros meninos… Eu te agradeço por teres vindo me saudar e te abençôo, meu pequeno Davi. Demo-nos um beijo de despedida e depois volta para a tua mamãe. Ela está sabendo que tu estás aqui?…

– Não. Eu escapuli e vim, porque não te vi com os teus discípulos e fiquei pensando que estavas chorando.

– Não estou mais chorando. Tu o estás vendo, vai, vai para perto da tua mamãe, que talvez esteja preocupada. Adeus. Toma cuidado com os burros da caravana. Tu os estás vendo? Estão por aí parados por toda parte.

– Mas Tu não irás chorar mais, mesmo?

– Não. Não estou mais triste. Tu me aliviaste. Obrigado menino.

O menino vai descendo, pulando pelos degraus da escadinha, e Jesus o observa. Depois, Ele sacode a cabeça, e vai para o seu lugar, continuando a penosa meditação que estava fazendo.

355.3 Passa o tempo. O sol, nas clareiras por entre as nuvens, faz-se ainda ver, caminhando para sua descida.

Ouve-se um passo mais pesado sobre a escada. Jesus levanta o rosto. Vê Jairo, que vem para Ele. E o saúda. E é também saudado respeitosamente.

– Como vieste até aqui, Jairo?

– Senhor! Talvez eu me tenha enganado. Mas Tu, que vês os corações dos homens, verás que no meu coração não havia má vontade. Hoje na sinagoga eu não te convidei para falar. Mas eu sofri muito por causa de Ti ontem, e vi que estavas sofrendo tanto que… nem ousei fazê-lo. Perguntei aos teus. E eles me disseram: “Ele quer ficar sozinho”… Mas há pouco, veio Filipe, pai de Davi, dizendo-me que seu filho Te viu chorando. Ele disse que Tu lhe agradeceste por ele ter ido a Ti. Eu também vim. Mestre, os que ainda estão em Cafarnaum estão para se reunirem na sinagoga. E a minha sinagoga é tua, Senhor!

– Obrigado Jairo. Hoje serão outros que falarão nela. Eu irei, mas como simples fiel…

– Nela não te deterias. Tua sinagoga é o mundo. Não irás mesmo, Senhor?

– Não, Jairo. Eu estou aqui com o meu espírito diante do Pai, que me compreende, e não acha culpa em Mim.

Jesus está com lágrimas, que brilham em seus olhos tristes.

– Eu também não acho culpas em Ti. Adeus, Senhor.

– Adeus, Jairo.

E Jesus se assenta de novo, sempre meditativo.

355.4 Rápida como uma pomba, em sua veste branca, vai subindo a filha de Jairo. Ela fica olhando… Depois chama em voz baixa:

– Meu Salvador!

Jesus vira a cabeça e, ao vê-la, lhe sorri, e diz:

– Vem cá.

– Sim, meu Senhor. Mas eu é que gostaria de levar-te aos outros. Por que está muda a sinagoga hoje?

– Lá está o teu pai e muitos outros, para enchê-la de palavras.

– Mas são palavras… A tua é que é a Palavra. Oh! Meu Senhor! Com a tua palavra foi que Tu me restituíste à minha mãe e ao meu pai, pois eu estava morta. Mas, olha aqueles que agora estão indo para a sinagoga! Muitos estão mais mortos do que eu estava. Vai, para dar-lhes a Vida.

– Minha filha, tu a merecias. Mas esses… Nenhuma palavra pode dar vida a alguém que, por si mesmo, escolhe a morte.

– Sim, meu Senhor. Mas vem assim mesmo. Sempre há os que vivem mais se ouvirem as tuas palavras… Vem. Põe a tua mão na minha e vamos. Eu sou a testemunha do teu poder e estou pronta a testemunhá-lo até diante dos teus inimigos, ainda que seja ao preço de me tirarem esta segunda vida que, afinal, não é mais minha. Tu me deste, bom Mestre, pela compaixão que tiveste de uma mãe e de um pai. Mas eu…

A menina, uma bela menina, como se fosse uma mulherzinha de olhos grandes e cintilantes em um rosto puro e inteligente, pára diante de uma onda de pranto que a sufoca, escorrendo dos longos cílios por sobre as suas faces.

– Por que choras agora? –pergunta-lhe Jesus, pondo-lhe a mão sobre os cabelos.

– Porque… me disseram que estás falando que vais morrer…

– Todos morrem, menina.

– Mas não do jeito que dizes. Eu… oh! Agora não teria querido ter voltado à vida para não ficar vendo isto, para não estar aqui quando… acontecer uma coisa horrorosa assim…

– Nesse caso nem estarias aqui para dar-me a consolação que me estás dando agora. Não sabes que a palavra, ainda que seja uma só, de alguém que é puro, de alguém que me ama, tira de Mim todo sofrimento?

– É verdade? Oh! Nesse caso, Tu já não deves ter sofrimento, porque eu te amo mais que meu pai, minha mãe e à minha própria vida!

– Pois assim é.

– Então vem. Não fiques aí sozinho. Fala por mim, por Jairo, por minha mãe, pelo pequeno Davi, por aqueles que te amam afinal. Nós somos muitos e seremos mais ainda. Não fiques aí sozinho. Senão vem a tristeza.

E, em seu instinto materno como o de toda mulher honesta, ela termina, dizendo:

– Estando perto de mim ninguém te fará mal. Porque eu, afinal, te defenderei.

Jesus se levanta, e procura contentá-la. Com sua Mão na mão dela, atravessam as ruas e entram na sinagoga por uma porta lateral.

355.5 Jairo, que está lendo em voz alta num rolo, pára a leitura e diz, inclinando-se profundamente:

– Mestre, eu te peço uma coisa: fala aos retos de coração. Prepara-nos para a Páscoa com a tua santa palavra.

– Estás lendo o livro dos Reis, não é verdade?

– Sim, Mestre. Eu estava procurando fazer que se refletisse que quem se separa do verdadeiro Deus cai na idolatria do bezerro de ouro.

– Falaste bem. Não haverá ninguém que queira dizer alguma coisa?

Levanta-se um murmúrio por entre a multidão. Uns querem que Jesus fale e outros gritam:

– Estamos com pressa. Vamos rezar as orações e terminar a reunião. Vamos para Jerusalém, pois lá nós ouviremos os rabis.

E os que gritam assim são os numerosos desertores de ontem, que o sábado ainda deteve em Cafarnaum.

Jesus olha para eles com uma grande tristeza e diz:

– Estais com pressa. É verdade. Deus também está com pressa de julgar-vos. Então, ide.

Depois, virando-se para os que os estavam reprovando, diz:

– Não os repreendais. Cada planta dá o seu fruto!

– Senhor! Repete agora o gesto1 de Neemias! Fala contra eles, Tu, Sacerdote Supremo! –grita Jairo, indignado, e lhe fazem coro os apóstolos, os discípulos fiéis e os de Cafarnaum.

Jesus abre os braços em cruz e, muito pálido, com um semblante realmente desfeito, mas cheio de doçura, grita:

– Lembra-te de Mim, ó meu Deus! Para o bem! E lembra-te também do bem deles. Eu os perdôo!

355.6 A sinagoga se esvazia, ficando somente os fiéis a Jesus… A um canto está um estrangeiro. É um homem robusto em que ninguém está prestando atenção e com o qual ninguém fala. Mas, afinal, também ele não fala com ninguém. Ele só fica olhando fixamente para Jesus, até que Jesus, tendo dirigido seu olhar na direção dele, o vê e pergunta a Jairo quem é aquele homem.

– Eu não sei. Certamente é alguém que está de passagem por aqui.

Jesus o interroga:

– Quem és tu?

– Nicolau, prosélito de Antioquia, que estou indo a Jerusalém para a Páscoa.

– A quem estás procurando?

– A Ti, Senhor Jesus de Nazaré. Eu desejo falar-te.

– Vem.

E quando ele chegou perto, Jesus sai com ele para o jardim atrás da sinagoga, a fim de ouvi-lo.

– Eu falei em Antioquia com um dos teus discípulos chamado Félix. Tenho ardentemente desejado conhecer-te. Ele me disse que teu lugar de permanência é Cafarnaum e que tua mãe está em Nazaré. E também que costumas ir ao Getsêmani ou a Betânia. O Eterno fez que eu te encontre no primeiro desses lugares. Aqui eu estive ontem. Eu estava perto de Ti hoje cedo, enquanto Tu estavas chorando e rezando ao lado da fonte… Eu te amo, Senhor. Porque Tu és santo e manso. Eu creio em Ti. As tuas ações, as tuas palavras já me tinham feito teu. Mas a tua misericórdia, que eu vi há pouco para com os culpados, fez decidir-me. Senhor, recebe-me no lugar daqueles que te abandonam! Eu venho a Ti com tudo o que possuo: minha vida e meus bens, tudo.

E ele se ajoelhou, ao dizer estas últimas palavras.

Jesus olha fixamente para ele… e depois diz:

– Vem. Desde hoje serás do Mestre. Vamos ao encontro dos teus companheiros.

Retornam à sinagoga, onde os discípulos e alguns apóstolos estão todos falando com Jairo.

– Eis um novo discípulo. O Pai me consola. Amai-o como a um irmão. Com ele vamos dividir o nosso pão e o nosso sal. Mais tarde, de noite, vós partireis com ele para Jerusalém e nós, com as barcas, iremos para Hipos… E não conteis a ninguém por onde Eu fui, para que ninguém me detenha.

355.7 Enquanto isso o sábado terminou e os que querem fugir de Jesus estão em grande número pela praia, a fim de contratarem os transportes para Tiberíades. E estão discutindo com Zebedeu que não quer ceder a sua barca, que já está pronta perto da de Pedro, para a partida, de noite, de Jesus com os Doze.

– Eu vou ajudá-lo –diz Pedro, já irritado.

Jesus, para evitar choques muito fortes, o detém dizendo:

– Iremos todos nós e não tu sozinho.

E lá se vão. E experimentam a amargura de ver que os fugitivos se vão sem nenhuma saudação, contanto que se afastem de Jesus… e ouvem alguns apelidos chulos e uns conselhos azedos aos discípulos fiéis.

Jesus se volta a fim de retornar para casa assim que aquela turba hostil já se foi, e diz ao novo discípulo:

– Estás ouvindo o que dizem? Isto é o que te espera ao vires ficar comigo.

– Eu sei. É por isto que eu fico. Eu te tinha visto em um dia glorioso pelo meio da multidão que te aclamava e saudava como “rei”. Eu sacudi os ombros, dizendo: “É mais um pobre iludido! Mais uma chaga para Israel!” E eu não te acompanhei porque parecias um rei e, entretanto, eu fiquei pensando mais em Ti. Agora estou te acompanhando porque em tuas palavras e em tua bondade vejo o messias Prometido.

– Em verdade, tu és mais justo do que muitos outros. Porém ainda uma vez te digo. Quem espera ter em Mim um rei terreno, que se retire. Quem acha que vai ter que se envergonhar de Mim diante do mundo acusador, que se retire. Quem se escandalizar por ver-me tratado como um malfeitor, que se retire. Eu vo-lo digo, enquanto ainda podeis fazê-lo sem ficardes comprometidos aos olhos do mundo. Imitai aqueles que lá se vão fugindo naquelas barcas, se não vos sentis dispostos a compartilhar da minha sorte no opróbrio, para poderdes compartilhar depois dela na glória. Porque eis o que está para acontecer: o Filho do homem está para ser acusado e ser posto nas mãos dos homens, os quais o matarão como a um malfeitor e crerão que o venceram. Mas inutilmente terão eles cometido o seu delito. Porque Eu ressurgirei três dias depois e triunfarei. Felizes daqueles que souberem estar comigo até o fim!

355.8 Chegaram em casa e Jesus apresenta aos discípulos o novo discípulo que chegou, subindo depois sozinho para onde estava antes. Logo Ele entra no quarto de cima, assenta-se, e continua a pensar.

Pouco depois, sobem também Iscariotes e Pedro.

– Mestre, Judas me fez refletir sobre umas coisas justas.

– Dize-as.

– Tu recebes esse Nicolau, um prosélito, cujo passado nós ignoramos. Nós já temos tido tantos aborrecimentos… Já os tivemos. E agora? Que nós sabemos dele? Poderemos confiar nele? Judas diz justamente que ele poderia ser um espião mandado pelos inimigos.

– Isso mesmo! Um traidor! Por que ele não quer dizer de onde vem e quem o manda? Eu lhe fiz estas perguntas, mas ele só diz isto: “Sou Nicolau de Antioquia, prosélito.” Eu tenho sérias suspeitas.

– Eu te faço lembrar que ele vem porque me vê traído.

– Pode ser mentira. Pode ser uma traição!

– Quem por toda parte vê mentira ou vê traição é uma alma capaz de tais coisas, porque mede os outros por seu próprio modelo –diz, sério, Jesus.

– Senhor, Tu me estas ofendendo! –grita Judas, indignado.

– Deixa-me, então, e vai-te com os que me abandonam.

Judas sai dali, batendo a porta com maus modos.

– Mas, Senhor, Judas não está sempre errado… E depois, eu não gostaria que aquele homem viesse falar de João. Não pode ser outro, a não ser o homem de Endor, Félix, quem te envia este…

– É isso mesmo. Mas João de Endor é prudente e tomou de novo o seu antigo nome. Fica tranqüilo, Simão. Um homem que se faz discípulo porque percebe que a minha causa humana já está perdida não pode ser senão um homem de espírito reto. Bem diferente é aquele que agora acabou de sair e que veio a Mim porque esperava ser o príncipe de um rei poderoso… e não se persuade de que Eu seja Rei somente pelo espírito…

– Tens suspeitas dele, Senhor?

– De ninguém. Mas em verdade te digo que, ao ponto a que chegará Nicolau, discípulo e prosélito, nunca chegará Judas de Simão, apóstolo, israelita e judeu.

– Senhor, eu teria vontade de fazer perguntas a Nicolau sobre… João.

– Não faças isso. João não lhe deu encargos porque é prudente. Não sejas tu imprudente.

– Não, Senhor. Eu estava só te perguntando.

– Vamos descer para tomarmos logo a ceia. Tarde da noite, partiremos… Simão, tu me amas?

– Oh! Mestre, que estás dizendo?!

– Simão, o meu coração está mais escuro do que o lago em noite de tempestade e tão agitado como ele…

– Oh! Mestre meu! Que te devo dizer: “Eis teu Simão. E se meu coração te pode dar algum conforto, toma-o.” Não tenho senão este, mas é sincero.

Jesus lhe põe por um momento a cabeça sobre o peito amplo e robusto, depois se levanta e desce com Pedro.

1 gesto, invocado por Jairo, é a ameaça de punição expressa em: Neemias 5,13; mas a resposta de Jesus é a invocação da misericórdia que se segue: Neemias 5,19.


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