142. 142. Com os doze indo para Samaria.
21 de abril de 1945.
142.1 Jesus está com os seus doze. O lugar continua montanhoso, mas sendo a estrada suficientemente cômoda, todos estão em grupo e falando entre eles.
– Porém, agora que estamos sós, podemos dizê-lo: por que tanto ciúme entre dois grupos? –diz Filipe.
– Ciúme? Não é nada mais do que soberba –rebate Judas de Alfeu.
– Não. Eu digo que é só um pretexto para justificar, de qualquer modo, a injusta conduta deles para com o Mestre. Sob o véu de um zelo para com o Batista, consegue-se afastá-lo sem desagradar demais a multidão –diz Simão.
– Eu os desmascararia.
– Nós, Pedro, faríamos tantas coisas que Ele não faz.
– Por que não as faz?
– Porque sabe que é bom não fazê-las. Nós não temos mais do que procurar segui-lo. Não nos cabe guiá-lo. E é necessário dar-nos por felizes com isso. É um grande alívio ter só que obedecer…
– Disseste bem, Simão, diz Jesus que, na frente, parecia ir pensativo. Disseste bem. Obedecer é mais fácil do que dar ordens. Não parece. Mas é assim. Certamente isto é fácil quando o espírito é bom. Como é difícil mandar quando o espírito é reto. Porque se um espírito não é reto, dá ordens insensatas e mais do que insensatas. Então é fácil dar ordens. Mas… quanto se torna mais difícil obedecer! Quando alguém tem a responsabilidade de ser o primeiro de um lugar ou de uma reunião de pessoas, deve ter sempre presente a caridade e a justiça, a prudência e a humildade, a temperança e a paciência, a firmeza, mas sem teimosia. Oh! É difícil!! Vós, por enquanto, não tendes senão que obedecer. A Deus e ao vosso Mestre.
142.2Tu, e não somente tu, perguntas a ti mesmo por que é que Eu faço ou não faço algumas coisas; perguntas por que Deus permite ou não permite tais coisas. Vê, Pedro, e vós todos, meus amigos. Um dos segredos do perfeito fiel está em não arvorar-se nunca em inquiridor de Deus. “Por que fazes isto?”, pergunta alguém mal formado, ao seu Deus. E parece ter ele posto as vestes de um adulto sábio diante de um menininho da escola, para dizer-lhe: “Isto não se faz. É uma tolice. É um erro·” Quem mais do que Deus?
Agora vós estais vendo como, sob o pretexto de um zelo por João, Eu fui expulso. E estais escandalizados com isso. E quereríeis que Eu retificasse o erro, tomando uma atitude polêmica com os defensores desta causa. Não. Isto não se dará nunca. Ouvistes o que diz o Batista pela boca dos seus discípulos: “É preciso que Ele cresça e que eu diminua.” Nada de lamentações nem de apegos à própria posição. O santo não se apega a essas coisas. Ele trabalha, não pelo número dos “próprios” fiéis. Ele não tem fiéis próprios. Mas trabalha para aumentar os fiéis a Deus. Somente Deus tem o direito de ter fiéis. Por isso, assim como Eu não fico amargurado porque, por boa ou por má fé, alguns continuem como discípulos do Batista, também ele não se aflige, pois o ouvistes, que alguns discípulos seus venham a Mim. Ele nem dá importância a estas pequenezas numéricas. Ele olha para o Céu. E Eu olho para o Céu. Não estejais, portanto, a discutir entre vós se é justo ou injusto que os judeus me acusem de tomar discípulos ao Batista, se é justo ou injusto que se deixe que continuem a dizer isso. Essas são brigas de mulheres faladeiras, ao redor de uma fonte. Os santos se ajudam, se dão e permutam entre si os espíritos com alegre facilidade, sorrindo à ideia de trabalhar para o Senhor.
142.3 Eu batizei, ou melhor, vos mandei batizar, porque, tão pesado está o espírito agora, que é preciso apresentar-lhe formas materiais de piedade, formas materiais de milagre, formas materiais de escolas. Por causa desse peso espiritual, deverei recorrer ao auxílio de substâncias materiais, quando quiser fazer de vós operadores de milagres. Mas, crede que não estará no óleo, como não na água, como não em outras cerimônias, a prova da santidade. Está para chegar o tempo no qual uma coisa impalpável, invisível, inconcebível para os materialistas, será rainha, a rainha ‘que voltou’, poderosa e santa, de todas as coisas santas e em todas as coisas santas. Por ela o homem se tornará o ‘filho de Deus’ e operará o que Deus opera, porque terá Deus consigo.
A Graça. Eis a rainha que volta. Então o batismo será sacramento. Então o homem falará e compreenderá a linguagem de Deus e dará vida; e Vida, dará poder de ciência e de poder; então… oh! então! Mas ainda estais imaturos para saberdes o que a Graça vos concederá. Eu vos peço, ajudai a sua vinda com a vossa contínua obra de formação de vós mesmos e deixai as coisas inúteis dos mesquinhos…
142.4 Eis ali os confins da Samaria. Achais vós que faria bem em ir falar por lá?
– Oh!
Estão todos mais ou menos escandalizados.
– Em verdade, vos digo que os samaritanos1 estão em toda parte, e se Eu não devesse falar onde há um samaritano, não deveria mais falar em lugar nenhum. Portanto, vinde. Não procurarei falar, mas não desprezarei a ocasião de falar de Deus, se isso me for pedido. Um ano terminou. Começa o segundo. Ele está a cavaleiro entre o princípio e o fim. No princípio ainda predominava o Mestre. Agora, eis que se revela o Salvador. O fim terá o rosto do Redentor. Vamos. O rio vai crescendo, quanto mais se aproxima da foz. Eu também aumento as obras de Misericórdia, porque a foz já está perto.
– Vamos para algum grande rio, para lá da Galileia? Talvez para o Nilo? Ou para o Eufrates? –cochicham alguns.
– Talvez vamos para o meio dos gentios… –respondem outros.
– Não fiqueis falando entre vós. Vamos para a “minha” foz. Ou seja, para o cumprimento de minha missão. Estai bem atentos, porque depois Eu vos deixarei e vós devereis continuar em meu nome.
1 os samaritanos, habitantes da Samaria, eram considerados bastardos e pagãos pelos judeus pela sua descendência impura e pelo seu cisma, como aparece com frequência na obra mas sobretudo nos cinco capítulos seguintes. O título de samaritanos vinha por vezes estendido aos romanos enquanto pagãos, como em 110.4, e por desprezo era chamado “samaritano” o próprio Jesus (como em: 501.4 – 507.10 – 540.7 – 560.6 -645.2). A história do cisma está em: 1 Reis 12-13; 2 Reis 17,24-41; 2 Crônicas 10; e a raiz do cisma podia considerar-se, como dito em 245.3, o pecado de idolatria de Salomão. A situação nos tempos de Jesus nas impressões da escritora em 483.1 e nas palavras de um notável samaritano em 484.2. A consideração que Jesus tinha pelos samaritanos vem expressa na parábola de 281.10, no mandato aos apóstolos em 552.2 e no colóquio com notáveis judeus em 560.4/5.