539. 539. A perfeição explicada a João de Zebedeuque se acusa de culpas inexistentes.
14 de dezembro de 1946.
539.1É uma manhã serena, mas de muito frio. A geada depositou seus cristais farinhentos no chão e sobre as ervas, e transformou os pequenos ramos secos do chão em preciosos porta-joias pulverizados com pequenas pérolas.
João sai de sua espelunca. Está muito pálido e com sua veste cor de avelã escura. Deve estar também com muito frio ou está sentindo alguma coisa. Não sei. Só sei que sua palidez é quase lívida, e está dando uns passos sem segurança, próprios de quem não se sente bem. Ele vai indo na direção do pequeno rio, fica na dúvida se enfia, ou não, as mãos na água. Depois ele se decide e, tendo feito uma concha com as duas mãos, apanha e bebe um gole daquela água, que está límpida, mas também muito fria. Ele sacode as mãos e as acaba de enxugar na aba de sua veste. Depois fica sem saber o que fazer. Olha para os escombros onde está Jesus e depois para os de onde ele está. E vai voltando lentamente para estes. Mas ao chegar junto à entrada da gruta, sente uma tontura e cambaleia. Teria caído se não se agarrasse a uma parede meio desmoronada. Ele está com a cabeça sobre um braço dobrado, agarrando-se ainda à parede por algum tempo, depois levanta a cabeça e olha ao redor de si… Não entra mais em sua gruta. Mas passando rente à parede e apoiando-se nas saliências ásperas das pedras, que não estão recobertas pelo reboco, dá uns poucos passos que o separavam do estábulo onde está Jesus, e, tendo chegado à entrada, joga-se de joelhos e diz, gemendo:
– Senhor meu, tem piedade de mim!
539.2Jesus logo aparece:
– João, que estás fazendo? Que tens?
– Oh! meu Senhor! Eu tenho fome! Há quase dois dias que não como nada. Estou com fome e com frio… –e bate os dentes, muito pálido.
– Vem! Vem para dentro –diz Jesus, ajudando-o a erguer-se.
E ele, ajudado pelo braço de Jesus, chora com a cabeça inclinada sobre o ombro do Senhor, e suspira, dizendo:
– Não me castigues, Senhor, se eu te desobedeci…
Jesus sorri e lhe responde:
– Já foste castigado. Estás como quem está morrendo… Assenta-te aqui nesta pedra. Agora vou acender o fogo e te darei de comer… –e Jesus, acende com a isca algumas ramagens secas, fazendo um bom fogo no rústico fogão, junto à porta.
O cheiro dos ramos acesos e a alegria das labaredas se espalham por toda a miserável gruta, e Jesus, tendo enfiado em um graveto dois pedaços de pão, os aproxima das chamas e, quando percebe que já estão quentes, cobre-os com pedaços dos queijos gordos deixados pelos pastores, e o queijo se derrete e pinga sobre o pão que agora Jesus conserva suspenso sobre as chamas, como se fosse um prato.
– Come agora e não chores –diz, sempre sorrindo e passando o pão a João, que chora em silêncio como um menino extenuado, e não deixa de derramar lágrimas, nem mesmo ao comer com avidez aquele alimento confortador.
Jesus volta para a manjedoura e vem de lá trazendo mel e o coloca por entre as cinzas, que esquentaram com o calor da lenha a qual está queimando suspensa sobre duas pedras que servem de pilares.
– Estás melhor agora? –pergunta Jesus, sentando-se ao lado do seu apóstolo, que faz sinal que sim com a cabeça, continuando sempre a chorar.
Jesus lhe passa um braço atrás das costas e o puxa para Si, o que aumenta o pranto de João, que está ainda muito cansado e talvez perturbado pelo medo de alguma reprovação, pela emoção por ter sido bem acolhido e por não estar sabendo fazer outra coisa a não ser chorar.
Jesus o segura unido a Si, sem nada falar, enquanto João come. Depois diz:
– Por ora, basta. As maçãs tu comerás mais tarde. Quereria dar-te um pouco de vinho, mas não tenho. Encontrei anteontem pela manhã feixes de lenha e comida fora do estábulo. Mas vinho não havia. E por isso não te posso dar. Se fosse mais tarde, Eu poderia ir procurar leite com uns pastores que Eu vi ir levando o rebanho para o outro lado do rio. Mas enquanto a geada não se derrete, os rebanhos não saem…
– Já estou melhor, Senhor… Não te aflijas por mim.
– E tu, por que te afliges e ficas parecendo uma árvore da qual o sol derreteu a geada? –diz Jesus, sorrindo ainda mais vivamente e beijando João no alto de sua fronte.
– Porque eu estou cheio de remorsos, Senhor… e… 539.3Sim. Deixa-me ir. Eu preciso falar-te de joelhos, pedir-te perdão…
– Pobre João. Na verdade, o esforço acima de tuas capacidades enfraqueceu-te a fé a inteligência. E achas tu que Eu tenha necessidade de ouvir tuas palavras para poder julgar-te e absolver-te?
– Sim, sim. Tu sabes tudo. Eu sei disso. Mas eu não terei paz enquanto não te tiver dito o meu pecado, ou melhor, os meus pecados. Deixa-me fazê-lo. Deixa-me acusar as minhas culpas.
– Pois bem. Fala, se é que isso vai te dar paz.
João se põe de joelhos e, levantando os olhos lacrimosos, diz:
– Eu pequei por desobediência, por presunção e por… não sei se digo bem, por humanidade. Mas certamente esta é a minha culpa mais recente, mais grave, a que me dá a maior dor e que me fala como a um servo inútil, e até mais ainda: um egoísta, um indigno é que eu sou.
As lágrimas realmente estão lavando o rosto dele, enquanto em Jesus o sorriso vai ficando cada vez mais luminoso. Jesus está um pouco inclinado sobre a dor de João. Mas João está tão aflito, que não sente conforto nem naquele sorriso, e continua:
– Eu te desobedeci: tinhas dito que não devíamos separar-nos, e eu me separei logo dos meus companheiros e os escandalizei. Respondi mal a Judas Iscariotes, que me fazia observar que eu estava pecando. Eu lhe disse: “Tu o fizeste ontem e eu o faço hoje! Tu o fizeste para teres notícias de tua mãe e eu o faço para estar com o Mestre, e velar por Ele, defendendo-o”… Eu pretendi de mim mesmo, porque eu queria fazer isso… Eu, um pobre inepto, defender a Ti! E depois eu pretendi porque quis imitar-te. Eu disse: “Certamente Ele vai rezar e jejuar. Eu farei o que Ele faz e pela mesma intenção que Ele.” Mas, ao contrário…
E o seu pranto transformou-se em soluços, enquanto a confissão da miséria do homem, da matéria que dominou a vontade do espírito vai saindo dos lábios de João:
– E, ao contrário, eu fiquei dormindo. E adormeci logo. E só quando o dia já estava alto é que eu despertei, e vi que Tu ias ao rio para te lavares e voltares para aqui. E compreendi que teriam podido até capturar-te sem que eu estivesse pronto para defender-te. E depois eu queria fazer penitência e jejum, mas não fui capaz de fazê-lo. Aos pedacinhos, como se fosse para não comer, acabei comendo no primeiro dia o meu pouco pão. Tu sabes que eu não tinha outro. E ainda não estava saciado, quando tudo se acabou. E no dia seguinte tive ainda mais fome, e nesta noite… Oh! anteontem de noite pouco eu dormi, pela fome e pelo frio, e também nesta noite não dormi nada… e não fui capaz de resistir mais nesta manhã. E eu vim porque fiquei com medo de morrer de inanição… e é isso que mais me faz mal: por não ter sabido velar para rezar e velar por Ti, mas ter sabido fazê-lo por causa das mordidas da fome… Eu sou um servo idiota e vil. Castiga-me, Jesus.
539.4– Pobre menino! Eu quereria que o mundo todo tivesse essas culpas tuas para acusar-se delas! Mas, escuta, levanta-te e escuta: e o teu coração ficará em paz. Desobedeceste também a Simão de Jonas?
– Não, Mestre. Não o teria nunca feito, porque Tu disseste que devíamos estar a ele sujeitos, como a um irmão mais velho. Mas ele, quando eu lhe disse: “Meu coração não está tranquilo por vê-lo ir sozinho”, ele respondeu-me: “Tens razão. Mas eu não posso ir porque recebi a ordem de guiar a todos vós. Vai tu e Deus esteja contigo.” Os outros levantaram a voz e Judas mais do que os outros. Eles se lembraram da obediência e censuraram Simão Pedro.
– Censuraram? Sê sincero, João…
– É verdade, Mestre. Foi Judas que censurou Simão e me maltratou. Os outros somente disseram: “O Mestre ordenou que estejamos juntos.” E foi a mim, e não nosso chefe, que o diziam. Mas Simão respondeu: “Deus está vendo com que fim é feito isso e perdoará. E o Mestre o perdoará, porque isto é amor”, e me abençoou, me beijou e me mandou vir atrás de Ti, como naquele dia1 em que foste com Cusa através do lago.
– E, então, desta culpa Eu não vou absolver-te…
– Porque ela é grave demais?
– Não. Porque ela não existe. Vem cá, João, fica ao lado do teu Mestre e escuta uma lição. É necessário saber cumprir as ordens com justiça e discernimento, sabendo entender qual é o espírito da ordem, e não somente as letras que compõem a ordem. Eu disse: “Não vos separeis.” Tu te separaste, e só por isso já terias pecado. Mas antes Eu havia dito. “Sede unidos de corpo e de espírito, e sujeitos a Pedro.” Com aquelas palavras Eu o escolhi como meu legítimo representante entre vós, com a faculdade plena de julgar e de dar ordens a vós. Por isso, tudo o que Pedro fez ou fará na minha ausência, será bem feito. Porque tendo-o Eu investido do poder de guiar-vos, o Espírito do Senhor, que está em Mim, estará também com ele e o guiará ao dar as ordens que as circunstâncias impuserem e que a Sabedoria sugerir ao apóstolo chefe, para o bem de todos. Se Pedro te tivesse dito: “Não vás”, e se tu tivesses vindo igualmente, nem mesmo o motivo bom do teu ato, que era o de querer acompanhar-me por amor, querendo defender-me e estar comigo nos perigos, nada disso teria sido suficiente para anular a tua culpa. Seria, então, desejado o meu perdão. Mas Pedro, o teu chefe, te disse: “Vai.” E a obediência a ele te justifica plenamente. Estás persuadido disto?
– Sim, Mestre.
539.5– Devo absolver-te da culpa de presunção? Dize-me sem ficar pensando se eu estou vendo, ou não, o teu coração. Tu presumiste, com soberba, que poderias querer imitar-me para poderes dizer: “Com a minha vontade, eu aboli as necessidades da carne, porque eu posso tudo o que quero?” Pensa bem nisso…
João põe-se a pensar. Depois diz:
– Não, Senhor. Examinando-me bem, não, não foi por isso. Eu esperava poder fazê-lo porque compreendi que a penitência é um sofrimento da carne, mas é luz para o espírito. Compreendi que é um meio de fortalecer a nossa fraqueza e obter muito de Deus. Tu o fazes por isso. E eu por isso o queria fazer. E creio não estar errado se disser que, se o fazes Tu, que és forte, Tu poderoso, Tu Santo, eu, nós, o deveríamos fazer sempre, se sempre fosse possível fazê-lo para sermos menos frágeis e materiais. Mas eu não fui capaz de fazê-lo. Sempre tenho fome e muito sono…
E o pranto recomeça a gotejar devagar, humilde, como uma verdadeira limitação das capacidades humanas.
– Pois bem, até esta pequena miséria da carne, achas tu que tenha sido inútil? Oh! Como te recordarás dela no futuro, quando tiveres a tentação de ser severo e exigente com os teus discípulos e os fiéis. Ela tornará a reflorescer na tua mente, dizendo-te: “Lembra-te de que tu também caíste no cansaço, na fome. Não queiras que os outros sejam mais fortes do que tu. Sê tu pai dos teus fiéis como teu Mestre foi um pai para ti naquela manhã”. Tu poderias muito bem velar e não sentir essa grande fome. Mas o Senhor permitiu que tu passasses por essas necessidades da carne, para fazer-te humilde, sempre mais humilde e sempre mais compassivo para com os teus semelhantes. 539.6Muitos não sabem distinguir entre a tentação e a culpa consumada. A primeira é uma prova que dá merecimento e não priva da graça. A segunda é a queda, que tira o mérito e a graça. Quantos não sabem distinguir entre acontecimentos naturais e culpas, e se escandalizam por terem pecado, enquanto — e é o teu caso — não fizeram mais do que obedecer a leis naturais boas. Eu distingo, chamando de “boas” as leis naturais dos instintos desenfreados, porque nem tudo o que hoje chamam de leis naturais é mesmo assim, e é boa. Boas eram todas as leis conexas coma natureza humana, que Deus havia dado aos progenitores: a necessidade do alimento, do repouso, da bebida. Depois, com o pecado, se imiscuíram e se misturaram com as leis naturais, corrompendo o que era bom, os instintos animais, o desregramento, a sensualidade de todas as espécies. E Satanás conservou vivo o fogo, o estímulo dos vícios com as suas tentações. Agora, tu estás vendo que, se não é pecado ceder à necessidade do repouso e da comida, por outro lado é pecado a libertinagem, a embriaguez, o ócio prolongado. Também a necessidade de se casarem e criarem seus filhos não é pecado, pois Deus deu até a ordem de fazê-lo para povoar de homens a terra. Mas deixa de ser bom o ato dos casais quando é feito só para satisfação da sensualidade. Estás persuadido também neste ponto?
– Sim, Mestre. Mas, então, dize-me uma coisa: Aqueles que não querem procriar, pecam contra uma ordem de Deus? Tu disseste uma vez que o estado de virgindade é bom.
– É o mais perfeito. Como é o mais perfeito aquele que, não se vendo bem pago por fazer bom uso das riquezas, se despoja completamente delas. São as perfeições às quais pode chegar uma criatura. E grande prêmio elas terão. Três são as coisas mais perfeitas: a pobreza voluntária, a castidade perpétua e a obediência absoluta em tudo o que não é pecado. Estas três coisas tornam o homem semelhante aos anjos. E uma é perfeitíssima: dar a própria vida por amor de Deus e dos irmãos. Isto torna a criatura semelhante a Mim, porque a conduz ao perfeito amor. E quem ama perfeitamente é semelhante a Deus, absorvido em Deus e com Deus unido. 539.7Permanece, pois, em paz, meu dileto. Não há culpa em ti, Eu te digo. Por que, então, aumentas o teu pranto?
– Porque uma culpa sempre existe. A de ter sabido vir a Ti por necessidade, e a de ter sabido vigiar por causa da fome e não por amor. Não me perdoarei nunca. Não me acontecerá mais. Não dormirei mais enquanto estiveres sofrendo. Não te esquecerei enquanto estiveres chorando.
– Não empenhes o futuro, João. A tua vontade está disposta, mas ainda poderia ser dominada pela carne. E com isso terias um profundo e inútil aviltamento de depois te lembrares de que essa promessa feita a ti mesmo não foi mantida depois pela fraqueza da carne. Olha. Eu te digo o que deves dizer para ficares em paz, aconteça o que acontecer. Dize comigo: “Eu, com a ajuda de Deus, proponho, quanto me for possível, não ceder mais ao peso da carne.” E fica firme nessa vontade. Se depois, um dia, mesmo sem o quereres, a carne cansada e aflita vencer a tua vontade, então, naquela hora, como agora, tu dirás: “Reconheço ser um pobre homem como todos os meus irmãos, e isso me ajuda a trazer decepado o meu orgulho.” Oh! João, João. Não é o teu sono inocente o que pode causar-me dor! 539.8Toma. Estas te reconfortarão bastante! Dividamo-las juntos, bendizendo aos que me ofertaram –e toma as maçãs já cozidas e quentes, dá três delas a João e guarda três para Si.
– Quem foi que te deu, Senhor? Quem foi que veio a Ti? Quem sabia que estavas aqui? Eu não ouvi vozes nem passos. Contudo, depois da primeira noite, eu sempre velei…
– Eu saí às primeiras claridades do dia. Havia feixes de lenha diante da entrada e por cima deles havia pão, queijos e mel. Não vi ninguém. Mas somente alguns podem ter tido o desejo de repetir uma peregrinação e um gesto de amor –diz lentamente Jesus.
– É verdade. Os pastores! Eles o haviam dito: “Iremos à terra de Davi. São dias de lembranças…” Mas por que não ficaram aqui?
– Porque eles adoraram e…
– E se compadeceram. Adoraram a Ti e se compadeceram de mim. São melhores do que nós aqueles homens.
– Sim. Eles conservaram boa, cada vez melhor a própria vontade. Para eles não foi prejuízo o dom que Deus lhes deu…
Jesus não está mais sorrindo. Ele fica pensando e se entristece.
Depois Ele estremece. Olha para João, que está olhando para Ele, e diz:
– E então? Vamos caminhar? Já não estás mais enfraquecido?
– Não, Mestre. Não estou com muita resistência, acho eu, porque estou com os membros doloridos. Mas penso que posso caminhar.
– Então, vamos. Vai pegar tua sacola, enquanto Eu vou recolher alguns objetos na minha, e iremos. Tomaremos o caminho que vai para o Jordão a fim de evitar Jerusalém.
E quando João volta, eles se põem a caminho, fazendo de novo o mesmo trajeto feito na vinda, e afastando-se pelo campo, que vai-se aquecendo ao brando sol de dezembro.
1 como naquele dia, em 464.14/15.
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