438. 438. Maria Santíssima com Maria de Alfeu em Tiberíadescom Valéria. Encontro com Judas Iscariotes.
16 de maio de 1946.
438.1 Tiberíades já está à vista, quando as duas peregrinas, já cansadas, vão andando à hora em que o crepúsculo vem chegando.
– Daqui a pouco já estará escuro… E estamos ainda no meio da campina… E somos duas mulheres sozinhas… E perto de uma cidade grande cheia de… Oh! Mas que gente! Belzebu está quase em toda parte… –diz Maria de Alfeu, olhando espantada ao redor de si.
– Não tenhas medo, Maria. Belzebu não nos fará mal. Ele só faz mal a quem o acolhe no coração…
– Mas estes pagãos estão com ele…
– Em Tiberíades não há somente pagãos. E até no meio dos pagãos também há justos.
– Será mesmo? Eles não têm o nosso Deus!…
Maria não responde, porque percebe que é inútil. A boa cunhada não passa de uma de outras tantas, que se creem as únicas depositárias da virtude… por serem israelitas.
Há um silêncio no qual o único rumor que se ouve é o do arrastar das sandálias que revestem os pobres pés cansados e poeirentos.
– Teria sido melhor termos vindo pela estrada de costume… Porque aquela nós a conhecíamos… É mais transitada pelas pessoas… Esta… que vai indo pelo meio das hortas, tão erma… desconhecida… Eu estou com medo, é isso!
– Mas não é assim, Maria. A cidade já está ali, a dois passos. E aqui já estão as hortas dos cultivadores de Tiberíades e o riacho também está a dois passos. Queres que vamos pela margem? Encontraremos os pescadores… É só atravessarmos estas hortas.
– Não, não! Iremos afastar-nos de novo da cidade! E depois… Os barqueiros são quase todos gregos, cretenses, árabes, egípcios, romanos…
E parece que ela está dizendo os nomes de várias classes infernais. A Virgem Maria nada mais pode fazer do que ficar sorrindo, à sombra do seu véu.
Continuam caminhando. A estrada se transforma em uma avenida. Por isso há mais sombra do que nunca… e mais medo do que nunca em Maria de Alfeu, que vai invocando o Senhor a cada passo que ela vai dando, cada vez mais lentamente.
– Vamos! Sê forte. Toma cuidado, se tens medo –instiga-a Maria que, a toda invocação, responde: “Maranata.”
438.2 Mas Maria de Alfeu resolve parar de andar e pergunta:
– Mas, por que quiseste vir aqui? Talvez para falar com Iscariotes?
– Não, Maria. Ou melhor, não precisamente para isso. Eu vim para falar com a romana Valéria…
– Misericórdia! Iremos à casa dela? Ah! Isso não. Maria, não faças isso. Eu… não te acompanharei mais! Mas o que vais fazer aqui? Nas casas daquelas… daquelas e daqueles anátemas!
A Virgem Maria muda o seu doce sorriso em uma expressão de seriedade e pergunta:
– Não te lembras mais que precisamos salvar Áurea? Meu Filho iniciou a sua libertação. Eu a completarei. É assim que tu praticas o amor para com as almas?
– Mas ela não é de Israel…
– Na verdade, tu ainda não compreendeste nem uma palavra da Boa Nova! És uma discípula muito imperfeita… Não trabalhas para o teu Mestre e me causas muita dor.
Maria de Alfeu inclina a cabeça… O seu coração está cheio das prevenções de Israel. Mas, tendo uma bondade congênita, ela muda de posição e, com um frouxo de choro, abraça Maria, e diz:
– Perdoa-me! Perdoa-me! Não me digas que te causo dor, e que não sirvo ao meu Jesus! Sim! Sim! Eu sou muito imperfeita, mereço censura… Mas não o farei mais… Eu vou! Eu vou! Até o Inferno, se tu fores lá para arrancar uma alma e dá-la a Jesus… Dá-me um beijo, Maria, para dizeres que me perdoas…
Maria a beija, e retomam o caminho, ligeiras, reanimadas pelo amor.
438.3 Ei-las chegadas a Tiberíades, ao pequeno porto dos pescadores. Procuram a casa de José, o barqueiro discípulo… E a encontram. Batem à porta…
– A Mãe do meu Mestre! Entra, ó mulher! E Deus esteja contigo e comigo que te hospedo. Entra, tu também, e a paz esteja contigo, mãe de apóstolos.
Elas entram, enquanto a mulher e a filha jovenzinha do barqueiro se apressam em ir saudá-la, acompanhados por uma pequena ninhada de filhos pequeninos.
Tomam logo a pequena refeição, e Maria de Alfeu, cansada, se retira junto com as crianças da casa. Ficam no terraço alto do qual se vê o lago — e mais do que ver, se ouve a presença do lago, porque a lua ainda não apareceu — e o mar está marulhando contra a praia, enquanto a Virgem Maria, o barqueiro e sua mulher, que está fazendo esforço a fim de fazer-lhes boa companhia, mas que na realidade está cabeceando de sono, e deixando a cabeça cair sobre o peito.
– Ela está cansada! –desculpa-a José.
– Coitadinha! 438.4As mulheres caseiras estão sempre cansadas, quando chega a tarde.
– Sim. Elas trabalham muito. Não são como aquelas ali que se entregam ao passatempo! –diz com desprezo o barqueiro, mostrando umas barcas iluminadas que se vão afastando da margem, por entre cantos e música–. Vão saindo elas agora. Agora começam para elas as atividades, quando as pessoas de bem precisam dormir. E dão prejuízo aos que trabalham, porque vão fingir que estão pescando e logo nos melhores lugares, fazendo que nos afastemos, logo nós que buscamos o sustento para a família…
– Quem são elas?
– São romanas e outras semelhantes. E entre essas semelhantes, estão Herodíades, sua luxuriosa filha, e até algumas hebreias… Porque, como Maria de Magdála, temos muitas… Quero dizer, Maria antes do arrependimento.
– São umas infelizes…
– Infelizes? Infelizes somos nós que ainda não as apedrejamos para limpar Israel daquelas que se corromperam e nos trazem as maldições de Deus.
Enquanto isso, outras barcas vão-se afastando e o lago vai-se avermelhando com as luzes das barcas dos gozadores.
– Estás sentindo o cheiro da resina? Eles se embriagam com a fumaça em primeiro lugar. Depois acabam de embriagar-se nos banquetes. São capazes de ir até às Termas da outra margem… Aquelas Termas. Lá acontecem coisas infernais! Eles voltarão pela manhã, ao romper do dia, ou talvez mais tarde… bêbados, deitados uns sobre os outros, como se fossem uns sacos, homens junto com mulheres, e os escravos os levarão para dentro das casas para curtirem suas orgias… Nesta tarde, estão saindo justamente as barcas mais bonitas! Olha! Olha! Mas eu fico com mais raiva é dos judeus que se misturam com eles. Eles… já se sabe, são uns animais desgovernados. Mas nós!… 438.5Mulher, sabes que está aqui o apóstolo Judas?
– Eu sei.
– Ele não dá bom exemplo, sabes?
– Por quê? Ele vai com aqueles?…
– Não… mas… maus companheiros… e uma mulher. Eu não ouvi… Nenhum de nós o vê assim. Mas uns fariseus escarneceram de nós, dizendo-nos: “O vosso apóstolo mudou de mestre. Agora ele tem uma mulher e está na boa companhia dos publicanos.”
– Não fiques julgando, José, sobre uma coisa de que apenas ouviste falar. Tu sabes que os fariseus não nos amam nem dão louvores ao Mestre.
– Isto é verdade… Mas o boato corre… E nos faz mal…
– Como nasceu, morrerá. Mas tu, não peques contra o teu irmão. Em que casa ele está? Tu sabes?
– Sim. Perto de um amigo, eu acho. De um que tem uma loja de vinhos e especiarias, ao lado oriental da feira, depois da fonte…
438.6 – Todas as romanas são iguais?
– Oh! Mais ou menos. Mesmo quando não se deixam ver, fazem o mal.
– Quais são as que não se deixam ver?
– Aquelas que foram à casa de Lázaro pela Páscoa. Ficam sempre mais retiradas… Quero dizer, nem sempre vão aos banquetes. Mas sempre vão o suficiente para que se possa dizer que são umas imundas.
– Mas tu dizes isto porque tens certeza ou é porque a tua prevenção como hebreu é que te faz falar? Examina-te bem…
– Eis… na verdade, eu não sei… Não as tenho visto mais nas barcas dos sujos… Mas de barca elas vão de noite pelo lago.
– E tu também vais.
– Certamente! Pois eu quero pescar.
– O calor está forte e só refresca de noite, por sobre o lago. Assim é que tu dizias, enquanto estávamos ceando.
– É verdade.
– E, então, por que não pensar que é por isso que vão por sobre o lago?
O homem se cala… E depois diz:
– Já está tarde. As estrelas dizem que já é a segunda vigília. Eu vou retirar-me, mulher. Não queres ir?
– Não. Eu fico aqui para rezar. Daqui a pouco, sairei. Não fiques espantado se não me vires aqui pela manhã.
– És dona de ti mesma para fazeres o que quiseres. Ana! Vamos para a cama! –e sacode a mulher que está num sono pesado. E lá se vão os dois.
438.7Maria fica sozinha. Ajoelha-se, e reza, reza… mas não perde nunca de vista as barcas que lá se vão, velejando. As barcas dos senhores, as que navegam todas iluminadas, por entre flores, cantos e incensos… Muitas lá se vão, indo no rumo do oriente e, pela distância tornam-se pequenas, e o barulho dos cantos não chega mais até aqui. Só ficou uma barca com luzes acesas, ao largo, dentro do espelho iluminado pela lua, que vai descendo diante de Tiberíades. Vai velejando devagar, para baixo e para cima. Maria a observa até vê-la virar a proa para a margem.
Então Maria põe-se de pé, dizendo:
– Ajuda-me, Senhor! Faze que seja…
E depois desce, apressada pela pequena escada, entra silenciosa pela porta entreaberta de um quarto… A branca claridade do luar, pode-se ver uma pequena cama. Maria se inclina sobre ela e chama:
– Maria! Maria! Acorda! Vamos.
Maria de Alfeu desperta e, com os olhos cheios de sono, esfrega-os, perguntando:
– Já é hora de viajar? Como o dia chegou tão depressa!
E ela está com tanto sono que nem entende que aquela claridade não é do dia, mas de uma fraca fosforescência da lua, que vem entrando pela porta aberta. Só quando ela sai é que se dá conta disso, ao ver a pequena faixa de terreno cultivado, que fica à frente da casa do barqueiro.
– Ainda é noite! –ela exclama.
– Sim. Mas nós agiremos antes, e sairemos antes desta cidade… pelo menos assim eu espero. Vem! Por aqui, ao longo da margem. Anda depressa! Antes que a barca toque em terra…
– A barca? Qual barca? –pergunta Maria, mas sai correndo atrás da Virgem Maria, que anda bem depressa, indo pela margem, que a esta hora está deserta, rumo ao pequeno cais para onde a barca se dirige.
Chegam, ofegantes, alguns instantes antes da barca. Maria procura olhar com atenção. E exclama:
– Louvado seja Deus! São elas. Agora, tu, vem atrás de mim… porque será preciso irmos para onde elas vão… Eu não sei onde moram…
– Mas, Maria… por piedade! Vão pensar que somos umas meretrizes!
A Virgem Puríssima sacode a cabeça e murmura:
– Basta que não o sejamos. Vem –e a puxa para a sombra de uma casa.
438.8A barca vem se encostando e, enquanto faz a manobra para atracar, e vem para perto delas uma liteira, que estava esperando por ali, e que é agora levada para a frente. Então sobem para ela duas mulheres, enquanto outras duas ficam no chão aos lados da liteira, e esta se põe em movimento ao passo cadenciado de quatro númidas, cada um vestido com uma túnica muito curta, sem mangas e que mal lhes cobre o busto.
E Maria vai atrás, apesar dos protestos em voz baixa feitos por Maria de Alfeu:
– Duas mulheres sozinhas… atrás daqueles ali. Eles estão meio nus… De maneira nenhuma!
Depois de andar poucos metros de caminho, a liteira para. Uma mulher desce, enquanto uma precursora bate em um portão.
– Salve, Lídia!
– Salve, Valéria. Acaricia Faustina por mim. Amanhã de tarde, iremos ler ainda, enquanto descansamos e enquanto os outros estarão se divertindo.
O portão se abre e Valéria, com sua escrava ou liberta, está para entrar.
438.9 Maria dá um passo à frente e diz:
– Senhora! Uma palavra!
Valéria olha para as duas mulheres, envoltas em mantos hebreus muito simples, e muito caídos sobre o rosto, acha que são umas mendigas e dá esta ordem:
– Bárbara, dá-lhes uma esmola!
– Não, Senhora! Não estou pedindo dinheiro. Eu sou a Mãe de Jesus de Nazaré e esta é minha parenta. E venho em Nome dele fazer-te um pedido…
– Senhora! Teu Filho talvez esteja sendo perseguido.
– Não mais do que de costume. Mas Ele quereria…
– Entra, Senhora. Não é bom que fiques na rua como uma mendiga…
– Não. E o direi logo, se me ouves em segredo…
– Fora, todos vós! –ordena Valéria à sua escrava ou liberta e aos porteiros–. Estamos sozinhas. Que é que deseja o Mestre? Eu não fui até lá para não fazer-lhe mal em sua cidade. Talvez Ele não tenha vindo para não me incomodar por estar eu perto do meu esposo?
– Não. Por um conselho meu. Meu Filho é odiado, senhora.
– Eu o sei.
– E só encontra conforto em sua missão.
– Eu o sei.
– Não procura honras nem milícias. Não aspira a reinos nem a riquezas. Mas faz valer os seus direitos sobre os espíritos.
– Eu o sei.
– Senhora… Ele devia entregar-te aquela menina. Mas não fiques aborrecida se eu o digo que aqui ela não poderia entregar a Jesus a sua alma. Tu és melhor do que as outras… Mas, ao redor de ti… é muita a lama do mundo.
– É verdade. E então?
– Tu és mãe… Meu Filho tem sentimentos de pai para com todas as almas. Gostarias tu que uma filha tua crescesse em um meio que a pode arruinar?
– Não. Eu já compreendi… Pois bem. Dize ao teu Filho estas palavras: “Como lembrança da Faustina, que foi salva no corpo, Valéria te deixa Áurea para que lhe salves a alma. É verdade!” Nós somos corrompidos demais para podermos dar garantias a um santo… Senhora, reza por mim!
E se retira rapidamente antes que Maria possa agradecer-lhe. E se retira, parece-me que chorando.
Maria de Alfeu fica de boca aberta.
– Vamos, Maria… Alta noite partiremos e amanhã de tarde estaremos em Nazaré…
– Vamos… Ela a cedeu como… Como se fosse uma coisa…
– Para eles é uma coisa. Para nós é uma alma.Vem. Olha… o céu já vem clareando lá ao longe. Pode-se dizer que não há noite neste mês…
438.10 Vão indo pela estrada e não mais pela penumbra que se lhes abre na frente, mas preferem ir pela margem. É uma rua atrás de uma fila de casinhas modestas. Quando já estão na metade da rua, veem saindo da cova Judas, evidentemente bêbado. É um Judas que está de volta, quem sabe, de algum festim, todo despenteado, com as vestes amarrotadas e o rosto desfigurado.
– Judas! És tu? Nesse estado?
Judas não consegue fingir que não a conhece e não pode fugir… A surpresa lhe desanuviou a mente e o faz ficar pregado onde ele está, sem poder reagir.
Maria se aproxima dele, vencendo a repugnância que o aspecto do apóstolo lhe faz, e lhe diz:
– Judas, filho desventurado, o que estás fazendo? Não pensas em Deus? Em tua alma? Em tua mãe? Que estás fazendo, Judas? Por que queres ser pecador? Olha para mim, Judas! Não tens direito de matar a tua alma…
E toca nele, procurando pegar-lhe uma das mãos.
– Deixa-me ficar. Afinal, eu sou um homem. E… sou livre para fazer o que todos fazem. Vai dizer a Ele, que te mandou vir espiar-me, que eu não sou ainda todo espiritual, e sou jovem!
– Tu não és livre para te arruinares, Judas! Tem piedade de ti mesmo. Assim fazendo, nunca serás um espírito feliz… Judas… Ele não me mandou vir espiar-te. Ele reza por ti. Só faz isso, e eu com Ele. Em nome de tua mãe…
– Deixa-me ficar aqui –diz, indelicadamente, Judas.
E depois, talvez percebendo sua vilania, ele corrige o que diz:
– Eu não mereço a tua compaixão… Adeus… –e se afasta dali.
– Que demônio! Eu o contarei a Jesus –excalama Maria de Alfeu–. Tem razão o meu filho Judas!
– Tu não dirás nada a ninguém. Rezarás por ele. Isto sim…
– Choras? Estás chorando por ele? Oh!
– Eu choro… Estava feliz por ter salvado Áurea. Agora choro porque Judas é pecador. Mas a Jesus que já anda tão aflito, levaremos somente a notícia boa. E, com penitências e orações, tomaremos de Satanás o pecador… Como se fosse um filho, Maria! Como se fosse um filho! Tu és mãe também e sabes disso. Por aquela mãe infeliz, por esta alma pecadora, pelo nosso Jesus…
– Sim, eu rezarei. Mas não acho que ele o mereça…
– Maria! Não digas isto...
– Eu não o digo. Mas… assim é. Não vamos à casa de Joana?
– Não. Brevemente lá iremos com Jesus…