179. 179. A parábola do semeador.Em Corozaim com o novo discípulo Elias.
4 de junho de 1945.
179.1 Diz-me Jesus, mostrando-me a correnteza do Jordão, ou melhor, a entrada do Jordão no lago de Tiberíades, no ponto em que se estende a cidade de Betsaida sobre à beira direita do rio para quem olha para o norte:
– Agora a cidade não parece mais estar a beira do lago, mas um pouco adentro, no interior. Isso desorienta os estudiosos. A explicação deve procurar-se no assoreamento do lago por este lado, devido ao humus e aos desmoronamentos depositados pelo rio durante vinte séculos e os aluviões que desceram das colinas de Betsaida. Antes, a cidade era justamente na desembocadura do rio no lago, e até as barcas mais pequenas, nas estações das águas abundantes, iam rio acima por um bom trecho, quase até a altura de Corozaim, e o rio propriamente dito servia de porto e de abrigo em ambas as margens para as barcas de Betsaida, nos dias em que havia alguma tempestade no lago. Isto não é para ti, a quem pouco importa, mas para os doutores difíceis. Agora, adiante!
179.2 As barcas dos Apóstolos, tendo transposto o breve trajeto do lago, que separa Cafarnaum de Betsaida, atracaram na cidade. Mas outras barcas as acompanharam e muitas pessoas desembarcam para se reunirem àqueles de Betsaida, que vieram saudar o Mestre, que está agora entrando na casa de Pedro, onde está de novo a mulher, que eu suponho que tenha preferido a solidão a ficar ouvindo as continuas queixas da mãe contra seu marido.
O povo, do lado de fora, reclama em altas vozes a presença do Mestre e isto faz que Pedro fique bastante inquieto, subindo ao terraço para acalmar os cidadãos, dizendo-lhes também que é preciso ter respeito e educação. Pois ele, gostaria de estar como o seu Mestre com alegria e paz agora que está na sua casa e pelo contrário, não acha tempo nem para oferecer-lhe um copo d’água com mel e as muitas outras coisas que Pedro mandou a mulher trazer… e fica resmungando.
Jesus, sorrindo, olha para ele, sacode a cabeça, dizendo:
– Parece que tu não me vês nunca, e que é uma coisa extraordinária estarmos juntos!
– Mas, é isso mesmo! Quando nós vamos por esse mundo afora, acaso estamos a sós? Nem por sonho! Entre mim e Ti há todo um mundo com os teus doentes, com os teus aflitos, os teus ouvintes, os teus curiosos, os teus caluniadores, teus inimigos, e nós dois estamos sós. Mas aqui Tu estás comigo, na minha casa e eles deveriam compreender isso.
Está realmente inquieto.
– Mas Eu não vejo diferença, Simão. O meu amor é o mesmo, a minha palavra é a mesma. Que Eu a diga em particular ou que a diga para todos, não é a mesma coisa?
179.3 Pedro confessa, então, o seu grande desgosto:
– É que eu sou um grande ignorante, um grande distraído. Quando Tu falas em uma praça, em uma montanha, no meio daquele povão todo, eu não sei por que, entendo tudo, mas depois não me lembro de mais nada. Eu disse isso também aos meus companheiros e eles me deram razão. Os outros, quero dizer, as pessoas do povo que Te ouvem, Te entendem e se recordam do que disseste. Quantas vezes temos ouvido alguém dizer: “Eu não fiz mais isto, porque Tu disseste que não era para fazer” ou então: “Eu vim, porque uma vez Te ouvi dizer tal coisa, e aquilo me despertou a consciência.” Mas nós… Não sei não! É como a água corrente, que passa, e não para. As margens não a detêm mais, porque a água passou. Vem outra água, sim, sempre outra, e sempre tanta. Mas passa, passa, passa… E eu fico pensando, com terror, que, se for como Tu dizes, isto é, chegará o momento em que Tu não estarás mais aqui para fazeres como o rio e… e eu… Que poderei dar eu a quem tiver sede, se não guardo nem uma gota do muito que me dás?
Os outros também apoiam as lamentações de Pedro, queixando-se de que não retêm mais nada de tudo o que ouviram, quando eles gostariam tanto de lembraremse de tudo, para poderem responder as muitas perguntas que lhes são feitas.
Jesus apenas sorri e responde:
– Mas não é assim que Me parece. Pois o povo está muito contente também com vocês…
– Oh! Sim! Pelo que nós fazemos! Abrir-te caminho, dar cotoveladas para isso, transportar os doentes, recolher as esmolas, e dizer: “Sim, o Mestre é aquele!” Grande coisa, na verdade!
– Não te faças mais feio do que és, Simão.
– Eu não me faço mais feio. Eu me conheço.
– É esta a mais difícil das sabedorias. Mas Eu quero tirar de ti esse grande medo. Quando Eu tiver falado, e vós não tiverdes podido compreender tudo, e reter tudo, perguntai, sem medo de me aborrecerdes ou importunardes. Temos sempre nossas horas a sós. Nessas horas, abri-me os vossos corações. Eu dou tantas coisas a tanta gente. O que Eu não haveria de dar a vós, que Eu amo de tal modo, que nem Deus poderia amar mais? Tu falaste das ondas que vão e das quais nada mais fica na praia. Chegará o dia no qual perceberás que cada uma daquelas ondas deixou na beira da praia uma semente e que cada semente se tornou uma árvore. Tu terás diante de ti flores e plantas para todos os casos, e ficarás espantado contigo mesmo, e dirás: “Mas, que foi que o Senhor me fez?”, porque, quando chegar esse tempo, já estarás livre da escravidão do pecado, e as tuas virtudes atuais terão se aperfeiçoado até atingirem uma grande altura.
– Tu o estás dizendo, Senhor, e eu fico tranquilo com estas tuas palavras.
179.4 – Agora, vamos a quem nos está esperando. Vinde. A paz esteja contigo, mulher. Vou ser teu hóspede esta tarde.
Saem todos, e Jesus dirigi-se para o lago, a fim de não ser esmagado pela multidão. Pedro está manobrando com cuidado, para afastar a barca até alguns metros da beira, de modo que a voz de Jesus possa ser ouvida por todos e haver um espaço entre Ele e os ouvintes.
– De Cafarnaum até aqui, Eu vim pensando no que vos iria dizer. Encontrei quais eram as palavras adequadas, ao relembrar os fatos desta manhã.
Vós vistes os três homens que vieram a Mim. Um veio espontaneamente, outro, porque foi convidado por Mim, e o terceiro, porque entusiasmou-se de repente. Vistes também que daqueles três Eu fiquei só com dois. Por que será? Teria Eu visto um traidor no terceiro? Em verdade, não. Vi nele alguém ainda despreparado. Pelas aparências, o que parecia mais despreparado era o que agora está aqui ao meu lado, pois tinham a intenção de sepultar o seu pai. Mas o mais despreparado era o terceiro.
Este estava tão preparado que mesmo sem saber, fez um sacrifício bem heróico. O heroísmo em seguir a Deus é sempre uma prova de forte preparação espiritual. Isto é o que explica alguns fatos surpreendentes, que acontecem ao redor de Mim. Os mais preparados para receber Cristo, seja qual for a sua casta ou cultura, costumam vir a Mim com uma prontidão e uma fé absoluta. Os menos preparados ficam observando-me, como se Eu fosse um homem que foge do comum ou então me estudam com desconfiança e curiosidade, ou ainda, me atacam e me denigrem, acusando-me de várias coisas. As diversas atitudes estão na proporção da falta de preparação dos espíritos.
No povo eleito se deveria encontrar, por toda parte, espíritos prontos para receber o Messias, em cuja espera ansiaram em desejos os Patriarcas e os Profetas, o Messias, que finalmente veio, precedido e acompanhado por todos os sinais profetizados, o Messias, cuja figura espiritual se delineia sempre mais clara, por meio de milagres visíveis nos membros e nos elementos e milagres invisíveis, realizados nas consciências dos que se convertem e nos pagãos que se voltam para o Verdadeiro Deus. Mas não é assim. Pois a prontidão em seguir o Messias é fortemente obstaculada, justamente pelos filhos deste povo, e é doloroso dizer-se, que é tanto mais, assim quanto mais se sobe às classes mais altas deste mesmo povo. Eu não digo isto para vos escandalizar. Mas sim, para induzir-vos a rezar e a refletir. Por que acontece isso? Por que os pagãos e os pecadores procuram mais o meu caminho? Por que eles acolhem mais o que Eu digo, e os outros não? É porque os filhos de Israel ficam ancorados, como ostras que produzem pérolas, no lugar em que nasceram. Porque estão saturados, empanturrados, obesos com af sabedoria deles, e não sabem abrir caminho para a minha, jogando fora o supérfluo, para dar lugar ao necessário. Os outros não têm esta escravidão. São pobres pagãos, ou pobres pecadores, ainda soltos como barcos à deriva, são pobres que não possuem tesouros próprios, mas somente fardos de êrros ou pecados, dos quais se despojam com alegria, logo que conseguem compreender o que é a Boa Nova, e sentem nela um mel fortificante muito diferente da insípida mixórdia dos seus pecados.
179.5 Ouvi, e talvez podereis compreender melhor como obter frutos diferentes de uma mesma obra.
Um semeador saiu para semear. Eram muitos campos e de diferentes qualidades. Ele tinha herdado de seu pai alguns onde havia deixado proliferar plantas espinhosas. Outros haviam sido adquiridos por ele, que os comprara do jeito em que estavam, de um dono negligente, deixando tais como eram. Outros ainda, haviam sido entrecortados por estradas, pois o homem era comodista e não queria andar muito para ir de um lugar para outro. Enfim, havia alguns, os mais próximos da casa, dos quais ele tomava cuidado, só para que dessem um aspecto agradável à frente da casa. Estes estavam limpos de pedregulhos, de espinhos, de grama e assim por diante.
O homem, pois, tomou o seu saco de grãos para ir semear grãos da melhor qualidade, e começou a semeadura. A semente caiu no terreno bom, fofo, arado, limpo e adubado, próximo à casa. Caiu também nos campos entrecortados por caminhos e trilhas, além de cortá-los, levava a sujeira da poeira árida na terra fértil. Outras sementes caíram sobre os campos, onde a inépcia do homem tinha deixado que crescessem plantas espinhosas. Agora o arado as havia revirado, e nem parecia que elas estivessem mais ali, mas estavam, porque somente o fogo é que é a radical destruição das ervas más, impedindo-as de nascer. As últimas sementes caíram nos campos comprados recentemente, e que ele tinha deixado como estavam, sem ará-los em profundidade, sem limpá-los de todas as pedras afundadas na terra, fazendo com ela um pavimento duro no qual não conseguiam agarrar-se as tenras raízes.
Depois, tendo semeado todas as sementes, voltou para casa, e disse: “Agora está tudo bem. É só esperar a colheita.”
179.6 E assim se alegrava quando, com o correr dos meses, podia ver, à frente de sua casa, o trigo que ia germinando e crescendo… oh! crescia como um tapete macio e já ia soltando espigas… Parecia um mar, amarelando e batendo espigas contra espigas, cantando hosanas ao sol. O homem dizia: “Como este campo, devem estar todos os outros. Preparemos as foices e os celeiros. Quanto pão! Quanto ouro!”
Estava feliz.
Cortou o trigo dos campos mais próximos, depois passou aos que herdou do pai, mas ele os tinha deixado virar mato. O homem ficou muito aborrecido. todos os grãos haviam nascido, porque os campos eram bons e a terra adubada pelo pai estava gorda e fértil. Mas sua fertilidade tinha sido boa também para as plantas espinhosas, que ficaram cobertas pela terra, reviradas com ela, mas não esterilizadas. Elas tinham renascido e formado um verdadeiro forro de ramagens cheias de espinhos, através das quais o trigo não tinha podido passar para cima, a não ser uma espiga aqui, outra acolá, e morreu quase todo sufocado.
O homem disse: “Eu fui negligente com este campo. Mas nos outros não havia espinheiros, e deverão estar melhores.” Passou então aos campos recentemente adquiridos. Lá seu espanto cresceu, até transformar-se em tristeza. Finas e já ressecadas, as folhas do trigo estavam espalhadas por toda parte, como feno seco. Feno seco! “Mas, como? Como foi isso?” Gemia o homem. “No entanto, aqui não há espinhos! Além disso, a semente do trigo era a mesma. Aqui também ela tinha nascido, e o trigal estava tão viçoso, que dava alegria ver! Pode-se ver ainda como suas folhas estavam bem formadas e em grande número. Por que será que aqui o trigo todo morreu sem produzir espigas?” E, com grande tristeza, pôs-se a cavar o solo, para ver se encontrava ninhos de toupeiras, ou outras pragas. Insetos e roedores, não havia nada. Mas, que quantidade de pedras! Um verdadeiro pedregal! Os campos estavam literalmente calcetados com escamas de pedras, e a pouca terra que as cobria era um engano. Oh! Se tivesse afundado mais o arado, enquanto era tempo! Oh! Se ele tivesse feito escavações, antes de aceitar aqueles campos e de comprá-los como se fossem bons! Oh! Pelo menos, depois daquele erro de adquirir o que era oferecido, sem ter-se informado da boa qualidade deles, se ele os tivesse melhorado, à custa do cansaço de seus rins! Mas agora já era tarde quaisquer queixumes eram inúteis.
O homem pôs-se de pé, arrasado, e dali foi para os campos entrecortados por pequenos caminhos, feitos para sua comodidade… E rasgou suas vestes de tristeza. Aqui não havia nada. Absolutamente nada… A terra escura do campo estava coberta por uma ligeira camada de pó branco… O homem se agachou no chão, e gemia dizendo: “Mas, por quê? Aqui não há espinhos, nem pedras, pois estes campos, antes já eram nossos. Meu avô, meu pai, eu, sempre os possuímos e, por anos e anos, os fertilizamos. Neles eu abri estradas, terei tirado alguma terra do campo, mas isso não é o que o terá feito ficar estéril assim…” Ainda estava ele chorando, quando recebeu, para sua tristeza, a resposta, dada por um cerrado bando de passarinhos esfomeados, vindos dos campospara os caminhos a procura de sementes de trigo, e outras… O campo havia-se transformado numa rede de pequenos caminhos, em cujas beiras o trigo semeado tinha caído, atraindo muitos passarinhos, que, primeiro comeram os grãos na estrada e depois os plantados no campo, até o ultimo grão.
Desse modo, a semente, igual para todos os campos, havia produzido cem por um, em outro sessenta, em outro trinta e em outro nada. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
A semente é a Palavra: é igual para todos. O lugar onde cai a semente são os vossos corações. Cada um aplique a si a parábola e compreenda. A paz esteja convosco.
179.7 Depois, virando-se para Pedro, diz:
– Vamos subir o rio até onde puderes, e depois atraca do outro lado.
E, depois que as duas barcas navegam por um pequeno trecho do rio, param junto à margem. Jesus se senta, perguntando ao novo discípulo:
– Quem ainda ficou em tua casa?
– Minha mãe com meu irmão mais velho, que se casou há cinco anos. Minhas irmãs estão espalhadas pela região. Meu pai era muito bom. Minha mãe lamenta desoladamente.
O jovem para bruscamente, porque sente que um soluço lhe está vindo do coração.
Jesus o segura pela mão e lhe diz:
– Eu sei o que é esta dor, eu vi também minha mãe chorar. Por isso, Eu te compreendo…
O arrastar-se da barca sobre a areia faz que aquele discurso seja interrompido, possibilitando a descida a terra. Aqui não se vêem mais as colinas baixas de Betsaida, que quase mergulham o focinho no lago, mas vê-se uma planície cheia de messes que se estende desta margem oposta à Betsaida, para a direção norte.
– Estamos indo a Meron? –pergunta Pedro.
– Não. Vamos tomar o caminho dos campos.
Os campos, muito bonitos e bem conservados, mostram espigas ainda verdes, mas já bem formadas. Todas estão à mesma altura e com o leve ondular que lhes imprime o vento fresco, que vem do norte, parecem formar um outro pequeno lago, ao qual servem de velas as árvores, que se erguem aqui e ali, cheias de passarinhos que chilreiam.
– Estes campos não são como os da parábola –observa o primo Tiago.
– É verdade. Não são. Os passarinhos não os devastaram, neles não há espinheiros nem pedras. Que belo trigal! Dentro de um mês estará maduro… e dentro de dois, estará pronto para a foice e o celeiro –diz Judas Iscariotes.
– Mestre, eu quero que Te lembres do que disseste em minha casa. Tu falaste tão bem! Mas eu estou começando a ter em minha cabeça umas nuvens confusas como as lá de cima… –diz Pedro.
– Esta tarde te explicarei. 179.8Agora, já estamos vendo Corozaim.
Jesus olha fixamente para o novo discípulo, dizendo:
– A quem dá será dado. O fato de receber não tira o mérito do doador. Leva-me ao vosso sepulcro e à casa de tua mãe.
O jovem se ajoelha, beijando, entre lágrimas, as mãos de Jesus.
– Levanta-te. Vamos. O meu espírito ouviu o teu pranto. Quero fortificar-te no heroísmo com o meu amor.
– Isaac, o Adulto, me havia falado quanto Tu eras bom. Isaac, sabes? Aquele cuja filha Tu curaste. Ele foi o meu apóstolo. Mas estou vendo que a tua bondade é ainda maior do que tudo o que me disseram.
– Nós vamos também saudar o Adulto para agradecer-lhe por me haver dado um discípulo.
Chegaram a Corozaim, e é justamente a casa de Isaac a primeira que se encontra. O velho, que está voltando para casa, ao ver o grupo de Jesus com os seus, e entre eles o jovem de Corozaim, levanta os braços, com seu bastãozinho na mão, ficando de boca aberta, como se tivesse perdido o fôlego. Jesus sorri, e o seu sorriso faz voltar a voz ao velho.
– Deus Te bendiga, Mestre! Como é que fui ter esta honra?
– Para te dizer “obrigado.”
– Mas, obrigado por quê, meu Deus? Eu é que devo dizer-te esta palavra. Entra, entra. Oh! Que pena que minha filha esteja longe, ajudando a sogra. Ela se casou, sabes? Eu recebi todas as bênçãos depois de ter-te encontrado! Uma vez que ela ficou curada, logo depois voltou de longe aquele rico parente, viúvo, com a criança que precisavam de uma mãe… Oh! mas eu já te contei estas coisas! Minha cabeça está ficando velha. Perdoa-me.
– Tua cabeça é sábia, e se esquece até de gloriar-se pelo bem que faz ao Mestre. Esquecer-se do bem feito é sabedoria. Mostra humildade e confiança em Deus.
– Mas eu… não saberia…
– Este discípulo, não é por ti que eu o tenho?
– Oh!… Mas eu não fiz nada, sabe? Só disse a verdade… e estou contente que Elias esteja contigo.
Depois ele se vira para Elias, e diz:
– Tua mãe, depois de um primeiro momento de assombro, teve o seu pranto enxugado, ao saber que eras do Mestre. Mas teu pai não deixou de ter dignas condolências. Faz pouco tempo que foi enterrado.
– E o meu irmão?
– Ele cala-se… Tu sabes… para ele foi duro ver que estavas ausente… pelo povoado… Ele ainda pensa assim.
O jovem se volta para Jesus:
– Tu o disseste. Mas eu não queria que ele estivesse morto… Faze que ele se torne vivo como eu e a teu serviço.
Os outros não compreendem, e olham como querendo fazer uma pergunta, mas Jesus responde:
– Não percas a esperança, e persevera.
Depois, abençoa Isaac, indo embora, apesar das pressões para não fazê-lo.
179.9 Param primeiro junto ao sepulcro fechado, e rezam. Depois, através de um vinhedo ainda com a metade para ser vindimada, vão até a casa de Elias.
O encontro entre os irmãos é um tanto cheio de reservas. O mais velho se sente ofendido, e quer fazer que se saiba isso. O menor se sente humanamente culpado, e não reage. Mas a chegada da mãe que, sem dizer uma palavra, se prostra e beija a orla da veste de Jesus, serena de novo o ambiente e os ânimos. A ponto de quererem prestar uma homenagem ao Mestre. Mas Ele não aceita nada, e diz somente:
– Que vossos corações sejam justos, um para com o outro, como justo é aquele pelo qual chorais. Não ponhais uma marca humana no que é sobre-humano: a morte e a escolha para uma missão. A alma do justo não se agitou, ao ver que o filho não estava presente à sepultura do seu cadáver. Mas ela até ficou tranquila por causa da segurança do futuro de seu Elias. O pensamento do mundo não venha perturbar a graça da escolha. Se o mundo pôde ficar admirado, por não vê-lo junto ao funeral do pai, os anjos exultaram por vê-lo ao lado do Messias. Sede justos. E tu, mãe, que sejas consolada com isso. Educaste com sabedoria, e teu filho foi chamado pela Sabedoria. Eu vos abençôo a todos. A paz esteja convosco agora e sempre.
Voltam ao caminho, e o retornam atéao rio, e daí até Betsaida. O homem, Elias, não se demorou nem um instante na soleira da casa paterna. Depois do beijo de adeus dado à mãe, acompanhou o Mestre com a simplicidade com que um menino acompanha o seu verdadeiro pai.