334. 334. Tomé e Judas Iscariotestambém se reúnem ao grupo apostólico.


19 de novembro de 1945.

334.1 O vale do Kison, ainda que o sol esteja brilhando num céu sem nuvens, tem um ar áspero, parecendo estar sendo penteado por um vento gelado que varre as colinas setentrionais e arruína as tenras culturas, que estão todas arrepiadas e se enroscam, de tão queimadas que estão e destinadas a morrer no seu novo verde.

– E durará ainda muito tempo este frio? –pergunta Mateus, enrolando-se ainda mais em sua capa, sob a qual aparece apenas um pouquinho do seu rosto, isto é, os olhos e o nariz.

Com a voz sufocada pela capa, que também está segurando até sobre a boca, responde-lhe Bartolomeu:

– Talvez pelo resto da lua.

– Estamos bem arranjados, agora! Mas, paciência! Ainda bem que em Nazaré ficaremos em casas hospitaleiras… E, enquanto isso, tudo passará.

– Sim, Mateus. Mas para mim já passou ao ver Jesus menos abatido. Não te parece que Ele está mais alegre? –pergunta André.

– Está, sim. Mas eu… escuta, parece-me impossível que Ele tenha ficado tão emagrecido, só por aquilo que nós sabemos. Será mesmo que não houve nada de novo, e que vós saibais? –pergunta Filipe.

– Nada. Nada mesmo. Eu te digo que nos confins sírio-fenícios Ele teve até muita alegria por aqueles espíritos cheios de fé, e fez até os milagres de que já te falamos –afirma Tiago de Alfeu.

– Ele tem estado muito com Simão de Jonas nestes últimos dias. E Simão mudou muito. Ora, mas vós também mudastes. Não sei, não… Vós estais mais austeros, esta é a verdade –diz Filipe.

– Mas te faz esta impressão!… Na realidade me parece que continuamos a ser o que éramos antes. Certamente que ver o Mestre assim entristecido por causa de tantas coisas, isso não nos causou prazer e também ao percebermos como se encheram de ódio contra Ele… Mas nós o defenderemos… Oh! Não lhe farão nada se nós estivermos com Ele. 334.2Ontem de tarde eu lhe disse, depois de ter ouvido o que estava dizendo Hermes, que é um homem sério e digno de fé: “Tu não deves ficar mais sozinho. Tu já tens os discípulos que, como estás vendo, trabalham, e trabalham bem, e que estão sempre aumentando. Por isso, nós estaremos contigo. Não te digo que Tu tenhas que fazer tudo. Já é tempo de socorrer-te, meu irmão. Mas Tu ficarás conosco, como fez Moisés, sobre o monte, e nós nos bateremos por Ti, prontos para o que vier e para defender-te, até com meios materiais. O que aconteceu com João Batista não te deverá te acontecer.” Porque, afinal, se os discípulos do Batista não se tivessem reduzido a dois ou três tímidos, ele não teria sido preso. Nós somos doze como fundo de resistência, e eu quero persuadir a se unirem a nós e a se conservarem perto de nós pelo menos alguns dos discípulos mais fiéis e mais enérgicos. Os que estavam com João em Maqueronte, por exemplo. Gente de fé e de coragem. João, Matias e também José. Sabeis que aquele jovem promete muito? –diz Tadeu.

– Sim. Isaque é um anjo, mas toda a sua força está no espírito. José, porém, é forte também no corpo. E eles têm a mesma idade que nós.

– E é rápido para aprender. Tu ouviste o que disse Hermes? “Se este homem tivesse estudado, seria um rabi, além de ser um justo.” E Hermes sabe o que diz.

– Mas eu… teria perto também Estevão e Hermes e o sacerdote João. Pelo conhecimento que eles têm da Lei e do Templo. Sabeis o que será a presença deles diante dos escribas e fariseus? Um controle, um freio… E as pessoas que estão em dúvida terão que dizer: “Vede como não faltam os melhores de Israel ao redor do Rabi, como seus alunos e servos” –diz Tiago de Alfeu.

– Tens razão. Vamos dizer isso ao Mestre. Ouvistes o que Ele disse ontem: “Vós deveis obedecer, mas tendes também a obrigação de abrir o vosso coração a Mim e dizer o que vos parece justo. Para que vos habitueis a saber dirigir o futuro… E Eu, se vir que estais dizendo o que é justo, aceitarei os vossos pensamentos” –diz o Zelotes.

– Talvez Ele o faça também para mostrar-nos que nos ama, visto que estamos todos mais ou menos convictos de sermos nós a causa dos seus sofrimentos –observa Bartolomeu.

– Ou então Ele está realmente cansado por ter que pensar em tudo, e por estar sozinho a tomar decisões, a assumir responsabilidades. Talvez também Ele reconheça que sua santidade perfeita é… eu diria, quase uma imperfeição, ao considerar quem Ele tem pela frente: um mundo que não é santo. Nós não somos santos, perfeitos. Somos apenas um pouco menos desonestos que os outros… e, por isso, mais capazes de responder aos que são quase como nós –diz Simão Zelotes.

– E de conhecê-los, deves dizer! –acrescenta Mateus.

– Oh! Como tais, eu estou certo de que Ele também os conhece. E até os conhece melhor do que nós, porque Ele lê nos corações. Estou tão convicto disso, como de estar vivo –diz Tiago de Zebedeu.

– E então? Por que às vezes Ele faz como faz, indo ao encontro de aborrecimentos e perigos? –pergunta André, desolado.

– Aí está! Nem sei o que responder –diz Tadeu, encolhendo os ombros.

E, com ele, fazem a mesma confissão os outros.

334.3 João está calado. E o seu irmão o provoca:

– Tu, que sabes sempre tudo de Jesus, — às vezes ficais parecendo dois namorados — Ele nunca te disse porque é que faz assim?

– Sim. Faz até pouco tempo que lhe perguntei. E Ele sempre me respondeu: “Porque devo fazer. Eu preciso agir como se o mundo todo fosse composto de criaturas ignorantes mas boas. A todos Eu ofereço a mesma doutrina, e assim se separarão os filhos da Verdade dos filhos da Mentira.” E Ele me disse ainda: “Estás vendo, João? Este é como um primeiro juízo, não o universal, coletivo, mas particular.Tomando por base suas ações de fé, de caridade e de justiça, serão separados os cordeiros dos cabritos. E isso continuará também depois, quando Eu não estiver mais aqui. Mas aqui estará a minha Igreja, pelos séculos dos séculos, até o fim do mundo. O primeiro juízo das pessoas humanas se fará no mundo, no qual os homens agem livremente, tendo diante de si o Bem e o Mal, a Verdade e a Mentira. Assim como o primeiro juízo foi feito no Paraíso Terrestre, diante da árvore do bem e do Mal, que foi violada pelos que desobedeceram a Deus. Depois, quando vier a morte de cada um, será ratificado o juízo, que já foi escrito no livro das ações humanas por uma Mente que não tem nenhum defeito. Por fim, virá o Grande Juízo, o Terrível, e então, novamente serão julgados, em massa, os homens. Desde Adão até o último homem. Julgados por aquilo que eles tiverem querido para eles livremente nesta terra. Porque, se Eu selecionasse por Mim quem merece a Palavra de Deus, o Milagre, o Amor, e quem não merece, e Eu poderia fazer isso por direito divino e por minha divina capacidade, os excluídos, mesmo os que fossem de Satanás, gritariam, fortemente, no dia do juízo particular de cada um: ‘O culpado é o Teu Verbo, que não quis nos ensinar’. Mas isto eles não irão poder dizer… Ou melhor, eles o dirão, mas mentindo, mais uma vez. E por isso, serão julgados.”

– Então, os que não acolhem a doutrina merecem ser condenados? –pergunta Mateus.

– Isto eu não sei, se todos os que não crerem serão mesmo condenados. Se vós estais lembrados, falando a Síntique, Ele deu a entender que aqueles que agem honestamente nesta vida não serão condenados, ainda que creiam em outras religiões. Mas nós lhe podemos perguntar. É certo que Israel, que conhece o Messias e que agora crê parcialmente, e mal, no Messias, ou que o rejeita, será severamente julgado.

334.4 – O Mestre fala muito contigo e tu sabes muitas coisas, que nós não sabemos –observa o seu irmão Tiago.

– A culpa é tua e vossa. Eu lhe faço perguntas com simplicidade. Algumas vezes lhe pergunto certas coisas, que devem fazer que o seu João fique parecendo um grande estulto. Mas não me importa parecer isso. Basta-me saber qual o pensamento dele e tê-lo em mim para fazê-lo meu. Deveríeis fazer assim, vós também. Mas sempre tendes medo. Ora, medo de quê? De ser ignorantes? De ser superficiais? De ser cabeçudos? Deveríeis ter medo somente de estardes ainda despreparados quando Ele for-se embora. Ele sempre diz isso… e eu sempre digo a mim mesmo, a fim de preparar-me para a separação… mas já percebo que ela sempre será uma grande dor…

– Nem me faças pensar nisso! –exclama André.

E os outros lhe fazem eco, suspirando.

– Mas, quando isso acontecerá, Ele diz sempre: “Dentro em breve.” Mas breve pode ser dentro de um mês, ou daqui a uns anos. Ele é muito jovem e o tempo passa rapidamente… Que estás sentindo, irmão? Estás ficando muito pálido… –pergunta Tadeu a Tiago.

– Nada, nada! Eu estava pensando… –diz logo Tiago de Alfeu, que está com a cabeça inclinada.

E Tadeu se inclina para vê-lo bem:

– Mas, tu estás com lágrimas nos olhos! Que tens?…

– Nada mais do que vós tendes… Eu estava pensando em nós, quando estivermos sozinhos.

334.5 – Oh! Mas que tem Simão de Jonas para ir assim correndo na frente, como um mergulhão em dia de tempestade? –pergunta Tiago de Zebedeu, mostrando Pedro, que deixou Jesus sozinho e lá se foi, correndo e gritando palavras que o vento não permite ouvir.

Apressam o passo e vêem que Pedro, tendo entrado por um pequeno caminho, que vem de Séforis, que já está perto (assim dizem os discípulos uns aos outros, perguntando se ele está indo a Séforis por ordem de Jesus, e por aquele atalho). Mas depois, observando bem, vêem que os dois únicos viandantes, que estão vindo da cidade para a estrada mestra, são Tomé e Judas.

– Que é isso? Eles estão aqui? Logo aqui? Oh! Que estão fazendo por aqui? De Nazaré, caso lá estivessem, deveriam ir para Caná, e de lá para Tiberíades… –ficam perguntando muitos.

– Talvez eles estivessem vindo à procura dos discípulos. Esta era a missão deles –diz prudentemente o Zelotes, que percebe como a suspeita está levantando sua cabeça de serpente, despertada nos corações de muitos.

– Apressemos o passo. Jesus está sozinho e parece que nos espera… –aconselha Mateus.

Eles lá se vão e chegam perto de Jesus ao mesmo tempo que Pedro, Judas e Tomé. Jesus está muito pálido, a ponto de João lhe perguntar:

– Estás sentindo alguma coisa?

Mas Jesus lhe sorri e faz um sinal de que não, enquanto saúda os dois, que voltaram depois de uma ausência bem prolongada.

Ele abraça primeiro Tomé, vistoso e alegre como sempre mas que se torna sério, ao olhar para o Mestre, que está evidentemente mudado, e lhe pergunta, preocupado:

– Estiveste doente?

– Não, Tomé. Não é nada. E tu, tens estado bem e feliz?

– Eu, sim, Senhor. Sempre bem e feliz. Só Tu é que faltavas para fazer feliz o meu coração. Meu pai e minha mãe te agradecem por me teres mandado a eles por algum tempo. Meu pai estava um pouco doente e, então, quem foi trabalhar fui eu. Estive em casa de minha gêmea e fiquei conhecendo o sobrinho pequenino, e fiz que lhe pusessem o nome que Tu me disseste.Depois veio Judas e me fez andar como uma rolinha no tempo dos amores, para baixo e para cima, por onde houvessem discípulos. Ele já tinha andado, e não pouco, por sua conta. Mas agora, quem vai falar é ele, pois ele trabalhou por dez e merece que Tu o escutes.

Jesus o deixa ir e aguarda a vez de Judas, que pacientemente ficou esperando, e agora anda para frente, intrépido, desembaraçado, como um triunfante. Jesus o traspassa com seu olhar de safira. Mas o beija, e por ele é beijado, do mesmo modo como aconteceu com Tomé. E as palavras que profere são afetuosas:

– E tua mãe, Judas, ficou contente por ter-te com ela? Está bem aquela santa mulher?

– Sim, Mestre, e te bendiz por lhe teres mandado o seu Judas. Ela queria mandar-te uns presentes. Mas, como poderia eu transportá-los quando tinha que andar por montes e vales? 334.6Podes ficar tranqüilo, Mestre. Todos os grupos de discípulos que eu visitei estão trabalhando santamente. A idéia se propaga sempre mais. Eu pessoalmente quis controlar as repercussões dela sobre os mais poderosos escribas e fariseus. Muitos deles eu conhecia e outros eu fiquei conhecendo agora, por amor a Ti. Eu me aproximei de saduceus, de herodianos… Oh! Eu te garanto que a minha dignidade ficou bem prejudicada… Mas foi por teu amor. Isto e outras coisas eu farei. Recebi rejeições desdenhosas e anátemas. Mas também consegui suscitar simpatias em alguns que estavam com prevenções a teu respeito. Não quero os teus elogios. Basta-me ter feito o meu dever, e agradeço ao Eterno por me ter sempre ajudado. Tive que lançar mão do milagre em certos casos. Mas Tu nos dizes que amemos e tenhamos paciência… Eu assim fiz para honra e glória de Deus e para a tua alegria. Eu espero que muitos obstáculos sejam afastados para sempre e ainda mais porque, sob minha palavra de honra, eu garanti que junto a Ti, não havia mais do que dois que faziam muita sombra. Depois me veio um escrúpulo de ter afirmado o que eu não sabia com certeza. E, então, eu quis verificar, para poder tomar providências, a fim de não ser apanhado em mentira, pois isso me teria posto sob suspeita para sempre no meio dos que se deviam converter… Imagina! Até de Anás e Caifás eu me aproximei… Oh! Eles quiseram reduzir-me a pó com suas censuras… Mas eu fiquei tão humilde e persuasivo, que eles acabaram tendo que me dizer: “Pois bem. Se as coisas de fato são assim… Nós pensávamos que fossem diferentes. Os reitores do Sinédrio, que podiam saber delas, no-las referiam todas ao contrário, e…”

– Não quererás dizer que José e Nicodemos tenham sido uns mentirosos –interrompe o Zelotes, que se conteve até aquele ponto, mas não além dele, e está lívido pelo esforço que fez.

– E quem esta dizendo isso? Ao contrário! José me viu quando eu ia saindo da casa de Anás, e me disse: “Por que estás assim mudado?” E eu, então lhe contei tudo e como, seguindo o conselho dele e de Nicodemos, Tu, Mestre, tinhas afastado o galeote e a grega. Porque tu os afastaste, não é verdade? –diz Judas, olhando fixamente para Jesus, com aqueles seus olhos de azeviche brilhantes e fosforescentes.

Parece querer perfurá-lo com o olhar, para ler o que Jesus fez.

Jesus, que o tem sempre em sua frente e muito perto, diz, com calma:

– Peço que continues o teu relato, pois me interessa muito. É uma relação exata que pode ser muito útil.

– Ah! Então, como eu ia dizendo, Anás e Caifás mudaram de opinião, o que já é muito para nós. Não é verdade? Além disso!… Oh! eu não quero fazer-vos rir! Mas, será que estais sabendo que os rabis me tomaram à parte, e me fizeram passar por um novo exame, como se eu fosse ainda um menor de idade, que vai tornar-se de maior idade? E, que exame! Bem. Eu os persuadi e eles me deixaram ir embora. Então, eu tive a suspeita e o medo de ter dito alguma coisa que não era verdade. E pensei em tomar Tomé comigo e ir de novo onde se encontravam alguns dos discípulos, ou então, onde se podia presumir que se tivessem abrigado João e a grega. Estive na casa de Lazáro, na de Manaem, no palácio de Cusa, na casa da Elisa de Betsur, em Beter, nos jardins da Joana, no Getsêmani, no caminho de Salomão, do outro lado do Jordão, em “Águas Belas”, na casa do Nicodemos, na de José…

– Mas não os viste?

– Sim. E ele me havia garantido que nunca tinha visto aqueles dois. Mas sabes… Eu queria certificar-me… Em poucas palavras: eu inspecionei todos os lugares onde eu podia ter suspeitas de que lá ele estivesse. E não se creia que eu sofresse por não encontrá-lo. Seríeis injustos comigo. Todas as vezes — e Tomé o pode confirmar — todas as vezes que eu saía de um lugar, sem tê-lo encontrado, e nem mesmo sem ter obtido nenhuma noticia dele, eu dizia: “Louvado seja o Senhor”, e ainda: “ó Eterno, faze que eu não o encontre nunca mais!” Isso mesmo! E minha alma suspirava… O último lugar a que fui foi Esdrelon… 334.7Ah! A propósito. Ismael ben Fabi, que mora em seu palácio nas campinas de Magedo, deseja ter-te como seu hóspede… Mas eu, se estivesse em teu lugar, não iria lá…

– Por queê? Eu irei sem falta. Também Eu estou com desejo de vê-lo. E até iremos logo lá. Em vez de irmos a Séforis, iremos a Esdrelon e depois a Magedo, depois de amanhã, que é a vigília do sábado, e de lá iremos para a casa de Ismael.

– Assim não, Senhor! Por queê? Achas que ele te ama?

– Mas, se tu te aproximaste dele e o tornaste favorável a Mim, por que é que não queres que Eu vá lá?

– Eu não me aproximei dele… Ele estava nos campos e me reconheceu. Mas eu, — não é, verdade, Tomé? — eu queria fugir, quando o vi. Mas não pude, porque ele me chamou pelo nome. Eu… eu não posso fazer outra coisa, senão aconselhar-te a não ires nunca a nenhum fariseu, ou escriba ou outros semelhantes. Não é coisa útil para Ti. Fiquemos entre nós, sozinhos com o povo, e basta. Fiquemos também com Lázaro, Nicodemos, José… será um sacrifício… Mas é melhor fazê-lo para não criar ciúmes e iras, fornecendo armas às críticas… À mesa se fala. E eles trabalham maldosamente com as tuas palavras. Mas, voltemos a João… Eu ia indo para Sicaminon, visto que Isaque, que eu encontrei nos confins da Samaria, me havia jurado não tê-lo mais visto desde outubro.

– E Isaque jurou a verdade. Mas tudo o que me aconselhas, sobre os contatos com os escribas e fariseus, está em contradição com tudo o que disseste antes. Tu me defendeste… Foi isto que fizeste, não é verdade? Tu disseste: “Eu destruí muitas prevenções a respeito de Ti.” Tu disseste isto, não é verdade?

– Sim, Mestre.

– E, então, por que não posso Eu mesmo terminar a defesa de Mim mesmo? Então, iremos à casa de Ismael. E tu, agora, volta para trás, e vai até ele, para avisá-lo. Contigo irão André, Simão Zelotes e Bartolomeu. Nós iremos descansar com os camponeses. Quanto a Sicaminon, nós iremos lá. Nós éramos onze. E te afirmamos que João não está conosco. E ele não está também nem em Cafarnaum, nem em Betsaida, nem em Tiberíades, nem em Magdala, nem em Nazaré, nem em Corozaim, nem em Belém da Galiléia, e assim por diante em todas as etapas, que talvez tivesses a idéia de fazer, para… teres a certeza da presença de João entre os discípulos ou em casas amigas.

334.8 Jesus fala calmo, em tom natural… Contudo, alguma coisa deve haver nele que esteja perturbando Judas, pois este muda de cor por um instante. Jesus o abraça, como se fosse beijá-lo. E, enquanto assim está fazendo, rosto contra rosto, lhe sussurra em voz baixa:

– Desgraçado! Que fizeste com tua alma?

– Mestre… eu…

– Vai-te! Tens o mau cheiro do inferno, mais ainda do que o próprio Satanás! Cala-te!… E arrepende-te, se o podes.

Judas… eu teria saído dali precipitadamente. Mas ele! O descarado ainda diz em voz alta:

– Obrigado Mestre. Mas eu te peço, antes que me vá: dá-me duas palavras em segredo.

Todos se afastam muitos metros.

– Por que, Senhor, me disseste aquelas palavras? Tu me fizeste sofrer…

– Porque elas são a verdade. Quem faz comércio com Satanás, apanha o mau cheiro de Satanás.

– Ah! É por causa da necromancia? Oh! Que medo me fizeste. É uma brincadeira. Não é mais do que uma brincadeira de menino curioso. E me serviu para aproximar-me dos saduceus e perder a vontade disso. Portanto, estás vendo que me podes absolver em perfeita paz. São coisas inúteis, quando se tem o teu poder. Tinhas razão. Vamos, Mestre! A minha culpa é tão leve!… Grande é a tua sabedoria. Mas, quem foi que te disse isso?

Jesus olha para ele muito sério e não responde.

– Mas, me viste mesmo com o pecado no coração? –pergunta Judas, um pouco amedrontado.

– E me repugnaste. Vai! E não digas mais nada.

Jesus lhe vira as costas, voltando-se para os seus discípulos, aos quais ordena que mudem de caminho, dando antes as despedidas a Bartolomeu, a Simão e a André, que já estão alcançando Judas, e vão indo a passos rápidos, enquanto que os que ficam vão indo lentamente, sem conhecerem a verdade que só Jesus conhece.

E tanto eles a desconhecem, que ainda ficam elogiando Judas por sua atividade e sagacidade. E o honesto Pedro, com toda a sua sinceridade, se acusa do pensamento temerário que ele tinha em seu coração contra o condiscípulo.

Jesus sorri com um sorriso manso, um pouco cansado, como se estivesse absorto e ouvisse apenas o tagarelar dos seus companheiros, que das coisas sabem apenas aquele tanto que lhes permite saber a natureza humana deles.