360. 360. O mau humor dos apóstolos e o repousonuma gruta. O encontro com a Rosa de Jericó.


14 de dezembro de 1945.

360.1 A planície do lado oriental do Jordão, por causa das chuvas contínuas, parece ter virado uma lagoa, especialmente no lugar em que se encontram agora Jesus e os apóstolos. Há pouco atravessaram uma torrente, que desce de uma estreita garganta das colinas vizinhas, que parecem formar um dique ciclópico de norte a sul, ao longo do Jordão, rompido aqui e ali pelos estreitos vales, ao longo dos quais jorra a inevitável torrente. Parece que um grande bordado de colinas tenha sido ali colocado por Deus para servir de contorno ao grande vale do Jordão por este lado. Eu diria até que é um bordado monótono, pois é sempre igual em suas saliências, em seus aspectos e até em muitas suas altitudes. O grupo dos apóstolos está entre as duas últimas torrentes, que já transbordaram e, além disso, pela vizinhança das margens, tornando assim mais largo o seu leito especialmente para o lado do sul, onde é impressionante o volume de

água que vem sendo canalizado desde as montanhas e que produz um barulho abafado ao correr para o Jordão, e que se ouve, por sua vez, como vai chocando-se com força, especialmente contra os pontos de suas curvas naturais, eu quase poderia dizer: contra as sufocações em que se vê envolvido continuamente, ou então é a confluência de algum emissário, tudo isso produz um represamento das águas. Pois bem. Jesus está dentro deste triângulo mocho, formado por três cursos d’água1 na cheia. E arrancar as pernas de um brejo destes, não é coisa fácil.

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360.2 O humor dos apóstolos está mais turvo do que este dia. É tudo o que se po-de dizer. Cada um quer dizer uma palavra. E cada assunto encerra, sob a aparência de um conselho, uma reprovação. É hora de se ouvirem coisas assim: “Bem que eu tinha dito”, “Se tivesse feito como eu disse”, etc. etc. com vo-zes muito irritadas para com quem cometeu um erro, e ainda se sente acusa-do por havê-lo cometido.

Um diz:

– Seria melhor atravessar o rio, à altura de Péla e ir para o outro lado, que é menos difícil.

Ou então:

– Teria sido bom termos tomado aquele carro! Nós quisemos bancar os valentes, mas depois…

E ainda:

– Se tivéssemos continuado pelos montes não estaríamos nesta lama!

João diz:

– Sois profetas do que já aconteceu. Quem poderia prever esta chuva contínua?

– É o tempo dela. Podia-se prever –sentencia Bartolomeu.

– Nos outros anos não era assim antes da Páscoa. Eu vim para o meio de vós, quando o Cedron não estava cheio e, no ano passado, tivemos até uma seca. Vós, que vos estais queixando, não estais lembrados da sede que passamos na planície filistéia? –diz o Zelotes.

– Aí está! É natural. Os dois sábios falam e nos fazem ouvir sua voz! –diz, irônico, Judas de Keriot.

– Tu, por favor, cala-te! Só sabes criticar. Mas, quando chega o momento oportuno, como quando é preciso falar com algum fariseu ou algum semelhante a ele, tu ficas calado como se tivesses a língua presa –diz-lhe, inquieto, Tadeu.

– Sim. Ele tem razão. Por que não rebateste, nem com uma palavra, àquelas três serpentes? Tu sabias que nós estivemos também em Gíscala e em Meieron, respeitosos e atenciosos, e que para lá Ele quis ir, precisamente Ele que gosta de prestar honra aos rabis falecidos. Mas, tu nada falaste. Tu sabes como Ele exige de nós o respeito à Lei e aos sacerdotes. Mas tu não falaste! Então, que fales agora. Agora, pois tu só sabes dizer ironias contra os melhores de nós e fazer críticas contra o que o Mestre faz –acomete-o André, de costume tão paciente, mas hoje está verdadeiramente tenso.

– Cala-te. Judas está errado, mas ele é amigo de muitos, de muitos samaritanos… –diz Pedro.

– Eu? Quem são eles? Dá-me o nome deles, se és capaz.

– Sim, meu caro. Todos os fariseus, saduceus, todos os poderosos aos quais te gabas de ter amizade e que eles te conheçam é coisa que se pode ver! A mim, não me saúdam nunca! Mas a ti, sim.

– Estás com ciúme disso. Mas eu sou um dos do Templo e tu não.

– Pela graça de Deus eu sou um pescador. Sim. E me glorio de o ser.

– Um pescador tão tolo, que não soube nem mesmo prever um tempo destes.

– Não. Eu o disse: “Lua de Nisã, que veio com chuva, é água que vai descer em grande quantidade” –sentencia Pedro.

– Ah! É isso o que de ti eu queria! E tu, que dizes a isso, Judas de Alfeu? E tu, André? Até Pedro, que é o Chefe, critica o Mestre!

– Eu não critico ninguém. Eu disse um provérbio.

– O qual, para quem o entende, é uma crítica e uma censura.

– Sim. Mas toda essa conversa de nada serve para enxugar a terra, me parece. Nós aqui já estamos e aqui devemos estar. Conservemos o fôlego para podermos arrancar os pés deste pântano –diz Tomé.

360.3 E Jesus? Jesus cala. Vai um pouco a frente, chapinhando na lama ou procurando pontos do terreno mais altos e com mato. Mas, mesmo neles, basta que sejam pisados para que esguichem água até à metade das canelas, como se os pés tivessem espremido uma bexiga em vez de um terreno cheio de mato.

Jesus se cala e os deixa falar, descontentes como estão, mostrando-se de fato homens que a menor perturbação torna irascíveis e injustos.

Já está perto o rio que fica mais ao sul e Jesus, vendo um homem montado em um mulo que vai indo sobre a margem inundada, pergunta-lhe:

– Onde está a ponte?

– Mais para cima. Por ela passo também eu. A outra no vale, a romana, já está por baixo d’água.

Ouve-se, então, um outro coro de resmungos… Mas eles se apressam em ir atrás do homem que está falando com Jesus.

– Mas te convém mais que procures ir pelo monte –diz ele.

E termina:

– Volta para a planície, ao encontrares o terceiro rio depois de Jaboque. Lá já estarás perto do vau. Mas, anda depressa. Não fiques parado, porque o rio se está enchendo de hora em hora. Que estação feia. Antes foi o gelo, agora é a água. E uma chuva forte assim. É um castigo de Deus. Mas é justo! Quando não se apedrejam os que blasfemam contra a Lei, Deus castiga. E nós temos alguns deles. Tu és galileu, não é mesmo? Então, deves conhecer Aquele de Nazaré, que os bons estão abandonando porque Ele é a causa de todos os males. Ele atrai os raios com sua palavra! E os castigos! É preciso ouvir o que contam dele aqueles que estavam com Ele. Têm razão os fariseus de persegui-lo. Quem sabe que ladrão Ele há de ser! Deve causar medo como Belzebu. Eu tinha tido vontade de ir ouvi-lo porque antes me haviam sido ditas muitas coisas boas a respeito dele. Mas… eram palavras daqueles do grupo dele. Todos eles são pessoas sem escrúpulos, como Ele. Os que são bons o abandonam. E fazem bem. Eu, agora já por minha conta, não irei mais vê-lo. E, se a casualidade o trouxer para perto de mim eu o mato a pedradas, como é dever que se faça contra os blasfemadores.

– Apedreja-me, antão. Eu sou Jesus de Nazaré. Eu nem fujo, nem te amaldiçôo. Eu vim para remir o mundo, derramando o meu sangue. Eis-me aqui. Sacrifica-me mas torna-te um justo.

Jesus diz estas palavras abrindo um pouco os braços estendidos para a terra, e as diz lentamente, mansa e tristemente. Mas, se Ele o tivesse amaldiçoado não teria causado uma impressão mais forte àquele homem, que está puxando tão bruscamente as rédeas que o mulo dá um salto e por pouco não cai da margem no rio, que está em cheia. Jesus agarra-o pelo freio e faz parar o animal ainda em tempo, salvando o homem e o mulo.

O homem só sabe ficar repetindo:

– Tu! Tu!…

E, tendo visto o gesto de Jesus que o salvou, grita:

– Mas eu te havia dito que te teria apedrejado… Não entendes?

– E Eu te digo que te perdôo e que sofrerei também por ti a fim de redimir-te. Isto é ser o Salvador.

O homem olha ainda para Ele, espora o mulo, e sai dali correndo… E fugindo… Jesus inclina a cabeça.

360.4 Os apóstolos sentem a necessidade de se esquecerem da lama e da chuva e de todas as outras misérias, para irem consolá-lo. Eles se colocam ao redor dele e dizem:

– Não te aflijas. De bandidos não temos necessidade. E aquele é um deles. Porque somente um malvado é que pode crer que sejam verdadeiras as calúnias a respeito de Ti e ter medo de Ti.

– Mas –continuam eles–, que imprudência, Mestre! E, se ele te atacasse? Por que precisavas dizer que Tu és Jesus de Nazaré?

– Porque é Verdade… Vamos agora para os montes como ele aconselhou. Perderemos um dia mais, mas vós saireis do pântano.

– E Tu também –objetam eles.

– Oh! Para mim não tem importância, pois é o pântano das almas mortas que me aflige –e duas lágrimas descem de seus olhos.

– Não chores, Mestre. Nós estamos resmungando, mas te queremos bem. Se pudermos encontrar os teus denegridores! Nós tiraremos vingança deles.

– Vós perdoareis, como Eu perdôo. Mas deixai-me chorar. Afinal, Eu sou o Homem. E, o ser assim traído, renegado, abandonado, me faz sofrer!

– Olha para nós, olha para nós. Somos poucos, mas bons. Nenhum de nós te trairá, nem te abandonará. Podes crer, Mestre.

– Não se deve nem dizer certas coisas. Já é uma ofensa à nossa alma só o pensar que possamos trair –exclama Iscariotes.

Mas Jesus está aflito. Ele se cala e lentas lágrimas rolam pelas faces pálidas de um rosto cansado e emagrecido.

Já se aproximam dos montes.

– Iremos lá para cima ou iremos rodeando as bases? Pelos meados da encosta há algumas povoações. Olha lá. Do lado de cá, ou do lado de lá do rio –eles o fazem observar.

– A tarde vem chegando. Procuremos chegar a algum povoado. Seja ele qual for, é indiferente.

Judas Tadeu, que tem uma vista muito boa, está perscrutando as encostas. Ele vai até perto de Jesus e diz:

– Acontece que há umas fendas no monte. Tu as estás vendo lá? Nós nos abrigaremos nelas. Será sempre melhor do que na lama.

– Acenderemos o fogo –diz, animado, André.

– Com lenha molhada? –pergunta, irônico, Judas de Keriot.

Ninguém lhe responde. Mas Pedro murmura:

– Dou graças a Deus porque não estão conosco nem as mulheres, nem Marziam.

360.5 Atravessam a ponte, uma ponte muito, muito antiga, que está bem aos pés do vale e depois tomam o caminho que vai para o lado meridional dela, um caminho de animais e que vai para o rumo de um povoado. A escuridão chega depressa, de tal modo que eles decidem refugiar-se em uma ampla gruta para se livrarem de algum aguaceiro violento. Talvez seja uma gruta que serve de abrigo para os pastores, porque nela há muita palha, muita sujeira e um fogão rústico.

– Como cama de dormir, não serve. Mas serve para se acender fogo… –diz Tomé, mostrando as ramagens fragmentadas e sujas que estão espalhadas pelo chão, ao lado de umas samambaias secas, folhas de zimbro e de outras árvores semelhantes. E as empurra com um pau para dentro do fogão. Por cima disso ele amontoa tudo e acende o fogo.

Fumaça e mau cheiro junto com o odor dos zimbros e das resinas levantam-se do fogo. Mas assim mesmo é bem agradável esse calor, e todos se põem em semicírculo ao redor do fogo enquanto vão comendo pão e queijo àquela luz movediça das chamas.

– Bem que se podia tentar ir ao povoado –diz Mateus, que está rouco e resfriado.

– Oh! Escuta! Para repetir a história de três dias atrás? Daqui ninguém nos expulsa. Ficaremos sentados sobre aquela lenha e iremos acendendo o fogo enquanto pudermos. Agora, como se está vendo, aqui há bastante lenha! Olha! Olha! E também bastante palha! Aqui de fato é um covil. Certamente para o tempo do verão ou para quando estão mudando de pastagem. 360.6E por aqui? Para onde se vai? Pega aí um facho aceso, André, que eu quero ver –manda Pedro, que se vira querendo fazer descobertas.

André obedece. Todos se enfileiram por uma estreita fenda que há numa das paredes da gruta.

– Tomai cuidado, porque pode haver aí animais peçonhentos! –gritam os outros.

– Ou, então, leprosos –diz Tadeu.

Um momento depois se ouve a voz de Pedro:

– Vinde, vinde! Aqui se está melhor. Está tudo limpo e enxuto, há bancos de madeira, e lenha para acender fogo. Mas para nós é um palácio real. Trazei fachos acesos que logo acenderemos o fogo.

O lugar deve ser mesmo um abrigo dos pastores. E esta é a gruta onde os que estão repousando dormem, enquanto na outra estão de vigia os da guarda do rebanho, por turnos.

É uma escavação feita no monte pelo homem, ou pelo menos ampliada e tornada mais firme por meio de estacas que sustentam a abóbada. A parte da chaminé, que recebe a fumaça, dobra-se em forma de um ancinho para o lado da primeira gruta, a fim de aspirar a fumaça de lá, pois ela não teria outra saída. Tarimbas e alguma palha estão encostadas às paredes, nas quais estão fincados ganchos, para pendurarem-se neles as lâmpadas, as roupas ou os alforjes

– Mas está muito bem; Vamos, acendamos o fogo! Assim nos aqueceremos e enxugaremos as nossas roupas. Tiremos os cintos e façamos com eles cordas para pendurar nelas as roupas –ordena Pedro.

E depois arruma os bancos e as palhas, e diz:

– E agora cada um dorme um pouco, cada um cuida de conservar aceso o fogo, para que possamos enxergar-nos e estarmos aquecidos. Que graça de Deus!

Judas resmunga por entre os dentes. Pedro se vira, irritado:

– Em comparação com a gruta de Belém onde o Senhor nasceu, esta é um palácio real. Se lá Ele nasceu, nós podemos ficar aqui por uma noite.

– Aliás, esta é a mais bela das grutas de Arbela. Lá não havia de belo nada mais do que o nosso coração, que estava melhor do que agora –diz João, que se mergulha em suas místicas recordações.

– É também muito melhor do que aquela que hospedou o Mestre a fim de preparar-se para a pregação –diz, sério, Zelotes, olhando para Iscariotes, como para dizer-lhe que acabasse com aquilo.

Por último, Jesus abre a boca:

– E é incomparavelmente mais quente e cômoda do que aquela na qual Eu fiz penitência por ti, Judas de Simão, neste mês de Tebet.

– Penitência por mim? Por quê? Não havia necessidade!

– Na verdade, devemos, Eu e tu, passar a vida em penitência, para te livrar de tudo o que te oprime. E ainda não bastaria.

A sentença proferida com calma mas tão decidida, cai como um raio no meio do grupo assustado… Judas abaixa o rosto e se retira para um canto. Não tem coragem de reagir.

360.7 – Eu vou ficar acordado. E vou cuidar do fogo. Vós podeis dormir –ordena Jesus, depois de algum tempo.

Passado algum tempo, ao estralar da lenha se une a respiração pesada dos doze cansados, estendidos sobre as tarimbas por entre as palhas. E Jesus, quando alguma palha cai e os deixa descobertos, levanta-se e a estende de novo por sobre os que estão dormindo, com o cuidado e o amor de uma mãe. E, no entanto, Ele chora ao contemplar os rostos fechados naquele sono de alguns, enquanto outros estão em grande paz, e outros irritados… Ele olha para Iscariotes, que parece estar zombando até enquanto dorme, carrancudo, com os punhos fechados… Olha para João, que está dormindo com uma das mãos sob a face, o rosto velado pelos cabelos louros, rosado, sereno como uma criança no berço. Olha para o rosto honesto de Pedro e para o rosto sério de Natanael, para o rosto bexiguento de Zelotes, para o aristocrático de seu primo Judas, e fica parado de longe, olhando Tiago do Alfeu, que é como o retrato de José de Nazaré quando era jovem. Sorri, ouvindo os monólogos de Tomé e de André, que parecem estar conversando com o Mestre. Cobre bem Mateus, que está respirando com dificuldade, apanha mais outras palhas para conservá-lo aquecido e as vai colocando sobre os pés de Mateus, depois de as ter esquentado ao fogo. Sorri, ao ouvir Tiago proclamar: “Crede no Mestre e tereis a vida”… e continuar toda uma pregação às pessoas do seu sonho. E se inclina para apanhar uma bolsa, na qual Filipe guarda queridas recordações, enfiando-a devagar por baixo da cabeça dele. E, nos intervalos, medita e reza…

360.8O primeiro a despertar é o Zelotes. Ele vê Jesus, ainda perto do fogo aceso na gruta, que já está bem quente. E, pelo montão de lenha reduzido a pouca coisa, ele compreende que já se passaram muitas horas. Sai de sua cama e vai, pé ante pé, até Jesus:

– Mestre, não vais dormir? Eu fico velando.

– Já chegou a aurora, Simão. Faz pouco tempo que vim lá de fora. E vi que o céu já vem clareando.

– Mas, por que não nos chamaste? Tu também estás cansado!

– Oh! Simão. Eu estava precisando muito de pensar… e de rezar… –e apóia a cabeça sobre o peito dele.

O Zelotes, de pé junto a Jesus que está sentado, o acaricia e suspira. E pergunta:

– Pensas em quê, Mestre? Tu não precisas pensar. Tu sabes tudo.

– Pensar, não naquilo que devo dizer. Mas naquilo que devo fazer. Eu estou desarmado contra o mundo astuto, porque Eu não tenho a malícia do mundo nem a astúcia de Satanás. E o mundo me vence. E fico muito cansado…

– E entristecido. E nós contribuímos para isso, ó Mestre tão bom que nós não merecemos ter. Perdoa a mim e aos meus companheiros. Eu falo por todos.

– Eu vos amo muito… E sofro tanto… Por que será que muitas vezes não me entendeis?

360.9 A voz deles, ainda que apenas cochichada, desperta João que é o mais próximo. Ele abre seus olhos azuis, olha espantado ao redor de si, depois vai se lembrando e se levanta depressa, indo por trás das costas dos dois que estão falando. Assim ele pode ouvir as palavras de Jesus:

– Para que todo ódio e todas as incompreensões se tornassem facilmente suportáveis, bastar-me-ia o vosso amor, a vossa compreensão. No entanto, vós não me compreendeis. E esta é a minha primeira tortura. Uma tortura pesada! E como pesa! Mas não tendes culpa disso. Vós sois homens… Vós sentireis a dor de não me haverdes compreendido, quando já não puderdes fazer mais nada… Por isto, visto que ireis procurar reparar as vossas meras aparências de agora, as mesquinharias de agora, a vossa rudeza de agora, Eu vos perdôo e antecipadamente vos digo: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que estão fazendo nem a dor que me estão causando.”

João passa rápido, abraça os joelhos de seu Jesus aflito, e já está quase chorando enquanto murmura:

– Oh! Mestre meu!

O Zelotes, que continua com a cabeça de Jesus sobre o seu peito, inclina-se para beijá-la sobre os cabelos e diz:

– Contudo, nós te amamos muito! Mas pretenderíamos ver em Ti uma capacidade de te defenderes, de defender-nos e de triunfar. Ficamos aviltados ao te vermos como um homem sujeito aos ou-tros homens, às intempéries, às misérias, às maldades, às necessidades da vida. Somos estultos. Mas assim é. Para nós és o Rei, o Triunfador, Deus. Não conseguimos compreender a sublimi-dade da tua abnegação até tal ponto por amor de nós. É porque somente Tu sabes amar. Nós não sabemos…

– Sim, Mestre, é verdade. Simão disse bem. Não sabemos amar como Deus ama, como Tu. E o que é uma infinita bondade, um infinito amor, nós o tomamos por debilidade e dela ainda queremos tirar proveito… Aumenta o nosso amor, aumenta o teu amor, faze que ele transborde, como agora estão transbordando os rios, impregna-nos, satura-nos dele, assim como agora estão encharcados os prados, ao longo do vale. Não há necessidade de ter sabedoria, nem coragem, nem austeridade para sermos perfeitos como Tu queres. Basta que tenhamos o amor… Senhor, disso eu me confesso por todos: nós não sabemos amar.

– Vós, os dois que mais compreendem, vos acusais. Vós sois a humildade. Mas a humildade já é amor. E os outros também não têm mais do que um diafragma que os torna diferentes de vós. E Eu o romperei. Porque, de fato, Eu sou Rei, Triunfador e Deus. Para sempre. Mas agora Eu sou homem. A minha fronte já está sentindo o peso da minha coroa. Tem sido sempre uma coroa de tortura ser Homem… Obrigado, meus amigos. Vós me consolastes. Porque uma coisa há de bom em sermos homens: termos uma mãe que nos ama e amigos sinceros. 360.10Agora vamos despertar os companheiros. Já não está mais chovendo. Nossas roupas estão enxutas. Nossos corpos estão descansados. Comei e vamos partir.

Ele foi levantando a voz pouco a pouco até chegar a dizer: “Vamos partir” para que aquelas palavras fossem ouvidas como uma ordem clara. Todos, então, se levantam e se lamentam por terem ficado dormindo enquanto Jesus Jesus ficou de vigília. Eles se vestem, comem, apanham os seus mantos, apagam o fogo e vão saindo pelo caminho úmido, começando a descida até a trilha que acompanha a beira-mar, que é bastante inclinada para não se transformar em um mar de lama. A luz ainda é pouca, pois o sol ainda não nasceu e o tempo não está claro. Mas já é o suficiente para que se possa enxergar.

360.11André e os dois filhos de Alfeu vão à frente de todos. Chegando a um certo ponto, se inclinam, olham e correm para trás.

– Ali está uma mulher! Parece estar morta. Ela está obstruindo o caminho.

– Oh! Que aborrecimento! Começamos mal. Que vamos fazer? Agora teremos até que purificar-nos!

São os primeiros resmungos do dia.

– Vamos nós ver se está morta –diz Tomé a Judas Iscariotes.

– Eu lá não vou por coisa nenhuma –responde Iscariotes.

– Eu vou contigo, Tomé –diz o Zelotes, e já vai indo.

Eles se aproximam. Inclinam-se para olhar, e Tomé volta para trás, correndo e gritando.

– Talvez tenha sido assassinada –diz Tiago de Zebedeu.

– Ou talvez tenha morrido de frio –responde Filipe.

Mas Tomé os alcança, e grita:

– Ela está com a veste descosida, como os leprosos… –e parece ter visto o diabo de tão estranha que está.

– E ela está morta? –perguntam-lhe.

– E quem é que vai saber? Eu fugi de lá.

O Zelotes torna a levantar-se e vai logo a Jesus. E diz:

– Mestre, é uma irmã leprosa. Não sei se está morta. Eu diria que não. Parece-me que seu coração ainda está batendo.

– Tu tocaste nela?! –gritam muitos, afastando-se dele.

– Sim. Não tenho mais medo da lepra desde que passei a ficar com Jesus. E tenho dó, porque eu sei o que é ser leproso. Talvez a infeliz tenha sido ferida, pois está sangrando na cabeça. Talvez ela tivesse descido à procura de comida. É horrível, ficai sabendo, morrer de fome e ter que enfrentar os homens para se conseguir um pão.

– Ela está muito ulcerada?

– Não. Eu nem sei como é que ela foi parar entre os leprosos. Não tem escamas, nem úlceras, nem grangrena. Talvez faça pouco tempo que ficou doente. Vai lá, Mestre. Eu te peço isso. Como tiveste dó de mim tem dó também da minha irmã leprosa!

– Vamos. Dai-me pão e queijo e aquele pouco de vinho que ainda temos.

– Não a farás beber por onde nós bebemos! –grita Iscariotes, horrorizado.

– Não tenhas medo. Ela beberá na minha mão. Vem, Simão.

360.12 Estão indo para frente… mas a curiosidade faz que andem para a frente também os outros. Sem sentirem mais nenhum aborrecimento pela água da chuva que está por entre as folhagens e que dos ramos balançados cai sobre as cabeças deles nem do musgo molhado. Sobem para a encosta, a fim de poderem ver sem estarem perto da mulher. E eles vêem como Jesus se inclina para ela, a segura pelas axilas e a arrasta, sentada como está sobre uma pedra. A cabeça dela está pendurada como se estivesse morta.

– Simão, vira a cabeça dela para que Eu possa fazer descer por sua garganta um pouco de vinho.

O Zelotes obedece sem medo e Jesus, segurando ao alto a cabacinha, faz que caiam algumas gotas de vinho por entre os lábios semi-abertos e lívidos. E diz:

– Está gelada, a infeliz. E está toda molhada.

– Se ela não fosse uma leprosa, poderíamos levá-la para o lugar onde estivemos –diz, compadecido, André.

– Era o que nos faltava! –explode Judas.

– E, se não for leprosa! Não tem nenhum sinal de lepra.

– Tem as suas vestes. E isso basta.

Enquanto isso, o vinho está produzindo os seus efeitos. A mulher dá um suspiro que revela o seu cansaço.

Jesus lhe despeja na boca um trago e vê que ela o engole. A mulher abre, então, dois olhos enevoados e espantados. Está vendo homens. Tenta, então, levantar-se, gritando:

– Estou infeccionada! Estou infeccionada!

Mas não tem forças para fazer mais nada. Cobre, depois, o rosto com as mãos e geme:

– Não me apedrejeis! Eu desci até aqui porque estou com fome. Há três dias que ninguém me joga nada…

– Aqui temos pão e queijo. Come. Não tenhas medo. Bebe de minha mão um pouco de vinho –diz Jesus, derramando na concha de sua mão um pouco de vinho e dando-lhe.

– Mas, não tens medo? –diz, assombrada, a infeliz.

– Não tenho medo –responde Jesus.

E sorri, pondo-se em pé mas continuando ao lado da mulher, que come com avidez o pão e o queijo. Parece uma fera esfaimada. Ela está ofegante por causa da ânsia de comer. 360.13Depois, tendo acalmado as necessidades naturais de suas vísceras vazias, ela olha ao redor de si… E conta em voz alta:

– Um… dois… três… treze… E, então? Oh! Qual é o Nazareno? És Tu, não é verdade? Só Tu podes ter dó de uma leprosa como tiveste!…

A mulher cai de joelhos com dificuldade, pois está muito fraca.

– Sou Eu, sim. Que queres? Ficar curada?

– Também isso… Mas, antes devo dizer-te uma coisa… Eu tive notícias de Ti… De Ti me haviam falado alguns que passavam, já há muito tempo! Muito? Não. Foi no último mês de outubro. Mas, para um leproso, cada dia é um ano. Eu teria querido ver-te. Mas, como poderia eu ir à Judéia, à Galiléia? Chamavam-me “a leprosa.” Mas eu tenho apenas uma ferida no peito e quem a deu foi o meu marido, que me recebeu virgem e sã não estando ele são. Mas ele é um dos grandes… e tudo pode. Foi capaz até de dizer que eu o enganei indo a ele já doente, e assim me repudiou para tomar outra mulher pela qual ele estava apaixonado. Ele me denunciou como leprosa e, visto que eu procurei defender-me, fui feita alvo de pedradas. Era justo isso, Senhor? Ontem à tarde passou um homem vindo de Betjaboque, dando a notícia de que Tu ias vir e dizendo que viria ao teu encontro para expulsar-te. Eu estava lá. Desci até às casas porque estava com fome… Eu, que era a “Senhora”, teria sido capaz agora de tomar dos animais algum pedaço de massa azeda que estivessem comendo…

Ela chora… E depois continua:

– A ânsia de encontrar-te, por causa de Ti, para dizer-te: “Foge!”, e por causa de mim, para dizer-te: “Piedade!”, estas ânsias me fizeram esquecer-me de que, ao contrário de nossa Lei, os cães, os porcos e os frangos vivem ao lado das casas em Israel, enquanto que um leproso não pode descer, ainda que seja uma mulher que de leprosa só tem o nome. E eu me pus a andar para frente, perguntando onde é que estavas. Não me viram logo porque eu estava na sombra, mas me disseram: “Sobe pela margem do rio.” Depois me viram e me deram pedradas em vez de pão. Eu corri, indo-me embora durante a noite, para vir ao encontro de Ti e para fugir dos cães. Eu estava com fome, com frio, e tinha medo. Levei um tombo no lugar em que me encontraste. Aqui achei que ia morrer. Mas, ao contrário, eu te encontrei. Senhor, eu não sou leprosa, mas esta ferida aqui na mama me impede de voltar ao mundo dos vivos. Eu não peço para voltar a ser a Rosa de Jericó, como no tempo de meu pai, mas pelo menos para viver entre os homens e te acompanhar. Aqueles que me falaram em outubro disseram-me que tens discípulas e que estavas com elas. Mas primeiro, salva- te, Tu. Não morras, ó Tu, que és bom!

– Eu não morrerei enquanto não chegar o meu tempo. 360.14Vai para aquele penhasco. Lá há uma gruta segura. Descansa e depois vai ao sacerdote.

– Para quê, Senhor? –e a mulher treme de ansiedade.

Jesus sorri:

– Volta a ser a Rosa de Jericó que floresce no deserto e que está sempre viva, ainda que pareça morta. A tua fé te curou.

A mulher entreabre o vestido sobre o peito, e grita:

– Nada mais! Oh! Senhor, meu Deus!

E cai debruçada no chão.

– Dai-lhe pão e alimentos. E tu, Mateus, dá-lhe um par das tuas sandálias. Eu darei um manto. Para que ela possa ir, quando se tiver restaurado, ao sacerdote. Dá-lhe também uma esmola, Judas. Para as despesas da purificação. Nós a esperaremos no Getsêmani, para entregá-la à Elisa. Ela me pediu uma filha.

– Não, Senhor. Nada de descanso. Eu já vou. Logo. Logo.

– Desce, então, até o rio, lava-te, veste o manto…

– Senhor, eu o dou à irmã leprosa. Deixa que eu o faça, e a levarei à Elisa. Eu estou sendo curado uma segunda vez vendo-me nela, todo feliz –diz o Zelotes.

– Seja como queres. Dá-lhe tudo o que for útil. Mulher, escuta bem. Irás purificar-te e depois irás a Betânia, procurarás Lázaro e lhe dirás que te hospede até que Eu vá lá. Vai em paz.

– Senhor, quando poderei beijar-te os Pés?

– Daqui a pouco. Vai. Mas fica sabendo que só o pecado é que me causa repugnância. E perdoa ao esposo, porque foi por meio dele que tu me encontraste.

– É verdade. Eu o perdôo. Eu vou… Oh! Senhor! Não fiques aqui onde te odeiam. Pensa como eu caminhei, já exausta, durante toda a noite para vir te dizer e que, em vez de Ti, eu encontrasse um outro: eu podia ser morta a pedradas, como uma serpente.

– Eu me lembrarei disso. Vai, mulher. Queima a tua veste. Acompanha-a, Simão. Nós vos acompanharemos. Junto à ponte nos reuniremos.

360.15 Separam-se.

– Mas agora precisamos purificar-nos. Estamos todos impuros.

– Não era lepra, Judas de Simão. Eu te digo.

– Pois bem. Eu me purificarei. Não quero impureza sobre mim.

– Cândido lírio! exclama Pedro. Se o Senhor não se sente impuro, tu é que te sentirás?

– E por causa de uma que Ele diz que não era leprosa? Mas, o que tinha ela, Mestre? Tu viste a ferida?

– Sim. Um fruto da luxúria masculina. Não era lepra. E, se o homem tivesse sido honesto, não a teria expulsado, pois ele estava mais doente do que ela. Mas tudo serve aos luxuriosos para saciarem a sua fome… Tu, Judas, se queres vai, então. Nós nos encontraremos de novo no Getsâmani. E purifica-te! Putifica-te! Mas a primeira das purificações é a sinceridade. Tu és um hipócrita. Lembra-te disso. Mas podes ir.

– Não. Então, eu fico. Se Tu o dizes, eu creio. Porque eu não estou impuro e fico contigo. Tu queres dizer que eu sou luxurioso, e que me aproveitava do fato para… Eu te demonstro que o meu amor és Tu…

E vão descendo apressados…

15 de dezembro

360.16 Diz Jesus:

– Colocamos aqui a visão do Milagre do Jordão na cheia, visão tida a 17 de setembro de 1944.

1 triângulo mocho, formado por três cursos d’água, que no esboço realizado por MV são os últimos dois afluentes do sul e do trecho do rio Jordão, que fica entre um e outro. O nome Jordão está escrito sobre o grande rio para o oeste, enquanto a leste é pontilhada o sistemo de colinas. A palavra emissário, que se lê um pouco acima no texto, talvez tributário, no entanto é um termo impróprio para indicar um afluente do rio. (“O termo “tributário” e” emissário” são usados com propriedade, a que se refere a um lago, 456.1).


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