289. 289. O sábado em Gerasa. O divertimento de Marziame a pergunta de Síntique sobre a salvação dos pagãos.
28 de setembro de 1945.
289.1Como são longas as horas de um dia, quando não sabemos o que fazer! E não sabem mesmo que fazer naquele sábado os que estão com Jesus, num lugar onde não são conhecidos, numa casa onde a língua e os costumes diferentes os separam dos caravaneiros, servos de Alexandre Misaque. Por isso, muitos preferiram ficar deitados e outros foram cochilar ao sol, que já está aquecendo o amplo pátio quadrado da casa. É um pátio bem adaptado para receber as caravanas, tendo tanques de água e argolas presas aos muros ou às colunas de um rústico pórtico, que se estende ao longo dos quatro lados, e numerosas cavalariças e depósitos de feno e de palha em três dos quatro lados. As mulheres estão retiradas em seus quartos. Não se vê nenhuma delas.
Marziam encontra divertimento também no pátio fechado, observando o trabalho dos moços das estrebarias, que estão passando a raspadeira nos burros, pondo palha nova nos cochos, examinando os cascos dos animais, rebatendo os cravos frouxos das ferraduras, ou então — e isso é para ele de um interesse bem maior porque é uma coisa nova —, encantado, fica olhando como os cameleiros fazem com os camelos, preparando desde a véspera a carga para cada um dos animais, cada carga na proporção da capacidade de cada um deles, para poderem pôr-lhes a carga, ou descarregar, recompensando-os depois com um punhado de legumes secos, que me parecem favas, e tudo termina com uma distribuição de bagas de alfarrobeira, que os homens também gostam de mastigar.
Marziam está admirado e fica olhando ao redor de si para ver se encontra alguém com quem possa dividir sua admiração. Mas ele fica decepcionado, já que os adultos não dão importância aos camelos, porque, ou estão falando uns com os outros, ou estão cochilando. Ele vai até Pedro, que dorme um bom sono com a cabeça apoiada no feno macio, pega-o pela manga e o sacode.
Pedro abre os olhos pela metade, e pergunta:
– Que há? Que queres?
– Sou eu. Vem ver os camelos.
– Deixa-me dormir. Já vi muitos camelos. São animais muito feios.
O menino vai, então, a Mateus, que está fazendo as contas do caixa, pois nesta viagem ele é o tesoureiro:
– Eu estava vendo os camelos, sabes? Eles comem como as ovelhas, e se ajoelham como os homens, e parecem barcas que sobem e descem. Tu já os viste?
Mateus, que perdeu a conta, por causa daquela interrupção, responde com um curto “sim”, e volta a contar suas moedas. É outra desilusão.
Marziam torna a olhar ao redor… Lá estão Simão Zelotes e Judas Tadeu conversando…
– Que bonitos são os camelos! E como são bons! Já foram carregados e descarregados, e eles se abaixaram até o chão para que o homem não se cansasse. Depois comeram as alfarrobas. Os homens também comeram delas. Eu gostaria… Mas não sei como fazer para que me entendam. Vem, tu… –e pega pela mão Simão.
Este, absorto na pacífica discussão com Tadeu, responde distraidamente:
– Sim, querido… Vai, vai e toma cuidado para que não te machuques.
Marziam olha admirado para ele. Simão não lhe respondeu sobre o que ele queria. O menino está quase chorando. Ele se afasta desconfortado e vai apoiar-se numa coluna…
289.2Jesus vai saindo de um quarto e o vê assim sozinho e amuado. Vai até ele e lhe põe uma mão sobre a cabeça.
– Que é que estás fazendo aí, sozinho e triste?
– Ninguém me dá atenção …
– Que querias dos outros?
– Nada. Eu estava falando dos camelos…Que são bonitos… gostei deles. Estar lá em cima deles deve ser como estar na barca… E eles comem alfarrobas. Os homens também comem…
– E tu estás com vontade de ir ficar lá em cima e de comer alfarrobas. Vem cá, vamos até os camelos –e Jesus o pega pela mão, e vai com ele, agora tranquilo, lá para o fim do grande pátio.
Vai direto a um dos cameleiros, e o saúda com um sorriso. O homem se inclina, e continua a dar atenção ao animal no qual está pondo o cabresto e as rédeas.
– Homem, tu me entendes?
– Sim, Senhor. Há vinte anos Eu vos conheço.
– Este menino está com um grande desejo. Ele quer subir sobre um camelo. E um desejo pequeno: comer uma alfarroba –e Jesus sorri ainda mais.
– É teu filho?
– Não. Eu não tenho filhos. Não tenho esposa.
– Tu, tão bonito e forte, não achaste mulher?
– Não a procurei.
– Não sentiste desejo de mulher?
– Não. Jamais.
O homem olha para Ele, assombrado, depois diz:
– Eu tenho nove filhos em Isquilo… Vou, um filho…Vou, um filho. Sempre um filho.
– Gostas dos filhos?
– São o meu sangue. Mas o trabalho é duro. Eu aqui e eles lá. Eles estão longe. Mas é pelo pão para eles. Compreendes?
– Compreendo. Então, podes também compreender o menino que gostaria de montar no camelo e de comer alfarrobas.
– Sim. Vem cá. Estás com medo? Não? Bravo! Bonito menino! Eu também tenho um assim. Moreno assim. Olha aqui. Toma, segura bem aqui –e lhe põe na mão um estranho cabo, que está na frente da sela–. Segura. Agora eu vou subir. E o camelo vai levantar-se. Não tens medo, não é verdade?
E o homem sobe para a sela alta, assenta-se bem e incita o camelo, que se levanta obediente, dando um grande balanço. Marziam ri feliz. E, ainda mais feliz, porque o cameleiro lhe pôs na boca uma bonita alfarroba. O homem faz que o camelo ande, aos passos, ao longo do pátio, depois o faz andar a trote e, enfim, vendo que Marziam não tem medo, grita algumas palavras ao seu companheiro, e este abre a porta mais larga, que fica atrás do pátio e o cameleiro desaparece com a sua carga, indo para o verde da campina.
289.3Jesus volta para a casa, e entra em uma grande sala, onde estão as mulheres. Ele está tão sorridente que Maria lhe pergunta:
– Que tens, meu Filho, para estares tão feliz?
– Tenho a felicidade de Marziam que está galopando sobre um camelo. Vinde para cá, que o veremos vir de volta.
Saem todos para o pátio e se assentam sobre um muro baixo perto dos tanques. Os apóstolos, que não estão dormindo, vão para perto dos outros. Os que estão nas janelas dos quartos altos olham para baixo, veem, e vão também eles. As vozes altas e juvenis, que são as de João e dos dois Tiagos, fazem que Pedro e André despertem, e eles sacodem Mateus. Agora lá estão todos, porque até João de Endor vai com seus dois discípulos.
– Mas onde está Marziam, que não o vejo? –pergunta Pedro.
– Está passeando, montado num camelo. Ninguém de vós quis dar-lhe ouvidos. Eu o vi triste e tomei providências.
Pedro, Mateus e Simão se lembraram:
– Ah! Sim. Ele estava falando de camelos… e de alfarrobas. Mas eu estava com sono!
– E eu tinha contas por fazer para prestar-te conta do que eu recebi dos gerasenos, e de quanto eu dei de esmola.
– E eu estava falando com o teu irmão sobre a fé.
– Não importa. Eu pensei no caso. Mas de passagem Eu vos digo que ocupar-se com os brinquedos de um menino também é amor… E agora vamos falar de outra coisa. Do lado de fora a cidade está toda em festa. Do nosso sábado ninguém está lembrado, a não ser por uma alegria geral. Por isso é melhor que fiquemos aqui dentro então. Ainda mais porque, se alguém nos procurar, saberão onde estamos. 289.4Eis que lá vem Alexandre fazendo uma vistoria em seus camelos.
E agora Eu vos digo que um deles está faltando por minha culpa.
E Jesus vai logo ao mercador, e lhe fala. E voltam juntos. O mercador diz:
– Muito bem, Ele se divertirá, e lhe fará bem uma corrida ao sol. Podes estar certo de que o homem o tratará bem. Calípio é um homem muito bom. Em troca da corrida, eu te peço que me digas uma coisa. Nesta noite eu fiquei pensando nas tuas palavras… naquelas que eu ouvi em Ramot, ditas entre Ti e a mulher, e naquelas de ontem. Ontem me parecia que eu estava subindo por um alto monte, como aqueles das terras onde eu moro, e que têm os seus cumes precisamente nas nuvens. Tu me levavas para cima, cada vez mais para cima. Parecia-me ter sido apanhado por uma águia. Por uma daquelas do nosso monte mais alto, o primeiro que apareceu depois do Dilúvio. Eu estava vendo tudo novo, como eu nunca havia pensado, tudo nascido de uma luz… E eu estava entendendo tudo. Depois se me confundiram as ideias. Dize-as a mim de novo.
– Que devo dizer?
– Eu nem sei… Era tudo tão bonito. Aquilo que dizias que se encontra de novo no Céu… Fiquei compreendendo que lá se amará de modo diferente, mas sempre constante. Por exemplo, não teremos mais as ânsias de agora e, no entanto, seremos todos por um e um por todos, como se fôssemos uma só família. Estarei falando errado?
– Não. Pelo contrário! Formaremos uma família até com os que estão vivos. As almas não ficam separadas pela morte. Eu estou falando dos justos. Eles constituem uma só e grande família. Faze de conta que em um grande templo estão os que adoram e rezam, e aqueles que se afadigam. Os primeiros rezam também por aqueles que se afadigam, e os segundos trabalham por aqueles que rezam. Assim acontece com as almas. Nós nos afadigamos nesta terra. Eles se lembram de nós em suas orações. Mas nós devemos oferecer os nossos sofrimentos pela paz deles. É uma corrente que não se arrebenta. É o amor que une os que já se foram com os que estão vivos. E os que estão vivos devem ser bons, para poderem reunir-se aos que já se foram e que nos desejam em sua companhia.
289.5Síntique faz um gesto involuntário, que imediatamente refreia. Mas Jesus o nota, e a convida a sair daquele recato, que a mulher sempre guarda.
– Eu estava pensando… Há muitos dias que eu venho pensando, porque, para dizer a verdade, me parece que crer no teu Paraíso seja perder para sempre minha mãe e minhas irmãs… –e um soluço embarga a voz de Síntique, que se interrompe para não chorar.
– Que pensamento é esse, que tanto te perturba?
– Agora eu creio em Ti. Eu não sou capaz de pensar em minha mãe a não ser como pagã. Ela era boa… Oh! Se era! E também as irmãs! A pequena Ismene era a melhor criatura que a terra já havia tido. Mas elas eram pagãs… Agora eu, enquanto era como elas, pensava no Hades, e dizia: “Lá nos reuniremos.” Agora não existe mais o Hades. Existe o teu Paraíso, o Reino dos céus para aqueles que serviram com justiça ao Deus Verdadeiro. E aquelas pobres almas? Elas não têm culpa de terem nascido gregas. Nenhum dos sacerdotes de Israel foi lá para dizer-nos: “O Verdadeiro Deus é o nosso.” E, então? As virtudes delas não valeram nada? Os sofrimentos delas, nada? É uma escuridão eterna e uma eterna separação de mim? Eu te digo: isso para mim é um tormento. Parece-me tê-las renegado. Perdoa, Senhor… Eu choro…
E ela se ajoelha chorando fortemente, desolada.
Alexandre Misaque diz:
– Eis aí! Eu também pensava que, se me tornasse justo, nunca mais encontraria meu pai, minha mãe, meus irmãos, meus amigos…
289.6Jesus pousa os dedos sobre a cabeça morena de Síntique, e lhe diz:
– Culpa existe quando conhecemos o que é Verdadeiro e persistimos no Erro. Não é, quando, convencidos de estar na Verdade e nenhuma voz veio dizer-nos: ‘Esta, que eu prego, é a Verdade. Deixai as vossas quimeras por esta Verdade, e tereis o Céu.’ Deus é justo. Queres tu que não se premie a virtude, só porque ela se formou e cresceu no meio da corrupção de um mundo pagão? Fica em paz, minha filha.
– Mas, e a culpa original? E o culto nefando? Mas…
Ficaria fora de propósito, se os israelitas fizessem da alma aflita de Síntique um montão de escombros, se Jesus, com um gesto, não tivesse imposto silêncio.
Ele diz:
– A culpa de origem é comum a todos de Israel e de fora de Israel. Não é uma prerrogativa dos pagãos. O culto pagão será culposo a partir do momento em que for sendo difundida no mundo a Lei de Cristo. A virtude será sempre virtude, aos olhos de Deus. E, pela união minha com o Pai, Eu digo, e digo em Nome dele, traduzindo em palavras o Pensamento Santíssimo, que as vias do poder misericordioso de Deus são tantas, e de tal modo inclinadas a dar alegria aos virtuosos, que serão levantadas as barreiras entre uma e outra alma, e haverá paz para aqueles que mereceram paz. E não só isso. Eu digo que no futuro aqueles que, convictos de estarem na Verdade, seguirem a religião de seus pais com justiça e santidade, serão amados e não castigados por Deus. É a malícia e a má vontade dos que rejeitam deliberadamente a Verdade conhecida, e sobretudo dos que atacam a Verdade revelada, e a combatem, é o levar uma vida nos vícios o que realmente irá separar para sempre as almas dos justos das dos pecadores. Levanta o teu espírito abatido, Síntique. Estas tristezas são um assalto infernal pela raiva que satanás tem de ti, que foste uma presa que ele perdeu para sempre. O Hades não existe. O que existe é o meu Paraíso. Mas isso não é motivo de dor, e, sim de alegria. Nada da Verdade haverá de ser motivo de abatimento ou de dúvida, mas antes motivo para crer sempre mais e com alegre segurança. Mas tu, dize-me sempre os teus motivos. Eu quero ver em ti uma luz segura e firme como a do sol.
Síntique, estando ainda ajoelhada, pega a mão de Jesus, e a beija…
289.7Os gritos emitidos pelo cameleiro dão a entender que o camelo vai começar a andar aos passos, sem fazer barulho sobre a erva viçosa, que está do lado de fora do portão de trás, que logo é aberto por um servo. E Marziam volta, muito alegre e corado, por causa da cor-rida: é um homenzinho, levantado por cima da alta garupa, que se ri agitando os braços, enquanto o camelo se ajoelha. O menino desliza por baixo da estranha sela, acariciando o moreno cameleiro. Depois corre para Jesus, gritando:
– Que bonito! Foi sobre animais como aqueles ali que os sábios do Oriente vieram adorar-te? E eu irei com eles a pregar-te por toda parte! O mundo parece maior, visto lá de cima, e diz: “Vinde, vinde vós, que sabeis a Boa Nova!” Ah! Sabes?… Aquele homem também precisa dela… E tu também, mercador, e todos vós, servos… Quanta gente a está esperando e morre sem poder recebê-la… Mais pessoas do que a areia do rio. Todos estão sem Ti, Jesus! Oh! Mas faze dizê-la que ela chegue logo a todos!
E, de cabeça baixa, ele se agarra aos lados de Jesus.
E Jesus se inclina e o beija, prometendo:
– Tu verás o Reino de Deus evangelizado até os confins mais distantes de Roma. Estás contente?
– Eu, sim. E, depois, irei dizer-te: “Aí estão esta, aquela e aquela outra cidade que te conhecem.” E, então, eu saberei os nomes daquelas terras longínquas. E Tu, que me dirás?
– Eu te direi: “Vem pequeno Marziam. Recebe uma coroa por cada cidade em que me tiveres pregado e depois vem para o meu lado, como naquele dia em Gerasa, e descansa das tuas fadigas. Porque foste servo fiel, agora é justo que sejas feliz no meu Reino.”