649. 649. Trânsito abençoado de Maria Santíssima.
21 de novembro de 1951.
649.1Maria, no seu quartinho solitário, que fica no alto do terraço, está toda vestida de linho cândido, seja a veste que cobre seus membros, seja o manto que, fixado na raiz do pescoço, cai pelas costas, seja o véu muito fino que lhe desce desde a cabeça. Ela está arrumando as suas roupas e as de Jesus, que conservou sempre. Escolhe as melhores. E são poucas. Das suas, separa a veste e o manto que estava usando no Calvário; do Filho, uma veste de linho que Jesus costumava usar nos dias quentes e o manto reencontrado no Getsêmani, ainda manchado do sangue que jorrou do suor ensanguentado daquela hora tremenda.
Depois de ter dobrado bem aquelas roupas e beijado o manto ensanguentado do seu Jesus, Ela vai ao baú, no qual há anos estão guardadas e conservadas as relíquias da Última Ceia e da Paixão. Maria reúne todas essas coisas na mesma altura, na parte superior, e coloca todas as vestes na arte inferior.
649.2Está fechando o baú quando João, que subiu silenciosamente ao terraço — e foi ver o que Maria estava fazendo, talvez impressionado com a sua longa ausência da cozinha — onde ela subiu para passar aquelas horas da manhã, faz com que ela se vire de repente ao lhe perguntar:
– Que estás fazendo, Mãe?
– Coloquei em seus lugares todas as coisas que é bom conservar. Todas as lembranças… Tudo o que serve de testemunho do seu amor e dor infinitos.
– Por que, ó Mãe, reabres as feridas do coração ao ficares revendo essas tristes coisas? Estás pálida, e tua mão está tremendo… Portanto, tu sofres ao vê-las –lhe diz João indo para perto dela, como se temesse que Ela, tão pálida e tremendo como está, possa sentir-se mal e cair no chão.
– Oh! Não é por isso que eu estou pálida e tremendo. Não é porque as feridas se reabrem… Estas, na verdade, nunca se fecharam completamente. Contudo, a paz e a alegria estão em Mim e nunca, como agora, elas têm sido completas.
– Nunca, como agora? Eu não entendo… Para Mim, ver aquelas coisas cheias de atrozes recordações, desperta de novo a angústia daquelas horas. E eu não sou mais do que um discípulo. Tu és a Mãe…
– E, assim sendo, eu deveria sofrer mais, queres dizer? E, humanamente, falas certo. Mas não é assim. 649.3Eu estou acostumada a suportar o sofrimento da separação Dele. É sempre sofrimento, pois a sua presença e proximidade eram o meu Paraíso na terra. Mas também é sempre suportado voluntariamente e de modo sereno, porque todas as ações Dele eram desejadas por seu Pai, era obediência à Vontade divina e, portanto, eu o aceitava porque eu também sempre obedeci aos desejos e desígnios de Deus para mim. Quando Jesus me deixava, eu sofria. Claro. Eu me sentia só. O meu sofrimento quando Ele, ainda menino, me deixou ocultamente, pela disputa com os doutores do Templo, só Deus pôde mensurar na sua mais verdadeira intensidade. Mas também ali, uma vez feita a pergunta justa que eu, mãe, lhe fiz por ter-me deixado assim, não lhe disse mais nada. E também não o impedi quando me deixou para se tornar o Mestre… e eu já era viúva do meu esposo e, portanto, sozinha, numa cidade que, exceto por raras pessoas, não me amava. E não mostrei surpresa pela sua resposta no banquete de Caná. Ele estava fazendo a vontade do Pai. Eu o deixava livre para fazê-la. Eu podia me restringir a um conselho ou a uma oração. Conselho sobre os discípulos, oração para algum infeliz. Mas não mais do que isso. Eu sofria quando Ele me deixava para ir pelo mundo, que Lhe era hostil e tão pecador que, para Ele, viver no meio dele era um sofrimento. Mas quanta alegria quando Ele voltava para mim! Na verdade, era tão profunda, que me compensava setenta vezes sete a dor da separação. Dilacerante foi a dor da separação que sobreveio à sua Morte, mas com que palavras poderei dizer-te a alegria que senti quando Ele me apareceu ressuscitado? É imensa a pena da separação, que não teria tido fim senão quando a minha vida terrena tivesse se concluído, por sua ascensão ao Pai. 649.4Agora eu estou na alegria, imensa alegria como foi imenso o sofrimento, porque sinto que minha vida se concluiu. Fiz o que devia fazer. Terminei a minha missão terrena. A outra, a celeste, não terá fim. Deus me deixou sobre a terra até que eu fizesse, como o meu Jesus, tudo o que devia fazer. Eu sinto em mim aquela alegria secreta, única gota de bálsamo em seus amargos e extremos tormentos, que Jesus experimentou quando pôde dizer: “Tudo está consumado.”
– Alegria em Jesus? Naquela hora?
– Sim, João. Uma alegria incompreensível para os homens. Mas compreensível para os espíritos que já vivem na luz de Deus, e que veem as coisas profundas, escondidas sob os véus que o Eterno estende sobre os seus segredos de Rei, na graça daquela luz. Eu, assim angustiada, perturbada por aqueles acontecimentos, consociada a Ele, ao meu Filho abandonado pelo Pai, não compreendi naquela hora. A Luz se havia apagado para todo o mundo naquela hora. E também para mim. Não por alguma justa punição, mas porque, devendo eu ser a Corredentora, eu também devia passar pela angústia de ser abandonada pelos confortos divinos, pela escuridão, a desolação, a tentação de Satanás de não fazer-me mais crer que fosse possível aquilo que Ele havia dito, tudo aquilo que Ele também padeceu no espírito, da Quinta à Sexta-feira. Mas depois, eu compreendi. Compreendi. Quando a Luz, que ressuscitou para sempre, me apareceu, eu compreendi. Tudo. Até a secreta e grande alegria do Cristo, quando Ele pôde dizer: “Eu cumpri tudo o que o Pai queria que Eu cumprisse. Preenchi a medida da caridade divina amando o Pai até ao sacrifício de Mim mesmo, amando os homens até morrer por eles. Eu cumpri tudo o que devia cumprir. Eu morro contente em meu espírito, ainda que dilacerado em minha carne inocente.” Eu também cumpri tudo aquilo que, desde a eternidade, estava escrito para que eu cumprisse. Desde a geração do Redentor até à ajuda a vós, que sois sacerdotes Dele, a fim de que vos formásseis perfeitamente. 649.5A Igreja, enfim, está formada e é forte. O Espírito Santo a ilumina, o sangue dos primeiros mártires a fortalece e multiplica, a minha ajuda cooperou para fazer Dela uma organismo santo, que a caridade para com Deus e para com os irmãos alimenta e fortifica cada vez mais, e onde o ódio, o rancor, a inveja, a maledicência, plantas malvadas de Satanás, não vingam. Deus está contente com isso, e quer que fiqueis sabendo disso dos meus lábios, assim como quer que eu vos diga para continuar a crescer na caridade para poder crescer na perfeição, e assim também em número de cristãos, e em potência de doutrina. Porque a doutrina de Jesus é doutrina de amor. Porque a vida de Jesus, e também a minha, sempre foram guiadas e impulsionadas pelo amor. Não rejeitamos ninguém, perdoamos a todos. Somente a um nós não pudemos dar o perdão, porque ele, já servo do Ódio, não quis o nosso amor sem limites. Jesus, no seu último adeus antes da morte, vos deu o mandamento de amar-vos entre vós. E vos deu também a medida do amor que deveis ter entre vós, dizendo-vos: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Disto conhecerão que sois meus discípulos.” A Igreja, para viver e crescer, precisa da caridade. Caridade principalmente nos seus ministros. Se não vos amardes entre vós com todas as forças, e igualmente não amardes os vossos irmãos no Senhor, a Igreja se tornaria estéril. E fraca e escassa seria a recriação dos homens e sua super-criação em sua condição de filhos do Altíssimo e coerdeiros do Reino dos Céus, porque Deus cessaria de ajudar-vos na missão. Deus é Amor. Cada ação Dele foi ação de amor. Da criação até a Encarnação. Desta até a Redenção. Desta ainda até a fundação da Igreja. E, enfim, desta até a Jerusalém celeste, que recolherá todos os justos para que se alegrem no Senhor. 649.6Estas coisas Eu as digo a ti porque tu és o Apóstolo do amor, e as podes compreender melhor do que os outros…
João a interrompe, dizendo:
– Também os outros amam e se amam.
– Sim. Mas Tu és o amoroso por excelência. Cada um de vós teve sempre uma sua característica, como afinal se dá com toda criatura. Tu, entre os doze, foste sempre o amor, o amor puro e sobrenatural. Certamente é porque és assim tão puro, és tão amoroso. Pedro, por sua vez, foi sempre um homem, um homem franco e impetuoso. O irmão dele, André, foi o silencioso e tímido, tanto quanto o outro não o era. Tiago, o teu irmão, o impulsivo, a tal ponto que Jesus o chamou de “Filho do Trovão.” O outro Tiago, irmão de Jesus, é o justo e heroico. Judas de Alfeu, irmão dele, é o nobre e leal sempre. A descendência de Davi era evidente nele. Filipe e Bartolomeu eram os tradicionalistas. Simão Zelotes, o prudente. Tomé, o pacífico. Mateus, o humilde que, lembrado do seu passado, procurava passar sem ser observado. E Judas de Keriot, ai de mim! A ovelha negra do rebanho de Cristo, a serpente que Ele acalentou com o seu amor, foi o satânico mentiroso, sempre. Mas tu, todo amor, podes compreender melhor e ter uma voz de amor para com todos os outros, para os distantes, a fim de dizer-lhes este meu último conselho. Dize a eles que se amem e que se amem todos, até aos perseguidores, para serem uma só coisa com Deus, como eu fui, até o ponto de merecer ser escolhida para esposa do Amor Eterno, a fim de conceber o Cristo. 649.7Eu me doei a Deus sem medidas, mesmo compreendendo imediatamente quanto sofrimento decorreria disso. Os profetas estavam presentes na minha mente, e a luz divina tornavam muito claras para mim as palavras deles. Portanto, desde o meu primeiro “fiat” ao Anjo eu soube que me consagraria à maior dor que uma mãe pudesse sofrer. Mas nada colocou limites ao meu amor, porque eu sei que, para quem o vive, ele é força, luz, ímã que atrai para o alto, fogo que purifica e embeleza aquilo que incendeia, transformando e trans-humanando todos aqueles que envolve em seu abraço. 649.8Sim. O amor realmente é uma chama. Uma chama que, embora destruindo aquilo que é efêmero, seja um refugo, um detrito, um trapo de homem, faz dele um espírito purificado e digno do Céu. Quantos refugos, quantos homens manchados, corroídos, destruídos, encontrareis pelo vosso caminho de evangelizadores! Não desprezeis nenhum deles. Mas, ao contrário, amai-os, para que se voltem para o amor e se salvem. Infundi neles a caridade. Muitas vezes o homem se torna malvado porque ninguém nunca o amou, ou o amou mal. Vós, amai-os, para que o Espírito Santo venha a morar novamente, depois da purificação, naqueles templos que muitas coisas fizeram com que ficassem vazios e imundos. Deus, para criar o homem, não lançou mão de um anjo nem de material escolhido. Ele lançou mão do barro, a matéria mais vil. Depois, infundindo nele o seu hálito, ou seja, ainda o seu amor, elevou a matéria vil ao grau excelso de filho adotivo de Deus. O meu Filho, no seu caminho, encontrou muitos refugos de homens caídos na lama. Não os pisoteou com desprezo. Mas, ao contrário, com amor os recolheu e acolheu, e os transformou em eleitos do Céu. Recordai-vos disso sempre. E fazei como Ele fez. 649.9Recordai-vos de tudo. Atos e palavras do meu Filho. Recordai-vos de suas doces parábolas. Vivei-as, ou seja, colocai-as em prática. E escrevei-as, para que permaneçam para o futuro até o fim dos séculos e sejam sempre guia para os homens de boa vontade, para alcançar a vida e a glória eterna. Certamente não podereis repetir todas as luminosas palavras da eterna Palavra de Vida e Verdade. Mas escrevei todas aquelas que podeis escrever. O Espírito de Deus, que desceu sobre mim para que desse ao mundo o Salvador, desceu sobre vós também, uma e mais vezes, e vos ajudará a recordar e a falar para as multidões, de modo a convertê-las para o Deus verdadeiro. Assim, continuareis aquela maternidade espiritual que eu comecei no Calvário para dar muitos filhos ao Senhor. E o mesmo Espírito, falando nos recriados filhos do Senhor, os fortificará de modo que para eles será doce morrer entre tormentos, sofrer o exílio e as perseguições, desde que possam confessar o seu amor por Cristo e alcança-lo no Céu, como já fizeram Estêvão e Tiago, o meu Tiago, e outros ainda… 649.10Quando ficares sozinho, salva este baú…
João, empalidecendo e perturbando-se, ainda mais do que empalideceu desde que Maria disse que tinha acabado de cumprir a sua missão, interrompe-a exclamando e perguntando:
– Mãe! Por que falas assim? Estás te sentindo mal?
– Não.
– Queres deixar-me, então?
– Não. Eu estarei contigo enquanto estiver nesta Terra. Mas prepara-te, ó meu João, para ficares sozinho.
– Mas, então, tu estás mal, e queres esconder isso!…
– Podes crer que não. Eu nunca me senti tão bem com minhas forças, em paz, na alegria, como agora. Mas eu sinto em mim tanta alegria, uma plenitude de vida sobrenatural tão grande que… Sim, que penso de não conseguir suportá-la e continuar viva. Pois, afinal, eu não sou eterna. Tu deves entender. Eterno é o meu espírito. Minha carne, não. Ela está sujeita, como qualquer carne humana, à morte.
– Não! Não! Não digas isso. Tu não podes, não deves morrer! O teu corpo imaculado não pode morrer como o dos pecadores!
– Tu estás errado, João. O meu Filho morreu. Eu também morrerei. Não conhecerei o que é doença, o que é agonia, nem o espasmo da morte. Mas morrer, eu morrerei. E, afinal, fica sabendo, meu filho, que se eu tenho um desejo meu, todo e somente meu, e que dura desde que Ele me deixou, é justamente este. Este é o meu primeiro e poderoso desejo, todo meu. Posso até dizer: é o meu primeiro desejo. Qualquer outra coisa de minha vida não foi senão o consentimento da minha vontade à Vontade de Deus. Vontade de Deus, posta no meu coração de menina por Ele mesmo, a vontade de ser virgem. Vontade Dele foram as minhas núpcias com José. Vontade Dele foi a minha Maternidade virginal e divina. Tudo nesta minha vida foi vontade de Deus e obediência minha à sua vontade. Mas isto, de querer ir reunir-me a Jesus, é uma vontade toda minha. Deixar a Terra pelo Céu, para estar com Ele para sempre e continuamente! Este é o meu desejo de tantos anos! E agora percebo que ele está perto de se tornar realidade. 649.11Não fiques perturbado assim, João! Escuta, ao invés, os meus últimos desejos. Quando o meu corpo, privo do espírito vital, repousar em paz, não me submeta ao embalsamamento, como é costume para os hebreus. Eu já não sou mais a hebreia, mas a cristã, a primeira cristã, se refletirmos bem, porque fui a primeira a ter o Cristo, Carne e Sangue, em mim, porque fui a primeira discípula Dele, porque fui com Ele Corredentora e sua continuadora, aqui, entre vós, seus servos. Nenhum vivente, exceto meu pai e minha mãe e aqueles que assistiram ao meu nascimento, viu o meu corpo. Tu frequentemente me chamas de “Arca verdadeira que conteve a Palavra divina.” Agora tu sabes que a Arca só pode ser vista pelo Sumo Sacerdote. Tu és sacerdote, e muito mais santo e puro do que o Pontífice do Templo. Mas eu quero que só o eterno Pontífice possa ver, no devido tempo, o meu corpo. Portanto, não me toque. Além do mais, estás vendo? Eu já me purifiquei e coloquei a veste limpa, a veste das eternas núpcias… 649.12Mas por que choras, João?
– Porque a tempestade da dor se desencadeia sobre mim. Eu compreendo que estou para perder-te! Como farei para viver sem ti? Eu sinto que meu coração se dilacera, só ao pensar nisso! Eu não resistirei a esta dor!
– Tu resistirás. Deus te ajudará a viver, e por muito tempo, como me ajudou. Porque, se Ele não me tivesse ajudado lá no Gólgota e no Monte das Oliveiras, e quando Jesus morreu, e também quando subiu aos Céus, eu estaria já morta, como morreu Isaque. Deus te ajudará a viver e a te lembrares de tudo o que eu te disse antes, para o bem de todos.
– Oh! Eu me recordarei de tudo. E farei tudo o que queres, até no que se refere ao teu corpo. Eu também compreendo que os ritos hebraicos não servem mais para ti, que és cristã, e para ti, Puríssima, que — e disso eu estou certo — não terás a corrupção em tua carne. Não pode o teu corpo — deificado como nenhum outro corpo mortal, e por teres sido isenta da culpa original, e, mais ainda, porque além da plenitude tiveste em ti a própria Graça, o Verbo, por isso tu és a relíquia mais verdadeira Dele — conhecer a decomposição, a podridão que invade toda carne morta. Este será o último milagre que Deus fará sobre ti e em ti. Tu serás conservada como és…
– E, então, não chores! –exclama Maria, olhando para o rosto todo transtornado do apóstolo, todo lavado pelas lágrimas.
E acrescenta:
– Se eu me conservar como estou, não me perderás. Portanto, não fiques angustiado.
– Eu te perderei do mesmo modo, ainda que fiques incorrupta. Já estou percebendo isso. E já me sinto como se estivesse envolvido em um furacão de dor. Um furacão que me abate e me esmaga. Tu eras tudo para mim, especialmente depois que meus pais faleceram e que os meus outros irmãos, pelo sangue ou pela missão, foram morar longe, até mesmo o querido Marziam, que Pedro levou consigo. Agora eu fico sozinho, no meio da mais forte tempestade!
E João cai aos pés dela, chorando ainda mais fortemente.
649.13Maria se curva sobre ele, põe a mão sobre a sua cabeça sacudida pelos soluços e lhe diz:
– Não. Assim não. Por que me fazes sofrer? Tu foste tão forte aos pés da Cruz, e era uma cena de horror sem igual, seja pela potência do seu martírio, seja pelo ódio satânico do povo! Foste forte e confortador para ele e para mim, ali! E hoje, aliás, nesta noite de sábado, tão serena e calma, e diante de mim que me alegro pelo gáudio iminente que estou pressentindo, ficas assim transtornado? Acalma-te. Imita, aliás, une-te àquilo que está ao nosso redor e em mim. Tudo é paz. Tenhas tu também a paz. Somente as oliveiras, com o seu delicado ramalhar, rompem a calma absoluta desta hora. Mas esse rumor é tão doce, que parece o voo de um anjo ao redor da casa. E talvez eles estejam presentes realmente. Porque os anjos sempre estiveram perto de mim, um ou muitos, quando eu estava em algum momento especial da minha vida. Eles estiveram em Nazaré, quando o Espírito de Deus tornou fecundo o meu seio virginal. Eles foram até José, quando ele estava perturbado e incerto por causa do meu estado e sobre como comportar-se comigo. E em Belém, mais de uma vez, quando Jesus nasceu e quando tivemos de fugir para o Egito. E no Egito, quando nos deram ordem de voltar para a Palestina. E — senão a mim, porque o próprio Rei dos anjos veio até mim, assim que ressuscitou — os anjos apareceram às mulheres piedosas na aurora do primeiro dia depois do sábado e deram ordem de dizer a ti e a Pedro aquilo que devíeis fazer. Anjos e luz sempre apareceram nos momentos decisivos da minha vida e da vida de Jesus. Luz e ardor de amor que uniam, descendo do trono de Deus até mim, sua serva, e subindo do meu coração até Deus, meu Rei e Senhor, eu a Ele e Ele a mim, para que se cumprisse aquilo que estava escrito que se cumprisse, e também para criar um véu de luz sobre os segredos de Deus, de modo que Satanás e os seus servos não conhecessem, antes do tempo certo, a realização do mistério sublime da Encarnação.
649.14Também nesta noite eu estou sentindo os anjos ao meu redor, embora não os veja. E sinto crescer em mim, dentro de mim a luz, uma luz insustentável, como aquela que me envolveu quando concebi o Cristo, quando o dei ao mundo. Luz que vem de um ímpeto de amor mais potente do que o de costume. Por um tal potência de amor arranquei antes do tempo dos Céus o Verbo, para que se tornasse o Homem e o Redentor. Por uma tal potência de amor, como é a que me reveste nesta noite, eu espero que o Céu me arrebate e transporte lá onde desejo ir com o meu espírito para cantar, eternamente, com o povo de santos e o coro dos anjos, o meu imperecível “Magnificat” a Deus pelas grandes coisas que fez em mim, sua serva.
– Não somente com o espírito, provavelmente. E a ti responderá a terra, que com os seus povos e suas nações te glorificará, te dará honra e amor, enquanto o mundo existir, como bem predisse1, ainda que veladamente, Tobias, e não o Santo dos Santos. Tu deste a Deus, tu sozinha, tanto amor quanto o que lhe dão todos os Sumos Sacerdotes e os outros todos do Templo não deram durante séculos e séculos. Amor ardente e puríssimo. Por isso, Deus te fará felicíssima.
– E cumprirá o meu único desejo, a minha única vontade. Porque o amor, quando é tão total que chega a ser quase perfeito, como o do meu Filho e Deus, tudo obtém, até aquilo que pareceria, segundo o pensamento humano, impossível de se obter. Recorda-te, João. 649.15E diz isso também aos teus irmãos. Sereis muito combatidos! Obstáculos de todos os tipos vos farão temer uma derrota, massacre por parte dos perseguidores e deserção por parte dos cristãos, de moral… iscariótica, vos deprimirão o espírito. Não temais. Amai e não temais. Em proporção a quanto amareis, Deus vos ajudará e vos fará triunfadores sobre tudo e sobre todos. Tudo obtemos, se nos tornamos serafins. Então nossa alma, este algo admirável e eterno, que é o próprio sopro de Deus, infuso por Ele em nós, se lança em direção ao Céu, cai como chama aos pés do trono divino, fala e é escutada por Deus, e obtém do Onipotente aquilo que quer. Se os homens soubessem amar como a antiga Lei ordena e como o meu Filho amou e ensinou a amar, obteriam tudo. 649.16Eu amo assim. Por isso sinto que eu cessarei de estar na terra, por excesso de amor, como Ele morreu por excesso de dor. Eis aí. A medida da minha capacidade de amar é plena. A minha alma e a minha carne não conseguem mais contê-la! O amor transborda, me submerge e me eleva ao mesmo tempo em direção ao Céu, a Deus, meu Filho. E a sua voz me diz: “Vem! Sai! Sobe ao nosso trono e a nosso abraço trino!” A terra, tudo o que me circunda, desaparece na grande luz que me vem do Céu! Os rumores são abafados por essa voz celeste! Chegou a hora, para mim, do abraço divino, meu João!
649.17João, que havia se acalmado enquanto escutava Maria, embora sempre transtornado, e que na última parte do discurso a olhava extático e extasiado, ele também, com o rosto muito pálido, como Maria, cuja palidez, porém, foi se mudando lentamente em uma luz cândida, corre junto dela para ampará-la e enquanto isso exclama:
– És como Jesus quando se transfigurou no Tabor! A tua carne resplandece como a lua, as tuas vestes reluzem como pedras de diamante colocada diante de uma chama muito branca! Não és mais humana, Mãe! O peso e a opacidade da carne desapareceram! Tu és luz! Mas não és Jesus. Ele, sendo Deus além de Homem, podia sustentar-se por Si só, lá no Tabor, como aqui, no Horto das Oliveiras, na ascensão. Tu não podes. Não te sustentas. Vem. Eu te ajuda a pousar o teu corpo cansado e beato em tua cama. Repousa-te.
E, muito amorosamente, ele a conduz para o pobre leito, sobre o qual Maria se deita sem retirar nem o manto.
649.18Recolhendo os braços sobre o peito, abaixando as pálpebras sobre os doces olhos, fúlgidos de amor, diz a João que está curvo sobre Ela:
– Eu estou em Deus. E Deus está em mim. Enquanto eu o contemplo e sinto o seu abraço, diz os salmos e as outras páginas da Escritura que se referem a mim, especialmente nesta hora. O Espírito de Sabedoria as indicará a ti. Recita, depois, a oração do meu Filho, repete-me as palavras do Arcanjo anunciador e de Isabel a mim, e o meu hino de louvor… Te acompanharei com aquilo que ainda existe de mim sobre a terra…
João luta contra o pranto que sobe do coração e se esforça para dominar a emoção que o perturba, enquanto com sua belíssima voz que, com o passar dos anos, foi-se tornando parecida com a de Cristo — uma coisa que Maria notou com um sorriso, dizendo: “Parece-me ter a meu lado o meu Jesus!”, — ele entoa2 o Salmo 118, e o diz quase todo, e depois os três primeiros versículos do salmo 41, os primeiros oito do salmo 38, o salmo 22 e o salmo 1°. Diz em seguida o Pai nosso, as palavras de Gabriel a Isabel, o Cântico de Tobias, o capítulo 24 do Eclesiástico, dos versículos 11-46. E finalmente entoa o “Magnificat”. Mas, ao chegar ao nono versículo, percebe que Maria não está respirando mais, mesmo tendo ficado em sua posição natural e com as mesmas feições, sorridente, calma, como se não se tivesse dado conta de que chegara ao fim de sua vida.
João, com um grito dilacerante, joga-se no chão, de encontro com a beira da caminha, e chama, chama Maria. Ele não é capaz de persuadir-se de que Ela não possa responder-lhe mais, que o corpo Dela já esteja sem a alma vital. Mas ele deve deixar-se vencer pela evidência! Ele se inclina sobre o seu rosto, que fixou-se em uma expressão de um gozo sobrenatural, e lágrimas e mais lágrimas chovem de seus olhos sobre aquele rosto suave, sobre aquelas mãos puras, tão docemente cruzadas sobre o peito. É este o único banho que recebeu o corpo de Maria: o pranto do Apóstolo do amor e do seu filho adotivo por vontade de Jesus.
649.19Passado o primeiro ímpeto de dor, João, recordando o desejo de Maria, recolhe as bordas do amplo manto de linho, que pendia da beira do pequeno leito, e também as do véu, que também pendiam do travesseiro, e estende as primeiras sobre o seu corpo e as outras sobre a cabeça. Agora Maria parece uma estátua de mármore branco, estendida sobre a tampa de um sarcófago. João a contempla longamente, e lágrimas continuam a cair dos seus olhos ao olhá-la.
Depois ele dá uma outra disposição aos móveis do quarto, tirando de lá tudo o que é supérfluo. E deixa somente a cama, a pequena mesa ao lado da parede, sobre a qual ele põe o pequeno baú onde estão as relíquias. Depois um escabelo, que ele coloca entre a porta que dá para o terraço e a cama onde está Maria, e uma pequena mesa sobre a qual a candeia, que João acende pois a noite já está chegando.
Ele se apressa, depois, em descer até o Getsêmani para lá colher quantas flores puder encontrar, e ramos de oliveira com as azeitonas já formadas. Torna a subir até o quartinho e, à luz da candeia, vai colocando as flores e folhagens ao redor do corpo de Maria, como se fosse o centro de uma grande coroa.
649.20Enquanto faz esse trabalho, fala com aquele corpo como se Maria ainda pudesse ouvi-lo. Diz:
– Tu sempre foste3 o lírio do vale, a oliveira carregada, vinha frutífera, espiga santa. Tu nos deste os teus perfumes, e o Óleo da vida, o Vinho dos fortes, o Pão que preserva o espírito da morte, para aqueles que dele se nutrem dignamente. Fica bem colocar ao teu redor essas flores, simples puras como tu, ornadas de espinhos como tu, e pacíficas como tu. Agora vamos aproximar essa candeia. Assim, perto do teu leito, para te velar, e me faça companhia enquanto eu te velo, na espera de ao menos um dos milagres que eu aguardo e por cuja realização eu rezo. O primeiro é que, segundo o teu desejo, Pedro e os outros, que mandarei avisar pelo servo de Nicodemos, posam vir ainda uma vez. O segundo é que tu, que tiveste em tudo sorte igual à do teu Filho, como Ele, antes do terceiro dia, despertes, para não fazer de mim órfão por duas vezes. O terceiro é que Deus me dê paz, se o que eu espero acontecer para ti, como aconteceu a Lázaro que não era igual a ti, não acontecesse. Mas por que não deveria acontecer? Voltaram a viver a filha de Jairo, o jovem de Naim, o filho de Teófilo… É verdade que foi o Mestre que agiu… Mas Ele está contigo, mesmo se não de modo evidente. E tu não morreste de doença, como os que ressuscitaram por obra de Cristo. Mas estás morta mesmo? Morta como todo homem morre? Não. Eu sinto que não. O teu espírito não está mais em ti, no teu corpo, e nesse sentido se poderia chamar morte. Mas, pelo modo como o teu trânsito aconteceu, eu penso que a tua não é que uma separação transitória da tua alma sem culpa e plena de graça do teu corpo puríssimo e virginal. Deve ser assim! É assim! Com e quando acontecerá a união e a vida voltará a ti, eu não sei. Mas estou tão certo disso que ficarei aqui, ao teu lado, até que Deus, ou com a sua palavra, ou com a sua ação, me mostrará a verdade sobre a tua sorte.
João, que acabou de pôr em ordem todas as coisas, vai sentar-se no escabelo, pondo no chão, perto da caminha, a candeia. E contempla, rezando, o corpo que lá jaz.
1 predisse, em: Tobias 13,13-18.
2 entoa os passos da Escritura que MV elenca em referência à “vulgata”, mas que na “neovulgata” encontram-se, respectivamente, em: Salmo 119; Salmo 42,1-3; Salmo 39,1-8; Salmo 23; Salmo 1; Tobias 13; Sirácida 24.
3 foste sempre, em referência a: Cântico dos cânticos 2,1-2; Sirácida 24,14-17; Salmo 104,13-15.
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