554. 554. O sábado em Efraim, com os apóstolose as três crianças sobre uma pequena ilha na torrente.
12 de janeiro de 1947.
554.1– Levantai-vos e vamos ao longo da torrente. Como os hebreus longe de sua pátria e em lugares onde não há sinagogas, iremos celebrar o sábado entre nós. Vinde, meninos –diz Jesus aos apóstolos, que estão juntos sem fazer nada na horta da casa, e estende a mão aos três pobres meninos que estão juntos num canto.
Correm para Ele com uma ainda tímida alegria em seus rostinhos, já pensativos antes do tempo por terem visto coisas grandes demais para eles; e os dois maiores põem suas mãozinhas nas mãos de Jesus, mas o mais pequenino quer ser pego nos braços e Jesus o contenta, dizendo ao maior:
– Tu ficarás a meu lado e segurarás em minha veste como ontem. Mas Isaque está cansado demais e é pequeno para poder dar seus passos sozinho…
O maiorzinho recebe o sorriso de Jesus e concorda, contentando-se de caminhar ao lado de Jesus como um homenzinho.
– Dá-me o menino, Mestre. Tu deves estar ainda cansado de ontem, e Ruben está triste por não poder dar-te a mão… –diz Bartolomeu, e procura tirar o pequenino que está agarrado ao pescoço de Jesus.
– Ele é teimoso como toda a sua raça –exclama Iscariotes.
–Não. Ele está amedrontado. Tu não entendes nada de filhos. Os pequenos são assim mesmo. Quando estão aflitos e espantados, procuram refúgio no primeiro que lhes sorriu e lhes deu algum sinal de amizade –diz-lhe Bartolomeu.
E, não podendo tomar nos braços o menor dos três, dá a mão ao maior, depois de ter-lhe acariciado os cabelos e dado um sorriso de pai.
554.2Saem da casa na qual fica somente a mulher, e vão acompanhando a torrente para fora do povoado. São belas as suas margens, que as ervas novas recobrem e as flores do prado adornam, formando constelações. A água é limpa e muito clara, indo por entre as pedras; e ainda que seja pouca, vai cantando, dando suas notas como uma harpa, e se arrasta, esbarrando nas pedras maiores que estão espalhadas pelo leito, ou então procura passar por entre as partes mais baixas de alguma pequena ilha cheia de caniços. Das árvores de perto das margens os passarinhos saem como flechas com seus trilos de alegria, ou então, vão pousar sobre algum ramo e se expor ao sol, enquanto cantam as primeiras canções da primavera; ou descem graciosos e cheios de vida para procurar insetos e vermes no chão, ou ainda para beber nas margens. Duas pombinhas selvagens estão tomando seu banho em uma curva da margem, e se coçam com os bicos, arrulhando, e depois levantam voo e lá se vão, levando em seus bicos pequenos fiapos de lã, deixados por alguma ovelha em algum pé de espinheiro-alvar, que está começando a florir nas extremidades.
– É assim que eles fazem para construir os seus ninhos –diz o menino maior–. Certamente estão com filhotes.
Ele inclina bem a cabeça e depois de ter tido uma sombra de sorriso às primeiras palavras, chora, sem fazer barulho, e enxuga os olhos com a mão.
Bartolomeu o pega nos braços, compreendendo qual foi a ferida que remexeram as duas pombinhas com aqueles cuidados. E Bartolomeu suspira como quem tem o coração bem formado de um bom pai de família. O menino está chorando sobre o ombro dele, e o outro, o segundo, vendo aquele choro, por sua vez põe-se a chorar, e é imitado pelo terceiro, que está chamando o pai, com sua vozinha de pequerrucho que mal sabe falar.
– Esta hoje é que vai ser a nossa oração do sábado! Podíeis tê-los deixado em casa! A mulher está mais preparada do que nós para esses casos… –observa Iscariotes.
– Mas ela também só sabe chorar! Como, aliás, eu estou com vontade de fazer… Porque estas são coisas… que fazem chorar… –responde-lhe Pedro, tomando nos braços o segundo menino.
– Sim. São coisas… que fazem chorar. É verdade. E Maria de Jacó, uma pobre velha aflita, não está em boas condições para consolar…
–confirma o Zelotes.
– Também nós parece que não conseguimos muita coisa. 554.3O único que podia consolar era o Mestre. E Ele não o fez.
– Ele não o fez? E que é mais que Ele tinha que fazer? Ele persuadiu os ladrões, andou muitas milhas com os meninos nos braços, tomou providências para que os parentes deles fossem avisados…
– Tudo isso são coisas secundárias. Ele, que é Aquele que dá ordens até à morte, podia, ou melhor, devia descer até o ovil e ressuscitar o pastor. Pois Ele fez isso com Lázaro, que não era útil a ninguém! Mas aqui se tratava de um pai e, além disso, de um viúvo, pai dos meninos que ficaram sozinhos… Esta era a ressurreição que se devia fazer. Eu não te entendo, Mestre…
– E nós não te entendemos, a ti que és tão desrespeitoso.
– Paz, paz! Judas não compreende. E não está sozinho ao não compreender as razões de Deus e as consequências do pecado. Tu também, Simão de Jonas, não compreendes por que é que os inocentes devem sofrer. Portanto, não queirais ficar julgando Judas de Simão, que não compreende por que é que o homem não foi ressuscitado. Se Judas refletir, ele que sempre me censura por ir sozinho e longe, compreenderá que Eu não podia ir tão longe assim… Pois o ovil era na planície de Jericó, mas para lá da cidade, perto do vau. Que teríeis dito se fosse longe, a uns três dias de viagem?
– Tu podias comandar com o teu espírito ao morto que ressurgisse.
– És tu mais incrédulo do que os fariseus e escribas, que quiseram ver a prova com um morto já decomposto no túmulo a fim de poder dizer que de fato Eu ressuscito os mortos?
– Mas eles assim queriam porque te odeiam. E eu assim quereria porque te amo, e quereria ver-te esmagar todos os teus inimigos.
– É o teu velho sentimento e o teu amor desordenado. Não soubeste arrancar do teu coração as plantas velhas, para substituí-las por novas. E assim as velhas, fertilizadas pela Luz da qual te aproximaste, tornaram-se ainda mais robustas. O teu erro é o erro de muitos, tanto nos tempos presentes como nos futuros. É o erro daqueles que, apesar da ajuda de Deus, não se trasnformam porque não correspondem com uma vontade heroica ao socorro que vem de Deus.
– Com isso talvez queres dizer que estes, que são teus discípulos como eu, destruíram as plantas velhas?
– Pelo menos eles as podaram e nelas puseram muitos enxertos. Tu não fizeste nada disso. Nem foste olhar com atenção se elas mereciam receber enxertos, ou podaduras, ou ser arrancadas. Tu és um jardineiro negligente, Judas.
– Mas só com minha alma. Porque, quanto a jardins, eu sei como fazer.
– Sabes como fazer. Para todas as coisas da Terra tu sabes como fazer. Eu queria ver-te igualmente capaz para as coisas do Céu.
– Mas a tua luz deveria, por si mesma, fazer em nós todos os prodígios! Ela não é boa? Se ela torna fértil o mal e lhe dá forças, então ela não é boa, e a culpa é dela se nós não ficamos bons.
– Fala por ti, meu amigo! Eu nunca achei que o Mestre tenha feito mais fortes as minhas más tendências –diz Tomé.
– Nem eu… Nem eu também –dizem Tomé e Tiago de Zebedeu.
– A mim, na verdade, o poder dele livrou-me do mal e me tornou novo. Por que é que falas desse modo? Não refletes sobre o que dizes? –pergunta Mateus.
554.4Pedro estava para falar, mas preferiu ir andando e pôs-se a caminhar depressa com o pequenino no colo, imitando o oscilar de uma barca para fazê-lo rir. E, ao passar, pega por um braço Tadeu e grita:
– Eia, vamos lá àquela ilha! Está cheia de flores e até parece um cesto. Vinde, Natanael, Filipe, Simão, João. Um bom pulo e estaremos lá. A torrente, assim partida em duas, passou a ser dois rios, um de um lado e o outro do outro da ilha…
E pula por primeiro, pondo o pé sobre uma saliência pedregosa com a largura de poucos metros, coberta de ervas como um prado, florida com as primeiras flores parecendo um tapete, no centro da qual está um choupo solitário, alto e esbelto, que balança sua copa ao sopro de um ventozinho leve. Os que ele chamou o vão alcançando lentamente, acompanhados por aqueles que estavam mais perto de Jesus, que fica atrás conversando com Iscariotes.
– Mas não terminou ainda aquilo lá? –pergunta Pedro ao seu irmão.
– O Mestre está trabalhando no coração dele –responde André.
– É mais fácil que consiga fazer que apareçam figos nesta árvore do que ver a justiça aparecer no coração do Judas.
– E na inteligência dele –exige ainda Mateus.
– Ele é um estulto porque o quer ser, e quando quer –diz Tadeu.
– Ele está sentido porque não foi escolhido para evangelizar. Eu sei –explica João.
– Mas por mim… Se ele quiser ir em meu lugar… Já não terei que viver circulando! –exclama Pedro.
– Nenhum de nós se preocupa com isso. Mas ele, sim. Contudo, o meu irmão não o quer mandar. Esta manhã eu lhe falei, porque havia percebido o humor em que estava Judas e quais as causas porque ele estava daquele modo. Mas Jesus me disse: “Justamente porque se trata de um coração doente, é que Eu o conservo perto de Mim. São os sofredores e os fracos que precisam do médico e de quem os ajude.”
– Sim!… Está bem! 554.5Vinde, meninos. Vamos apanhar aqueles belos caniços e fazer com eles umas barquinhas. E dentro delas, como se fôssemos pescadores, coloquemos estas florzinhas. Vede se não se parecem com cabeças com capuzes brancos e vermelhos… Aqui nós faremos o porto e aqui, isso mesmo, as casinhas dos pescadores. Agora, amarremos os barcos com estas belas ervas finas, e vós fazei-as andar sobre a água, assim…, e depois puxai-as para a beira, depois da pesca… Podeis também dar uma volta ao redor da ilha, e prestando atenção nos escolhos, e…
Pedro é de uma paciência admirável. Trabalhou com uma faca sobre pedaços de caniços, cortando-os de um nó até o outro e rachando-os ao meio para transformá-los em pequenas barquinhas; e colocou para fazerem de pescadores umas margaridas do prado, ainda em botões, cavou na areia um ponto para os anões liliputianos e ergueu umas casinhas com areia úmida, conseguindo o que queria para recrear os meninos, e vai sentar-se, satisfeito, murmurando:
– Pobres criaturas!…
Jesus põe o pé sobre a ilha justamente quando os dois menininhos começam o seu brinquedo e os acaricia, pondo no chão o menor deles, que vai unir-se à brincadeira dos irmãozinhos.
– Aqui estou entre vós. E agora vamos falar de Deus. Porque falar de Deus e falar a Deus já é preparar-se para a missão. E depois de ter feito uma oração, isto é, depois de ter falado a Deus, iremos falar de Deus, que está presente nas coisas todas para instruir-nos sobre as coisas boas. Vamos. Levantai-vos e rezemos –e entoa uns salmos em hebraico, aos quais fazem coro os apóstolos.
Os meninos, que se haviam afastado com suas barquinhas, suspendem o tagarelar de suas vozinhas e os seus brinquedos, e se aproximam para ouvirem os homens cantando. Ficam escutando com atenção, com os olhos fixos em Jesus, que para eles é tudo, e depois, com aquele espírito de imitação próprio de meninos, tomam a mesma postura dos que estão rezando e procuram acompanhar o canto, e somente com a voz, pois não sabem as palavras dos salmos. Jesus abaixa o olhar e olha para eles com um sorriso que faz aumentar o canto das vozinhas inocentes. Eles se sentem aprovados e criam coragem…
O canto dos salmos chegou ao fim. 554.6Jesus se assenta sobre a grama e começa a falar:
– Quando os reis de Israel, de Edom e de Judá1 se reuniram para combaterem contra o Rei de Moab e se dirigiram ao profeta Eliseu para pedirem conselho,ele respondeu ao enviado do rei: “Se não tivesse respeito por Josafá, rei de Judá, nem teria te olhado. Mas agora conduzi-me um tocador de harpa.” E enquanto o harpista tocava, Deus falou ao seu profeta, mandando que ele fizesse cavar fossas e mais fossas na torrente seca, a fim de serem enchidas com água para os homens e os animais. E na hora do sacrifício matutino, a torrente, sem que estivesse soprando vento nem caindo chuva, encheu-se, como o Senhor havia dito. Quais são, segundo o vosso parecer, as lições que podemos tirar deste episódio? Falai!
Os apóstolos se consultam um ao outro. Um deles diz:
– Deus não fala na perturbação do coração. Eliseu quer aplacar a indignação que surgiu dentro dele, ao ver-se na frente do rei de Israel, para poder ouvir a Deus.
Outro, por sua vez, diz:
– É uma lição de justiça. Eliseu, para não punir o inocente rei de Judá, salva também o culpado.
E outros dizem:
– É uma lição de obediência e de fé. Eles cavaram as fossas, obedecendo à ordem que aparentemente era tola, e ficaram esperando com fé a água, mesmo estando o tempo sereno e sem sinal de vento no céu.
– Vós respondestes bem, mas não totalmente bem. Na perturbação do coração, Deus não fala. É verdade. Mas não são necessárias harpas para acalmar o coração. Basta ter a caridade, que é a harpa espiritual e que dá notas de paraíso. Quando uma alma vive na caridade, tem o coração calmo, ouve a voz de Deus e a compreende.
– Então Eliseu não tinha caridade, porque estava perturbado!
– Eliseu é do tempo da justiça. É necessário saber transportar para o tempo da caridade os episódios antigos, e vê-los, não à luz dos fulgores, mas à luz dos astros. Vós sois dos tempos novos. Por que, então, tão frequentemente vós estais mais iracundos e perturbados do que aqueles do tempo antigo? Despojai-vos do passado. Eu o repito, mesmo que Judas não goste de ouvir repetição. Extirpai, podai, enxertai, cultivai plantas novas. Renovai-vos, cavai as fossas da humildade, da obediência, da fé. Aqueles reis assim souberam fazer e eram dois contra um, não de Judá, e não deram ouvidos a Deus, mas sim ao profeta de Deus, que repetia quais eram as vontades do Altíssimo. Eles teriam morrido de sede no tempo daquela seca se não tivessem sabido obedecer. Obedeceram e as águas encheram as fossas cavadas, e eles não somente ficaram livres da sede, mas venceram os inimigos. Eu sou a Água da Vida. Cavai fossas nos vossos corações para poderdes receber-Me. 554.7E agora, escutai. Eu não faço longos discursos. Eu vos dou umas sentenças para que nelas mediteis. Vós sereis sempre como estes meninos, e até menos do que eles, porque eles são inocentes e vós não o sois, e é por isso que é mais fosca em vós a luz espiritual, se não vos habituardes a meditar. Vós escutais sempre, mas não o conservais, porque a vossa inteligência está dormindo em vez de estar em atividade. Portanto, ouvi2. Quando morreu o filho da Sunamite, ela quis ir ao profeta, ainda que seu marido lhe dissesse que não era o primeiro dia do mês nem era sábado. Mas ela sabia que devia ir, porque para certas coisas não se admitem atrasos. E, visto que ela soube compreender o espírito das coisas, teve o seu filho ressuscitado. Que dizeis sobre esse fato?
– Que isso é uma censura a mim por causa do sábado –diz Iscariotes.
– Estás vendo, pois, ó Judas, que quando queres sabes compreender? Abre, então, o teu espírito para a justiça.
– Sim… Mas Tu não violaste o sábado para ressuscitar o homem.
– Eu fiz mais do que isso. Eu impedi a ruína total, a morte destes, a verdadeira morte. E fiz os ladrões se lembrarem de que…
– Oh! Espera para consolar-te por teres feito alguma coisa! Eu não creio que eles te tenham obedecido…
– Se o Mestre o diz…
– Também Eliseu, na história da Sunamite, diz: “O Senhor me escondeu isso.” Portanto, nem sempre se sabe tudo, mesmo por parte dos profetas –replica Iscariotes.
– O nosso irmão é mais do que um profeta –observa Tadeu.
– Eu sei. É o Filho de Deus. Mas é também Homem. E, como tal, Ele pode estar sujeito a não saber de certas coisas secundárias, como esta de uma conversão e de uma volta… Mestre, sabes mesmo sempre, sempre tudo? Eu muitas vezes pergunto isso a mim mesmo…
–persiste tenazmente, em seu coração, Iscariotes.
– E com que intenção? Para dar-te paz? Para aconselhar-te? Para perturbar-te? –pergunta Jesus.
– Mas… Eu não saberia. Pergunto-o a mim mesmo e…
– E pareces perturbado até quando o perguntas a ti mesmo –diz Tomé.
– Eu? É verdade que a perplexidade sempre perturba…
– Quantas sutilezas! Eu não preciso de tantas. Eu creio sem ficar indagando, e não fico perplexo e perturbado sem motivo. Mas deixemos que o Mestre fale. A mim não me agrada esta lição. Conta-nos uma parábola, Mestre. Ela agradará aos meninos também –diz Pedro.
554.8– Tenho ainda uma coisa a perguntar. É esta: qual o significado que tem para vós a farinha que tira o amargor da sopa dos filhos dos profetas?
A resposta a esta pergunta foi um profundo silêncio.
– E então? Não sabeis responder?
– Talvez porque a farinha absorve o amargor… –diz, duvidoso, Mateus.
– Tudo teria ficado amargo, a farinha também.
– Por um milagre do profeta, que não queria envergonhar o seu servo –sugere Filipe.
– Também. Mas não só por isso.
– O Senhor quis fazer brilhar o poder do profeta até nas coisas materiais comuns –diz Zelotes.
– Sim. Mas não é ainda o sentido justo. As vidas dos profetas antecipam o que haverá depois, quando chegar a plenitude do tempo, o meu. Elas reproduzem o meu dia nesta Terra sob a forma de símbolos e figuras. Portanto…
Silêncio. Olham-se uns aos outros. Depois João inclina a cabeça, fica com um rosto brilhante e sorri.
– Por que é que não dizes o teu pensamento, João? –interroga-o Jesus–. Não é falta de amor falar, porque não o fazes para humilhar ninguém.
– Penso que queira dizer o seguinte. Que no tempo da fome da verdade e da carestia da Sabedoria, que é este no qual Tu vieste, todas as árvores se tornaram selvagens e deram frutos amargos, intragáveis e tóxicos para os filhos dos homens, que, assim sendo, em vão os colhem e os preparam para poderem se nutrir. Mas a bondade do Eterno Te mandou como a farinha de trigo escolhido, e Tu, com a tua perfeição, tiras o veneno de todos os alimentos, tornando-os novamente bons, e as árvores das Escrituras, que os séculos desnaturaram, e também os gostos dos homens que a concupiscência corrompeu. Nesse caso, aquele que manda levar-lhe a farinha e a louça no caldeirão é o teu Pai, e Tu és a farinha que se santifica para fazer-se alimento dos homens. E depois de tua consumação, nada mais de amargo haverá no mundo, porque Tu terás restabelecido a amizade com Deus. 554.9Posso ter errado.
– Não erraste. Este é o símbolo.
– Oh! E como fizeste para pensar nisso? –pergunta, pasmado, Pedro.
E Jesus lhe responde:
– Eu te digo com as mesmas palavras que disseste há pouco. Com um belo salto estamos na ilha pacífica e florida da espiritualidade. Mas é necessário ter a coragem de dar o salto, abandonando a margem, o mundo. Saltar sem ficar pensando se há alguém que pode rir-se de nosso salto meio indeciso, ou zombando de nós pela nossa simplicidade em gostar mais de uma ilhazinha solitária do que do mundo. É preciso saltar sem o medo de ferir-se ou de molhar-se, ou de ficar desiludidos. Deixai tudo, para refugiar-vos em Deus. Ir colocar-se sobre a ilha separada do mundo e de lá sair unicamente para distribuir, aos que ficaram nas margens, as flores e águas puras apanhadas na ilha do espírito, onde só existe uma árvore: a árvore da Sabedoria. Estando perto dela e longe dos fragores do mundo, compreendem-se todas as palavras e nos tornamos mestres, se soubermos ser discípulos. Isto também é um símbolo. 554.10Mas agora contaremos uma bela parábola aos pequeninos. Vinde cá, para bem perto de Mim.
Os três meninos vão tão para perto de Jesus, que chegam a sentar-se precisamente em suas pernas. Jesus os toma nos braços e começa a narrar:
– Um dia o Senhor Deus disse: “Farei o homem, e o homem viverá no Paraíso Terrestre onde está o grande rio, que depois se divide em quatro, e que são: o Fison, o Geon, o Eufrates e o Tigre, que percorrem a terra. E o homem será feliz tendo todas as belezas e bondades da Natureza e o meu amor para alegria do seu espírito.” E assim fez. Era como se o homem estivesse em uma grande ilha, mas ainda mais florida do que esta, com plantas de todas as espécies e com todos os animais. E que acima dele estivesse o amor de Deus a fazer de sol para sua alma, e a voz de Deus estava nos ventos, mais melodiosa do que o canto dos passarinhos.
Mas aconteceu que nessa bela ilha florida, por entre todos os animais e plantas, entrou, arrastando-se, uma serpente, diferente daquelas que haviam sido criadas por Deus e que eram todas sem veneno nos dentes nem ferocidade nas espiras de um corpo flexível. Além disso, aquela serpente se havia vestido de uma pele com as cores das pedras preciosas que as outras tinham, e até se fizera mais bonita do que elas, chegando até a parecer um grande colar de rei que estivesse pulando por entre as esplêndidas árvores do jardim. Ela foi enroscar-se ao redor de uma árvore que se erguia no meio do jardim, uma árvore bonita, solitária, muito mais alta do que esta, coberta de folhas e de frutos maravilhosos. E a serpente parecia uma joia, ao redor da bela árvore que cintilava ao sol; e todos os animais olhavam para ela,porque nenhum deles se lembrava de ter visto Deus criá-la, nem de tê-la visto antes. Mas ninguém se aproximava dela, pelo contrário, todos se afastavam da árvore, que tinha a serpente ao redor de seu tronco.
Somente o homem e a mulher é que se aproximaram de lá, a mulher antes do homem, porque lhe agradava aquela coisa reluzente que brilhava ao sol e movia a cabeça, parecendo uma flor ainda entreaberta, e ouviu o que a serpente estava dizendo, e desobedeceu ao Senhor e fez que Adão desobedecesse também. Somente depois de terem desobedecido é que viram a serpente como ela era e compreenderam o pecado, porque já tinham perdido a inocência do coração. E foram esconder-se de Deus, que os estava procurando, e ainda mentiram a Deus que os interrogava.
Então, Deus enviou anjos às fronteiras do jardim e expulsou dele os homens. Foi como se os homens tivessem sido jogados da margem segura do Éden aos rios da terra, cheios de água, como quando chegam as cheias da primavera. Mas Deus deixou ainda no fundo dos corações dos expulsos a lembrança do seu destino eterno, isto é, da passagem pelo belo jardim, onde ouviam a voz e o amor de Deus, no Paraíso, onde tinham gozado de Deus completamente, E, junto com essa lembrança, deixou-lhes o estímulo santo de procurarem subir de novo para o lugar que haviam perdido, levando agora uma vida de justiça.
Mas, meus meninos, vós o vistes há pouco como, enquanto a barca vai descendo, é fácil o seu caminho, ao passo que, quando ela tem que subir, sente-se cansada e com dificuldade até só para flutuar, para não ser revirada pela onda e para não naufragar por entre as ervas, as areias ou pedras do fundo do rio. Se Simão Pedro não tivesse amarrado as vossas barquinhas com os juncos finos da margem, vós as teríeis perdido todas, assim como aconteceu a Isaque, por ter deixado o junco ir-se embora.
O mesmo acontece com os homens jogados sobre as correntes desta terra. Eles precisam estar sempre nas mãos de Deus, entregando suas vontades, como se fez com o junco, nas mãos do bom Pai que está nos Céus, e que é Pai de todos, especialmente dos inocentes; e devem ter os olhos vigilantes a fim de evitar as ervas e tropeços, as pedras e redemoinhos e a lama que poderiam impedir-lhes a passagem, ou engolir a barca de sua alma, arrancando o fio da vontade que os conserva unidos a Deus. Porque a Serpente, que não está mais no Jardim, está agora sobre a terra, e procura somente isto: fazer que naufraguem as almas, procura impedi-las de subir de novo pelo Eufrates, o Tigre, o Geon e o Fison, para irem ao Grande Rio que corre no Paraíso Eterno e alimenta as árvores da Vida e da Salvação, que estão carregadas com os frutos perenes dos quais gozarão todos aqueles que souberam subir de novo pela corrente para se reunirem com Deus e com os seus anjos, sem terem nunca mais de sofrer nada.
554.11– A mamãe dizia isso mesmo –diz o maiorzinho dos meninos.
– Sim, ela o dizia –confirma o menor dos três.
– Tu não podes saber. Eu, sim, que sou grande. E se dizes coisas não verdadeiras tu não entras no Paraíso.
– Mas o pai dizia que nada disso é verdade –observa o do meio.
– É porque ele não acreditava no Senhor da mamãe.
– Teu pai não era samaritano? –pergunta Tiago de Alfeu.
– Não. Era de outros lugares. Mas a mamãe era, e nós também somos, pois ela nos queria como a si mesma. E nos falava do Paraíso e do Jardim, mas não tão bem como Tu falaste. Eu tinha medo da serpente e da morte, porque minha mãe dizia que a serpente era o diabo e o pai dizia que com a morte tudo se acaba. Por isso eu era muito infeliz por estar sozinho, e até dizia que é inútil ser bom agora, porque, enquanto meu pai e minha mãe eram vivos, ainda se tinha alegria em ser bons, mas agora não havia mais ninguém para fazer-nos ser felizes com a nossa bondade. Mas agora eu sou… E serei bom. Não tirarei mais o meu fio das mãos de Deus, a fim de não ser levado embora pelas águas da terra.
– Mas a mamãe foi levada para cima ou para baixo? –pergunta, com perplexidade, o segundo menino.
– Que queres dizer, menino? –pergunta Mateus.
– Eu pergunto: onde é que ela está. Terá ido para o rio do Paraíso eterno?
– Esperamos que sim, menino. Se ela era boa…
– Era samaritana… –diz, com desprezo, Iscariotes.
– E, então, não há Paraíso para nós porque somos samaritanos? Então nós não teremos Deus? Ele o chamou como “O Pai de todos.” Eu, que sou um órfão, me alegrava em pensar que ainda tenho um Pai… Mas se para nós não há… –e inclina a cabeça aflito.
– Deus é o Pai de todos, meu menino. Será que Eu te amei menos por seres samaritano? Eu te tomei dos ladrões e te tomarei do demônio, do mesmo modo que eu tomaria o filho do Sumo Sacerdote do Templo de Jerusalém se ele não julgasse um opróbrio que o Salvador salvasse o seu filho. Pelo contrário, mais ainda Eu te amo, porque tu és sozinho e infeliz. Para mim não há diferença entre o espírito de um judeu e o de um samaritano. E daqui a pouco não haverá mais divisão entre Samaria e Judéia, e o Messias terá um único povo que levará o seu Nome e com o qual estarão todos aqueles que o amarem.
– Eu te amo, Senhor. Mas me levarás à minha mãe? –diz o maior dos meninos.
– Tu não sabes onde ela está. Aquele homem o disse, que é só esperar… –diz o segundo filho.
– Eu não sei, mas o Senhor sabe. Ele soube até onde estávamos nós, e nós não sabemos nem onde estávamos.
– Com os ladrões… Eles nos queriam matar…
O terror volta ao rosto do segundo menino.
– Os ladrões eram como uns demônios. Mas Ele nos salvou, porque os nossos anjos o chamaram.
– Também à mamãe foram os anjos que salvaram. Eu sei disso porque sonho sempre com ela.
– Tu és um mentiroso, Isaque. Não podes sonhar com ela. Não te lembras dela.
O pequeno chora dizendo:
– Não. Não. Eu sonho com ela. Eu sonho com ela…
– Não chames de mentiroso a teu irmão, Ruben. A alma dele pode muito bem ver a mamãe, porque o bom Pai do Céu pode conceder ao orfãozinho que sonhe com ela e a conheça parcialmente, assim como lhe concede conhecer pessoalmente ao próprio Deus. A fim de que desse conhecimento limitado venha uma boa vontade de conhecê-lo perfeitamente, e isso se consegue procurando ser sempre muito bons. 554.12E agora vamos. Já falamos com Deus e o sábado foi santificado.
Ele põe-se de pé e entoa outros salmos.
Algumas pessoas de Efraim, ao ouvirem aquele coro, daquela vez vêm também e ficam esperando com respeito que o salmo chegue ao fim para saudar Jesus e dizer-lhe:
– Tu preferiste vir para cá em vez de ires para nós. Então, não nos amas?
– Nenhum de vós me convidou. Por isso Eu vim para cá com os meus apóstolos e com os meninos.
– É verdade. Mas nós pensávamos que o teu discípulo te tivesse falado de nosso desejo.
Jesus olha para João e para Judas. E Judas responde:
– Eu me esqueci de dizê-lo ontem. E hoje eu me distraí com estes meninos.
Enquanto isso, Jesus vai deixando a ilhazinha, atravessa o pequeno braço do rio e vai andando com os de Efraim. Os apóstolos o acompanham, enquanto os meninos ficam para trás, a fim de desligarem as duas barquinhas de caniço que sobraram e, a Pedro que as pede, eles dizem:
– Queremos guardá-las para nos lembrarmos da lição.
– E eu? Eu a perdi. E não a recordarei. E não irei ao Paraíso –chora o menor dos três.
– Espera! Não chores! Eu te farei logo uma barquinha. Pois tu também deves lembrar-te da lição. É… Mas seria preciso que nós todos fizéssemos uma barquinha com o seu junco amarrado na proa para nos lembrarmos. Nós, homens, precisamos mais do que vós meninos. Contudo… –e Pedro corta e faz a barquinha com o seu junco,toma nos braços, com uma braçada só, os três meninos e salta por cima do rio, indo para perto de Jesus.
– São estes? –pergunta Malaquias de Efraim.
– São estes.
– E são de Siquém?
– Assim disse o pastorzinho, que os pais deles eram dos campos.
– Pobres meninos! Mas se os parentes deles não viessem, que farias?
– Eu ficaria com eles. Mas eles virão.
– E aqueles ladrões? Não virão também eles?
– Não virão. Mas não tenhais medo por eles. Mesmo que viessem… Eu é que seria o predador deles, e não eles os vossos predadores. Eu já tomei deles quatro presas e espero ter arrancado um pouco as almas deles do pecado, pelo menos de alguns.
– Nós te ajudaremos quanto a estes meninos.
– Sim. E não porque são da vossa região, mas porque eles são inocentes, e o amor para com os inocentes é um caminho que conduz rapidamente para Deus.
– Mas tu não fazes distinção entre uns inocentes e outros. Um judeu não teria acolhido estes pequenos samaritanos nem um galileu. Nós não somos amados. E a falta de amor para conosco têm-na também aqueles que nem sabem ainda o que é ser samaritanos e judeus. Pois isso é uma coisa cruel.
– Sim. Mas não será mais assim quando se seguir a minha Lei. Estás vendo, Malaquias? Eles estão nos braços de Simão Pedro, de um dos meus irmãos e de Simão, o Zelotes. Nenhum deles é samaritano nem pai. Contudo, nem tu apertas sobre o coração com tanto amor os teus filhos como estes meus discípulos o fazem com os órfãos de Samaria. A ideia messiânica é esta: reunir todos no amor. Esta é a verdade da ideia messiânica. Um só povo sobre a terra sob o cetro do Messias. Um só povo no Céu sob o olhar de um só Deus.
E vão-se afastando… conversando, e indo para a casa de Maria de Jacó.
1 os reis de Israel, de Edom e de Judá, como em 2 Reis 3,1-20.
2 ouvi o que se narra em 2 Reis 4,18-37. Aos versos seguintes 38-41, depois se fará referência a Jesus, recordando a farinha que leva o amargo.
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