592. 592. Segunda-feira santa. Conforto à mãe de Análiae encontro com o legionário Vital.A figueira estéril e a parábola dos vinhateiros pérfidos.As perguntas sobre a autoridade de Jesus e o batismo de João.
31 de março de 1947.
592.1Jesus sai depressa da tenda de um galileu, lá sobre o pequeno planalto do Olival, onde muitos galileus se reúnem por ocasião das solenidades. O campo está todo ainda dormindo sob a claridade da lua, que vai se pondo lentamente, cobrindo com sua luz de prata as tendas, as árvores e os declives. E lá embaixo a cidade está dormindo…
Jesus passa com segurança e sem fazer barulho por entre uma tenda e outra e, depois de sair do campo, desce rapidamente por uns caminhos escarpados, indo para o Getsêmani, o atravessa e sai dele deixando para trás a pequena ponte sobre o Cedron, que é como uma fita de prata que canta para a lua, e chega à porta guardada pelos legionários. Talvez seja uma medida de precaução tomada pelo Procônsul, essa escolta noturna diante das portas fechadas. Os soldados, que são quatro, estão conversando sentados sobre grandes pedras que estão servindo de cadeiras, encostadas ao muro forte, e se aquecem ao lado de um pequeno fogo de estrepes secos que projetam uma luz avermelhada sobre as couraças brilhantes e sobre os capacetes severos, sob os quais emergem uns rostos tão diferentes, em sua fisionomia itálica tão diferente da dos hebreus.
– Quem vem lá? –diz o primeiro que vê aparecer a alta figura de Jesus por detrás da esquina de um casebre que está perto da porta, e o soldado sobraça a hasta que termina em uma lança pontiaguda.
Ele estava apoiado no muro, perto dali, e se põe na posição regulamentar sendo imitado pelos outros. E sem dar tempo a Jesus de responder, ele lhe diz:
– Agora não se entra. Não sabes que na segunda vigília termina a entrada?
– Eu sou Jesus de Nazaré. Estou com minha Mãe na cidade. E estou indo a Ela.
– Oh! É o homem que ressuscitou o morto em Betânia! Por Júpiter! Finalmente, eu o irei ver.
E vai para perto de Jesus olhando para Ele com curiosidade, e andando ao redor dele para certificar-se de que não é alguma coisa irreal, estranha, mas um homem mesmo, como os outros. E ele diz:
– Oh! Numes! Ele é belo como Apolo, mas em tudo mais é como nós. E não traz nem bastão nem chapéu, e nenhum sinal do seu poder.
Ele está perplexo. Jesus olha para ele pacientemente. Sorrindo-lhe com doçura. Os outros, que são menos curiosos — talvez já tenham visto Jesus em outras ocasiões — dizem:
– Teria sido bom que Ele tivesse estado aqui na metade da primeira vigília, quando foi levada para o sepulcro a bela menina que morreu esta manhã. Nós o teríamos visto ressuscitá-la…
Jesus docemente repete:
– Posso ir até minha Mãe?
Os quatro soldados voltam a si. O mais velho deles fala:
– Na verdade a ordem seria de não deixar passar. Mas Tu passarias do mesmo modo. Aquele que força até as portas do Hades pode muito bem forçar as portas de uma cidade fechada. Além disso, Tu não és homem suscitador de sublevações. Portanto, para Ti a proibição não vale. Toma cuidado para não seres visto pelas rondas do lado de dentro. Abre, Marcos Grato. E Tu, passa sem fazer barulho. Nós somos soldados e temos que obedecer…
– Não temais. A vossa bondade não merecerá castigo para vós.
Um legionário abre com cuidado uma passagem que há no enorme portão, e diz:
– Passa depressa. Daqui a pouco termina a vigília e nós vamos ser substituídos pelos que devem vir depois de nós.
– A paz esteja convosco.
– Mas nós somos homens de guerra…
– Até na guerra a paz que Eu dou permanece, porque é a paz da alma.
E Jesus mergulha na escuridão do buraco que se abriu através dos muros. Ele passa silencioso pela frente do corpo de guarda e o buraco aberto deixa sair a luz trêmula de uma candeia de azeite. É uma lâmpada comum, suspensa do forro por um gancho, e com a luz dela podem ver-se os corpos dos soldados que estão dormindo sobre umas esteiras no chão, todos enrolados em seus mantos e com as armas aos seus lados.
592.2Jesus já está na cidade… e eu o perdi de vista, enquanto fiquei observando dois daqueles soldados que estão entrando e que observam se Ele se afastou, antes de entrar e despertar os que estão dormindo, pois é a troca do turno.
– Não o estamos vendo mais… Que terá Ele querido dizer com aquelas palavras? Eu gostaria de sabê-lo –diz o mais novo.
– Tu devias ter-lhe feito a pergunta. Ele não nos despreza. É o único hebreu que não nos despreza, que não nos maltrata de modo algum –responde o outro que já tem mais idade.
– Não tive coragem. Logo eu, um camponês de Benevento, ir falar a alguém que dizem ser Deus?
– Um Deus montado num jumento? Ah! Ah! Se Ele fosse um bêbado como Baco, poderia ser. Mas bêbado Ele não é. Creio que Ele não bebe. Não vedes como é pálido e magro?
– Contudo os hebreus…
– Eles, sim, que bebem, ainda que não mostrem que o fazem! E bêbados, por terem tomado dos fortes vinhos destas terras e de sua sícera, chegaram a ver um deus em um homem. Podes crer em mim. Os deuses são invenções. O Olimpo está vazio deles e a terra não os tem.
– Se eles te ouvissem!…
– Serás ainda tão criança, que não possas ser um candidato e não saibas ainda que o próprio César não crê nos deuses, e que neles também não creem os pontífices, nem os áugures, nem os adivinhos, nem os sacerdotes, nem as vestais, nem ninguém?
– E, então, por que…
– Por que os ritos? Porque agradam ao povo e são úteis aos sacerdotes e servem a César, para que ele se faça obedecer como se fosse um deus, levado pela mão dos deuses do Olimpo. Mas os primeiros a não crerem são justamente aqueles que nós veneramos como ministros dos deuses. Eu sou pirrônico. Já percorri todo o Orbe. Já fiz muitas experiências. Os meus cabelos já estão ficando brancos nas sobrancelhas e meu pensamento já amadureceu. Tenho como um código pessoal estas três sentenças: amar Roma, única deusa e única certeza, amá-la até o sacrifício da própria vida. Não acreditar em nada, pois tudo aquilo que nos circunda é ilusão, com exceção da Pátria sagrada e imortal. Até de nós devemos duvidar, porque é incerto até se nós estamos vivos. Os sentidos e a razão não bastam para dar-nos a certeza de chegarmos a conhecer a Verdade, e viver e morrer têm o mesmo valor, porque não sabemos o que é viver e não sabemos o que é morrer –diz ele, afetando ter um ceticismo filosófico de uma criatura superior…
O outro o fica olhando, na incerteza. Depois diz:
– Pois eu, ao contrário, creio. E gostaria de saber… Saber por meio daquele homem que passou por aqui há pouco. Ele certamente sabe a Verdade. Há uma coisa estranha que sai dele. É como uma luz que entra dentro da gente!
– Esculápio te salve! Tu estás doente! Há pouco subiste do vale para a cidade. E as febres aparecem facilmente nos que fazem esta viagem sem se terem ainda aclimatado com esta região. Tu estás delirando. Vem cá. Não há nada como vinho quente com aromas para fazer que saia de nós, com o suor, o veneno da febre do Jordão…
E o manda para o corpo da guarda. Mas o outro se livra dele, dizendo:
– Eu não estou doente. Não quero vinho quente drogado. Eu quero velar lá fora dos muros –(e mostra o lado interno do bastião)– e ficar esperando o homem que se chama Jesus.
– Se ficar esperando não te desagrada… Eu vou despertar aqueles para a substituição. Adeus!…
Ele entra, fazendo muito barulho, no corpo da guarda, despertando os companheiros e gritando:
– Já chegou a hora. Vamos, ó grandes preguiçosos. Já estou cansado!…
Boceja rumorosamente e pragueja porque deixaram que o fogo apagasse, e porque beberam todo o vinho quente, “tão necessário para enxugar o orvalho da Palestina…”
O outro, o jovem legionário, encostado a uma muralha que a lua toca com sua luz do poente, espera que Jesus volte do lugar aonde foi. E as estrelas velam pela esperança dele…
592.3Enquanto isso, Jesus já chegou à casa de Lázaro sobre a colina de Sião e está batendo à porta.
Levi a abre:
– És tu, Mestre? As patroas estão dormindo. Por que não mandaste um servo, se precisavas de alguma coisa?
– Não o teriam deixado passar.
– Ah! É verdade. Mas como foi que Tu passaste?
– Eu sou Jesus de Nazaré. E os legionários me deixaram passar. Mas não o contes a ninguém, Levi.
– Não contarei… Eles são melhores do que muitos de nós!
– Leva-me onde minha Mãe está passando a noite, mas não despertes nenhum outro da casa!
– Como Tu quiseres, Senhor. A ordem de Lázaro a todos os seus auxiliares em casa é a de obedecer-te em tudo, sem discussão e demora. Foi pouco depois da aurora que um servo chegou trazendo esta ordem, e muitos outros servos a foram levar a todas as casas. Obedecer e calar-se. E nós o faremos. Tu nos deste de novo o patrão…
O homem vai troteando na frente pelos corredores vastos como galerias do esplêndido palácio de Lázaro sobre a colina de Sião. E a luz que ele leva nas mãos ilumina de modo fantástico os móveis e tapeçarias que ornamentam largos corredores. O homem para diante de uma porta fechada:
– Ali está a tua Mãe.
– Podes ir.
– E a lâmpada? Não a queres? Eu posso voltar no escuro. Conheço bem a casa. Nasci aqui.
– Então, deixa-a. E não tires a chave da porta. Eu saio logo.
– Tu sabes onde encontrar-me. Eu fecharei por precaução. Mas estarei pronto para ir abrir-te a porta quando vieres.
592.4Jesus fica sozinho. Ele bate levemente, uma batida tão leve que somente alguém que esteja bem acordado pode ouvir. Há um rumor dentro do quarto, como o de uma cadeira que é mudada de lugar e um ligeiro rumor de passos, e uma voz que fala baixo:
– Quem bate?
– Eu, minha Mãe. Abre para Mim.
A porta é aberta logo. A luz da lua é a única luz que ilumina o quarto silencioso e estende seus raios sobre o leito, que esta noite ainda não foi usado. Uma cadeira está perto da janela, que está toda aberta sobre o mistério da noite.
– Ainda não estavas dormindo? Já é tarde!
– Eu estava rezando… Vem, meu Filho. Senta-te aqui onde eu estava –e mostra-lhe a cadeira perto da janela.
– Eu não posso parar aqui. Eu vim te buscar para irmos à casa da Elisa em Ofel. Anália morreu. Não o sabíeis ainda?
– Não. Ninguém… Quando foi, Jesus?
– Depois da minha passagem.
– Depois da tua passagem1! Então, foste para ela o Anjo libertador?! Para ela esta Terra era como uma prisão! Feliz dela! Eu quereria estar no lugar dela! Morreu… de morte natural? Quero dizer: não foi por alguma desventura?
– Morreu de alegria, por amor. Ela ficou sabendo que Eu já estava na saída do Templo. Vem comigo, minha Mãe. Nós não tememos profanar-nos por consolarmos uma mãe que teve em seus braços a filha que morreu de uma alegria sobrenatural… A nossa primeira virgem! Aquela que foi a Nazaré2, foi a ti para encontrar-me e pedir-me essa alegria… Dias longínquos e serenos.
– Anteontem ela cantava como um toutinegra apaixonada, e me beijava, dizendo: “Eu sou feliz!”, e estava ansiosa por ouvir tudo de Ti. Como foi que Deus te formou. Como foi que Ele me escolheu. E minhas primeiras palpitações de virgem consagrada… Agora eu compreendo… 592.5Estou pronta, meu Filho.
Maria, enquanto estava falando, foi recolhendo suas tranças, que estavam caídas pelas costas e que a faziam ficar parecendo uma menina; pôs o véu e o manto.
Eles saem fazendo o menor barulho possível. Levi já está perto do portão. E ele explica:
– Eu achei melhor fazer assim… Por minha mulher… As mulheres são curiosas. Ela me teria feito mil perguntas… Assim é melhor…
Ele abre, depois começa a fechar.
Jesus diz:
– Ainda esta noite Eu trarei de volta minha Mãe.
– E eu ficarei velando aqui perto. Não tenhas medo.
– A paz esteja contigo.
Eles vão pelas estradas silenciosas, que estão vazias, e das quais a lua vai-se retirando lentamente, pois por enquanto ela parece estar parada lá, por cima das casas altas da colina de Sião. O mais iluminado é o bairro de Ofel, com suas casinhas mais humildes e mais baixas.
592.6Aquela é a casa de Anália. Está fechada, escura e silenciosa. Umas flores já murchas estão sobre os degraus da porta. Talvez sejam aquelas jogadas pela virgem antes de morrer. Ou então, as que caíram do seu leito fúnebre…
Jesus bate na porta. Bate de novo.
Ouve-se o rumor de uma janela lá no alto. E uma voz pergunta:
– Quem bate?
– Maria e Jesus de Nazaré –responde Maria.
– Oh! Já vou!…
Uma breve espera e depois se ouve o barulho dos ferrolhos funcionando. A porta se abre e mostra o rosto desfeito de Elisa, que com dificuldade consegue manter-se à porta. E quando Maria, na entrada, lhe abre os braços, deixa-se cair neles com os soluços de quem já chorou tanto e que nem tem mais voz para falar. Jesus fecha a porta e fica esperando com paciência que sua Mãe acalme aquela ânsia.
Perto da porta há um quarto. Entram nele e Jesus vai levando a lâmpada que Elisa havia posto no chão antes de abrir a porta. O pranto da mãe parece que não vai ter fim. Ela fala, por entre os soluços roucos, a Maria. A mãe fala à Mãe. Jesus, em pé junto à parede, está calado.
592.7Elisa não é capaz de achar motivo para aquela morte e daquele modo… E em seu sofrimento faz cair a culpa dela em Samuel, o noivo que a enganou:
– Ele lhe partiu o coração, aquele maldito! E ela não dizia nada. Mas com certeza sofria, quem sabe quanto! E na alegria, no grito, seu coração se partiu. Que ele seja maldito para sempre.
– Não, querida. Não. Não maldigas. Não é assim. Deus a amou tanto que a quis ver em paz. Mas mesmo que ela tivesse morrido por causa de Samuel — não o foi, mas suponhamos isso por um momento — pensa bem que morte alegre ela teve, e que a má ação lhe causou uma morte feliz.
– Eu não a tenho mais! Ela morreu! Ela morreu! Tu não sabes o que é perder uma filha! Eu já provei esta dor por duas vezes. Porque eu já a chorava como morta quando o teu Filho a curou. Mas agora… Ele não voltou! Não teve piedade!… E eu a perdi! Já está no túmulo a minha filha! Sabes o que vem a ser ficar vendo assim um filho agonizar? Saber que ele vai morrer? Depois vê-lo morto, quando se esperava que ele ficasse são e forte? Tu não sabes. Nem podes falar… Ela era bela como uma rosa que se estava abrindo aos primeiros raios do sol, enquanto se arrumava esta manhã. Ela tinha querido ornar-se com a veste que eu lhe havia feito para as núpcias. Ela também queria ornar-se como esposa. Depois preferiu desfazer a grinalda já feita e despetalar as flores para jogá-las em teu Filho, e estava cantando! Cantando! Sua voz enchia a casa. Estava linda como a primavera. A alegria tornava seus olhos brilhantes como estrelas e purpúreos como a polpa da romã, os lábios abertos sobre a brancura dos dentes, e tinha as faces rosadas e frescas como as rosas novas que o orvalho vem ornar. E tornou-se branca como o lírio que acabou de abrir-se. E se agarrou ao meu peito como um caule despedaçado… E não disse mais nem uma palavra! Não deu mais nem um suspiro! Não tinha mais cor. Nenhum olhar. Plácida, bela como um anjo de Deus, mas já sem vida. 592.8Tu não sabes, tu que te alegras com os triunfos do teu Filho e sabes que Ele está são e forte, não sabes o que é a minha dor! Por que Ele não retornou? Em quê ela lhe havia desagradado, e eu com ela, para não ter piedade da minha oração?
– Elisa! Elisa! Não fales assim… Tua dor te faz cega e surda… Elisa, tu não sabes qual é o meu sofrimento. E não sabes que mais profundo se tornará o meu sofrimento. Tu a viste plácida e bela, quando ela enrijeceu em paz. E entre os teus braços. Eu… Eu venho contemplando a minha Criatura há mais de seis lustros, e acima das carnes limpas e puras, que eu contemplo e acaricio, vejo as chagas do Homem das dores, que vai tornar-se o meu Filho. Sabes, tu que dizes que eu não sei o que é ver meu Filho ir duas vezes para a morte e na segunda ficar em paz, será que sabes o que é para uma mãe ter diante dos olhos uma visão assim por tantos anos? O meu Filho! Ei-lo aqui. Já está vestido de vermelho como se tivesse saído de um banho de sangue. Já está perto, é daqui a pouco. Ainda não terá escurecido o rosto de tua filha no sepulcro e eu já o estarei vendo vestido com a púrpura de seu sangue inocente. Daquele sangue que eu lhe dei. E se tu tomaste sobre o coração a tua filha, então sabes qual será a minha dor ao ver morrer o meu Filho como um malfeitor sobre o lenho da cruz? Olha para Ele! É o Salvador de todos. No espírito e na carne. Porque a carne dos salvados por Ele será incorruptível e feliz em seu Reino. E olha para mim! Olha para esta Mãe que a cada hora o acompanha e conduz — oh! Eu não o deteria em nenhum passo! — o próprio Filho ao Sacrifício! Eu te posso compreender, pobre mãe. Mas tu, compreendas o meu coração! Não odeies o meu Filho. Anália não teria suportado ver a agonia do seu Senhor. E seu Senhor a fez feliz em uma hora de gozo intenso.
592.9Elisa parou de chorar ao ouvir esta revelação. Ela olha para Maria, que está com o seu rosto de mártir lavado por lágrimas silenciosas, olha para Jesus, que está olhando para ela com piedade… e, gemendo, se joga aos pés de Cristo, dizendo:
– Mas minha filha morreu! Ela morreu, Senhor! Como um lírio, um lírio despedaçado. Disseram os poetas3 que Tu és Aquele que se compraz por estar entre lírios. Oh! Na verdade, Tu, nascido do lírio que é Maria, desces frequentemente aos canteiros floridos e das rosas purpúreas fazes cândidos lírios, e os colhes, tirando-os do mundo. Por quê? Por quê, Senhor? Não é justo que uma mãe goze da rosa que dela nasceu? Por que matar o que era purpúreo no frio candor da morte do lírio?
– Os lírios! Eles serão o símbolo daqueles que me haverão de amar como minha Mãe amou a Deus. É o cândido canteiro do Rei Divino.
– Mas nós mães choraremos. Nós mães temos direitos sobre os nossos filhos. Por que tirá-los da vida?
– Não é isso que Eu quero dizer, mulher. Ainda ficarão as filhas, consagradas ao Rei, como as virgens nos palácios de Salomão. Lembra-te do Cântico… E como esposas, serão as bem-amadas na terra e no Céu.
– Mas a minha filha morreu. Morreu!
E recomeça um choro dilacerante.
– Eu sou a ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, ainda que morra, viverá. Em Verdade Eu te digo que não morrerá para sempre. A tua filha está viva. Vive para sempre porque acreditou na Vida. Ela conheceu a alegria de viver em Mim antes de conhecer a dor de ver-me sendo arrebatado da vida. A tua dor te faz ficar cega e surda. Bem que minha Mãe o diz. Mas brevemente tu dirás aquilo que te mandei dizer esta manhã: “Realmente a sua morte foi uma graça de Deus.” Acredita, mulher. Este lugar aguarda o horror. E chegará o dia em que as mães atingidas como você dirão: “Louvor a Deus que poupou estes dias aos nossos filhos.” E as mães que não foram feridas, gritarão ao Céu: “Por que, ó Deus, por que não mataste os nossos filhos antes desta hora?” Acredita nisso, mulher. Acredita nas minhas palavras. Não levantes entre ti e Anália uma verdadeira clausura que as pode separar: a diferença na fé. Estás vendo? Eu podia não ter vindo. Tu sabes quanto Eu sou odiado. Que não te iluda o triunfo de uma hora!… Cada canto pode estar escondendo uma cilada para Mim. Eu vim sozinho, de noite, para consolar-te e dizer-te estas palavras. Eu me compadeço da dor de uma mãe. Mas pela paz de tua alma Eu venho dizer-te estas palavras: Fica em paz! Em paz!
– Dá-me essa paz, Senhor! Eu não posso. Não posso, neste sofrimento, dar-me paz. Mas Tu, que dás a vida aos mortos e a saúde aos que estão morrendo, dá a paz ao coração dilacerado de uma mãe.
– Assim seja, mulher. Que tenhas a paz.
Ele lhe impõe as mãos, abençoando-a e orando em silêncio sobre ela. Maria, por sua vez, ajoelhou-se perto de Elisa rodeando-a com o seu braço.
592.10– Adeus, Elisa. Eu já me vou…
– Não nos veremos mais, Senhor? Eu não sairei de casa por muitos dias, e Tu irás embora depois das festas pascais. Tu… és ainda um pouco da minha filha… porque Anália… porque Anália vivia em Ti e por Ti.
Ela chora. Já está mais calma. Mas como chora!
Jesus olha para ela. E a acaricia sobre a cabeça encanecida. E lhe diz:
– Tu me verás ainda.
– Quando?
– Daqui a oito noites, a começar por esta.
– E me confortarás ainda? E me abençoarás e me darás forças?
– O meu coração te abençoará com a plenitude do meu amor para com aqueles que me amam. Vamos, minha Mãe.
– Meu Filho, se Tu me permites, eu gostaria de ficar ainda com esta mãe. A dor é um vagalhão que volta, depois de ter-se afastado Aquele que dá paz… Eu estarei de volta à hora de prima. Não tenho medo de andar sozinha. Tu sabes disso, e sabes que eu passaria por todo um exército inimigo contanto que pudesse dar consolo a algum meu irmão da parte de Deus.
– Seja como quiseres. Eu me vou. Deus esteja convosco.
Jesus sai sem fazer barulho, fechando atrás de si a porta do quarto e a da casa.
592.11Ele volta para perto dos muros, dirige-se para a Porta de Efraim, também chamada Estercorária ou do Estrume, pois muitas vezes eu ouvi chamar estas duas portas, próximas uma da outra, por esses três nomes, talvez porque uma delas se abre para a estrada de Jericó, que está no fundo, e a outra, porque está perto do vale de Hinon, onde são queimadas as imundícies da cidade, e são tão parecidas que eu as confundo.
O céu começa a embranquecer do lado do oriente, mesmo estando ainda cheio de estrelas. As estradas continuam envolvidas em uma penumbra, mais incômoda do que a escuridão da noite, que a lua temperava com a sua brancura.
Mas o soldado romano tem bons olhos e, tendo visto Jesus que se aproxima da porta, vai ao encontro dele.
– Salve! Eu fiquei te esperando.
E ele para, hesitante.
– Fala sem medo. Que queres de Mim?
– Quero saber. Tu disseste: “A paz que Eu dou permanece até na guerra, porque é a paz da alma.” Eu gostaria de saber que paz é essa e o que é que vem a ser a alma. Como pode o homem que está na guerra estar em paz? Quando se abre o templo de Jano, fecha-se o da Paz. Não podem as duas coisas estar no mundo ao mesmo tempo.
Ele está falando encostado no murinho esverdeado de uma pequena horta, em uma ruazinha estreita como uma trilha entre os campos, entre casas pobres, umidade, ar tétrico, sombrio. Fora o leve brilho que se nota no capacete brunido do soldado, não se enxerga nada dos dois que estão falando. A sombra apaga os rostos e os corpos, reduzindo tudo a uma completa escuridão.
A voz de Jesus ressoa clara e luminosa, pela alegria que Ele tem por lançar uma semente de luz na mente do pagão:
– No mundo, em verdade, não pode haver paz e guerra ao mesmo tempo. Porque uma exclui a outra. Mas no homem de guerra pode haver paz, mesmo quando ele combate na guerra para a qual foi mandado. Pode ser a minha paz. Porque a minha paz vem do Céu, e o fragor da guerra não a lesa, nem a ferocidade das matanças. Ela, como uma coisa divina, invade outra coisa divina que o homem tem em si, e que é chamada alma.
– Coisa divina? Em mim? Divino é César. Eu sou um filho de camponeses. Agora eu sou um legionário, sem nenhum grau. Se eu for um destemido poderei talvez chegar a ser um centurião. Mas divino, não.
– Há uma parte em ti que é divina. É a alma. Ela vem de Deus. Do verdadeiro Deus. Por isso ela é divina, uma pedra preciosa viva no homem e é de coisas divinas que ela se alimenta: a fé, a paz, a verdade. A guerra não a perturba. A perseguição não a lesa. A morte não a mata. Só o mal, fazer aquilo que é mal é o que a fere ou mata, e até a priva da paz que Eu dou. Porque o mal separa o homem de Deus.
592.12– E que é o mal?
– Estar no paganismo e adorar os ídolos, quando a bondade do verdadeiro Deus permitiu conhecer que existe o verdadeiro Deus. Não amar o pai, a mãe, os irmãos e o próximo. Roubar, matar, ser rebeldes, viver na luxúria, ser falsos. Isto é o mal.
– Ah! Então, eu não posso ter a tua paz! Como soldado e comandado, eu sou obrigado a matar. Então, para nós não há salvação?
– Procura ser justo na guerra como na paz. Cumpre o teu dever sem ferocidade e sem avidez. Enquanto combates e conquistas, pensa que o inimigo é semelhante a ti e que todas as cidades têm mães e meninas como a tua mãe e as tuas irmãs, e procura ser corajoso sem seres um bruto. Assim, não sairás da justiça e da paz, e a minha paz ficará em ti.
– E depois?
– E depois? Que queres dizer?
– Depois da morte. Que acontece com o bem que eu tiver feito e com a alma que Tu dizes que não morre, se não se fizer o mal?
– Ela vive. Vive adornada com o bem que tiver feito, em uma paz cheia de alegria, maior do que aquela que se goza na Terra!
– Então na Palestina só existe um homem que fez o bem! Agora compreendi!
– E quem é ele?
– Lázaro de Betânia. A alma dele não morreu!
– Na verdade, ele é justo. Mas muitos são iguais a ele e morrem sem ressuscitarem, mas a alma deles vive no Deus verdadeiro. Porque a alma tem uma outra morada, no Reino de Deus. E quem crer em Mim entrará naquele Reino.
– Até eu, que sou romano?
– Também tu, se creres na verdade.
– Que é a Verdade?
– Eu sou a Verdade, e o Caminho para ir à Verdade, e sou a Vida e dou a Vida, porque quem acolhe a Verdade, acolhe a Vida.
592.13O jovem soldado fica pensando… e se cala… Depois, ele levanta o rosto. Um rosto ainda puro de jovem, e tem um sorriso puro e sereno. E diz:
– Eu procurarei lembrar-me disso e aprender mais ainda. Isto me agrada…
– Como te chamas?
– Vital. Sou de Benevento. Dos campos da cidade.
– Eu me lembrarei do teu nome. Faze que o teu espírito seja verdadeiramente vital, nutrindo-o com a Verdade. A porta já está sendo aberta. Vou sair da cidade.
– Ave!
Jesus vai logo para a porta e se apressa pelo caminho que vai para o Cedron e o Getsêmani, e de lá para o campo dos Galileus.
592.14Por entre as oliveiras do monte, vem chegando Judas Iscariotes, que vem subindo, também ele, para o campo, onde já estão despertando. Judas leva quase um susto ao achar-se diante de Jesus. Jesus olha fixamente nele, sem nada dizer.
– Eu fui levar alimento para os leprosos. Mas… encontrei só dois em Hinon e cinco em Siloan. Os outros ficaram curados. Ainda estão lá, mas curados; por isso me pediram que avisasse o sacerdote. Eu havia descido ao alvorecer do dia para ficar livre depois. A coisa vai dar o que falar. Um número tão grande de leprosos curados ao mesmo tempo, depois que tu os abençoaste na presença de tanta gente!
Jesus não fala. Ele o deixa falar… Jesus não lhe diz: “Fizeste bem”, nem nenhum outra palavra que se refira à ação de Judas, nem ao milagre, mas, parando de repente, e olhando fixamente para o apóstolo, lhe pergunta:
– E então? Que mudança houve ao ter te deixado em liberdade e com o dinheiro?
– Que queres dizer?
– O seguinte: Eu te pergunto se ficaste santificado depois que Eu te dei liberdade e dinheiro… Ah! Judas! Lembra-te disso! Lembra-te sempre: tu foste aquele que Eu amei mais do que qualquer outro, recebendo de ti menos amor do que o que Eu recebi de todos os outros. O que Eu recebi de ti foi um ódio maior, porque é ódio de alguém que tratei como amigo, ódio mais feroz do que o ódio do fariseu mais feroz. E lembra-te também disto: de que Eu nem agora te odeio, mas, no tanto que toca ao Filho do homem, Eu te perdoo. Agora, vai. Não há mais nada a dizer entre Mim e ti. Tudo já está feito…
Judas quereria dizer alguma coisa, mas Jesus, com um gesto decisório, lhe faz sinal para que vá para frente… E Judas, inclinando a cabeça como um vencido, vai para frente…
592.15No limite do Campo dos Galileus, os apóstolos e os dois servos de Lázaro já estão prontos.
– Onde estiveste, Mestre? E tu, Judas? Vós estáveis juntos?
Jesus, antes que Judas respondesse, diz:
– Eu tinha algo a dizer a uns corações. Judas foi aos leprosos… Mas foram curados todos, menos sete.
– Oh! Por que foste? Eu queria ir também –diz Zelotes.
– Para ficar livre agora e poder vir conosco. Vamos. Entraremos na cidade pela Porta do Rebanho. Vamos logo –diz ainda Jesus.
592.16Põe-se a caminho por primeiro, passando pelos olivais que se acham à beira da estrada pelo campo, a quase meio caminho entre Betânia e Jerusalém, pela pequena ponte que atravessa o Cedron, perto de Porta do Rebanho.
Há algumas casas de camponeses espalhadas pelas ladeiras, e, lá embaixo, perto das águas da torrente, está uma figueira toda cheia de folhas, inclinada por cima do rio. Jesus se dirige a ela e procura ver se por entre as folhas largas e grossas não haverá algum figo maduro. Mas a figueira só tem folhas, muitas, mas inúteis, e não tem nenhum fruto nos ramos, e lhe diz:
– Tu és como muitos corações em Israel. Não tens doçuras para o Filho do homem nem piedade. Que de ti não nasça mais nenhum figo e ninguém de ti coma no futuro.
Os apóstolos olham um para o outro. A ira de Jesus contra a planta estéril, talvez até uma planta selvagem, os espanta. Mas eles não dizem nada. Somente mais tarde, depois de terem atravessado o Cedron, é que Pedro lhe pergunta:
– Onde foi que comeste?
– Em lugar nenhum.
– Oh! Então estás com fome. Lá vem um pastor com uma cabra pastando. Eu vou até lá e pedirei leite para Ti. Eu volto logo.
E ele vai com grandes passos e volta, tomando cuidado com uma velha tigela cheia de leite.
Jesus bebe e, com uma carícia, entrega a tigela ao pastorzinho, que veio de lá acompanhando Pedro…
592.17Entram na cidade e sobem ao Templo e, tendo adorado o Senhor, Jesus volta para o pátio onde os rabis estão dando suas lições.
As pessoas se aglomeram ao redor dele e uma mãe que veio de Cintium lhe apresenta o seu filho, que uma doença fez ficar cego, como me parece. Ele tem os olhos brancos como quem tem uma grande catarata sobre a pupila, ou uma albugem. Jesus o cura, tocando-lhe de leve as órbitas com os seus dedos. E, logo em seguida, começa a falar:
– Um homem comprou um terreno e plantou nele um vinhedo, construiu uma casa para os colonos, uma torre para os vigias, adegas e lagares onde prensar as uvas, e o entregou a alguns colonos nos quais ele tinha confiança. Depois, viajou para longe. Quando chegou o tempo em que os vinhedos já podiam estar dando frutos, tendo as videiras já crescido, o dono da vinha mandou os seus servos aos colonos a fim de receberem os lucros da colheita. Mas os colonos cercaram aqueles servos e uma parte deles foi recebida com pauladas, outros foram feridos com pedradas que os machucaram muito e outros foram mortos. Os que ainda puderam voltar vivos à casa do patrão lhe contaram o que havia sucedido. O patrão fez neles os curativos e os consolou. E depois mandou outros servos, em número bem maior. E os colonos trataram a estes como haviam tratado aos primeiros. Então, o dono da vinha disse: “Mandar-lhes-ei o meu filho. Certamente eles haverão de honrar ao meu herdeiro.” Mas os colonos, ao vê-lo, e tendo ficado sabendo que ele era o herdeiro, combinaram entre si uns com os outros, dizendo: “Vinde. Reunamo-nos, e seremos muitos. Vamos arrastá-lo lá para fora, para um lugar afastado, e o matemos. E a herança dele ficará para nós.” E, recebendo-o com uma delicadeza fingida, o rodearam como se fosse para festejá-lo, e, depois de o beijarem, o amarraram e lhe deram uma forte surra, levando-o depois, no meio de mil motejos, ao lugar do suplício, e lá o mataram. Agora, dizei-me vós. Aquele pai e patrão que um dia percebe que seu filho não voltou, e descobre que aqueles seus servos-colonos, aqueles aos quais ele havia dado uma terra fértil para que a cultivassem em seu nome, recebendo por isso o tanto que fosse justo e dando o tanto que era justo ao seu patrão, descobre que eles é que foram os assassinos de seu filhos, que é que fará?
E Jesus dardeja suas íris de safira, acesas como um sol, sobre os que haviam chegado, mas especialmente sobre os grupos dos judeus mais influentes, os fariseus e os escribas espalhados pelo meio da multidão. Ninguém diz nada.
– Falai, vós, então. Pelo menos vós, que sois os rabis de Israel. Dizei uma palavra de justiça, que prepare o povo para a justiça. Eu poderia dizer uma palavra não boa, de acordo com o vosso pensamento. Dizei-a, então, vós, para que o povo não seja levado ao erro.
Constrangidos, os escribas respondem assim:
– Ele punirá aqueles celerados, fazendo-os perecer de um modo atroz, e dará a vinha a outros colonos que honestamente a cultivem, dando-lhe o produto da terra recebida por eles em consignação.
– Vós falastes bem. Assim está escrito4 esta pedra se esfacelará, e aquele sobre quem a pedra cair, será esmagado.”
592.18Os chefes dos sacerdotes, os fariseus e os escribas, com um ato verdadeiramente… heroico, não reagem. A que ponto chega o desejo de atingir um objetivo! Por muito menos, em outras ocasiões, opuseram-se a Ele. E hoje, que o Senhor Jesus lhes diz abertamente que lhes vai ser tirado o poder, eles não disparam impropérios contra Ele, não cometem atos violentos, não ameaçam, como falsos cordeirinhos pacientes que, por baixo de uma veste fingida de mansidão, estão escondendo um imutável coração de lobo.
Eles se limitam a aproximar-se dele, que agora recomeçou a caminhar para frente e para trás, indo e voltando, escutando isto ou aquilo dos muitos peregrinos que se dirigiram para o amplo pátio, e dentre os quais muitos lhe pedem algum conselho para casos de consciência, ou para circunstâncias familiares ou sociais, esperando também poder dizer-lhe alguma coisa depois de o terem ouvido fazendo julgamento sobre algum caso complicado de herança, que produziu divisão e rancor entre os diversos herdeiros. Isto por causa de um dos filhos do pai que o teve com uma das servas da casa, mas que foi adotado, e os filhos legítimos não o querem com eles, nem como coerdeiro na repartição das casas e dos terrenos, não querendo ter nada em comum com o bastardo, e não sabem resolver, porque o pai os fez jurar, antes de sua morte, que, assim como ele tinha feito, ao repartir o pão, tanto com o ilegítimo como com os legítimos, em medida igual, assim eles deviam igualmente repartir a herança com ele em medida igual.
Jesus diz àquele que o interroga em nome dos outros três irmãos:
– Sacrificai todos um pedaço de terreno, vendendo-o de tal modo que o valor do dinheiro atinja um quinto da importância total, e dai ao filho ilegítimo, dizendo-lhe: “Aqui está a tua parte. Não ficas prejudicado no que é teu nem se contrariou ao desejo de nosso pai. Vai, e Deus esteja contigo.” Sejais generosos em dar, até mesmo mais do que o valor estipulado. Fazei isso com testemunhas que sejam justas, e ninguém poderá na terra, nem depois desta Terra, levantar vozes de reprovação e de escândalo. E tereis a paz entre vós e em vós, não tendo o remorso de terdes desobedecido ao vosso pai, e não tendo entre vós aquele que, mesmo sendo inocente, é para vós causa de perturbação, ais do que um ladrão que tivesse sido posto entre vós.
O homem diz:
– O bastardo, em verdade, roubou a paz da nossa família, a saúde de nossa mãe que morreu de dor, e um lugar que não é dele.
– Mas não é ele o culpado, homem! Mas, sim, o homem que o gerou. Ele não pediu para nascer e carregar a marca de bastardo. Foi a libidinagem de vosso pai que o gerou para entregá-lo à dor e fazer-vos sofrer. Sede, pois, justos para com o inocente, que já está pagando duramente por uma culpa que não é dele. Nem desejais o mal para o espírito de vosso pai. Deus já o julgou. Não são necessários os raios de vossas maldições. Honrai a vosso pai sempre, ainda que ele seja culpado, não por si mesmo, mas porque representou na terra o vosso Deus, tendo-vos criado por decreto de Deus e sendo o senhor de vossa casa. Os pais estão imediatamente depois de Deus. Lembra-te do Decálogo. E não peques. Vai em paz.
592.19Os sacerdotes e escribas se aproximam de Jesus, mas agora para interrogá-lo:
– Nós te ouvimos. Falaste conforme a justiça. Foi um conselho que, mais justo, nem Salomão seria capaz de dar. Mas agora, dize a nós, Tu que operas prodígios e dás sentenças, que só o sábio rei poderia dar, com que autoridade é que fazes estas coisas? De onde te vem um tal poder?
Jesus olha fixamente para eles. Ele não está nem agressivo nem com ar de desprezo, mas muito imponente. Ele diz:
– Eu também tenho uma pergunta a fazer-vos e, se me responderdes, Eu vos direi com que autoridade é que Eu, um homem sem autoridade, sem encargos e pobre — porque isto é o que quereis dizer — com que autoridade é que eu faço estas coisas. Pois bem. Dizei-me: o batismo de João, de onde é que vinha? Era do Céu ou do homem, a autoridade com que João o ministrava? Respondei-me. Com que autoridade é que João o administrava como um rito purificador, a fim de preparar-vos para a vinda do Messias, se João era ainda mais pobre e inculto do que Eu, sem exercer nenhum cargo, tendo vivido no deserto desde a sua meninice?
Os escribas e os sacerdotes se consultam uns aos outros. Os que estavam lá presentes se apertam, de olhos atentos e ouvidos bem abertos, prontos tanto para protestar como para aclamar, se os escribas quiserem desqualificar o Batista e ofender o Mestre ou se parecem ter ficado derrotados pela pergunta do Rabi de Nazaré, divinamente sábio. E as pessoas se comprimem ao redor dele. É impressionante o silêncio absoluto desta multidão que está à espera da resposta. É tão profundo que se podem ouvir a respiração e os cochichos dos sacerdotes e escribas, que falam uns aos outros, quase sem usar de palavras, e estão de olhos no povo. Enquanto isso, as pessoas do povo, cujos sentimentos eles bem conhecem, estão prontas para explodir.
E finalmente eles se decidem a responder. Eles se viram para o Cristo, que está encostado a uma coluna com os braços cruzados sobre o peito, e os está perscrutando sem perdê-los de vista, e aí eles dizem:
– Mestre, nós não sabemos com que autoridade João fazia aquilo nem de onde é que vinha o seu batismo. Ninguém pensou em perguntar ao Batista enquanto ele estava vivo, nem ele espontaneamente o disse.
– Pois nem Eu vos direi com que autoridade faço estas coisas.
E lhes vira as costas, chamando para perto de Si os doze e abrindo ala por entre a multidão que o aclama, e sai do Templo.
592.20Quando já estão lá fora, e tendo já passado pela Piscina Probática e saído por aquele lado, Bartolomeu lhe diz:
– Tornaram-se muito prudentes os teus adversários. Talvez eles estejam convertendo-se ao Senhor que te enviou e reconhecendo-te como o Messias santo.
– É verdade. Eles não discutiram nem sobre o teu pedido nem sobre a tua resposta –diz Mateus.
– Assim seja. Seria belo Jerusalém converter-se ao Senhor seu Deus –diz ainda Bartolomeu.
– Não vos deixeis iludir. Esta porção de Jerusalém não se converterá nunca. Eles não responderam de outro modo porque têm medo da multidão. Eu estava lendo os pensamentos deles, mesmo quando Eu ouvia suas palavras submissas.
– E o que eles estavam dizendo? –pergunta Pedro.
– Diziam isto. Eu desejo que vós o saibais, para conhecê-los a fundo e possais dar aos vindouros uma exata descrição dos homens do meu tempo. Eles não me responderam, não por se terem convertido ao Senhor. Mas porque entre si eles diziam assim: “Se nós respondermos que o batismo de João vinha do Céu, o Rabi nos responderá: ‘E, então, por que não crestes naquilo que vinha do Céu e indicava a preparação para o tempo do Messias?’ E se dissermos que vem dos homens, então será a multidão que se revoltará, dizendo: ‘E, então, por que é que não crestes naquilo que João, o nosso profeta, falou sobre Jesus de Nazaré?’ Por isso, é melhor dizermos que nós não sabemos.” Sobre isso é que eles estavam conversando, não por sua conversão a Deus, mas por um cálculo infame e para não terem que confessar, com suas bocas, que Eu sou o Cristo, e faço estas coisas que faço porque sou o Cordeiro de Deus do qual falou o Precursor. E também Eu não quis dizer com que autoridade é que faço estas coisas que faço. Já muitas vezes Eu o disse, dentro daqueles muros e por toda a Palestina, e os meus prodígios falam ainda mais do que as minhas palavras. Agora não o direi mais com as minhas palavras. Deixarei que falem os profetas e meu Pai, e os sinais do Céu. Porque chegou o tempo no todos os sinais serão dados. Aqueles que foram ditos pelos profetas e assinalados pelos símbolos de nossa história, e aqueles de que Eu falei: o sinal de Jonas; vós vos lembrais daquele dia em Quedes5? É o sinal que Gamaliel está esperando. Tu, Estêvão, tu, Hermes, e tu, Barnabé, que deixastes os vossos companheiros, hoje, para seguir-me, certamente muitas vezes ouvistes o rabi falar daquele sinal. Pois bem. Logo será dado o sinal.
E Jesus se afasta, subindo para o meio dos olivais do monte, acompanhado pelos seus e por muitos discípulos (dos setenta e dois), além de outros, como José Barnabé, que o vem acompanhando para ouvi-lo falar ainda.
592.21Diz Jesus:
– Aqui colocarás a segunda parte da segunda-feira, isto é, as pregações feitas aos meus apóstolos (visão de 6-3-45).
1 passagem se diz em referência a: Êxodo 12,12-13.
2 foi a Nazaré, em 156.5/6, como a própria Analia recordou em 583.17.
3 disseram os poetas, talvez se referindo a: Cântico dos cânticos 2,1-2.16; 6,2-3. Um pouco mais abaixo, Jesus faz uma provável referência a: Cântico dos cânticos 6,8-9; 8,4.
9 está escrito, em:Salmo 118,22-23.
4 contra é uma palavra contornada com fortes sinais de lápis vermelho e azul, no manuscrito original. A explicação será feita em 594.8.
5 daquele dia em Qedes, em342.6/7; o sinal que Gamaliel está esperando, prometido em 41.9 e lembrado aqui e em: 85.4 - 114.8/9 - 160.4 - 354.4 - 364.8 - 478.10 - 487.10/11 - 548.14/15 - 549.9 (no qual Gamaliel descreve, no último parágrafo, o próprio estado de alma) - 560.5 - 570.5 - 602.5.7 - 604.10 - 609.28.30 (onde recita uma linda oração) - 644.5 - 645.5.10 - 647.2/5.
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