196. 196. O dia de sábado no Getsêmani. Jesus fala sobrea mãe e dos amores de diferentes potências.
21 de junho de 1945.
196.1 A manhã do sábado foi ocupada, na maior parte do tempo, em restaurar os corpos cansados e limpar as roupas cheias de poeira e amarrotadas pela viagem. Nas amplas cisternas do Getsêmani, que a água da chuva foi enchendo, e no Cedron, cujas águas cantam ao bater nas pedras, espumando, cheio como ele está pelas chuvas dos últimos dias, há tanta água que é um verdadeiro convite a quem a vê. Por isso, os peregrinos, um depois do outro, sem terem medo da água fria, descem para mergulhar e depois, tornando a vestir-se da cabeça aos pés, com os cabelos ainda um pouco corridos, por causa da água da torrente, tiram água das cisternas para despejá-la em tanques de bom tamanho, onde estão as roupas, separadas pelas cores.
– Oh! Muito bem –diz contente Pedro–. Ali elas já ficarão menos sujas e Maria as poderá lavar com menos cansaço. –(Suponho que seja a mulher que mora no Getsêmani)–. Só tu, pequenino, não podes mudar de roupa. Mas amanhã…
De fato, o menino tem uma vestezinha limpa, tira-a de sua sacolinha, uma sacolinha que mal daria para o enxoval de uma boneca, de tão pequena que é. Mas a vestezinha que ele tirou, está ainda mais desbotada e rasgada do que a outra e Pedro olha para ela preocupado e murmurando:
– Como é que eu vou fazer para levá-lo pela cidade? Eu poderia dividir em duas a minha capa, porque com uma capa… ele se cobriria todo.
Jesus, que ouviu este solilóquio paterno, diz:
– É melhor fazer que ele descanse agora. Esta tarde iremos a Betânia…
– Mas eu quero comprar a roupa para ele. Eu lhe prometi…
– Tu o farás com certeza. Mas é melhor aconselhar-se antes com a mãe. Tu sabes… as mulheres… têm mais capacidade do que nós nas compras… e ela se sentirá feliz por ocupar-se com um menino… Vós ireis juntos!
A ideia de ir junto com Maria fazer as compras arrebata o apóstolo taté o sétimo céu. Não sei se Jesus lhe expressou todo o seu pensamento, ou se omitiu uma parte , ou seja, aquela que tivesse dito que a mãe tem um gosto mais apurado para evitar certos conjuntos horríveis de cores. Mas o fato é que Ele consegue o seu escopo sem precisar deixar aborrecido seu Pedro.
196.2 Eles se espalham pelo olival, que está muito bonito, neste sereno dia de abril. A chuva dos dias passados parece ter prateado as oliveiras e semeado flores, pois lindamente as copas estão brilhando ao sol e bem numerosas são as florzinhas aos pés das oliveiras. Os passarinhos cantam e voam de todos os lados. A cidade se estende por ali afora, na direção oeste para quem olha daqui1.
Não se vê o formigueiro humano, que está pelo meio dela, mas vêem-se as caravanas, que vão indo para a Porta dos Peixes e para outras portas, cujo nome eu não sei, deste lado leste, e que depois são engolidas pela cidade, como se ela fosse um ventre esfaimado.
Jesus está passeando e observando Jabé, que alegre está brincando com João e com os mais jovens. Também Iscariotes, depois de passada a sua raiva de ontem, está alegre e brincando. Os mais velhos observam e sorriem.
– Que dirá a tua mãe deste menino? –pergunta Bartolomeu.
– Eu acho que Ela dirá: “É muito fraquinho” –diz Tomé.
– Oh! Não. Ela dirá: “Pobre menino” –responde Pedro.
– Ela Te dirá, pelo contrário: “Estou contente, porque Tu o amas”
–objeta Filipe.
– A mãe nunca teria dúvidado disso. Mas eu creio que Ela não dirá nada. Ela o receberá em seu coração –diz Zelotes.
– E Tu, Mestre, que dizes que Ela dirá?
– Ela fará o que vós estais dizendo. Mas muitas coisas, ou melhor, todas Ela as pensará, e ao beijá-lo dirá só: “Que tu sejas bendito!”, e cuidará dele como se fosse um passarinho que caiu do ninho. 196.3Um dia, Ela me contou o que aconteceu, quando Ela era uma menininha. Ainda não tinha três anos, porque ainda não estava no Templo, e seu coração se partia de amor, produzindo, como a flor ou a azeitona esmagadas na prensa, todos os seus óleos ou os seus perfumes. E, em seu delírio de amor, dizia à sua mãe que queria ser virgem para agradar mais ao Salvador, mas que teria gostado de ser pecadora, para poder ser salva e ficava quase chorando, porque a mãe não a compreendia e não sabia dizer-lhe como é que se pode ser “pura” e “pecadora”, ao mesmo tempo. Quem a tranquilizou foi seu pai, que lhe mostrou um pequeno passarinho, que ele tinha conseguido salvar quando estava em perigo, à beira de uma fonte. O pai, então, com o passarinho, criou uma parábola2, dizendo-lhe que Deus a tinha salvado de um modo antecipado e que, por isso, Ela lhe devia dar graças duas vezes. E a pequena Virgem de Deus, a grandíssima Virgem Maria, exerceu pela primeira vez sua maternidade espiritual sobre aquele pequeno ser caído do ninho, que Ela pôde lançar ao vôo, quando ficou forte, mas que nunca mais abandonou o jardim de Nazaré e lá ficou ainda, consolando com seus vôos e seus pios, a triste casa e os tristes corações de Ana e de Joaquim, quando Maria esteve no Templo. O passarinho morreu pouco antes da morte de Ana… Ele tinha cumprido sua tarefa… 196.4Minha mãe tinha feito voto de virgindade por amor. Mas tinha, sendo uma criatura perfeita, a maternidade no sangue e no espírito. Porque a mulher foi feita para ser mãe. E é até uma aberração, quando ela se faz de surda aos apelos desse instinto, que é amor de segunda potência…
Pouco a pouco, os outros foram chegando para perto.
– Que queres dizer, Senhor, quando falas de amor de segunda potência? –pergunta Judas Tadeu.
– Meu irmão, há muitos amores e de diversas potências. Há um amor de primeira potência: é o que se dá a Deus. Depois, o amor de segunda potência: é esse amor materno, ou paterno, porque, se o primeiro é todo espiritual, este é espiritual em duas partes, e carnal por uma. É verdade que no homem se mistura, sim, o sentimento afetivo humano, mas sempre predomina o superior, porque um pai e uma mãe, sadia e santamente tais, não dão somente alimento e carícias à carne de seu filho, mas também alimento e amor à mente e ao espírito dele. E, tanto é verdade o que digo que quem se dedica à infância, ainda que seja apenas para instruí-la, acaba por amá-la como sua carne.
– De fato, eu amava muito aos meus discípulos –diz João de Endor.
– Já compreendi que devias ter sido um bom mestre, ao ver como tratas Jabé.
O homem de Endor se inclina, e beija a mão de Jesus, sem dizer nada.
– Continua, por favor, a tua classificação dos amores –pede-lhe Zelotes.
– Existe o amor pela companheira: é um amor de terceira potência, porque é feito — falo sempre dos sadios e santos amores — pela metade de espírito e pela metade de carne. O homem para a esposa é um mestre e um pai, além de esposo. e a mulher, para o esposo, é um anjo e uma mãe, além de esposa. Estes são os três amores mais elevados.
196.5 – E o amor ao próximo? Não estás enganado? Ou terás esquecido dele? –pergunta Iscariotes.
Os outros olham espantados para ele e ameaçadores por causa da observação que ele fez.
Mas Jesus, placidamente, responde:
– Não, Judas. Mas presta atenção. Deus há de ser amado porque é Deus e, por isso, não há necessidade de explicação para persuadir a prestar esse amor. Ele é o que é, ou seja: o Tudo; e o homem é o nada, que se torna participante do Tudo pela alma que nele foi infundida pelo Eterno — sem a alma, o homem seria um dos muitos animais brutos, que vivem na terra, nas águas e no ar — e que deve adorá-lo por dever, e para merecer sobreviver no Tudo, isto é, para merecer fazer parte do Povo santo de Deus no Céu, cidadão da Jerusalém, que não conhecerá profanações e destruições, nunca mais.
O amor do homem, e especialmente o da mulher, aos filhos, é indicado como uma ordem nas palavras de Deus a Adão e Eva, depois de tê-los abençoado, vendo que havia feito “coisa boa”, naquele longínquo sexto dia, o primeiro sexto dia da criação. E Ele lhes disse: “Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra…”
Vejo a tua não formulada objeção e respondo assim dado que na criação, antes da culpa, tudo era regulado e baseado no amor, essa multiplicação dos filhos teria sido amor, um amor santo, puro, poderoso e perfeito. E Deus o deu como primeira ordem, ao homem: “Crescei e multiplicai-vos.” Amai, pois, depois de Mim, aos vossos filhos. O amor, como agora existe, esse amor atual gerador de filhos, antes não existia. A malícia não existia e não existia a execrável fome da sensualidade. O homem amava a mulher, e a mulher ao homem, de um modo natural, não natural segundo a natureza como nós a entendemos, ou melhor, como vós homens a entendeis, mas segundo a natureza de filhos de Deus: sobrenaturalmente3.
Que doces os primeiros dias de amor entre os dois, que eram irmãos, porque nascidos do mesmo Pai, e que, no entanto, eram esposos, e que, ao se amarem, olhavam um para o outro com os olhos inocentes de dois gêmeos no berço; e o homem sentia um amor de pai para com sua companheira “osso de seus ossos e carne de sua carne”, assim como é o filho em relação a seu pai. E a mulher conhecia a alegria de ser filha, isto é, protegida por um amor bem alto, porque sentia ter em si alguma coisa daquele maravilhoso homem que a amava, com inocência e angélico ardor, nos belos prados do Éden!
Depois, na ordem dos mandamentos dados por Deus, com um sorriso para os seus queridos pequeninos, vem aquilo que o próprio Adão, dotado pela Graça de uma inteligência, que só era menor que a de Deus, decreta, falando da companheira do homem, e nela, de todas as mulheres, o decreto do pensamento de Deus, que se refletia nítido no tenro espelho do espírito de Adão, e florescia no pensamento e na palavra: “O homem deixará seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne.”
Se não houvesse os três pilares dos três amores acima referidos, teríamos podido ter o amor ao próximo? Não. Não o teríamos podido. O amor a Deus torna Deus amigo, e ensina o amor. Quem não ama a Deus, que é bom, com toda a certeza não pode amar ao próximo que, em sua maior parte, é defeituoso. Se não houvesse amor conjugal e paternidade no mundo, não teríamos o próximo, porque os próximos são os filhos nascidos dos homens. Estás persuadido disso?
– Sim, Mestre. Eu não havia refletido.
– De fato, é difícil voltar atrás, subindo para as nascentes. O homem já está pregado, há muitos séculos e milênios, na lama, e aquelas nascentes estão bem lá nos cumes! A primeira delas é uma nascente que vem de um abismo de altura: É Deus… Mas Eu vos tomo pela mão e vos levo às nascentes. Eu sei onde elas estão…
196.6 – E os outros amores? –perguntam juntos Simão Zelotes e o homem de Endor.
– O primeiro da segunda série, é o do próximo. Na realidade, é o quarto em potência. Segue o amor à ciência. Depois vem o amor ao trabalho.
– E basta?
– E basta.
– Mas há ainda muitos outros amores! –exclama Judas Iscariotes
– Não. Há outras fomes. Mas não são amores. São desamores. São a negação de Deus e a negação do homem. Por isso, não podem ser amores, visto que são negações, e a negação é o ódio.
– Se eu me nego a consentir no mal, isso é ódio? –pergunta Iscariotes.
– Infelizes de nós! Mas tu és mais capcioso do que um escriba. Queres dizer-me o que tens? Será o ar fino da Judeia que te está beliscando os nervos como uma caimbra? –exclama Pedro.
– Não. Eu gosto de instruir-me e de ter muitas ideia s, mas claras. Aqui é fácil falar e logo com os escribas. Não quero ficar sem argumentos.
– E achas que podes, no momento em que precisares, puxar para fora o fio da cor de que estás precisando do saco que vais atulhando com todos estes trapos? –pergunta Pedro.
– Trapos, as palavras do Mestre? Estás blasfemando!
– Ora, não me queiras parecer escandalizado. Na boca do Senhor não são trapos; mas, uma vez que sejam mal usadas por nós, tornam-se tais. Experimenta tu pôr um linho fino na mão de um menino… Não leva muito tempo, ele já será um trapo sujo e imprestável. Isto acontece conosco… Agora se pretendes pescar, no momento bom, um trapinho que te interessa, entre este trapinho e o que é sujo, não sei aonde poderás chegar.
– Não penses nisso. Esses assuntos são meus…
– Oh! Está certo. que não penso. Já tenho que pensar muito nos meus. E depois!… Eu me contento que não prejudiques o Mestre. Porque, neste caso, pensarei também nos teus assuntos…
– Quando eu lhe prejudicar, tu farás assim. Mas isso não acontecerá nunca, porque eu sei fazer as coisas… Eu não sou um ignorante…
– Mas eu o sou, sei disso. Mas, justamente porque sei, não fico acumulando nada, para o ficar ostentando, quando chega o bom momento. Mas nessa hora eu me recomendo a Deus e Deus me ajudará por amor ao seu Messias, de quem eu sou o último dos servos e o mais fiel.
– Fiéis somos todos nós! –rebate, arrogante, Judas.
– Oh! Malvado! Por que ofendes o meu pai? Ele é velho e bom. Não deves. És um homem mau e me causas medo –diz Jabé, muito sério, rompendo o silêncio atento em que estava.
– Já são dois! –diz em voz baixa Tiago de Zebedeu, dando uma cotovelada em André.
Ele falou baixo, mas Iscariotes ouviu.
– Vê, Mestre, se as palavras do estulto menino de Magdala não terão deixado um sinal? –diz Judas aceso de raiva.
196.7 – Mas não seria mais bonito continuar a lição do Mestre, em vez de ficarmos parecendo uns cabritos irritados? –pergunta o pacífico Tomé.
– É verdade, Mestre. Continua a falar-nos de tua mãe. É tão cheia de luz a sua infância. Ela nos torna a alma virgem por reflexo e eu, um pobre pecador, tenho tanta necessidade disso! –exclama Mateus.
– Que é que Eu vos devo dizer? Há tantos episódios, um mais doce do que o outro…
– Ela os contou?
– Alguns. Mas muitos mais José: foi a mais bela narração feita a Mim quando criança, e também Alfeu de Sara, que era pouco mais velho que minha mãe e foi amigo dela nos breves anos em que ela esteve em Nazaré.
– Oh! Então, conta… –suplica-lhe João.
Todos se põem ao redor dele, sentados à sombra das oliveiras, com Jabé no centro, olhando fixamente para Jesus, como se estivesse ouvindo uma paradisíaca lenda.
– Eu vos falarei da lição de castidade que deu minha mãe, poucos dias antes de ir para o Templo, ao seu pequeno amigo e a muitos outros.
Havia-se casado naquele dia uma moça de Nazaré, parente de Sara, e Joaquim e Ana também tinham sido convidados para a festa das núpcias.Com eles foi a pequena Maria que, junto com outras crianças, tinha o encargo de jogar pétalas desfolhadas sobre caminho da esposa. Dizem que era belíssima de pequena, e todos a disputavam, depois da festiva entrada da noiva. Era muito difícil ver Maria, porque ela vivia sempre em casa, pois gostava muito de uma pequena gruta que dizia ser a “dos seus esponsais”, mais do que qualquer outro lugar. Por isso, quando era vista — loura, rosada e graciosa —, era cumulada de carícias. Chamavam-na de “A Flor de Nazaré”, ou então “A Pérola da Galileia”, ou ainda “A Paz de Deus”, lembrando o enorme arco-íris, que se tinha formado, de repente, ao primeiro vagido dela. E ela era, de fato, tudo o que diziam e mais ainda. É a Flor do Céu e da Criação, é a Pérola do Paraíso, e a Paz de Deus… Sim, a Paz. Eu sou o Pacífico, porque sou Filho do Pai e filho de Maria: A Paz Infinita e a Paz Suave.
Naquele dia todos a queriam beijar e tomar no colo. E ela, esquivando-se aos beijos e aos contatos, disse com uma delicada gravidade: “Eu vos peço: Não me amarroteis.” Eles pensaram que Ela estava falando de sua veste de linho, cingida à cintura com uma faixa azul, e também nos pequenos pulsos, no pescoço, ou então da pequena grinalda com florzinhas azuis com que Ana a tinha coroado, para conservar em seu lugar os cachinhos do cabelo.
E, assim pensando, eles lhe garantiram que não amarrotariam nem a veste nem a grinalda.
Mas ela, segura, como uma pequena mulher de três anos, de pé, no meio de um círculo de adultos, disse-lhes séria: “Não estou pensando no que se repara. Estou falando da minha alma. Ela é de Deus. E não quer ser tocada, a não ser por Deus.” Então lhe disseram: “Nós beijamos a ti, não a tua alma.” E Ela: “O meu corpo é templo da alma, e o sacerdote nele é o espírito. O povo não é admitido no recinto sacerdotal. Eu vo-lo peço. Não entreis no recinto de Deus.”
Alfeu, que já tinha então mais de oito anos, e que a amava muito, encontrando-a perto da pequena gruta, ocupada em apanhar flores, lhe perguntou: “Maria, quando fores mulher, não me quererias como esposo?” Nele ainda estava viva a lembrança da festa de núpcias à qual estivera presente. E ela: “Eu te amo muito. Mas, não olho para ti como para um homem. Vou dizer-te um segredo. Eu só vejo a alma dos vivos. Aquela eu amo de todo o coração. Mas, nada mais eu vejo senão Deus, como ‘Verdadeiro Vivente’ ao qual poderei entregar-me a mim mesma.”
Aí está um episódio.
– “Verdadeiro Vivente!” Sabes que esta é uma palavra profunda!
–exclama Bartolomeu.
E Jesus, com humildade e com um sorriso:
– Ela era a mãe da Sabedoria.
– Era?… Mas não estava só com três anos?
– Era. Desde a sua concepção, eu já vivia nela, sendo eu Deus4 , em sua Unidade e Trindade perfeitíssima.
196.8 – Mas, desculpa-me se eu, um culpado, ouso falar: então Joaquim e Ana sabiam que Ela era a virgem escolhida? –pergunta Judas Iscariotes.
– Eles não sabiam.
– E então, como é que Joaquim pôde dizer que Deus a tinha salvado com antecipação? Isto não se refere ao privilegio dela quanto à culpa?
– Refere-se. Mas Joaquim falava pela boca de Deus, como todos os profetas. Ele também não compreendeu a sublime verdade sobrenatural, que o espírito punha em seus lábios. Porque Joaquim era um justo. A ponto de merecer aquela paternidade. E era um homem humilde. Pois não há justiça onde existe soberba. Ele era justo e humilde. Consolou a filha por seu amor de pai. Instruiu-a pela sabedoria de sacerdote, pois ele o era, na qualidade de tutor da Arca de Deus. Ele a consagrou como Pontífice, com o mais honroso dos títulos: “A sem Mancha.” Dia virá em que um outro já encanecido sacerdote dirá ao mundo: “Ela é a concebida sem pecado”, e entregará ao mundo dos crentes esta verdade, como um artigo de fé incontestável, para que no mundo que virá, um mundo que se irá afundando sempre mais numa situação cinzenta e nebulosa, de heresias e de vícios, possa brilhar, plenamente conhecida, a Toda Bela de Deus, coroada de estrelas, vestida com a luz da Lua, que é menos pura que a Dela, apoiada sobre os astros, Rainha de todo Criado e do Incriado. Porque Deus-Rei tem Maria por Rainha, no seu Reino.
– Então, Joaquim era um profeta?
– Era um justo. Sua alma disse como um eco, aquilo que Deus dizia à sua alma amada por Deus.
196.9 – Quando iremos a esta “Mamãe”, Senhor? –pergunta, com uns olhos cheios de desejo, Jabé.
– Hoje de tarde. Que dirás a ela, quando a vires?
– “Eu te saúdo, mãe do Salvador.” Está bem assim?
– Muito bem, confirma Jesus, acariciando-o.
– Mas hoje não vamos ao Templo? –pergunta Filipe.
– Antes de irmos para Betânia, iremos ao Templo. E tu ficarás aqui. Não é verdade?
– Sim, Senhor.
A mulher de Jonas, guarda do olival, que veio se aproximando pouco a pouco, diz:
– Por que não o levas? O menino está desejando isso.
Jesus a fita com insistência, sem dizer nada.
A mulher compreende e diz:
– Já compreendi. Mas devo ter ainda uma pequena capa, a do Marcos. Vou buscá-la –e sai correndo, depressa.
Jabé puxa João por uma manga:
– Os mestres serão muito exigentes?
– Oh! Não. Não tenhas medo. Depois não é para hoje. Em poucos dias, estando com a mãe, serás mais sábio do que um doutor –encoraja-o João.
Os outros ouvem e sorriem diante da apreensão de Jabé.
– Mas quem é que vai apresentá-lo, como se fosse pai dele? –pergunta Mateus.
– Eu. É natural. A não ser que… o mestre queira apresentá-lo
–diz Pedro.
– Não, Simão. Não farei isso. Deixo para ti essa honra.
– Obrigado, Mestre. Mas estarás lá Tu também?
– Certamente. Todos estaremos lá. É o “nosso” menino…
Maria de Jonas está de volta, com uma capa roxo-escura, ainda em boas condições. Mas, que cor! Ela mesma o diz:
– Marcos não a quis mais usar por que a cor não lhe agradava.
Com toda a razão. A capa é horrorosa! E o pobre Jabé, já de cor azeitonada como é, parece um afogado, vestido com aquele roxo… Mas ele não se vê… e por isso está feliz com aquela capa, com a qual vai poder enfeitar-se como adulto..
– A refeição está pronta, Mestre. A servente tirou agora mesmo o cordeiro do espeto.
– Então, vamos.
E, descendo do lugar onde estão, entram na ampla cozinha para a refeição.
1 quem olha daqui. Segue o desenho que MV fez a lápis preto com parciais sobreposições em vermelho e azul e com o contorno a caneta em alguns nomes. Ao centro é o Templo com Casas fincadas e, em semicírculo a esquerda, Subúrbios e casas mais esparsas, fechado como um todo em duplo cerco do qual é a explicação em rodapé: (o cerco vermelho e azul são o muro). No “muro” se lê porta ao lado da indicação norte e uma outra porta em direção ao sudeste. Fora dos “muros”: Cedron e Getsemani a leste, Casas e Casas ao sul, fiumicello e Gólgota a oeste.
2 parábola em 7.5.
3 sobrenaturalmente, sem as leis ordenadas de Deus – assim anota MV em uma cópia datilografada – inerentes a multiplicação e população da Terra, se unisse a desordem da malícia, antes de “se substituir”. E anota na margem: Assim que o homem permanecer em ordem, não teriam origem nele os venenos da tríplice concupisciência que o fizesse delirante, depois rebelde, depois decaído.
4 sendo eu Deus: Maria, Santuário perpétuo e puríssimo onde o Deus Uno e Trino fez morada perpétua – assim anota MV em uma cópia datilografada – não foi nunca separada da Sabedoria: o Verbo de Deus esteve sempre n’Ela, verdadeira Arca portadora da Palavra Eterna, e nenhuma criatura a conhecee como Ela a conhece; esta Palavra que é Sabedoria Divina que se fez carne n’Ela e que ainda sempre esteve n’Ela.