596. 596. Quarta-feira santa. O maior dos mandamentos,o óbolo da viúva, a injúria contra os escribas e fariseus.Pausa de descanso com a Mãe e as discípulas.A edificação da Igreja e os últimos tempos.


2 de abril de 1947.

596.1Jesus entra no Templo, que está mais cheio do que nos dias precedentes, e hoje está todo vestido de branco, com sua veste de linho. Vai ser um dia de forte calor.

Ele vai adorar no Átrio dos Israelitas, acompanhado por um grande número de pessoas, enquanto outras já ocuparam os melhores lugares por baixo dos pórticos, sendo a maior parte de gentios que, não podendo passar além do primeiro pórtico, que fica além do Pórtico dos Pagãos, aproveitaram aquela circunstância de estarem os hebreus atrás do Cristo, para irem ocupar lugares melhores.

Mas um grupo bem numeroso de fariseus os atrapalha. Eles são sempre arrogantes do mesmo modo, e vão abrindo caminho com prepotência para se aproximarem de Jesus, que está inclinado sobre um doente. Eles esperam que Jesus o cure, a fim de mandarem para perto dele um escriba que lhe faça perguntas.

Na verdade, entre eles tinha havido antes uma breve discussão, porque Joel, cognominado o Alamot, queria ir ele mesmo fazer perguntas ao Mestre. Mas um fariseu se opõe a isso, e os outros o apoiam, dizendo:

– Não. Nós ficamos sabendo que tu és partidário do Rabi, ainda que o sejas secretamente. Deixa que vá Urias…

– Urias, não –diz um outro jovem escriba, que eu não conheço–. Urias é áspero demais para falar. Ele excitaria o povo. Vou eu.

E sem dar ouvidos aos protestos dos outros, vai para perto do Mestre justamente no momento em que Jesus se despede do doente, dizendo-lhe:

– Estás curado. A febre e a dor não voltarão nunca mais.

596.2– Mestre, qual é o maior dos Mandamentos da Lei?

Jesus, atrás do qual estava o escriba, se vira e olha para ele. Um breve sorriso ilumina seu rosto e depois Ele levanta a cabeça, estando de cabeça inclinada visto que o escriba é de baixa estatura e, além disso, está inclinado em um gesto de reverência; e percorre com o olhar toda aquela multidão, detendo-o sobre o grupo dos fariseus e doutores e descobre o rosto pálido de Joel, que está escondido atrás de um obeso fariseu. O sorriso de Jesus se acentua. É como uma luz que vai até o escriba honesto e o acaricia.

Depois abaixa de novo a cabeça, olhando para o seu interlocutor, e lhe responde:

– O primeiro1 de todos os mandamentos é este: “Escuta, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Tu amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças.” Este é o primeiro e supremo mandamento. E o segundo é semelhante a ele: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Não há mandamentos maiores do que esses. Eles compreendem toda a Lei e os Profetas.

– Mestre, Tu respondeste com sabedoria e verdade. Assim é, Deus é um só e não há outro fora Ele. Amá-lo com todo o coração, com toda a própria inteligência, com toda a alma e com todas as forças, e amar ao próximo como a si mesmo, vale muito mais do que todos os holocaustos e sacrifícios. Penso muioto nisso quando medito sobre aquelas palavras de Davi2: “A Ti não agradam os holocaustos. O sacrifício a oferecer-se a Deus é um espírito compungido.”

– Tu não estás longe do Reino de Deus, porque já compreendeste qual é o holocausto agradável a Deus.

– Mas qual é o holocausto mais perfeito de todos? –pergunta, em confidência e em voz baixa o escriba, como se lhe estivesse transmitindo um segredo.

Jesus fica radiante de amor, deixando cair esta pérola no coração desse homem que se deixa abrir para receber sua doutrina, a doutrina do Reino de Deus, e diz, inclinando-se sobre ele:

– O holocausto perfeito é amar como a nós mesmos aqueles que nos perseguem, e não guardar rancores. Quem fizer assim, possuirá a paz. Está escrito3: os mansos possuirão a Terra e gozarão a abundância da paz. Em verdade, Eu te digo que aquele que sabe amar seus inimigos atinge a perfeição e possui a Deus.

595.3O escriba o saúda com deferência, e vai voltando para o seu grupo, que já o está censurando em voz baixa por ter ele louvado o Mestre, e cheios de ira lhe dizem:

– Que foi que lhe perguntaste em segredo? Será que tu também te deixaste seduzir por Ele?

– Eu ouvi o Espírito de Deus falando dos seus lábios.

– Tu és um estulto. Crês talvez que Ele seja o Cristo?

– Eu creio.

– Em verdade, daqui a pouco estaremos vendo vazias dos nossos escribas as nossas escolas, e eles indo, como uns errantes, atrás daquele Homem! Mas em que ponto é que viste ser Ele o Cristo?

– Em que ponto foi, eu não sei. Só sei que eu percebo ser Ele.

– Doido!

E, irrequietos, eles lhe viram as costas.

Jesus observou aquele diálogo, e quando os fariseus passam por sua frente em um grupo cerrado, para ir embora inquietos, Ele os chama, dizendo:

– Ouvi-me. Quero perguntar-vos uma coisa. Segundo vós, quem é que vos parece ser o Cristo? Ele é filho de quem?

– Será o filho de Davi, lhe respondem, destacando aquele “será”, porque eles querem fazer que Ele compreenda que para eles Ele não é o Cristo.

– E, então, como é que Davi, inspirado por Deus, o chama de Senhor, quando diz4: “Senhor”, dizendo: “O Senhor disse ao meu Senhor: ‘Assenta-se à minha direita, até que Eu tenha posto os teus inimigos como escabelo de teus pés’?” Se, pois, Davi chama o Cristo de Senhor, como é que o Cristo pode ser filho dele?

E eles, não sabendo o que responder, vão embora remoendo o próprio veneno.

596.4Jesus se afasta do lugar onde estava, todo exposto ao Sol, e vai mais adiante, onde estão as bocas do Tesouro, ao lado da sala do gazofilácio. Este lado, que ainda está na sombra, está ocupado pelos rabis, que estão discursando com grandes gestos dirigidos aos seus ouvintes hebreus, que vão aumentando, assim como aumenta continuamente, com o passar das horas, o número das pessoas que vão chegando ao Templo.

Os rabis se esforçam para destruir, com os seus discursos, os ensinamentos que Cristo deu nos dias precedentes ou naquela mesma manhã. E sempre vão aumentando o tom de sua voz à medida em que veem aumentar a multidão dos fiéis. Porque o lugar, realmente, ainda que seja bem amplo, está formigando de gente que vai e vem para todos os lados…

596.5Jesus me diz:

– Insere aqui a visão do óbolo da viúva (19 de junho de 44), corrigida5 como Eu te indicarei –(como eu já corrigi nos escritos datilografados que reenviei).

Depois continua a visão.

19 de junho de 1944

596.6Só hoje, e com insistência, vejo aparecer a visão seguinte.

A princípio, eu não vejo nada mais do que pátios e séries de pórticos, que eu reconheço como sendo do Templo; e Jesus, que está parecendo um imperador, de tão solene que Ele está com sua veste de um vermelho vivo e o manto também de um vermelho mais escuro, encostado a uma enorme coluna quadrada que sustenta um dos arcos do pórtico. Ele olha fixamente para mim. E eu me demoro a olhar para Ele, sentindo-me feliz por vê-lo. Pois há dois dias que eu não o via nem ouvia.

A visão dura assim por longo tempo. E enquanto ela continua, eu não a escrevo, pois é uma alegria para mim. Mas agora que eu vejo animar-se a cena, compreendo que devo escrever. E escrevo.

O lugar vai-se enchendo de pessoas que vêm e que vão para todos os lados. Aí vejo sacerdotes e fiéis, homens, mulheres e crianças. Uns passeiam, outros estão parados ouvindo os doutores, outros estão puxando cordeirinhos ou carregando pombos para outros lugares, talvez para onde vão ser sacrificados.

Jesus continua apoiado à coluna, e olhando. Ele nada fala. Mesmo nas duas vezes em que foi interrogado pelos apóstolos, Ele fez sinal de não, mas nada falou. Ele está muito atento a observar. E pela expressão do rosto parece estar julgando os que olha. Os olhos dele e todo o seu rosto me fazem lembrar o aspecto dele como vi na visão do Paraíso, quando Ele julgava as almas, no juízo particular. Agora, naturalmente, é Jesus, Homem; lá em cima era Jesus glorioso e, por isso, mais imponente ainda. Mas as mudanças no rosto que observa fixamente são as mesmas. Ele está sério, perscrutador. Mas se algumas vezes é de uma severidade que faz tremer até o mais descarado, algumas vezes é também doce, com uma tristeza sorridente, que só com o olhar já parece estar acariciando.

596.7Parece não estar ouvindo nada. Mas deve estar escutando tudo, quando, de um grupo que está a alguns metros, ao redor de algum dos doutores, se levanta uma voz anasalada, que proclama: “Mais do que qualquer outra ordem, a que vale é esta: o que é para o Templo, vá para o Templo. O Templo está acima do pai e da mãe, e se alguém quer dar para a glória do Senhor seja lá o que for que lhe sobra, pode fazê-lo e por isso será abençoado, porque não há sangue nem afeto superior ao Templo.” Jesus move lentamente a cabeça naquela direçã, e fica olhando com um olhar tal que… eu não quereria que fosse dirigido a mim.

Parece que agora Ele olha para todos em geral. Mas quando um velhinho trêmulo se prepara para subir pelos cinco degraus que vão para uma espécie de terraço que está perto de Jesus, e que parece conduzir para um outro pátio mais interior, e pega o seu bastãozinho, e quase cai, tendo tropeçado em sua própria veste, Jesus espicha o seu longo braço e o agarra com firmeza, e o sustenta, enquanto não o vê em segurança. O velhinho levanta a cabeça já embranquecida e olha para o seu alto Salvador, murmurando uma palavra de bênção, enquanto Jesus lhe sorri e acaricia-lhe a cabeça meio calva. Depois volta para perto de sua coluna, mas se afasta de novo para levantar um menino que escapou da mão de sua mãe e caiu de bruços justamente a seus pés, perto do primeiro degrau, e está chorando. Jesus o levanta, o acaricia e o consola. A mãe, toda confusa, lhe agradece. Mas Jesus sorri também para ela, e lhe entrega o menino.

Mas Ele não sorri quando passa um arrogante fariseu, nem mesmo quando passam em grupo os escribas e outros que eu não sei quem são. Os deste último grupo se saúdam com muitos abraços e inclinações. Jesus olha para eles tão fixamente que parece querer perfurá-los, e os saúda, mas sem manifestar alegria. Ele está muito sério. Até para um sacerdote que vai passando, e que deve ser um grande personagem, pois a multidão abre passagem para ele e o saúda, e ele passa vaidoso como um pavão, Jesus olha demoradamente. Mas é um olhar tão impressionante, que ele, que é tão cheio de soberba, inclina a cabeça. Não O saúda. Contudo, ele não resiste ao olhar de Jesus.

596.8Jesus para de olhar na direção dele para observar uma pobre mocinha vestida de marrom escuro, que vai subindo, muito acanhada, os degraus, indo para o lado de uma parede na qual estão umas coisas parecidas com cabeças de leão ou de feras semelhantes de boca aberta. Muitos estão indo àquele lugar. Mas Jesus não lhes dá importância. Agora Ele está indo pelo caminho da mocinha. Seus olhos a acompanham com piedade e se enchem de doçura quando a vê estendendo uma das mãos para jogar alguma coisa na boca de pedra de um daqueles leões. E quando a mocinha, ao sair de lá, passa por perto dele, Ele é o primeiro a dizer-lhe:

– A paz esteja contigo, mulher.

Ela, assustada, levanta a cabeça e fica embaraçada.

– A paz esteja contigo –repete-lhe Jesus–. Vai, que o Altíssimo te abençoa.

Aquela pobrezinha fica extática, depois murmura uma saudação e se vai.

– Ela é feliz em sua infelicidade –diz Jesus, saindo do seu silêncio–. Agora está feliz, porque a bênção de Deus a acompanha. 596.9Ouvi, meus amigos, vós que estais aqui perto. Estais vendo aquela mulher? Ela não deu mais do que duas moedinhas, o que não dá para comprar nem a comidinha de um passarinho que está na gaiola, e, contudo, deu mais do que todos deram, desde a hora em que se abriu o Templo de manhã cedo, quando puseram a sua oferta no Tesouro do Templo.

Ouvi. Já vi muitos ricos lançarem naquelas bocas dos cofres importâncias suficientes para matar a fome desta moça por um ano e vestir a sua pobreza, que é decente porque é limpa. Eu já vi ricos que lançavam com prazer lá dentro somas que teriam podido matar a fome dos pobres da Cidade Santa por um ou mais dias e fazer que eles bendigam ao Senhor. Mas em verdade Eu vos digo que ninguém deu mais do que esta mulher. O seu óbolo é caridade. Mas o outro não. O dela é generosidade, o outro não. O dela é sacrifício. O outro não. Hoje aquela mulher não irá comer, porque não tem mais nada. Antes ela terá que trabalhar para receber um pagamento, a fim de dar um pão à sua fome. Para sustentá-la não há riquezas, nem ela tem pais que a sustentem. Ela é sozinha. Deus lhe tirou os pais, o marido e os filhos, tirou-lhe os poucos bens que eles lhe haviam deixado e, mais do que Deus, lho haviam tirado os homens, aqueles homens que agora, com grandes gestos, como estais vendo, continuam a jogar lá dentro o que lhes está sobrando e do qual grande parte foi extorquida com usura das pobres mãos daqueles que são fracos e passam fome.

596.10Eles dizem que não há sangue nem afeto que sejam superiores ao Templo, e assim ensinam a não amar ao próximo. Eu vos digo que acima do Templo está o amor. A Lei de Deus é amor e quem não tem piedade do próximo não ama. O dinheiro supérfluo, o dinheiro enlameado pela usura e pelo ódio, pela dureza, pela hipocrisia, não canta louvor a Deus e não atrai sobre o doador a benção celeste. Deus o repudia. Pode engordar esses cofres, mas não é ouro dado para o incenso: é lama que vos submerge, ó ministros, que não servis a Deus, mas ao vosso interesse. Mas este é um laço que vos estrangula, ó doutores, que ensinais uma doutrina que é vossa; mas é um veneno que corrói aquele resto de alma que ainda tendes, ó fariseus, se é que ainda a tendes. Deus não quer o que é sobra. Não sejais uns Cains. Deus não quer o que é produzido pela crueldade. Deus não quer aquilo que, levantar a voz em pranto, diz: “Eu devia matar a fome de um faminto, mas não o fiz porque queria apresentar-me com pompa aqui dentro. Eu devia ajudar um velho pai, uma mãe que já está caducando, mas não o fiz porque a ajuda não teria sido conhecida pelo mundo, e eu devo tocar a minha trompa a fim de que o mundo saiba quem é o doador.”

Não, ó rabi, que ensinas que tudo o que é sobra seja dado a Deus e que é permitido negar ao pai e à mãe para dar a Deus. O primeiro mandamento é: “Ama a Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua inteligência, com tuas forças.” Por isso, não o supérfluo, mas sim o que é nosso sangue é preciso dar-lhe, desejando sofrer por Ele. Sofrer. Não fazer sofrer. E se dar muito custa, porque despojar-se das riquezas desagrada, e o tesouro é o coração do homem, que é vicioso por natureza, justamente porque é difícil é preciso dar. Por justiça, porque tudo o que se tem é por vontade de Deus. Por amor, porque é prova de amor amar o sacrifício para dar alegria a quem se ama. Sofrer para oferecer. Repito: não fazer sofrer. Porque o segundo mandamento diz: “Ama ao teu próximo como a ti mesmo.” E a lei também diz que, depois de Deus, nossos pais são o próximo a quem somos obrigados a honrar e ajudar.

596.11Por isso, em verdade Eu vos digo que aquela pobre mulher compreendeu a Lei melhor do que os sábios, e está justificada mais do que qualquer outro; e abençoada, porque, em sua pobreza, deu a Deus tudo, enquanto que vós dais o que vos sobra, e o dais para crescerdes na estima dos homens. Eu sei que me odiais porque Eu falo assim. Unis o vosso ódio a Mim ao desprezo pela pobrezinha, que Eu elogio. Mas não fiqueis pensando que estais fazendo destas duas pedras um duplo pedestal para a vossa soberba. Elas serão a pedra de moinho que vos esmagará.

Vamos. Deixemos que as víboras se mordam, aumentando o seu veneno. Quem é puro, bom, humilde, contrito, e quer conhecer o verdadeiro rosto de Deus, que me acompanhe.

596.12Diz Jesus:

– E tu, que ficas agora sem nada porque tudo Me deste, dá-me essas duas últimas moedas. Diante do muito que me deste, elas podem parecer aos estranhos um nada. Mas para ti, que não tens mais do que elas, elas são tudo. Põe-nas na mão do teu Senhor. E não chores. É melhor que não fiques chorando sozinha. Chora Comigo, que sou o Único que te posso entender e te entendo sem as névoas desta humanidade que está sempre interessada em por um véu sobre a verdade.

[2 de abril de 1947.]

596.13Os apóstolos, os discípulos e o povo o acompanham bem de perto, enquanto Ele torna a voltar ao primeiro recinto, que fica quase sob a proteção da grande muralha do Templo, num ponto onde o ar está mais fresco, pois o dia de hoje está muito mormacento. E lá, estando o terreno quase revolvido pelos cascos dos animais e cheio das pedras que os mercadores e cambistas usavam para conservar mais firmes os recintos de suas armações, lá não estão os rabis de Israel, os quais permitiam que o Templo se transformasse em uma feira, mas que sentem repugnância de entrar com as solas de suas sandálias lá de onde acabaram de ser raspados os rastos dos quadrúpedes, que há apenas poucos dias foram expulsos de lá…

Jesus não sente repugnância e é lá que Ele se refugia, rodeado por um círculo formado por muitos ouvintes. Mas, antes de Ele falar, chama para perto de Si os seus apóstolos, aos quais Ele diz:

– Vinde e escutai bem. Ontem queríeis saber muitas das coisas que agora vos irei dizer e das quais ontem Eu falei vagamente, quando estávamos descansando no horto de José. Ficai, pois, bem atentos, porque são grandes lições para todos, e especialmente para vós, meus ministros e continuadores.

596.14Ouvi. Sobre a cátedra de Moisés sentaram-se, ao tempo certo, escribas e fariseus. Aquelas foram horas tristes para a Pátria6. Quando terminou o exílio de Babilônia e pela magnanimidade de Ciro foi reconstruída a nação, os governadores dos povos sentiram a necessidade de reconstruir também o culto e o conhecimento da Lei. Porque ai daquele povo que não os toma por guia e apoio contra os mais poderosos inimigos de uma nação, que são a imoralidade dos cidadãos, a revolta contra os chefes, a desunião entre as diversas classes e partidos, os pecados contra Deus e o próximo, a irreligiosidade, que são elementos desagregadores por si mesmos e pelos castigos celestes que eles provocam!

Surgiram, então, os escribas, ou doutores da Lei, para poderem ensinar ao povo que, como falava a língua caldaica, herança de um duro exílio, não compreendia mais as Escrituras em hebraico puro. Surgiram para ajudar aos sacerdotes, que eram poucos para a tarefa de ensinar as multidões. Era um laicato douto e dedicado a prestar honras ao Senhor, trazendo o conhecimento Dele aos homens e levando a Ele os homens, que teve a sua razão de ser e também fez o bem. Porque, recordai-o todos disso, até as coisas que, pela fraqueza humana, depois vão degenerando, como aconteceu com esta, que se corrompe com o correr dos séculos, têm sempre algo bom e uma razão de ser, motivo pelo qual o Altíssimo permite que surjam e durem, até que, com a medida da degeneração plena, o Altíssimo as desfaz.

Veio depois outra seita dos fariseus, que era uma transformação daquela dos Assideus, que havia surgido para manter, com a mais rígida moral e a mais intransigente obediência à Lei de Moisés e o espírito de independência do nosso povo. Era o tempo em que o partido helenista, tendo-se formado pelas pressões e seduções iniciadas no tempo de Antíoco Epifânio e logo transformada em perseguições contra os que não cediam às pressões do astuto — que contava, mais do que com as suas armas, com a desagregação da fé nos corações para reinar em nossa Pátria — procurava fazer-nos seus escravos.

596.15Lembrai-vos também disto: temei mais as falsas alianças e as lisonjas de um estrangeiro do que as suas legiões. Porque, enquanto estiverdes fiéis às leis de Deus e da Pátria, vencereis, ainda que estejais cercados por exército e poderosos, quando estiverdes corrompidos pelo veneno sutil, a vós oferecido como se fosse um mel inebriante pelo estrangeiro que havia feito os seus planos sobre como lidar convosco, Deus vos abandonará por causa de vossos pecados, e sereis vencidos e subjugados, mesmo que o vosso falso aliado não dê batalha sangrenta contra o vosso exército. Ai de quem não estiver alerta, como uma escolta de vigia, para afastar as ciladas sutis de um astuto e falso vizinho, ou aliado, ou dominador que inicia a sua dominação sobre os indivíduos desanimando o coração deles, e o corrompendo com usos e costumes que nossos não são, que santos não são, e que por isso nos tornam desagradáveis ao Senhor! Lembrai-vos das consequências que houve para a nossa Pátria, por alguns dos seus filhos terem adotado usos e costumes de estrangeiros a fim de agradar-lhes. Boa coisa é a caridade para com todos, até para os povos que não são da nossa fé, que não têm os nossos usos, que nos fizeram mal nos séculos passados. Mas o amor a esses povos, que sempre são nossos próximos, não nos deve nunca fazer que reneguemos a Lei de Deus e da Pátria, com vistas em qualquer vantagem obtida assim sobre os vizinhos. Não. Os estrangeiros desprezam aqueles que chegam a ser tão servis, até o ponto de repudiarem as coisas mais santas da Pátria. Não é renegando o Pai e a Mãe — Deus e a Pátria — que seremos respeitados e livres.

Ainda bem que no tempo certo surgiram os fariseus, para fazerem oposição ao transferimento lamacento de usos e costumes estrangeiros. Eu repito: cada coisa que aparece e que dura tem sua razão de ser. E é necessário respeitá-la por aquilo que fez, se não for por aquilo que faz. Porque se ela se tornou culpada, não cabe aos homens insultá-la e muito menos atacá-la. Há quem sabe fazer isso: Deus e Aquele que Ele mandou, e que tem o direito e o dever de abrir sua boca e de abrir os vossos olhos para que vós e eles saibais qual é o pensamento do Altíssimo, e ajais com justiça. Eu e nenhum outro. Eu porque falo por mandato divino. Eu porque posso falar, não tendo em Mim nenhum dos pecados que vos escandalizam quando os vedes cometidos pelos escribas e fariseus, mas que, se puderdes, os cometeis vós também.

596.16Jesus, que havia começado com voz muito baixa o seu discurso, foi levantando-a pouco a pouco, e nessas últimas palavras Sua voz é tão potente como uma trompa que soa.

Hebreus e gentios estão atentos a ouvi-lo. E se os primeiros aplaudem quando Jesus fala da Pátria e chama claramente pelos seus nomes aqueles que, sendo estrangeiros, os têm sujeitado e feito sofrer, os segundos se admiram da forma oratória com que Ele fala, e se felicitam por estarem presentes àquela fala digna de um grande orador, como eles estão comentando entre si.

Jesus abaixa de novo a voz, quando recomeça a falar:

– Isto Eu vos disse para fazer-vos recordar a razão de ser dos escribas e fariseus, e como e porque eles se assentaram na cátedra de Moisés; e como e porque falam, e suas palavras não são vazias. Fazei, pois, o que eles dizem. Mas não os imiteis fazendo o que eles fazem. Porque eles dizem que se deve fazer de um certo modo, mas depois eles não fazem o que dizem que se deve fazer. Na verdade, eles ensinam as leis de humanidade do Pentateuco, mas depois põem grandes pesos, insuportáveis e desumanos, nas costas dos outros, enquanto que eles próprios não movem nem um dedo para transportar aqueles pesos, e nem mesmo para tocar neles.

A regra de vida deles é a de procurar serem vistos, conhecidos e aplaudidos, para receberem louvores. Mas eles vão contra a lei do amor, porque gostam de dizer que eles são uns separados, e desprezam aos que não são de sua seita, exigem para si o título de mestres e que seus discípulos lhes prestem um culto que eles não prestam nem a Deus. Eles se julgam uns deuses por sua sabedoria e poder; mais do que os pais e as mães, querem estar no coração de seus discípulos; e pretendem que sua doutrina seja superior à de Deus e exigem que ela seja praticada ao pé da letra, ainda que ela seja uma manipulação da verdadeira Lei, tão inferior a esta como mais não pode ser este monte em comparação com o Grande Hermon, que está acima de toda a Palestina. Eles são uns heréticos, pois creem, como os pagãos, na metempsicose e no fatalismo alguns deles, enquanto que os outros negam as coisas que os primeiros admitem e, de fato, se não na prática, o que o próprio Deus nos deu como matéria de fé, definindo-se o único Deus ao qual deve ser oferecido o culto, e tendo como tais o direito de serem obedecidos mais do que um mestre que não seja divino.

E se agora Eu vos digo7: “Aqueles que amam seu pai e sua mãe mais do que a Mim, não estão aptos para entrarem no Reino de Deus”, não é para inculcar-vos o desamor aos pais, aos quais deveis respeito e ajuda, e nem vos é lícito negar um socorro a eles, dizendo: “É o dinheiro do Templo”; ou negar-lhes a hospitalidade, dizendo: “O peso que eu já carrego não mo permite”; ou tirar-lhe a vida, dizendo: “Eu vou matar-te, porque tu amas o Mestre.” Mas é para que tenhais um amor justo aos vossos pais, isto é, um amor paciente e firme em sua mansidão, um amor tal que saiba — sem chegar ao ódio a um deles que peca e vos faz sofrer por não querer acompanhar-vos pelo caminho da Vida: o meu caminho — sabendo distinguir entre a minha lei e o egoísmo familiar, a prepotência familiar. Amai a vossos pais, obedecei-lhes em tudo o que é santo. Mas estai sempre prontos a morrer, não matar, mas a morrer, eu quero dizer, se eles quiserem induzir-vos a trair a vocação que Deus colocou em vós, a de serdes os cidadãos do Reino de Deus, que Eu vim formar.

596.17Não imiteis os escribas e fariseus, que estão separados uns dos outros, ainda que pareçam estar unidos. Vós, discípulos de Cristo, sede verdadeiramente unidos uns aos outros, os chefes sejam afáveis para com os seus súditos, e os súditos, afáveis para com os seus chefes, unidos no amor e na finalidade que quereis atingir com a vossa união: conquistar o meu Reino e ficar à minha direita no Eterno Julgamento. Lembrai-vos de que um Reino dividido já não é mais um reino e não pode subsistir. Sede, pois, unidos entre vós no amor para comigo e para com a minha doutrina. O tribunal do Cristão, assim é que vão ser chamados os meus súditos, seja o amor e a união, a igualdade entre vós nas vestes, a partilha nas posses, a fraternidade dos corações. Todos por um, um por todos. Quem possui, dê humildemente. Quem não possui, aceite humildemente e exponha as suas necessidades aos irmãos, sabendo que eles são realmente irmãos. E os irmãos escutem amorosamente as necessidades dos irmãos, sendo para eles verdadeiramente tais.

Lembrai-vos de que o vosso Mestre muitas vezes teve fome, frio e mil outras necessidades e incômodos, e humildemente as contou aos homens, Ele, o Verbo de Deus. Lembrai-vos de que é dado um prêmio a quem é misericordioso, ainda que seja somente por dar um pouco d’água. Lembrai-vos de que dar é melhor do que receber. Lembrando-se destas três coisas, o pobre pode encontrar a força de pedir sem se sentir humilhado, sabendo que Eu o fiz antes dele; e perdoar quando for repelido, sabendo que muitas vezes ao Filho do homem foram negados o lugar e o alimento que são dados ao cão que guarda o rebanho. E o rico tenha a generosidade de dar suas riquezas, ciente que a vil moeda, o odioso dinheiro sugerido por Satanás, são a causa de nove décimos das ruínas do mundo, mas que, se forem dados por amor, se transformam em uma joia imortal e paradisíaca.

596.18Estai vestidos com vossas virtudes. Que elas sejam amplas, mas conhecidas somente por Deus. Não façais como os fariseus, que põem os mais largos filactérios, as franjas mais longas, e gostam dos primeiros lugares nas sinagogas, e de serem saudados nas praças, e de serem chamados de “rabis” pelo povo. Um só é o vosso Mestre: o Cristo. Vós que no futuro sereis os novos doutores, é a vós que Eu falo, meus apóstolos e discípulos, e lembrai-vos de que só Eu sou o vosso Mestre E o serei também quando já não estiver mais no meio de vós. Porque só a Sabedoria é que ensina. Portanto, não vos deixeis chamar de mestres, porque vós mesmos sois discípulos. E não exijais nem deis o nome de pai a ninguém sobre a terra, porque um só é o Pai de todos, o vosso Pai que está nos Céus. Que esta verdade vos torne sábios, ao perceberdes verdadeiramente que sois todos irmãos uns dos outros, seja os que dirigem, como os que são dirigidos, e amai-vos como bons irmãos. Nenhum daqueles que irão dirigir se faça chamar de guia, porque um só é o vosso guia comum: o Cristo.

Que o maior entre vós seja o vosso servo. Porque não é humilhar-se ser servo dos servos de Deus, mas isso é imitar a Mim, que fui manso e humilde, sempre pronto para ter amor aos meus irmãos pela carne de Adão, e ajudá-los com o poder que Eu tenho em Mim, como Deus. Eu não humilhei minha natureza divina, servindo aos homens. Porque o verdadeiro rei é aquele que sabe dominar não somente aos homens, mas também as paixões do homem e, antes de tudo, a estulta soberba. Lembrai-vos: quem se humilha será exaltado e quem se exalta será humilhado.

596.19A Mulher8 da qual o Senhor falou no segundo capítulo do Gênesis, a Virgem da qual se fala em Isaías, a Mãe-Virgem do Emanuel, profetizou esta verdade do tempo novo, quando cantou: “O Senhor derrubou os poderosos de seus tronos e elevou os humildes.” A Sabedoria de Deus falava sobre os lábios daquela que era a Mãe da Graça e Trono da Sabedoria. E Eu repito as palavras inspiradas que me louvaram unido ao Pai e ao Espírito Santo, em nossas obras admiráveis, quando, sem ofensa para com a Virgem, Eu, o Homem, fui me formando em seu seio sem deixar de ser Deus. Sirva isso de norma para aqueles que querem dar à luz o Cristo em seus corações e vir para o Reino de Cristo. Aí não estará Jesus como o Salvador, como o Cristo, o Senhor. E não haverá Reino dos Céus para os que são soberbos, fornicadores e idólatras, adoradores de si mesmos e de suas vontades.

596.20Por isso, ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que credes poder fechar com as vossas sentenças impraticáveis — e que realmente se fossem endossadas por Deus seriam uma fechadura inquebrável para a maioria dos homens — que credes poder fechar o Reino dos Céus diante dos homens que elevam seu espírito para ele, a fim de achar força em sua penosa jornada terrena! Ai de vós que lá não entrais, e lá não quereis entrar, porque não acolheis a Lei do Celeste Reino, e não deixais entrar os outros, que estão diante daquela mesma porta que vós, intransigentes, fechais ainda mais, com fechaduras que não foi Deus que lá colocou.

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que devorais os bens das viúvas com o pretexto de fazer longas orações. Por isso sofrereis um juízo severo!

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que andais por mar e por terra consumindo bens que não são vossos, a fim de fazerdes ainda que um só prosélito, e, uma vez que o tenhais conseguido, fazer dele um filho do inferno, duas vezes mais do que vós mesmos!

Ai de vós, ó guias cegos, que dizeis: “Se alguém jurar pelo Templo, seu juramento não vale nada. Mas se ele jurar pelo ouro do Templo, fica ligado ao seu juramento.” Estultos e cegos! E quem é mais? O ouro, ou o Templo que santifica o ouro? E vós ainda dizeis: “Se alguém jura pelo altar, seu juramento não tem valor. Mas se jurar pela oferta que está sobre o altar, então é válido o seu juramento, e ele fica ligado ao seu juramento.” Ó cegos! Que é que é maior? A oferta ou o altar que santifica a oferta? Quem jura, então, pelo altar, jura por ele e por todas as coisas que estão sobre ele, e quem jura pelo Templo, jura por ele e por Aquele que nele habita, e quem jura pelo Céu, jura pelo Trono de Deus e por Aquele que nele está sentado.

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais os dízimos da hortelã e da arruda, do anis e do cominho, e depois descuidais de cumprir os preceitos mais graves da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Estas são as virtudes que era necessário praticar, sem desprezar as outras menores!

Ó guias cegos, que filtrais vossas bebidas por medo de vos contaminardes engolindo algum mosquitinho que se afoga, e depois engolis um camelo sem por isso vos julgardes impuros. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que lavais o cálice e o prato por fora, mas por dentro estais cheios de rapinas e imundícias. Ó fariseu cego, lava primeiro por dentro o teu cálice e o teu prato, de tal modo que a parte de fora também fique limpa.

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que voais como morcegos no escuro, pelas vossas obras de pecado, e pactuais durante a noite com os pagãos, os ladrões e os traidores, e depois, pela manhã, tendo tirado os sinais de vossos negócios escusos, subis ao Templo com belas vestes.

Ai de vós, que ensinais as leis da caridade e da justiça contidas no Levítico, e depois sois uns ávidos, ladrões, falsos, caluniadores, opressores, injustos, vingativos, cheios de ódio, e chegais até a abater quem vos aborrece, ainda que seja do vosso sangue, e a repudiar a virgem que se tornou vossa mulher, a repudiar os filhos tidos dela porque são infelizes, e a acusar de adultério a vossa mulher porque ela não vos agrada mais, ou de doença imunda, para ficardes livres dela, vós, que sois imundos em vosso coração libidinoso, por mais que não pareçais ser assim aos olhos das pessoas que não conhecem as vossas ações. Sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos dos mortos e de podridão. Assim sois vós. Sim. Assim sois! Por fora pareceis justos, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que ergueis suntuosos mausoléus para os profetas e embelezais as tumbas dos justos, dizendo: “Se nós tivéssemos vivido no tempo de nossos pais, não teríamos sido cúmplices e companheiros daqueles que derramaram o sangue dos profetas.” Assim testemunhais contra vós mesmos de serdes descendentes daqueles que mataram os vossos profetas. E vós, além do mais, superais a medida dos vossos pais… Ó serpentes, raça de víboras, como escapareis da condenação na Geena?

596.21Por isso, eis que Eu, Palavra de Deus, vos digo: Eu, Deus, mandar-vos-ei profetas e sábios e escribas novos. E destes, uma parte vós matareis, outra parte crucificareis, outra flagelareis em vossos tribunais, em vossas sinagogas, fora de vossos muros, e uma parte deles vós a perseguireis de cidade em cidade, enquanto não cair sobre todos vós o sangue do justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel9 até o de Zacarias, filho de Baraquias, que vós matastes entre o átrio e o altar, porque, por amor de vós, ele vos havia lembrado o vosso pecado, para que dele vos arrependêsseis, voltando para o Senhor. Assim é. Vós odiais aqueles que querem o vosso bem e que amorosamente vos convidam a andar pelos caminhos de Deus.

Em verdade Eu vos digo que tudo isso está para acontecer, o delito e as consequências. Em verdade Eu vos digo que tudo se cumprirá ainda nesta geração.

Oh! Jerusalém! Jerusalém! Jerusalém, que apedrejas os que são enviados e matas os teus profetas! Quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo de suas asas, e tu não quiseste! Agora, pois, escuta, ó Jerusalém! Agora, pois, escutai todos vós que me odiais e odiais tudo o que vem de Deus. Agora escutai-me, vós que me amais e que sereis arrastados no castigo reservado para os perseguidores dos Enviados por Deus. E escutai vós também, que não sois deste povo, mas que me escutais igualmente, escutai para que fiqueis sabendo quem é Aquele que vos está falando e que prediz, sem necessidade de estudar o voo, o canto dos passarinhos nem os fenômenos celestes, nem as vísceras dos animais sacrificados, nem a chama do fogo, nem a fumaça dos holocaustos, porque todo o futuro é o presente para Este que vos está falando. “Esta vossa casa vos será deixada deserta. Eu vos digo, diz o Senhor, que não me vereis mais enquanto vós mesmos não disserdes10: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor’.”

596.22Jesus está visivelmente cansado e suado. Tanto pelo muito tempo que Ele ficou falando em voz alta, como, como pelo mormaço do dia sem vento. Pressionado contra o muro por uma multidão, atingido por milhares de olhares, e percebendo todo o ódio dos que, por baixo dos pórticos do pátio, o estão ouvindo, e também todo o amor, ou pelo menos a admiração dos que o rodeiam, sem se preocupar com o Sol que está batendo nas cabeças e avermelhando os rostos suados, Ele está bastante exausto e necessitado de alívio. E sai a procurá-lo, dizendo aos seus apóstolos e aos setenta e dois discípulos, que como cunhas foram abrindo lentamente uma passagem pelo meio da multidão e que agora já estão na primeira linha, formando uma barreira de amor ao redor Dele:

– Vamos sair do Templo, vamos para algum lugar aberto, no meio das árvores. Eu tenho necessidade de sombra, de silêncio e de frescor. Na verdade, este lugar já está parecendo arder com fogo da ira celeste.

Abrem-lhe passagem com dificuldade, e assim podem sair pela porta mais próxima, onde Jesus está se esforçando para despedir-se de muitos, mas inutilmente. A multidão o quer acompanhar, custe o que custar.

596.23Enquanto isso, os discípulos estão observando o pináculo do alto do Templo, como ele está cintilando ao sol, por volta do meio dia, e João de Éfeso faz que o Mestre observe a robustez da construção:

– Olha só que pedras e que construções!

– Contudo, disso tudo não ficará pedra sobre pedra! –responde-lhe Jesus.

– Não? Quando será isso? –perguntam muitos.

Mas Jesus não diz nada.

Vai descendo o Monte Mória e sai depressa da cidade, passando por Ofel e pela Porta de Efraim ou do Estrume, e indo refugiar- se por entre as folhagens dos jardins do Rei inicialmente, até que aqueles que não são apóstolos nem discípulos e persistiram em acompanhá-lo, vão indo lentamente, quando Manaém, que fez que se abrissem as pesadas cancelas, põe-se na frente para dizer a todos com altivez:

– Ide. Aqui só entram os que eu quero!

As sombras, o silêncio, o perfume das flores, os aromas da cânfora, dos cravos e da canela, da alfazema e de mil outras ervas odoríferas, o sussurro dos regatos, certamente alimentados pelas fontes e cisternas vizinhas, por baixo das galerias formadas pela folhagem, tudo isso unido ao chilreio dos passarinhos, fazem deste lugar um ambiente de um repouso paradisíaco. A cidade parece estar a muitas milhas de distância, com suas ruas estreitas e escuras por causa das arquivoltas e, noutros pontos, ensolarada a ponto de ofuscar as vistas, com os seus maus cheiros e os fedores das cloacas nem sempre limpas, e de ruas cheias de quadrúpedes demais para poderem estar limpas, especialmente as que são de segunda categoria.

596.24O guarda dos Jardins deve conhecer Jesus muito bem11, porque o trata com respeito e, ao mesmo tempo, com confiança. E Jesus lhe pergunta como vão os filhos e a mulher.

O homem gostaria de dar hospedagem a Jesus em sua casa, mas o Mestre prefere ficar na paz daquele frescor repousante, tranquilo, do vasto jardim do Rei, um verdadeiro parque de delícias. E antes que os dois incansáveis e fidelíssimos servos de Lázaro saiam para ir buscar a cesta de alimentos, Jesus lhes diz:

– Dizei às vossas patroas que venham. Estaremos aqui por algumas horas com minha Mãe e as discípulas fiéis. E será muito agradável…

– Estás muito cansado, Mestre. O teu rosto o está dizendo –observa Manaém.

– É verdade. E tanto, que nem tive forças para ir além.

– Mas eu te havia oferecido estes jardins muitas vezes, nos dias passados. Tu sabes que eu fico contente quando te posso oferecer paz e sustento!

– Eu sei disso, Manaém.

– Mas ontem quiseste ir para aquele triste lugar! Um lugar com tanta aridez na redondeza, tão estranhamente seco, sem vegetação neste ano! E tão perto daquela triste porta!

– Eu quis contentar os meus apóstolos. Afinal, eles são umas crianças. Crianças grandes. Olha bem, como estão eles lá se refrescando felizes!… Bem depressa se esquecem o que estão tramando contra Mim do lado de lá destes muros…

– E esquecidos de que andas tão aflito… Mas não me parece que aqui precisemos ficar muito alarmados. Nas outras vezes este lugar me parecia mais perigoso.

Jesus olha para ele, e se cala. Quantas vezes já vi Jesus olhar e ficar calado assim, nestes últimos dias!

Depois Jesus se põe a olhar para os apóstolos e discípulos, que descobriram as cabeças, tiraram os mantos e as sandálias, refrescando seus rostos e outras partes do corpo nas águas frias dos córregos, sendo imitados por muitos dos setenta e dois, que agora na verdade são muitos mais, e eu até creio que, unidos todos eles pela mesma fraternidade de ideais, vão-se colocando aqui e ali, para descansarem um pouco afastados dali, a fim de deixarem Jesus descansar também.

Até Manaém se retira para deixá-lo sossegado. Todos eles respeitam o repouso do Mestre, que está cansadíssimo e foi refugiar-se sob uma pérgula carregada de jasmins em flor, com a forma de uma cabana, separada por um anel formado pelas águas que escorrem para um pequeno canal, no qual vegetam ervas e flores. Um verdadeiro refúgio de paz, ao qual se chega por uma pequena ponte de dois palmos de largura e quatro de comprimento, e sobre a qual há um corrimão todo encoberto por corolas de jasmim.

596.25Voltam os servos, agora em maior número, pois Marta quis tomar providências para todos os servos do Senhor, e dizem que as mulheres chegarão dali a pouco.

Jesus manda chamar Pedro, e lhe diz:

– Junto com Tiago, meu irmão, abençoa, oferece e distribui, como Eu faço.

– Distribuir, sim. Mas abençoar, não, Senhor. A Ti é que toca oferecer e abençoar. A mim, não.

– Quando estavas à frente dos companheiros, longe de Mim, não o fazias?

– Sim. Mas naquele tempo… era forçoso que eu o fizesse. Agora, Tu estás conosco e Tu abençoas. Parece-me melhor tudo, quando Tu ofereces para nós e distribuis… –e o fiel Simão abraça o seu Jesus, sentado tão cansado naquela sombra, e inclina a cabeça sobre o ombro dele, feliz por podê-lo abraçar e beijar assim…

Jesus se levanta e o contenta. Depois vai para o lado dos discípulos, oferece, abençoa e reparte a comida, olha como eles estão comendo contentes e lhes diz:

– Agora dormi, repousai enquanto é tempo, e para que depois possais velar e orar, quando tiverdes necessidade de fazê-lo, a fim de que a fadiga e o cansaço não façam que fiquem pesados de sono os vossos olhos e o vosso espírito, quando for necessário que estejais prontos e bem despertos.

– Tu não ficas conosco? Não comes?

– Deixai-me descansar. Eu só preciso disso. Comei, comei!

E, ao passar, vai acariciando os que vê em seu caminho e volta para o seu lugar…

596.26Doce, suave é a vinda da Mãe para perto do seu Filho. Maria vem na frente sem medo de errar, pois Manaém, que vigiou ao lado do portão, estando menos cansado do que os outros, lhe mostra o lugar onde está Jesus. As outras, e lá estão todas as discípulas hebreias, e de romanas somente Valéria, param por algum tempo, silenciosas para não despertarem os discípulos, que estão dormindo à sombra de algumas árvores frondosas, parecendo um grupo de muitas ovelhas encolhidas pelo meio das ervas, ao meio dia.

Maria entra por baixo da cobertura de jasmins sem fazer ranger a pequena ponte de madeira nem o cascalho do chão; e, com mais cuidado ainda, se aproxima de seu Filho que, vencido pelo cansaço, adormeceu com a cabeça sobre uma pedra, o braço esquerdo servindo de travesseiro por baixo do rosto que está coberto pelos cabelos. Maria se sentar paciente perto da sua Criatura cansada. E o fica contemplando… muito… e um sorriso cheio de dor e de amor está em seus lábios, enquanto silenciosas lágrimas lhe caem pelo rosto. Mas, se seus lábios estão fechados e mudos, seu coração está rezando com todas as suas forças, e manifesta o poder de sua oração por sua respiração e pela posição de suas mãos, juntas sobre o colo e apertadas para não tremerem, mas sempre sacudidas por um leve tremor. Essas mãos só se separam para espantar uma mosca, que insiste em querer pousar sobre o adormecido, pois poderia despertá-lo.

É a Mãe que vela o seu Filho. É o último sono do Filho que Ela está podendo velar. E se o rosto da Mãe, nesta quarta-feira da Páscoa é diferente daquele da Mãe no Natal do Senhor, porque a dor o empalidece e deforma, a doce e amorosa pureza de seu olhar, e o tremulante cuidado, são iguais aos que Ela tinha quando, inclinada sobre a manjedoura de Belém, protegia com seu amor o primeiro sono sem conforto do seu Filho.

Jesus faz um movimento e Maria rapidamente enxuga os olhos para que seu Filho não veja suas lágrimas. Mas Jesus não despertou. Ele somente mudou a posição do rosto, virando-se para o outro lado, e Maria também retoma sua imobilidade e sua vigília.

596.27Mas alguma coisa está fazendo estremecer o coração de Maria. É que Ela percebe que o seu Jesus chora durante o sono e, com um murmúrio confuso, porque Ele está falando com a boca apoiada sobre o braço e a roupa, murmura o nome de Judas…

Maria se levanta, aproxima-se, inclina-se sobre o Filho, acompanha aquelas palavras confusas com as mãos apertadas sobre o coração, porque, desconexo mas não de tal modo que não totalmente que impeça a compreensão, as palavras de Jesus dão a entender que Ele está sonhando, e tornando a sonhar, com o presente e o passado, e também com o futuro, até que Ele desperta com um sobressalto, como quem quer escapar de alguma coisa horrenda. Mas o que Ele encontra é o peito de sua Mãe, os braços de sua Mãe, o sorriso de sua Mãe, a doce voz de sua Mãe, o seu beijo, suas carícias, o roçar ligeiro do seu véu passado sobre o rosto para enxugar as lágrimas e o suor, enquanto lhe vai dizendo:

– Tu estavas em uma posição incômoda, e estavas sonhando… Estás suado e cansado, meu Filho.

E põe em ordem seus cabelos descompostos, enxuga-lhe o rosto e o beija, conservando-o cingido por seu braço, apoiado ao seu coração, porque não pode mais elevá-lo até seu seio, como quando Ele era pequeno.

Jesus lhe sorri, dizendo:

– Tu és sempre minha Mãe. A Mãe que consola. A que me satisfaz em tudo. A minha Mãe!

E Ele a faz sentar-se perto dele, deixando a mão em seu colo, e Maria segura aquela mão longa, tão senhoril, mas também tão robusta, mão de operário, segura pelas suas pequeninas mãos, acaricia os dedos dela e as costas, alisando-lhe as veias, que estavam inchadas por terem ficado penduradas durante o sono. E procura distraí-lo…

596.28– Nós viemos. Aqui estamos todas. Também Valéria. As outras estão perto da Fortaleza Antônia. Assim quis Cláudia, “que está muito entristecida”, diz a liberta. Disse, não sei por que motivo, que ela tem o presságio de muito choro. São superstições!… Só Deus sabe o futuro…

– Onde estão as discípulas?

– Lá, na entrada dos jardins. Marta quis preparar-te alimentos e bebidas refrescantes e fortificantes, pensando em quanto te esgotas. Mas eu, olha, isto sempre te agrada, e eu te trouxe. É a minha parte. É melhor porque é de tua Mãe.

E lhe mostra um pouco de mel e uma pequena fogaça de pão sobre o qual ela passa o mel, dando-o ao seu Filho, e dizendo:

– Como em Nazaré, quando descansavas nas horas de maior calor, e depois acordavas e eu vinha da gruta fresca trazendo coisas assim…

E ela para de falar porque sua voz fica trêmula.

Seu Filho olha para ela e depois diz:

– E quando José era vivo, para nós dois tu trazias coisas assim e a água fresca da moringa porosa, conservada sempre na correnteza para que estivesse sempre fresca, e mais fresca a tornavam as folhas de hortelã selvagem que colocavas dentro dela. E quanta hortelã havia por lá, por baixo das oliveiras! E quantas abelhas sobre as flores da hortelã! O nosso mel tinha sempre um pouco daquele perfume…

Pensa… Fica recordando…

– Nós vimos Alfeu, sabes? José chegou atrasado porque estava com um filho um pouco doente. Mas amanhã certamente ele estará aqui com Simão. Salomé de Simão toma conta da nossa casa e da casa de Maria.

596.29– Mãe, quando estiveres sozinha, com quem ficarás?

– Com quem Tu disseres, meu Filho. Eu te obedeci até mesmo antes de ter-te, Filho. Continuarei a fazer assim quando me tiveres deixado.

Sua voz está trêmula, mas ela tem um sorriso heroico sobre os lábios.

– Tu sabes obedecer. Que descanso é estar contigo! Porque, olha, minha Mãe. O mundo não pode compreender isso, mas Eu encontro um grande repouso estando junto com os obedientes. Sim. Deus descansa estando com os obedientes… Deus não teria tido que sofrer nem que se cansar, se a desobediência12 não tivesse entrado no mundo.

Todo mal acontece porque não se obedece. Por isso é que existe dor no mundo… Por isso é que temos a nossa dor.

– Mas também a nossa paz, Jesus. Porque nós sabemos que nossa obediência consola o Eterno. Oh! Para mim, especialmente, quanto vale este pensamento! Foi concedido a mim, uma criatura, consolar o meu Criador!

– Oh! Alegria de Deus! Tu nem sabes, ó nossa Alegria, o que é para Nós essa tua palavra! Ela está acima das harmonias dos coros celestes… Bendita! Bendita és tu que me ensinas a última obediência, e a tornas para mim tão agradável de cumprir-se com este pensamento!

– Tu não precisas de que eu te ensine, meu Jesus. Tudo eu aprendi de Ti.

– Tudo aprendeu de ti o Jesus de Maria de Nazaré, o Homem.

– Era a tua luz a que saía de mim. A Luz que és Tu, e que vinha à Luz Eterna que se aniquilara vestida de homem… 596.30Contaram-me os irmãos de Joana o discurso que pronunciaste. Eles estavam fora de si, de tão admirados. Foste forte com os fariseus…

– Chegou a hora das supremas verdades, minha Mãe. Para eles serão verdades mortas. Mas para os outros serão verdades vivas. E com o amor e com o rigor, Eu devo travar a última batalha para arrebatá-los das garras do Mal.

– É verdade. Disseram-me que Gamaliel, que estava com os outros em uma das salas dos pórticos, disse, no fim, enquanto muitos tinham ficado inquietos: “Quando não queremos ser repreendidos, temos que agir como justos”, e que, depois dessa observação, ele foi embora.

– Eu sinto prazer pelo rabi ter-me ouvido. Quem foi que te disse?

– Lázaro. E a ele quem disse foi Eleazar, que estava na sala com os outros. Lázaro veio ao meio-dia. Ele apenas nos cumprimentou e logo voltou sem ter dado atenção às irmãs, que queriam detê-lo lá até o pôr do sol. Ele pediu para que João, ou outros, fossem apanharem aquelas frutas e flores que já estão no ponto.

– Eu mandarei João amanhã.

– Lázaro vem todos os dias. Mas Maria se inquieta, porque, como ela diz, parece uma aparição. Ele sobe até o Templo, dá ordens, e torna a partir.

– Também Lázaro sabe obedecer. Eu lhe dei esta ordem, porque armam ciladas até para ele. Mas não digas isso às irmãs. Não vai lhe acontecer nada. 596.31E agora vamos às discípulas.

– Não te movas. Eu as chamarei. Os discípulos estão todos dormindo…

– Nós os deixaremos dormir. De noite, eles pouco dormem, porque Eu os estou instruindo na paz do Getsêmani.

Maria sai e volta com as mulheres, que parecem ter-se esquecido dos seus pesos com aqueles passos tão ligeiros que estão dando.

Elas o saúdam com suas inclinações profundas, que são familiares somente por parte de Maria de Cléofas.

E Marta tira uma ânfora suada de uma bolsa de bom tamanho, enquanto Maria tira frutas frescas de Betânia de um vaso também poroso e dispõe tudo sobre uma mesa, ao lado daquilo que sua irmã preparou, isto é, um pombo assado na brasa, que está estalando e apetitoso, e pede a Jesus que o aceite, dizendo-lhe:

– Come. Reconforta esse corpo. Eu mesma o preparei.

Joana, por sua vez, trouxe vinagre rosado. E ela explica:

– Ele refresca muito nestes primeiros dias de calor. Também o meu esposo faz uso dele quando chega cansado de suas longas cavalgadas.

– Nós não trouxemos nada –se escusam Maria Salomé, Maria de Cléofas, Susana e Elisa.

Também Nique e Valéria, por sua vez, dizem:

– Nós também, não. Não sabíamos que devíamos vir.

– Vós me destes todo o vosso coração. Para Mim isso basta. Mas ainda me dareis…

Jesus come, mas mais do que qualquer outro é Ele que bebe da água fresca misturada com mel, que Marta lhe serve da ânfora porosa, e as frutas frescas, que são um bom alimento para o Afadigado.

As discípulas não falam muito. Mas o ficam olhando enquanto Ele se refaz. Nos olhos delas há amor e cuidado. E, de repente, Elisa se põe a chorar e se desculpa disso, dizendo:

– Eu não sei. Estou com o coração pesado de tanta tristeza…

– Todas nós estamos assim. Até Cláudia em seu palácio… –diz Valéria.

– Eu gostaria que já fosse Pentecostes –sussurra Salomé.

– Pois eu gostaria que o tempo parasse nesta hora –diz Maria de Magdala.

– Tu serias egoísta, Maria –responde-lhe Jesus.

– Por que, Raboni?

– Porque quererias para ti somente a alegria da tua redenção. Há milhares e milhões de seres que estão esperando essa hora, ou que nessa hora esperam ser redimidos.

– É verdade. Eu nem pensava nisso…

E inclina a cabeça, mordendo os lábios, para não mostrar as lágrimas de seus olhos e o tremor de seus lábios. Mas é sempre a forte lutadora, e diz:

– Se Tu vieres amanhã, poderás vestir de novo a veste que mandaste. Está fresca e limpa, digna da Ceia pascal.

– Eu virei… 596.32Não tendes nada a dizer-me? Estais mudas e aflitas. Será que Eu não sou mais Jesus?

E sorri para as mulheres, como quem as convida a falar.

– Oh! Sim, que és Tu. Mas estás tão grande nestes dias que eu nem sei mais ver-te como aquele pequenino que eu tive em meus braços!

–exclama Maria de Alfeu.

– E eu também não te vejo mais como aquele simples rabi que entrava na minha cozinha procurando João e Tiago –diz Salomé.

– E eu sempre te reconheci assim: como o Rei de minha alma!

–proclama Maria de Magdala…

E Joana, muito mansa e suave:

– Eu também. Para mim, Tu és o divino ser desde aquele sonho em que apareceste a mim, que estava morrendo, e me chamaste à Vida.

– Tudo nos deste, Senhor. Tudo! –suspira Elisa, que resolveu falar.

– E tudo vós Me destes.

– Foi pouco demais! –dizem todas.

– Não cessarei de dar, depois que passar esta hora. Só cessará quando estiverdes comigo no meu Reino. Sois minhas discípulas fiéis. Não vos sentareis ao meu lado, sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel, mas cantareis o hosana junto com os anjos, fazendo um coro de honra à minha Mãe e, então, como agora, o coração do Cristo encontrará alegria ao contemplar-vos.

– Eu sou jovem. Está longe o tempo de subir para o teu Reino. Feliz de Anália! –diz Susana.

– Eu já estou velha e me sinto feliz por isso. Pois espero para breve a morte –diz Elisa.

– Eu tenho os filhos. Quereria servi-los… pois são servos de Deus –suspira Maria de Cléofas.

– Não te esqueças de nós, Senhor! –diz Madalena, com uma ansiedade contida, com um grito de sua alma, eu diria, por causa da sua voz, que ela procurou emitir suavemente para não despertar os que estavam dormindo, mas que vibrou mais forte do que um grito.

– Não me esquecerei de vós. Eu virei. Tu, Joana, sabes que Eu posso vir mesmo quando estou muito longe… As outras o devem crer. E Eu vos deixarei uma coisa… um mistério que me conservará em vós e vós em Mim até que estejamos reunidos, Eu e vós, no Reino de Deus. 596.33Agora ide. Direis que vos falei pouco e que era quase inútil fazer-vos vir para tão pouca coisa. Mas Eu desejei ter ao redor de Mim os corações que me têm amado sem motivos interesseiros. E somente por causa de Mim. Por Mim. Por Mim, Jesus. E não por causa de um futuro e sonhado Rei de Israel. Ide. E sede benditas uma vez mais. As outras também. Elas não estão aqui, mas pensam em Mim com amor: Ana, Mirta, Anastásica, Noemi, Síntique hoje longe daqui, Fotinai, Aglaé e Sara, Marcela, as filhas de Filipe, Miriam de Jairo, as virgens, as redimidas, as esposas, as mães que vieram a Mim e que foram para comigo irmãs e mães, melhores, oh! muito melhores do que os homens e até do que os melhores deles!… Todas, todas! Abençoo a todas. A graça começa já a descer, a graça e o perdão, sobre a mulher, por esta minha bênção. Ide…

Ele se despede delas, ficando só com sua Mãe, a quem diz:

– Antes do anoitecer estarei no Palácio de Lázaro. Eu preciso ver-te ainda. E Comigo estará João. Mas Eu só quero a ti, ó Mãe, e as outras Marias, Marta e Susana. Estou muito cansado…

– Ficaremos só nós. Adeus, meu Filho…

Eles se beijam… E se separam… Maria vai andando lentamente. Ela se vira antes de sair. Vira-se antes de passar a pequena ponte. Torna a virar-se, enquanto pode ver Jesus… parece que ela não pode se afastar dele…

596.34E Jesus fica sozinho de novo. Ele se levanta e sai. Vai chamar João que está dormindo de bruços no meio das flores como um menino e lhe entrega a pequena ânfora de vinagre rosado que Joana lhe trouxe, dizendo-lhe:

– De tarde, iremos à casa de minha mãe. Mas nós dois somente.

– Compreendi. E elas vieram?

– Sim. Mas achei melhor não despertar-vos…

– Fizeste bem. A tua alegria terá ficado maior. Elas sabem amar-te melhor do que nós –diz, desconsolado, João.

– Vem comigo.

João acompanha.

– Que tens? –pergunta-lhe Jesus, quando já estão de novo na penumbra verde formada pela cobertura, onde ainda se veem restos de comida.

– Mestre, nós somos muito maus. Todos nós. Não há obediência em nós… e nem há desejo de estar contigo. Até Pedro e Simão saíram. Não sei para onde. E Judas achou nisso mais uma ocasião para mostrar-se rixento.

– E Judas também foi embora?

– Não, Senhor. Ele não foi embora. Diz ele que não precisa disso e que não tem cúmplices nos ardis de que nós usamos a fim de conseguirmos para Ti uma proteção. Mas se Eu fui até Anás e se os outros se dirigiram aos galileus por aqui residentes, não foi para fazer nenhum mal!… E eu não creio que Simão de Jonas e Simão Zelotes sejam capazes de usar desses modos traiçoeiros…

– Não te preocupes. De fato, Judas não precisa ir enquanto vós estais descansando. Ele sabe muito bem quando e aonde deve ir, e assim fazer o que deve.

– E, então, por que é que ele fala assim? Isso não é bonito, nem fica bem diante dos discípulos!

– Não é bonito. Mas assim é. 596.35Fica sossegado, meu cordeiro.

– Eu, teu cordeiro? Cordeiro és Tu somente!

– Sim. Tu. Eu sou o Cordeiro de Deus, e tu, cordeiro do Cordeiro de Deus.

– Oh!!! Uma vez, foi nos primeiros dias em que eu estava contigo, tu me disseste essa palavra. Estávamos nós dois sozinhos, como agora, sobre os campos verdes, como agora, e nesta mesma bela estação.

João, mais alegre pela lembrança que voltou, murmura:

– Eu sou sempre o cordeiro do Cordeiro de Deus…

Jesus o acaricia. E lhe oferece uma parte do pombo assado, que ficou sobre a mesa, sobre uma folha de pergaminho em que ele estava embrulhado. E depois descobre uns figos suculentos e os oferece alegre, por ver que ele os come. Jesus está sentado de viés à beira da mesa e olha para João tão fixamente, que ele pergunta:

– Por que me ficas olhando assim? Será porque eu estou comendo como um guloso?

– Não. É porque tu és uma criança. Oh! Meu querido! Como Eu te amo, por causa do teu coração!

E Jesus se inclina para beijar o apóstolo sobre os seus cabelos louros, e lhe diz:

– Fica assim, sempre assim, com o teu coração sem orgulho e sem rancores. Fica assim até mesmo nas horas da ferocidade desenfreada. Não imites quem peca, meu menino.

596.36João sente-se de novo invadido pelo desgosto, e diz:

– Mas eu não posso crer que Simão e Pedro…

– Tu te enganarias muito se cresses que eles são pecadores. Bebe. É boa e fresca esta bebida. Foi Marta que a preparou… Agora estás reconfortado. Tenho certeza de que tu não havias terminado a tua refeição…

– É verdade. Tinha-me vindo uma vontade de chorar. Porque, enquanto é o mundo que nos rodeia, ainda se compreende. Mas que um de nós fique insinuando…

– Não fiques pensando mais nisso. Eu e tu sabemos que Simão e Zelotes são dois homens honestos. E basta. Mas, infelizmente, tu sabes que Judas é um pecador. Mas, cala-te. Quando tiverem passado muitos, muitos lustros, e será justo dizer toda a grandeza da minha dor, então aí tu dirás também o que Eu sofri por causa das ações daquele homem, mais do que por aquelas daquele apóstolo. Vamos. Já é hora de deixar este lugar a fim de irmos para o Campo dos Galileus e…

– Passaremos esta noite também lá? E não iremos antes ao Getsêmani? Judas queria saber disso. Ele diz que está cansado de tanto andar sob o orvalho, e com um repouso curto e incômodo.

– Logo isso acabará. Mas Eu não direi a Judas quais são as minhas intenções…

– Não és obrigado a isso. Tu é que nos deves guiar e não nós a Ti.

João está tão longe de pensar numa traição, que não compreende nem mesmo a razão da prudência pela qual Jesus, há já alguns dias, não tem dito mais o que é que pensa em fazer.

596.37Ei-los em meio aos que estão dormindo. E eles os chamam, e os que estão deitados despertam. Também lá está Manaém que, tendo terminado sua tarefa, vai escusar-se com o Mestre por não poder ficar e porque amanhã não poderá estar perto dele no Templo, pois deve permanecer no Palácio. E, ao dizer isso, olha fixamente para Pedro e Simão, que nesse entremeio chegaram, e Pedro faz um sinal rápido com a cabeça, como quem diz: “Entendido.”

Saem dos jardins. Ainda está fazendo calor. Ainda tem sol. Mas a brisa da tarde já vai temperando o calor e empurrando umas nuvenzinhas por sobre o céu limpo.

Eles se encaminham, subindo por Siloé e evitando os lugares dos leprosos, para os quais vai-se dirigindo Simão, o Zelotes, para levar aos que ainda estão vivos, e não souberam crer em Jesus, os restos da refeição.

596.38Matias, o ex-pastor, aproxima-se de Jesus e lhe pergunta:

– Senhor e Mestre meu, eu pensei muito, com os companheiros, nas tuas palavras, até que o cansaço tomou conta de nós e nós dormimos antes de termos podido resolver o problema que nos pusemos. E agora estamos mais ignorantes do que antes. Se é que entendemos bem as pregações destes últimos dias, Tu predisseste que muitas coisas mudarão, ainda que a Lei permaneça imutável, e que se deverá edificar um novo Templo com novos profetas, sábios e escribas, contra o qual se levantarão batalhas, mas que não morrerá, enquanto que este, se é que compreendemos bem, parece destinado a morrer.

– Está destinado a morrer. Lembra a profecia13 de Daniel…

– Mas nós, que somos pobres e poucos, como poderemos edificá-lo de novo, se até os reis tiveram que trabalhar muito para edificar este? Onde o edificaremos? Certamente aqui, não, porque tu dizes que este lugar virará um deserto, enquanto esses não te bendizerem como a um mandado por Deus.

– Assim é.

– Em teu Reino, não. Porque estamos convictos de que o teu Reino é espiritual. E, então, como e onde o estabeleceremos? Ontem Tu disseste que o verdadeiro Templo — e não é aquele o verdadeiro Templo? — disseste que quando eles pensarem que o terão destruído, aí é que ele se levantará triunfante aos olhos da Jerusalém verdadeira. Onde está ela? Há muita confusão entre nós.

– Assim é. Que os inimigos destruam o verdadeiro Templo. Em três dias Eu o levantarei de novo e ele não conhecerá mais a cilada, subindo para onde o homem não lhe possa causar dano.

596.39Quanto ao Reino de Deus, ele está em vós, e por toda parte há homens que creem em Mim. Por enquanto, estão espalhados, mas eles se sucederão sobre a Terra através dos séculos. Depois ele será eterno, unido, perfeito no Céu. Lá no Reino de Deus será edificado o novo Templo, isto é, lá onde estão os espíritos que aceitam a minha doutrina, a Doutrina do Reino de Deus, e que praticam os preceitos dele. E como será edificado, se sois pobres e poucos? Oh! Na verdade, não são necessários o dinheiro e os poderes para edificar o edifício da nova morada de Deus, individual ou coletiva. O Reino de Deus está em vós. E a união de todos aqueles que terão o Reino de Deus em si, de todos aqueles que terão Deus em si — Deus que é a Graça. Deus que é a Vida. Deus que é a Luz. Deus que é Caridade — será o grande Reino de Deus sobre a Terra, a nova Jerusalém, que chegará a expandir-se por todos os confins do mundo, e que, completa e perfeita, sem emendas, sem sombras, viverá eterna no Céu.

Como fareis para edificar o Templo e a cidade? Oh! Não sereis vós, mas será Deus que edificará esses lugares novos. Vós teríeis somente que dar-lhe vossa boa vontade. Boa vontade é permanecer em Mim. Viver a minha doutrina é boa vontade. Estar unidos é boa vontade. Unidos a Mim até formardes um só corpo que é nutrido, em cada uma de suas partes e partículas, pela mesma seiva. Um único edifício que está apoiado sobre uma única base e conservado unido por uma mística coesão. Mas como sem a ajuda do Pai, que Eu vos ensinei a pedir e que Eu pedirei para vós antes de morrer, vós não poderíeis estar na Caridade, na Verdade, na Vida, isto é, ainda em Mim e comigo em Deus Pai e em Deus Amor, porque Nós somos uma única Divindade, por isso Eu vos digo que tenhais a Deus em vós, para poderdes ser o Templo que não conhecerá fim. Por vós mesmos não o poderíes fazer. Se Deus não edifica, e não pode edificar onde não pode ter a sua morada, inutilmente os homens se agitam para edificar e reedificar.

396.40O Templo novo, a Minha Igreja, surgirá somente quando o coração hospedar Deus e Ele convosco, como pedras vivas, edificará a sua Igreja.

– Mas Tu não disseste que Simão de Jonas é o Chefe dela, a pedra sobre a qual se edificará a tua Igreja? E não nos fizeste compreender também que Tu és a pedra angular dessa Igreja? Então, quem é o chefe dessa Igreja? –interrompe Iscariotes.

– Eu sou o Chefe místico. E Pedro é o chefe visível. Porque Eu vou voltar ao Pai, deixando-vos a Vida, a Luz, a Graça, pela minha Palavra, pelos meus sofrimentos, pelo Paráclito, que será amigo daqueles que me foram fiéis. Eu formo uma única coisa com a minha Igreja, meu corpo espiritual, do qual Eu sou a Cabeça.

A cabeça contém o cérebro, a mente. A mente é a sede do saber, o cérebro é que dirige os movimentos dos membros por meio de seus comandos imateriais, os quais são mais válidos para fazer que se movam os membros do que qualquer outro estímulo. Observai um morto, no qual o cérebro morreu. Terá ele algum movimento em seus membros? Observai alguém que seja completamente estúpido. Não é verdade que ele é tão inerte, que não saiba ter nem aqueles movimentos mais rudimentares e instintivos, que até o mais inferior dos animais, que até o verme, que nós esmagamos, tem? Observai alguém no qual a paralisia desfez o contato dos membros, de um ou mais membros, com o cérebro. Terá ele ainda movimento naquela parte que não tem mais ligação vital com a cabeça?

Mas se a mente dirige com os seus comandos imateriais os outros órgãos, são os outros órgãos — os olhos, os ouvidos, a língua, o nariz, a pele — que comunicam as sensações à mente; e são as outras partes do corpo que executam e fazem executar aquilo que a mente ordena, advertida pelos órgãos, materiais e visíveis quanto o intelecto é invisível. Poderia Eu, sem dizer-vos: “sentai-vos”, conseguir que fiqueis sentados neste lado do monte? Mesmo que Eu queira que vos sentais, vós não o sabeis enquanto Eu não traduzir o meu pensamento em palavras, e, então, Eu as digo, usando para isso a língua e os lábios. Eu mesmo poderia sentar-me, se eu ficasse somente pensando que estou sentindo o cansaço das pernas, se elas não quisessem dobrar-se e não me pusessem assim sentado? A mente tem necessidade dos órgãos e dos membros para poder fazer e executar as operações que o pensamento pensa.

Assim também é no corpo espiritual, que é a minha Igreja: Eu serei o Intelecto, isto é, a cabeça, que é a sede do intelecto, e Pedro com os seus colaboradores são os que observam as reações, percebem as sensações e as transmitem à mente, a fim de que ela ilumine e organize o que é preciso fazer para o bem de todo o corpo; depois, iluminados e guiados por uma ordem minha, possam falar e guiar as outras partes do corpo. A mão que afasta um objeto que pode ferir o corpo, ou afasta o que está corrompido ou pode corromper; o pé que passa por cima de um obstáculo sem esbarrar nele, sem cair nem ferir-se, todas essas partes receberam da parte que dirige a ordem de fazê-lo. O menino, e até o homem, que se salvou de um perigo, ou que há uma vantagem de qualquer tipo — instrução, bons negócios, casamento, boa aliança graças a um bom conselho recebido, ou para uma boa palavra dita — é por aquele conselho e por aquela palavra que não se prejudicou ou que se beneficiou. Assim será na Igreja. O chefe e os chefes, guiados pelo Divino Pensamento e iluminados pela Divina Lei, instruídos pela Palavra Eterna, darão as ordens e os conselhos, e os membros os porão em prática e obterão a saúde espiritual e uma vantagem espiritual.

596.41A minha Igreja já é assim, porque já possui o seu Chefe sobrenatural e o seu Chefe divino, e tem os seus membros, que são os discípulos. Ela é ainda pequena, por enquanto — é como um germe que se forma — perfeita unicamente no Chefe que a dirige, e imperfeita no resto, que ainda tem necessidade de um toque de Deus para ficar perfeita, e do tempo para crescer. Mas em verdade Eu vos digo que Ela já o é, e que é Santa por Aquele que é seu Chefe e pela boa vontade dos justos que a compõem. É Santa e invencível… Contra ela se apresentará, uma e mil vezes e com mil formas de batalha, o inferno feito de demônios e de homens-demônios. Mas não prevalecerão. O edifício será firme.

Mas o edifício não é feito de uma só pedra. Observai o Templo, lá, vasto, belo ao sol que se põe. É feito, talvez, de uma só pedra? É um complexo de pedras que formam um todo único e harmônico. Ele se chama: o Templo. Ou seja, uma unidade. Mas essa unidade é feita das muitas pedras que a compuseram e formaram. Teria sido inútil fazer os fundamentos se eles não tivessem depois que sustentar as paredes e o teto, se sobre eles não se tivesse que erguer as paredes para sustentarem o teto, se antes não tivessem sido feitos, em primeiro lugar, os fundamentos sólidos e proporcionais para uma construção maciça e de grandes dimensões. Assim, com esta dependência das partes uma da outra, é que surgirá também o Templo novo. Pelos séculos vós o edificareis, apoiando-o sempre sobre os fundamentos que Eu lhe dei, perfeitos, e nas proporções requeridas por sua amplidão. Vós o edificareis sob a direção de Deus, servindo-vos das coisas a serem usadas para levantá-lo: espíritos que são a morada de Deus.

Deus mora nos vossos corações, para fazer deles pedras polidas e sem fendas para um templo novo. Será o seu Reino estabelecido com as suas leis no vosso espírito. Senão, vós seríeis como tijolos mal cozidos, madeira carunchada, pedras lascadas e quebradiças que não têm consistência, e que o construtor, se for experiente, rejeita; ou então falham, não resistem à pressão, fazendo que uma parte desmorone se o construtor, se os construtores colocados pelo Pai na construção do Templo, são construtores ídolos de si mesmos, que se pavoneiam em seus corações, sem vigiarem e se esforçarem na construção que vai se levantando e com os materiais usados nela. São construtores ídolos, mestres de obras ídolos, guardas ídolos, são todos eles uns ladrões! Ladrões da confiança de Deus e da estima dos homens, ladrões e orgulhosos, que só se comprazem em terem um meio de vida e um modo para obterem um monte de materiais, que eles não observam se são bons ou já de qualidade vencida, e que pode ser causa de ruína.

596.42Vós, ó sacerdotes novos e escribas do Templo novo, escutai: Ai de vós e de quem vier depois de vós, de quem se fizer ídolo e não tomar cuidado, não supervisar a si mesmo e aos outros, os fiéis, a fim de observar bem a boa qualidade das pedras e da madeira, sem confiar nas aparências, e poderá causar ruínas, deixando que materiais já deteriorados, ou até mesmo nocivos, sejam usados na construção do Templo, dando assim escândalo e provocando a ira divina. Ai de vós, se deixardes que se formem fendas e paredes pouco seguras, tortas, que podem cair porque não estão bem equilibradas nas bases sólidas e bem feitas. Não é de Deus, o Fundador da Igreja, mas é de vós que viria o desastre, e dele seríeis responsáveis diante do Senhor e dos homens.

Diligência, observação, discernimento, prudência. A pedra, o tijolo, a viga fraca, que em uma parede interna poderiam ser causa de tombamento, podem servir em partes de menor importância na construção e até a servir bem. É assim que deveis saber escolher. Com caridade para não desgostar as partes fracas, mas com firmeza, para não desgostar a Deus e arruinar o seu Edifício. E se achais que uma pedra em um ângulo mestre não é boa ou não está bem equilibrada, sede corajosos, ousados, e procurai saber como tirá-la daquele lugar, e alinhai-a com o escopo de um santo zelo. Se ela grita de dor, não faz mal. Ela vos abençoará durante os séculos, porque vós a tereis salvado. Removei-a dali e empregai-a em outro trabalho. Não tenhais medo nem de afastá-la completamente se virdes que ela vai ser causa de escândalo e de ruína, rebelde ao vosso trabalho. É melhor haver pouca pedra, do que muito estorvo.

Não tenhais pressa. Deus nunca tem pressa, mas tudo o que Ele cria é eterno, porque é bem calculado antes de ser feito. Se não é eterno, dura tanto como os séculos. Olhai para o Universo. Há muitos séculos, há milhares de séculos, ele está como Deus o fez em operações sucessivas… Imitai o Senhor. Sede perfeitos como vosso Pai. Tende a sua Lei em vós, o seu Reino em vós. E não falhareis.

Mas, se não fôsseis assim, desabaria o edifício, e em vão teríes trabalhado para erigi-lo. Desabaria ficando dele apenas a pedra angular, os fundamentos… A mesma coisa acontecerá com aquele Templo!… Em verdade Eu vos digo que com aquele ali vai ser assim mesmo. E assim será com o vosso, se puserdes nele o que pusestes neste: partes estragadas pelo orgulho, pela avidez, pelo pecado, pela luxúria. Como se desfez, pelo sopro do vento, aquela coluna de nuvens que parecia estar parada, formando uma vista tão bonita acima do cume daquele monte, do mesmo modo, ao soprar de um vento de castigo sobrenatural e humano, desabarão os edifícios, que de santos só têm o nome…

596.43Jesus se cala pensativo. E quando começa a falar de novo, é para dar esta ordem:

– Sentemo-nos aqui, para repousarmos um pouco.

Eles se assentam sobre um declive do Monte das Oliveiras, que fica à frente do Templo, agora beijado pelo Sol, que já vai se pondo. Jesus olha fixamente para aquele lugar com tristeza. Os outros exultam por verem aquela beleza, mas sobre aquela exultação logo se estende um véu de aflição pela lembrança das palavras do Mestre. Será que toda aquela beleza vai ter que acabar?

Pedro e João falam um com o outro, e depois passam a sussurrar alguma coisa a Tiago de Alfeu e a André, que estão perto deles, e eles concordam fazendo um sinal com a cabeça. Então, Pedro se vira para o Mestre e diz:

– Vem aqui de lado e explica-nos quando é que se cumprirá a tua profecia sobre a destruição do Templo. Daniel fala nela, mas, se for como ele diz e como Tu dizes, poucas horas terá ainda o Templo. Mas nós não estamos vendo exércitos nem preparativos de guerra. Quando será, então, que isso acontecerá? Qual será o sinal disso? Tu já vieste. E Tu dizes que estás para ires embora. No entanto, sabe-se que isso só acontecerá quando estiveres entre os homens. Então, Tu voltarás? Quando é que será a tua volta? Explica-nos isso para que fiquemos sabendo…

– Não há necessidade de irmos para outro lado. Estás vendo? Os discípulos mais fiéis ficaram, aqueles que a vós doze ajudarão muito. Eles podem ouvir as palavras que Eu vos estou dizendo. Vinde todos para cá! –grita por fim, para reunir todos.

Os discípulos, que estavam espalhados pelo declive, fazem agora uma aglomeração compacta, apertada, ao redor do grupo que está com Jesus e os apóstolos, e ficam escutando.

596.44– Tomai cuidado para que ninguém vos seduza no futuro. Eu sou o Cristo e não haverá outros Cristos. Por isso, quando muitos vierem dizer-vos: “Eu sou o Cristo”, e estiverem seduzindo a muitos, não acrediteis em suas palavras, nem que elas sejam acompanhadas por prodígios, embora estes possam ser reconhecidos como não bons, porque sempre estarão unidos ao medo, à perturbação e à mentira. Os prodígios de Deus, vós os conheceis: eles dão uma santa paz, alegria e salvação, fé, e conduzem a desejos e obras santas. Os outros, não. Por isso, refleti sobre a forma e as consequências dos prodígios que podereis ver no futuro, por obra dos falsos Cristos e de todos aqueles que se vestirão com vestes de salvadores dos povos, mas que serão umas feras que os arruinarão.

Ouvireis também, e até vereis, falar de guerras e de rumores de guerra, e vos dirão: “Estes são os sinais do fim.” Mas não vos perturbeis. Ainda não será o fim. É necessário que tudo isso aconteça antes do fim, mas ainda não será o fim. Levantar-se-á um povo contra outro, nação contra nação, continente contra continente, e haverá pestilências, carestia e terremotos em muitos lugares. Mas isso não será mais do que o princípio das dores. Então vos lançarão no meio da tribulação e vos matarão, acusando-vos de serdes os culpados pelos sofrimentos deles, esperando sair disso com a perseguição e a destruição dos meus servos.

Os homens acusam sempre os inocentes de serem eles a causa do seu mal, que os pecadores criam para si mesmos. Eles acusam o próprio Deus, que é a Perfeita Inocência e a Bondade Suprema, de ser Ele a causa do sofrimento deles; e assim também farão convosco, e vós sereis odiados por causa do meu Nome. E será ainda Satanás que os está açulando. E surgirão falsos profetas, que induzirão muitos ao erro. E ainda será Satanás o verdadeiro autor de tantos males. E com a multiplicação da iniquidade, se esfriará a caridade de muitos. Mas quem tiver perseverado até o fim, será salvo. E é preciso que antes este Evangelho do Reino de Deus seja pregado em todo o mundo, como um testemunho diante de todas as nações. Então, virá o fim. Haverá uma volta de Israel ao Cristo, que o acolhe, e a pregação da minha doutrina em todo o mundo.

596.45Depois virá um outro sinal. Um sinal do fim do Templo e do fim do Mundo. Quando virdes a abominação da desolação predita por Daniel — quem me ouve, procure entender bem, e quem lê o profeta, saiba ler por entre as palavras — então, quem estiver na Judéia, fuja para os montes, e quem estiver no terraço não desça para ir apanhar o que estiver em casa, e quem estiver em seu campo não volte à sua casa para apanhar o seu manto, mas fuja sem olhar para trás, a fim de que não lhe aconteça não poder fazê-lo mais, e ele nem mesmo se vire para olhar, quando fugir, a fim de não conservar no coração o espetáculo horrendo e enlouquecer por isso. Ai das grávidas e daquelas que estiverem amamentando naqueles dias! E ai delas, se a fuga tiver que ser em dia de sábado! Não seria bastante a fuga para quem quisesse se salvar sem pecar. Rezai, pois, para que não aconteça no inverno e em dia de sábado, porque a tribulação será grande, como nunca houve desde o princípio do mundo até essa hora, nem haverá nunca mais outra semelhante, porque essa será a última Se não fossem abreviados aqueles dias em atenção aos eleitos, ninguém se salvaria, porque os homens-satanases se aliarão ao inferno para atormentar os homens.

E já então, para corromper e arrastar para fora do caminho justo aqueles que se conservarem fiéis ao Senhor, surgirão os que dirão assim: “O Cristo está lá, o Cristo está aqui. Está em tal lugar. Ei-lo! É este!” Não creiais. Ninguém creia, porque surgirão falsos Cristos e falsos profetas, que farão prodígios e portentos tais que induzirão ao erro, se isso fosse possível, até os eleitos, e ensinarão doutrinas em aparência tão consoladoras e boas que seduziriam até os melhores, se com eles não estivesse o Espírito de Deus que os iluminará sobre a verdade ou sobre a origem satânica de tais prodígios e doutrinas. Eu vo-lo digo. Eu vo-lo ensino, para que vós possais acautelar-vos. Mas não tenhais medo de cair. Se estiverdes de pé, firmes no Senhor, não sereis arrastados às tentações e à ruína. Lembrai-vos disso que Eu vos disse14: “Eu vos dei o poder de caminhar sobre serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo, e nada vos fará mal porque tudo vos estará sujeito.” Eu vos faço lembrar também que para conseguirdes isso, deveis ter Deus em vós, e deveis alegrar- vos, não porque dominais as potências do mal e as coisas venenosas, mas porque o vosso nome está escrito no céu.

596.46Permanecei no Senhor e em sua Verdade. Por isso ainda Eu vos repito: qualquer coisa que vos disserem de Mim, não creiais. Somente Eu é que disse a Verdade. Somente Eu é que vos digo que o Cristo virá, mas quando chegar o fim. Por isso, se vos disserem: “Ele está lá no deserto”, não vades lá. Se vos disserem: “Ele está naquela casa”, não lhes deis atenção. Porque o Filho do homem, em sua segunda vinda, será semelhante a um relâmpago que sai do nascente e chispa até o poente, em um tempo tão breve como um piscar de olhos. E deslizará sobre o grande Corpo15 — o sol escurecerá, a lua não dará mais a sua luz e as estrelas do Céu cairão como bagos de uva que caem de um cacho maduro demais, e que um vento tempestuoso sacode, e as potências do Céu tremerão.

E, então, no firmamento escuro aparecerá, fulgurante, o sinal do Filho do homem, e todas as nações da terra chorarão, e os homens verão o Filho do homem vindo sobre as nuvens do Céu com grande poder e glória. E Ele dará ordens aos seus anjos que ceifem e vindimem, que separem o joio do trigo, que lancem as uvas na dorna, porque terá chegado o tempo da grande colheita da semente de Adão, e não teremos mais necessidade de conservar a esgalha nem a semente, porque não haverá mais a perpetuação da raça humana sobre a terra morta. E dará ordens aos seus amigos para que ao alto som das trompas, reúnam os eleitos dos quatro cantos da Terra, de uma extremidade à outra do Céu, a fim de que estejam ao lado do Divino Juiz para julgarem com Ele os últimos viventes e os ressuscitados.

596.47Da figueira aprendei esta semelhança: quando vedes que seus ramos ficam tenros e soltam folhas, sabeis que o verão já vem perto. Assim também, quando virdes todas essas coisas, ficai sabendo que o Cristo está para chegar. Em verdade, Eu vos digo: não passará esta geração que não me quis16, antes que tudo isso aconteça.

A minha palavra não falha. O que Eu digo acontecerá. O coração e o pensamento dos homens podem mudar, mas minha palavra não muda. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão. E, quanto ao dia e a hora exata, ninguém os conhece, nem mesmo os anjos do Senhor, mas somente o Pai.

596.48Como nos tempos de Noé, assim acontecerá na vinda do Filho do homem. Nos tempos de antes do dilúvio, os homens comiam, bebiam, se desposavam, se uniam, sem prestarem atenção ao sinal17 no dia em que Noé entrou na arca, e abriram-se as cataratas dos céus e o dilúvio submergiu todos os seres vivos e todas as coisas. Assim também será quando for a vinda do Filho do homem. Quando chegar a hora, dois homens estarão perto um do outro no campo, e um será levado, enquanto o outro será deixado. Duas mulheres estarão ocupadas em fazer girar a mó do moinho, e uma delas será levada, a outra deixada. Isto é o que farão os inimigos aqui na Pátria, e mais ainda os anjos que irão separar o trigo do joio, e não terão tempo de se prepararem para o Julgamento pelo Cristo.

Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora virá o Senhor. Pensai de novo no seguinte: se o chefe da família soubesse a que hora viria o ladrão, ele vigiaria e não deixaria que ele despojasse a sua casa. Portanto, vigiai e orai, estai sempre preparados para a vinda, sem que os vossos corações fiquem entorpecidos pelo abuso e a intemperança de todas as espécies e os vossos espíritos estejam distraídos e obtusos para as coisas do Céu por causa dos excessivos cuidados com as coisas da terra, e o laço da morte vos apanhe de repente, quando estiverdes despreocupados. Porque, lembrai-vos bem, todos tereis que morrer. Todos os homens, uma vez nascidos, devem morrer, e nessa morte há uma particular vinda do Cristo, e em seguida um juízo, que será repetido com todos juntos no dia da vinda solene do Filho do homem.

596.49Que será, então, que acontecerá ao servo fiel e prudente, que foi posto pelo patrão a servir aos domésticos o alimento enquanto Ele estava ausente? Feliz será ele se o seu patrão, ao chegar de repente, o encontrar fazendo o que deve com diligência, com justiça e amor. Em verdade Eu vos digo que Ele lhe dirá: “Vem, servo bom e fiel. Tu mereceste o meu prêmio. Toma e administra todos os meus bens.” Ao contrário, se ele aparentava, mas não era bom e fiel, e seu interior era mau, assim como no exterior ele era hipócrita, pois logo que o patrão havia partido ele começou a dizer em seu coração: “O patrão vai tardar a voltar! Vamos aproveitar este belo tempo!”, e começar a bater em uns criados e a maltratar a outros, dando-lhes pouca comida e pouco das outras coisas necessárias, a fim de poder ter mais dinheiro para poder gastá-lo em folganças e com os bêbados, que é que irá acontecer? Acontecerá que o patrão, ao chegar de repente, quando aquele servo ainda estava pensando que o patrão estava longe, ao ver o mau procedimento do servo, lhe tomará o dinheiro, o tirará do cargo e o expulsará, como é de justiça, E assim, ele ficará naquela situação.

O mesmo acontece com o pecador impenitente, que não pensa que a morte pode já estar perto e também perto o seu julgamento, e só procura gozar e abusar desse gozo, dizendo: “Depois eu me arrependerei.” Em verdade, Eu vos digo que ele não terá tempo de fazer isso e será condenado a ficar no lugar onde há um tremendo horror, onde se ouvem as blasfêmias e se veem o pranto e a tortura, e de lá ele só sairá para o Juízo Final, quando tornará a revestir-se de sua carne ressuscitada para assim apresentar-se completo ao Juízo Final, assim como foi completo o seu pecado durante a sua vida terrena, e com corpo e alma ele se apresentará ao Juiz Jesus, que ele não quis aceitar como seu Salvador.

596.50Todos estarão lá, acolhidos diante do Filho do homem. Uma multidão incalculável de corpos restituídos, uns pela terra, outros pelo mar, e recompostos todos, depois de terem virado cinza há muito tempo. E nos corpos estarão os espíritos A cada carne que voltou ao seu esqueleto corresponderá o seu espírito, aquele que a animou por algum tempo nesta terra. E estarão todos aprumados diante do Filho do homem, que estará esplendente em sua divina Majestade, sentado no trono de sua glória e assistido pelos seus anjos.

E Ele separará os homens uns dos outros, pondo de um lado os bons e do outro os maus, como um pastor que separa as ovelhas pondo-as à direita e os cabritos à esquerda. E dirá com voz afável e com um semblante benigno aos que, pacíficos e formosos, com uma beleza gloriosa no esplendor do corpo santo, olharão para Ele com todo o amor de seus corações: “Vinde, ó benditos de meu Pai, tomai posse do Reino preparado para vós, desde o começo do mundo. Porque Eu tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, fui um peregrino e me hospedastes, estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, estava prisioneiro e fostes levar-me conforto.”

E os justos lhe perguntarão: “Quando foi, Senhor, que te vimos com fome e te demos de comer, te vimos com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, te vimos nu e te vestimos, te vimos enfermo ou encarcerado e te fomos visitar?”

E o Rei dos reis lhes dirá: “Em verdade, Eu vos digo: Quando fizestes uma daquelas coisas a um daqueles menores entre os meus irmãos, foi a Mim que o fizestes.”

E depois o Juiz se voltará para aqueles que estiverem à sua esquerda e lhes dirá, com um rosto sério e com uns olhares que serão como flechas que fulminarão os réprobos, e em sua voz ressoará a ira de Deus: “Fora daqui! Longe de Mim, ó malditos! Ide para o fogo eterno, preparado pelo furor de Deus para o demônio e para os anjos das trevas e para aqueles que lhes deram ouvidos, quando eles lhes falavam na libidinagem tríplice e obscena. Eu tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, estive nu e não me vestistes, fui peregrino e me repelistes, estive doente e encarcerado e não me visitastes. Porque vós só conhecíeis uma lei: a do prazer do vosso eu.”

E eles lhe dirão: “Quando foi que te vimos com fome, com sede, nu, peregrino, enfermo ou encarcerado? Em verdade, nós não te conhecemos. Não estávamos presentes, quando estiveste sobre a Terra.”

E ele lhes responderá: “É verdade. Vós não me conhecestes. Porque não estáveis lá presentes quando Eu estive sobre a Terra. Mas vós conhecestes a minha Palavra e tivestes, no meio de vós, os esfaimados, os sedentos, os nus, os doentes, os encarcerados. Por que é que não fizestes a eles o que talvez teríeis feito a Mim? Pois quem disse que aqueles que Me tiveram em seu meio fossem misericordiosos para com o Filho do homem? Não sabeis que nos meus irmãos estou Eu e que onde estiver sofrendo um desses meus irmãos menores sou Eu que lá estou, e que o que tiverdes deixado de fazer a um desses meus irmãos menores foi a Mim que o deixastes de fazer, a Mim, o Primogênito dos homens? Ide, e queimai em vosso egoísmo. Ide, e que vos envolvam as trevas e o gelo, pois trevas e gelo é o que fostes, mesmo conhecendo onde é que estava a Luz e o Fogo do Amor.”

E eles irão para o suplício eterno, enquanto os justos entrarão na vida eterna.

Estas são as coisas futuras…

596.51Agora, ide. E não vos separeis uns dos outros. Eu vou com João e voltarei a vós lá pela metade da primeira vigília, para a ceia, e para irmos depois às nossas instruções.

– Nesta tarde também? Todas as tardes faremos isso? Eu estou já entorpecido pelas orvalhadas que apanhei. Não seria melhor entrar logo em alguma casa hospitaleira? Estamos sempre por baixo de tendas! Sempre acordados e nas noites que são frias e úmidas…

–lamenta-se Judas.

– Esta é a última noite. Amanhã… será diferente.

– Ah! Eu achava que quisesses ir para o Getsêmani todas as noites. Mas, se é a última…

– Eu não disse isto, Judas. Eu disse que será a última noite que passaremos no Campo dos Galileus todos juntos. Amanhã prepararemos a Páscoa e consumiremos o cordeiro, e depois Eu vou sozinho rezar no Getsêmani. E vós podereis ir fazer o que quiserdes.

– Mas nós viremos contigo, Senhor. Quando foi que tivemos vontade de deixar-te? –diz Pedro.

– Tu, cala-te. Porque és o culpado. Tu e Zelotes não fazeis nada mais do que ficardes esvoaçando para cá e para lá logo que o Mestre desaparece. Eu tenho os olhos sobre vós. No Templo… no dia… nas tendas lá em cima… –diz Iscariotes, alegre por estar denunciando.

– Basta! Se eles assim fazem, fazem bem. Mas não me deixeis sozinho… Eu vo-lo peço…

– Senhor não fazemos nada de mal. Podes crer. As nossas ações são conhecidas por Deus, e os seus olhares não se desviam delas com desgosto –diz Zelotes.

– Eu sei. Mas é inútil. E o que é inútil pode ser prejudicial. Estai unidos o mais que puderdes.

Depois Ele se vira para Mateus:

– Tu, meu bom cronista, repetirás18 a eles a parábola das dez virgens sábias e das dez estultas, e aquela do patrão que deu uns talentos a três dos seus servos para que eles os fizessem render, e dois deles ganharam o dobro, enquanto que o preguiçoso foi enterrar o seu. Tu te lembras?

– Sim, meu Senhor, exatamente.

– Então, repete-a para eles. Nem todos as conhecem. E mesmo que eles a saibam, terão prazer em ouvi-la de novo. Passai, assim, em sábias dissertações, o vosso tempo até à minha volta. Velai! Velai! Tende desperto o vosso espírito. Aquelas parábolas são adequadas também ao que Eu disse. Adeus. A paz esteja convosco.

Jesus toma João pela mão e se afasta com ele, indo rumo à cidade.

Os outros se dirigem para o Campo dos Galileus.

596.52Jesus diz:

– Colocarás aqui a segunda parte da muito cansativa Quarta-Feira Santa. Noite (1945). Lembra-te de assinalar com tinta vermelha os pontos que Eu te disse. Aquelas palavrinhas19 iluminam. E muita luz para os que a sabem ver.

1 O primeiro, em:Deuteronômio 6,4-5. O segundo, em: Levítico 19,18.
2 las palavras de Davi, que estão em: Salmo 51,18-19.
3 Está escrito, em: Salmo 37,11.
4 quando diz, in: Salmo 110,1.
5 corrigida… Aliás, transcrevemo-la fiel e integralmente (come em 174.10) sem levar em consideração as correções de Maria Valtorta na cópia datilografada, que consistem principalmente na supressão dos trechos iniciais, uma vez que são de caráter pessoal e com alguma descrição repetida.
6 horas tristes para a Pátria, como se lê em: Esdras 1-10; Neemias 1-13; 1 Macabeus 1-2.
7 vos digo, como em 265.12 e 281.6.
8 A Mulher, da qual se fala em Gênesis 2,22-23, mas com maior nexo em Gênesis 3,15 (portanto, II poderia estar escrito erroneamente por III); a Virgem, da qual se fala em Isaías 7, 14; profetizou, em 21.5.
9 o sangue do justo Abel, em Gênesis 4,8, ao de Zacarias, em 2 Crônicas 24,20-22. Já em 414.9.
10 mais enquanto vós mesmos não disserdes, como em: Salmo 118,26.
11 deve conhecer Jesus muito bem, o qual havia lhe curado uma perna, como se lê em 488.5.
12 a desobediência, de Adão e Eva, contraposta à obediência de Jesus e da sua Mãe, foi tratada especialmente no capítulo 17 e em 29.7/12, e é um tema recorrente (por exemplo, em 420.11, 515.3, 595.5, 606.1), sintetizado extraordinariamente nesse diálogo.
13 profecia, que está em: Daniel 9,20-27.
14 eu vos disse, em 280.2, onde a frase aqui transcrita entre aspas (e que aparece em Lucas 10,19) está só subentendida, enquanto que ali se leem quase que textualmente as exortações que Jesus, logo depois, recorda aos discípulos: Recordo-vos…
34 grande Corpo é a Terra, o mundo, como anota MV numa cópia datilografada.
15 os profetas falam, como em: Ezequiel 37,1-14.
16 que não me quis, esclarecimento acrescentado à palavra geração, falta nos Evangelistas: Mateus 24,34; Marcos 13,30; Lucas 21,32. Explica que não se trata de “geração” no sentido estrito, e confirma aquilo que foi dito antes, nas últimas linhas de 596.44, isto è, que “chegará o fim” quando haverá o “retorno de Israel a Cristo, que o acolhe”. O mesmo conceito, por exemplo, em 258.5 (últimas linhas), em 265.10 e em 580.5.
17 sinal, isto è,como anota Maria Valtorta numa cópia datilografada: a ordem recebida por Noé de preparar a arca para salver todas as espécies animais. Para essa e para outras citações de Noé e da sua arca (por exemplo, em 140.3, 176.3, 525.7) direcionamos a: Gênesis 6-9.
18 repetirás duas parábolas, que Jesus narrou em 206.2/6 e em 281.9, mas que o Evangelho de Mateus apresenta juntamente com os discuros do presente capítulo.
19 Aquelas palavrinhas, que Maria Valtorta contornou com sinais de lápis vermelho no manuscrito original, sãoalém disso e mandarei, e estão em cursivo em 596.20/21. Casos análogos em 577.11 e em 592.17.


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