117. 117. Lázaro põe à disposição de Jesusuma casinha na planície de Águas Belas.
25 de fevereiro de 1945.
117.1 Jesus sobe pelo íngreme caminho, que leva ao planalto onde está Betânia1. Desta vez Ele não segue pela estrada mestra.
Pegou esta mais escarpada e mais curta, que vai em direção do noroeste para o leste, muito menos batida, talvez por ser tão íngreme. Só os viajantes apressados se servem dela, aqueles que têm rebanhos, e que preferem não levá-los pelo meio do vaivém da estrada mestra, aqueles que, como Jesus, no momento, não querem fazer-se notar. Ele sobe na frente, falando ininterruptamente com o Zelote. Atrás, estão os primos em grupo, com João e André, depois um outro grupo com Tiago de Zebedeu, Mateus, Tomé e Filipe e, por fim, Bartolomeu com Pedro e Iscariotes.
Mas, quando alcançaram o altiplano, sobre o qual Betânia está sorrindo ao sol de um sereno dia de novembro, e do qual, olhando para o lado do oriente, vê-se o vale do Jordão e a estrada que vem de Jericó, Jesus manda que João vá na frente, para avisar Lázaro da sua chegada. Enquanto João vai a passos rápidos, Jesus com os seus prossegue lentamente, sendo saudado, em toda parte, pelas pessoas do lugar.
117.2 A primeira a vir da casa de Lázaro é uma mulher que se prostra até o chão, dizendo:
– Feliz este dia para a casa de minha senhora. Vem, Mestre. Eis Maximino.
Também Maximino acorre. Não sei exatamente quem é este. Tenho a impressão de que seja um parente menos rico e que esteja hospedado com os filhos de Teófilo, ou então, um intendente de suas grandes propriedades, tratado como amigo por seus merecimentos e pelo tempo de serviços prestados à casa. Talvez seja filho de algum dos intendentes do pai, que tenha ficado depois no seu lugar, junto com os filhos de Teófilo. É pouca coisa mais velho do que Lázaro, e terá seus trinta e cinco anos, ou pouco mais.
– Não esperávamos ter-te aqui tão cedo –diz ele.
– Eu peço abrigo por uma noite.
– Se fôsse para sempre, nos farias felizes.
Estão na soleira e Lázaro beija e abraça a Jesus, e saúda os discípulos. Depois, com um braço ao redor da cintura de Jesus, entra com Ele no jardim e se isola dos outros, perguntando logo:
– A que é que eu devo a alegria de ter-te aqui?
– Ao ódio dos sinedritas.
– Fizeram-te algum mal? Ainda?
– Não. Querem fazer. Mas não é hora. Enquanto Eu não tiver arado toda a Palestina e espalhado a semente, não devo ser abatido.
– Deves também fazer a tua colheita, bom Mestre. É justo que assim seja.
– A minha colheita será feita pelos meus amigos. Eles colocarão a foice onde Eu semeei. 117.3Lázaro, Eu decidi afastar-me de Jerusalém. Sei que de nada serve, já o sei antecipadamente. Mas me servirá para poder evangelizar, se não para outra coisa. Em Sião até isso me foi negado.
– Eu te havia mandado dizer por Nicodemos que fosses para uma das minhas propriedades. Ninguém ousa violá-las. Lá poderias exercer o teu ministério, sem seres molestado. E, oh! Em minha casa! A mais feliz de todas as minhas casas, por ser santificada pelos teus ensinamentos, por tua respiração dentro dela! Dá-me a alegria de ser-te útil, meu Mestre.
– Estás vendo que te dou esta alegria. Mas em Jerusalém não posso ficar. Eu não seria molestado, mas muito molestados seriam os que fossem a Mim. Vou para o rumo de Efraim, entre este lugar e o Jordão. Lá evangelizarei e batizarei como o Batista.
– Nos campos dessa região eu tenho uma casinha. Mas é um abrigo para guardar os utensílios dos trabalhadores. Às vezes eles dormem nela, quando vão cortar o feno ou podar as videiras. É pobre. Um simples teto sobre quatro paredes. Contudo, sempre está em minhas terras. E é sabido… Saber isso já é um bom espantalho para os chacais. Aceita, Senhor. Mandarei os servos prepará-la…”.
– Não precisa. Se nela dormem os teus camponeses, bastará também para nós.
– Não levarei riquezas, mas completarei o número de camas, oh! pobres como Tu queres, e farei que levem cobertas, cadeiras, ânforas e copos. Precisareis também de comer e de cobrir-vos, especialmente nestes meses de inverno. Deixai que eu o faça. E nem serei eu quem o vai fazer. 117.4Eis Marta que vem até nós. Ela tem o gênio prático e cuidadoso de todos os afazeres domésticos. Foi feita para a casa e para ser o conforto dos corpos e dos espíritos dos que estão na casa. Vem, minha doce e pura hospedeira! Estás vendo? Eu também me refugiei sob os seus maternos cuidados, na parte da herança que coube à ela. Desse modo, não sinto tão duramente saudades de minha mãe. Marta, Jesus vai abrigar-se na planície de Águas Belas. De belo nada há, a não ser a fertilidade do solo. A casa é um ovil. Mas Ele quer uma casa de pobres. É necessário abastecê-la com um mínimo de coisas. “Dá as tuas ordens, minha brava irmã!” e Lázaro beija a formosa mão da irmã, que se levanta logo, para acariciá-lo com um verdadeiro amor de mãe.
Depois Marta diz:
– Eu já vou. Levo comigo Maximino e Marcela. Os homens do carro ajudarão a arrumar as coisas. Abençoa-me, Mestre, assim levarei comigo alguma coisa de Ti.
– Sim, minha doce hospedeira. Eu te chamarei como Lázaro. Dou-te o meu coração para que o leves contigo no teu.
117.5 – Estás sabendo, Mestre, que hoje estará por estes campos, Isaque com Elias e os outros? Eles me pediram pasto lá em baixo na planície, para estarem um pouco juntos, e eu consenti. Hoje eles transmigram. Eu os espero para a refeição.
– Fico alegre com isto. Eu lhes darei instruções…
– Sim. Para podermos ficar em contato. Porém, alguma vez Tu virás…
– Eu virei. Já falei disso com Simão. E, como não é justo que Eu invada a tua casa com os discípulos, irei para a casa de Simão…
– Não, Mestre. Por que essa dor?
– Não perguntes, Lázaro. Eu sei que assim está bem.
– Mas então…
– Mas então estarei sempre em tuas propriedades. Aquilo que também Simão ignora Eu sei. Aquele que quis adquirir sem se fazer ver e sem discutir, contanto que pudesse ficar perto de Lázaro da Betânia, era o filho de Teófilo, o fiel amigo de Simão, o Zelote, e o grande amigo de Jesus de Nazaré. Aquele que dobrou a soma em favor de Jonas, e não cortou nada dos bens de Simão, para dar a ele a alegria de poder fazer muito pelo Mestre pobre e pelos pobres do Mestre, é alguém chamado Lázaro. Aquele que, discreto e atento, move, dirige, ajuda todas as forças boas para me darem ajuda, conforto e proteção, é Lázaro de Betânia. Eu sei.
– Oh! Não digas isto! Eu pensava em fazer bem assim e em segredo!
– Para os homens há segredo. Mas para Mim, não. Eu leio os corações. 117.6 Queres que Eu te diga por que a tua já natural bondade fica impregnada de perfeição sobrenatural? É porque pedes dom sobrenatural, pedes a salvação de uma alma, a santidade tua e a de Marta. E sentes que não basta ser bons segundo o mundo, mas que é preciso ser bons segundo as leis do espírito, para ter a graça de Deus. Tu não ouviste as minhas palavras. Mas Eu disse2: “Quando fizerdes o bem, fazei-o em segredo, e por ele o Pai vos dará grande recompensa.” Tu o fizeste por um natural impulso de humildade. E em verdade te digo que o Pai prepara para ti uma recompensa que tu nem podes imaginar.
– A redenção de Maria?!!
– Esta, e mais, mais ainda.
– O que é Mestre, mais impossível do que isso?
Jesus o olha e sorri. Depois diz com o tom de um salmo:
– O Senhor reina e com Ele os seus santos.
Com os seus raios tece uma coroa, e sobre a cabeça dos santos a pousa. Onde para sempre ela brilhe aos olhos de Deus e do universo.
De que metal ela é feita? Com que pedras é ornada? Ouro, ouro puríssimo é o círculo obtido com o duplo fogo do amor divino e do amor do homem, trabalhada a cinzel pela vontade que martela, lima, corta e adelgaça.
Pérolas em grande abundância e esmeraldas mais verdes do que a erva nascida em abril, turquesas da cor do céu, opalas da cor da lua, ametistas como pudicas violetas, e jaspes e safiras e jacintos e topázios. Estes engastados para toda a vida. E além disso, um círculo de rubis colocados como arremate do trabalho, um grande círculo sobre a fronte gloriosa.
Pois que o bendito terá tido fé e esperança, terá tido mansidão e castidade, temperança e fortaleza, justiça e prudência, Misericórdia sem medida, e no fundo terá escrito com sangue o meu Nome e com sua fé em Mim, o seu amor por Mim, terá o seu nome no Céu.
Exultai, ó justos do Senhor. O homem ignora e Deus vê.
Ele escreve nos livros eternos as minhas promessas e as vossas obras, e com essas os vossos nomes, príncipes do futuro século, triunfadores eternos com o Cristo do Senhor.
Lázaro o olha assombrado. Depois murmura:
– Oh! eu… não serei capaz…
– Pensas assim?
E Jesus apanha um ramo flexível de um salgueiro pendente sobre o caminho, e diz:
– Olha: assim como minha mão dobra facilmente este ramo, o amor dobrará a tua alma, e dela fará uma coroa eterna. É o amor que redime cada um. Quem ama, inicia a sua redenção. O completamento desta será feito pelo Filho do homem.
Tudo termina.
1 Betânia, cuja posição é ilustrada com o desenho que MV fez num folheto que encontramos colado na abertura do caderno autógrafo. Atrás do folheto, MV escreveu a seguinte nota, na qual inserimos, entre parêntesis reto, algumas precisões nossas: Betânia e o que vejo a partir dela. Atrás, a cadeia montanhosa central na qual se insere Jerusalém (círculo vermelho com a cruz vermelha [no alto à esquerda]. O tracejado duplo, o caminho íngreme que vai de Jerusalém a Betânia, que é o pequeno círculo vermelho no planalto [mais baixo]. O traço duplo unido, a via principal para Jericó (círculo vermelho com cruz preta [no alto à direita], que desce pelas colinas cada vez mais baixas
2 Eu disse, como se citasse o Evangelho (Mt 6,3-4) num eterno presente, porque no tempo o dirá em 173.4.