573. 573. Partida para Enon depois de uma discussãoentre Iscariotes e Elisa, que ficam em Siquém.
3 de março de 1947.
573.1Jesus está sozinho e meditando, sentado sob uma azinheira muito alta que nasceu sobre um dos declives do monte que domina Siquém. A cidade, de um branco rosado e exposta aos primeiros raios do sol, está lá embaixo sobre os declives inferiores. Vista lá do alto, parece um punhado de grandes cubos jogados por algum menino gigante sobre um prado verde. Os dois cursos d’água em cujas margens ela surge, fazem um semicírculo azul prateado ao redor da cidade. Depois um deles penetra nela, lança por lá o seu canto e os seus reflexos por entre as casas brancas para, em seguida, sair de lá e ir correr por entre o verde, aparecendo aqui e desaparecendo ali, por baixo dos olivais e dos pomares viçosos, e indo para o Jordão. O outro, mais modesto, está do lado de fora dos muros, passa quase os lambendo e irrigando as hortas férteis. Depois corre por seu caminho, para dar de beber aos rebanhos de ovelhas brancas que estão pastando nos prados purpurados pelas flores do trifólio já com seus botõezinhos vermelhos.
O horizonte se abre vasto à frente de Jesus. Depois de um ondular de colinas cada vez mais baixas, se vê, por um atalho, o vale verde do Jordão e, para lá dele, os montes do Além-Jordão, que vão terminar ao nordeste nos picos característicos da Auranítide. O sol, que já se levantou atrás deles, atingiu três graciosas nuvens estreitas, parecidas com umas tiras de gaze, leves e colocadas horizontalmente sobre o céu cor de turquesa do firmamento, e a gaze leve das três nuvens compridas e estreitas tornou-se toda de um róseo alaranjado, como o de certos corais preciosos. Jesus a fita, ao olhar para aquela direção, todo absorto. Talvez Ele nem a esteja vendo. Com o cotovelo apoiado sobre o joelho, a mão segurando o queixo, que está firmado no côncavo da palma, Ele olha, pensa e medita. Acima dele os passarinhos dão gritinhos estridentes, numa alegre porfia em seus pequenos voos.
Jesus abaixa o olhar sobre Siquém, que continua a levantar-se sempre cedo ao sol da manhã. Agora, aos pastores e aos rebanhos, que antes eram os únicos a darem vida ao panorama, unem-se, pouco a pouco, os grupos dos peregrinos e, ao tilintar dos guizos dos rebanhos, que antes eram os únicos a dar vida a tudo, vêm unir-se também os grupos dos peregrinos, ao som dos guizos e dos chocalhos dos burros e dos passos, ouvindo-se já vozes e palavras. O vento faz chegar até Jesus, em ondas, o rumor da cidade que desperta e das pessoas que saem do seu repouso noturno.
573.2Jesus se põe de pé. Com um suspiro, Ele deixa aquele lugar sossegado e vai descendo para a cidade por um atalho. Lá Ele entra pelo meio das caravanas de hortelãos e de peregrinos, que se apressam em ser os primeiros a descarregar as suas provisões e os segundos a comprar outras, antes que se ponham a caminho.
Em um ângulo da praça da feira já estão os apóstolos e as discípulas em grupos, à espera, e ao redor deles estão os de Efraim, de Silo, de Lebona e muitos de Siquém.
Jesus se aproxima deles. E os saúda. Depois diz aos de Samaria:
– E agora vamos separar-nos. Voltai para as vossas casas. Lembrai-vos de minhas palavras. Crescei na justiça.
Depois volta-se para Judas de Keriot:
– Deste, como Eu mandei, para os pobres de todos os lugares?
– Eu dei. Menos para os de Efraim, porque eles já haviam recebido.
– Então, ide. Fazei que todos os pobres recebam uma ajuda.
– Nós te bendizemos por eles.
– Bendizei às discípulas. Foram elas que me deram o dinheiro. Ide. A paz esteja convosco.
Eles lá se vão com dificuldade, com tristeza. Mas obedecem.
573.3Jesus fica com os apóstolos e as discípulas. E lhes diz:
– Eu vou a Enon. Quero saudar o lugar do Batista. Depois descerei pelo caminho do vale. É mais cômodo para as mulheres.
– Não seria melhor tomar o caminho para Samaria em vez desse? –pergunta Iscariotes.
– Nós não precisamos ter medo de ladrões, ainda que vamos pela estrada que passa por perto das espeluncas deles. Quem quiser vir comigo, venha. Quem não se sente com coragem de ir até Enon, fique aqui até o dia depois do sábado. Nesse dia Eu irei a Tersa, e quem ficar aqui procure alcançar-me naquele lugar.
– Eu, na verdade… preferiria ficar aqui. Não estou com muita saúde… Estou cansado… –diz Iscariotes.
– Já se vê. Pareces estar doente. Estás diferente nos olhares, nos humores e na pele. De uns tempos para cá venho te observando…
–diz Pedro.
– Mas ninguém me pergunta o que é que eu tenho, contudo…
– Tu gostarias disso? Eu nunca sei o que é que te agrada. Mas se te causa alegria, eu te pergunto agora, e estou disposto a ficar contigo para cuidar de ti… –responde-lhe com paciência Pedro.
– Não, não! É só cansaço. Vai. Vai. Eu fico onde estou.
573.4– Também eu fico. Já estou velha. Eu descansarei fazendo-me de tua mãe –diz de repente Elisa.
– Tu vais ficar? Havias dito que… –interrompe-a Salomé.
– Se todos fôssemos, eu iria também, para não ficar aqui sozinha. Mas já que Judas fica…
– Nesse caso, eu vou. Não te quero fazer sofrer, mulher. E certamente irás de boa vontade para ver o refúgio do Batista…
– Eu sou de Betsur, e nunca senti necessidade de ir a Belém para ver a gruta onde o Mestre nasceu. Estas são coisas que eu irei fazer quando não tivermos mais o Mestre. Pensa bem se eu vou ficar ardendo de desejos de ver o lugar onde esteve João… Prefiro fazer a caridade, pois certa estou de que isso é mais do que uma peregrinação.
– Tu estás reprovando o Mestre. Não percebes isso?
– Eu falo por mim. Ele vai lá e faz bem. Ele é o Mestre. Eu sou uma velha da qual as dores tiraram toda curiosidade e da qual o amor pelo Cristo tirou o desejo de tudo mais que não seja servi-lo.
– Então, para ti ficar me espiando é um serviço.
– E fazes tu coisas reprováveis? Vigiamos os que fazem coisas prejudiciais. Mas eu nunca andei espionando ninguém, homem! Não pertenço à família das serpentes. E não traio ninguém.
– Nem eu.
– Deus assim queira para o teu bem. Mas eu não consigo compreender por que é que tu achas uma coisa tão odiosa que eu fique descansando aqui…
573.5Jesus, que até agora ficou mudo e escutando, no meio dos outros que estão espantados pelo bate-boca, levanta a cabeça, que estava um pouco inclinada, e diz:
– Basta. O desejo que tu tens, bem que pode, e com mais razão, ser desejo de uma mulher e, além disso, uma mulher já idosa. Vós ficareis aqui até a aurora do dia depois do sábado. Depois me alcançareis. E agora, tu, vai comprar o que pode ser necessário para estes dias. Vai, e seja solícito.
Judas vai comprar os alimentos de má vontade. André faz conta que quer acompanhá-lo, mas Jesus o segura por um braço, dizendo:
– Fica aqui. Ele pode fazer isso sozinho.
Jesus está bem severo.
Elisa olha para Ele e depois se aproxima dele, dizendo:
– Perdoa, Mestre, se te desagradei.
– Não tenho nada a perdoar-te, mulher. Ao contrário, perdoa, tu, aquele homem como se fosse teu filho.
– É com este sentimento que eu fico perto dele… ainda que ele pense o contrário… Tu me compreendes.
– Sim. E te abençoo. E te digo que falaste bem ao dizeres que as peregrinações aos meus lugares serão uma necessidade que virá depois que Eu não estiver mais entre vós… será uma necessidade de conforto para o vosso espírito. Por enquanto, basta cumprir os desejos do vosso Jesus. E tu compreendeste um meu desejo, porque te sacrificas em tutelar um espírito imprudente.
Os apóstolos se olham uns aos outros. As discípulas também. Somente Maria, estando toda velada, não levanta a cabeça para trocar olhares com ninguém. E Maria de Magdala, erguida como uma rainha a julgar, não perdeu de vista Judas, que se movimenta por entre os vendedores, tendo uma irritação em seus olhares e um sinal de desprezo em sua boca fechada. Ele fala com esses sinais, mais do que se falasse…
573.6Judas já está de volta. Dá o que comprou aos companheiros. Arruma o manto, que tinha usado para enrolar nele as compras feitas, e faz o gesto de dar a bolsa a Jesus.
Jesus rejeita com a mão:
– Não é preciso. Para as esmolas, ainda temos Maria. Tu, procura prover a que se faça o bem aqui. Muitos são os mendigos que descem de todos os lugares indo para Jerusalém nestes dias. Dá, sem prevenções e com caridade, lembrando que todos somos mendigos diante de Deus, de sua misericórdia e do seu pão… Adeus. Adeus, Elisa. A paz esteja convosco.
E se volta rapidamente, pondo-se a caminhar depressa pela estrada que estava perto dele, sem dar tempo a Judas de saudá-lo…
Todos o acompanham em silêncio, saem da cidade dirigindo-se para o nordeste pelo campo, que está muito bonito…