365. 365. A insídia de Iscariotes e a inocência de Marziam.Um novo discípulo, irmão de leite de Jesus.Em Betânia, junto a Lázaro doente.


3 de janeiro de 1946.

365.1 Jesus entra na placidez verde do Horto das Oliveiras.

Marziam está sempre a seu lado, e se ri, pensando na corrida cansativa que certamente Pedro vai dar para alcançá-los. Ele diz:

– Oh! Mestre! Quem sabe quantas coisas, ele estará dizendo sobre isso. Pois, se Tu tivesses prosseguido para Betânia, sem parar aqui, aí ele ficaria completamente desorientado.

Jesus também sorri, olhando para o jovenzinho, e responde:

– Sim. Ele me sepultará sob os seus lamentos. Mas isso lhe servirá para alguma outra vez. Para que ele fique mais atento. Eu estava falando, e ele estava se distraindo, falando com este ou com aquele…

– Eles lhe faziam perguntas Senhor –desculpa-o Marziam, sem rir depois.

– Com delicadeza se faz um sinal de que se vai responder depois, quando o Senhor terminar de falar. 365.2Lembra-te disso para a tua vida futura. Para quando fores sacerdote. Exige o maior respeito nas horas de instrução e nos lugares de instrução.

– Mas, então, quem estará falando; será o pobre Marziam...

– Não importa. É sempre Deus que fala através dos lábios de seus servos, nas horas de seu ministério. E como tal, é ouvido com silêncio e com respeito.

Marziam faz uma caretinha significativa, como comentário de uma reflexão interior.

Jesus o observa, e lhe diz:

– Não estás persuadido disso? Por que fizeste aquela careta? Fala, meu filho, sem medo.

– Meu Senhor, eu estava perguntando a mim mesmo, se Deus está também nos lábios e nos corações dos seus sacerdotes de agora… e… com terror eu ia perguntando a mim mesmo se serão iguais os do futuro… E eu concluía dizendo que muitos sacerdotes obrigam o Senhor a fazer uma figura feia… Certamente eu pequei… Mas eles são tão maus e repulsivos por seus modos tão áridos… que…

– Não os julgues. Mas lembra-te deste sentimento de desgosto. Tem isto presente no futuro. E, com todas as tuas forças, presta atenção, para não seres como são aqueles que causam desgosto. E que assim não sejam aqueles que irão depender de ti. Faze que sirva para o bem até o mal que vires. Cada ação, cada conhecimento deve ser transformado em bem, passando por um juízo e uma vontade reta.

– Oh! Senhor! Antes de entrarmos naquela casa, que já estamos vendo, responde-me ainda uma outra coisa! Tu não negas que o sacerdócio atual seja mau, e me dizes que eu não o julgue. Mas Tu o julgas. E o podes fazer. E julgas com justiça. Agora escuta, Senhor, o meu pensamento. Quando os atuais sacerdotes falam de Deus e da religião — sendo eles, como são em sua maioria, e eu estou falando agora dos piores dentre eles — devem ser ouvidos ainda como verdadeiros?

– Sempre, meu filho. Por respeito à missão deles. Quando eles fazem os atos do seu ministério, eles não são mais o homem Anás, ou o homem Sadoque, e assim por diante. Mas eles são “o sacerdote”. Separa sempre a pobre humanidade do ministério.

– Mas, e se eles exercem mal até este?

– Deus suprirá. 365.3E depois!… Escuta, Marziam! Não existe nenhum homem completamente bom, e nenhum completamente mau. Nenhum completamente bom, a ponto de ter o direito de julgar os irmãos como completamente maus. É preciso ter presentes os nossos defeitos, contrapor a eles os dotes bons dos que quiserem ajudar-nos, e então teremos uma mistura justa de um julgamento, caridoso. Eu não encontrei ainda um homem completamente mau.

– Nem mesmo Doras, Senhor?

– Doras foi um marido honesto e um pai amoroso.

– Nem o pai de Doras?

– Ele era tambem marido honesto e pai amoroso.

– Mas ele era só aquilo. Porém…

– Mas naquilo não foi mau. Portanto, ele não era completamente mau!

– E nem Judas é mau?

– Não.

– Mas não é bom, porém.

– Não é totalmente bom, como não é totalmente mau. Não estás persuadido do que Eu te estou dizendo?

– Estou persuadido de que Tu és totalmente bom, e que és absolutamente privado de maldade. Isto, sim… E o és tanto, que não achas nunca acusação para ninguém…

– Oh! Meu filho! Se Eu dissesse a primeira sílaba de uma palavra de acusação, todos vós vos atiraríeis, como umas feras, sobre o acusado!… Eu evito que vós os mancharíeis de pecado por julgamento, fazendo assim. Procura compreender-me, Marziam. Não é que Eu não veja o mal lá onde ele está. Não é que Eu não veja a mistura de mal e de bem que há em alguns. Não é que Eu não compreenda quando uma alma sobe ou desce do nível ao qual Eu a levei. Não é nada de tudo isso, meu filho. Não. É Mas é prudência, para evitar as faltas de caridade em vós. E farei sempre assim. Também nos séculos futuros, quando tiver que me pronunciar sobre uma criatura. Não sabes, meu filho, que às vezes vale mais uma palavra de louvor, de encorajamento, do que mil censuras? Não sabes, que sobre cem casos péssimos indicados como relativamente bons, pelo menos a metade se tornam realmente bons, porque não falta, então, depois da minha benévola palavra, o auxílio dos bons que fugiriam do indivíduo indicado como péssimo? É preciso socorrer as almas., não desencaminhá-las. Mas, se Eu não fosse o primeiro a ajudá-las a pôr um véu sobre as partes feias, a pedir que haja em vós benevolência e ajuda para elas, nunca vós vos daríeis a elas com uma ativa misericórdia. Lembra-te disso, Marziam…

– Sim, Senhor… (e dá um profundo suspiro). Eu me lembrarei (outro suspiro). Mas é muito difícil, diante de certas evidências.

365.4 Jesus olha para ele fixamente. Mas do jovenzinho Ele não vê senão o alto da fronte, porque ele baixou muito o rosto.

– Marziam, levanta o rosto. Olha para Mim. Responde-me. Qual é essa evidência, que é difícil deixar de considerar?

Marziam fica confuso… Torna-se mais corado, sob sua pele morena… E responde:

– Mas… são tantas, Senhor…

Jesus insiste com ele:

– Por que falaste em Judas? Porque ele é uma “evidência”. Talvez seja a que te é mais difícil superar… O que Judas te fez? Em que foi que ele te escandalizou?

E Jesus põe as mãos sobre os ombros do jovenzinho, que agora já parece cor de púrpura escura, de tão corado que está.

Marziam olha para Jesus com uns olhos que já estão brilhando, escapa das mãos dele, e sai gritando:

– É um profanador, Judas!… Mas eu não posso dizer… Leva isto a meu favor, Senhor!…

E ele se esquiva, chorando, sendo em vão chamado por Jesus, que faz o gesto de uma dor sem consolo.

365.5 Mas a voz dele chamou a atenção dos da casa do Getsêmani. E, na soleira da cozinha aparece Jonas e depois a Mãe de Jesus, tendo atrás as discípulas: Maria de Cléofas, Maria Salomé e Porfíria. Eles e veem Jesus, indo ao encontro dele.

– A paz esteja com todos vós! Aqui estou, minha Mãe!

– Estás sozinho? Por quê?

– Eu vim correndo na frente. Deixei os outros no Templo… Mas estava com Marziam…

– E onde está agora o meu filho, que eu não o vejo? –pergunta Porfíria, um pouco inquieta.

– Ele foi lá para cima. Mas logo virá. Tendes alimento para todos? Daqui a pouco, virão os outros.

– Não, Senhor. Havias dito que ias para Betânia…

– Sim… Mas pensei que era bom fazer assim. Ide logo apanhar o que é preciso, e voltai logo. Eu fico aqui com minha Mãe.

As discípulas obedecem sem discutir.

365.6 Jesus e Maria ficam sozinhos, e vão dando uns passos lentos, por debaixo das ramagens, através das quais se filtram, como umas agulhas, os raios do Sol, que vão formando pequenos círculos de ouro sobre a erva verde e florida.

– Depois da refeição, irei a Betânia. Irei com Simão.

– Com Simão de Jonas?

– Não. Com Simão, o Zelotes. E levarei comigo Marziam…

Jesus, pensativo, se cala.

Maria fica observando-o. Depois pergunta:

– Tem-te dado desgostos o Marziam?

– Não, minha Mãe. Pelo contrário. Por que pensas assim?

– Por que estás pensativo?… Por que estavas chamando de modo imperioso? E por que ele te deixou? Por que ele se afastou de Ti, como um envergonhado? Ele nem veio saudar sua mãe, nem a mim!

– O menino fugiu por causa de uma pergunta minha.

– Oh!

O pasmo em que está Maria é muito profundo. Ela se cala por uns momentos, e depois murmura como se estivesse falando a si mesma:

– Os dois no Paraíso fugiram foi depois do pecado, quando ouviram a voz de Deus… Mas, ó meu Filho, é preciso ter dó do menino. Ele está começando a se tornar homem… e talvez… Meu Filho… Satanás morde todos os homens…

Maria está cheia de piedade e suplicante… Jesus olha para ela e lhe diz:

– Como és mãe! Como és “a Mãe”! Mas não penses que o menino haja pecado. Mas podes crer que ele está sofrendo pelo choque de uma revelação. Ele é muito puro. É muito bom. Eu o levarei comigo hoje. Para dar-lhe a entender, sem dizer-lhe nada, que Eu o compreendo. Qualquer palavra, já seria demais… e Eu não encontraria nem uma para desculpar o violador de uma inocência.

Jesus fala muito sério estas últimas palavras.

– Oh! Filho! A que ponto chegamos. Não te pergunto nomes. Mas, se alguém dentre nós foi capaz de perturbar o menino, só pode ter sido um… Que demônio!

365.7 – Vamos procurar Marziam, minha Mãe. Diante de ti, ele não fugirá.

Vão encontrá-lo atrás de uma moita de pilriteiros.

– Estarás apanhando flores para mim, meu filho? –pergunta Maria, indo ao encontro dele, e abraçando-o.

– Não. Mas eu estava com saudades de ti –diz Marziam, que está ainda com lágrimas nos olhos.

– E eu vim. Vamos logo, que hoje deves ir com o meu Jesus a Betânia. E precisas estar bem arrumado, como deve ser.

O rosto do Marziam está radiante, tendo passado aquela perturbação de antes, e ele diz:

– Eu sozinho com Ele?

– E com Simão Zelotes.

Marziam, que ainda é de pouca idade, dá um pulo de alegria, e sai correndo para fora do seu esconderijo, indo cair sobre o peito de Jesus. Ele ainda está confuso.

Mas Jesus se ri e o encoraja, dizendo:

– Vai correndo ver se teu pai veio.

E, enquanto Marziam parte correndo, Jesus faz esta observação:

– É um verdadeiro menino, ainda que, no modo de pensar, já esteja bem ajuizado. Perturbar o coração dele é um grande delito. Mas Eu tomarei providências –e, enquanto isso, vai caminhando para a casa com Maria.

E, ainda não chegaram a ela, quando e veem que Marziam, já vem vindo de galope, de volta.

– Mestre… Mãe… Há umas pessoas… daquelas que estavam no Templo… Os prosélitos… Há também uma mulher… Uma mulher que te quer ver, ó Mãe… Diz ela que te conheceu em Belém… Chama-se Noemi.

– Mas eu conheci tantas Noemis! Contudo, vamos.

365.8 Chegam à pequena esplanada, onde está a casa. Um grupo de pessoas está esperando e, logo, que eles veem a Jesus, se prostram. De repente, uma mulher se levanta, e corre para ir jogar-se aos pés de Maria, saudando-a pelo nome.

– Quem és? Eu não me lembro de ti. Levanta-te.

A mulher se levanta e vai falar, quando chegam, ofegantes, os apóstolos.

– Mas, Senhor, Por quê? Nós ficamos correndo como loucos por Jerusalém. Pensávamos que tivesses ido para a casa de Joana ou de Anália… Por que foi que não paraste? –perguntam eles, e dão informações confusas.

– Agora estamos juntos. É inútil explicar o porquê. Deixai que esta mulher fale em paz.

Todos se reúnem para ouvir.

– Tu não te lembras de mim, ó Maria de Belém. Mas eu, desde os trinta e um anos, me lembro do teu rosto, como rosto da piedade. Eu tinha vindo também de longe, por causa do Edito. E eu estava grávida, mas esperava poder voltar em tempo. Meu marido adoeceu na viagem, e, chegando a Belém, foi-se enfraquecendo, até morrer. Fazia vinte dias que eu havia dado à luz, quando ele morreu. Os meus gritos penetraram no céu, secaram-me o leite… e o transformaram em veneno. Eu fiquei coberta de pústulas, e o meu filho também… E fomos jogados em uma caverna, para lá morrermos… Pois bem. Somente tu é que foste, com cuidado, pouco a pouco, durante um mês inteiro, levar-me alimento e cuidar de minhas feridas, chorando junto comigo, e dando leite ao meu filho, que, se agora está vivo, o deve a ti, a ti somente… Tu te arriscaste a ser apedrejada, porque todos me chamavam “a leprosa”… Oh! minha suave estrela! Eu não me esqueci daquilo. E parti de lá, depois que fiquei sã. Fiquei sabendo da carnificina em Éfeso. E te procurei muito! Muito! Eu não podia crer que tivesses sido morta com o teu Filho naquela noite horrorosa. Mas não te encontrei mais. No verão passado uma pessoa de Éfeso ouviu o teu Filho, ficou sabendo quem era, acompanhou-o por certo tempo, e esteve com outros acompanhando-o na festa dos Tabernáculos… E, voltando de lá, me falou. Eu vim para ver-te, Santa, antes de minha morte. Para agradecer-te, tantas vezes quantas foram as gotas de leite que deste ao meu João, levando-o ao teu bendito Filho.

A mulher chora, estando em uma postura respeitosa, um pouco inclinada, com as mãos agarradas aos braços de Maria…

– O leite não se nega nunca, irmã. E…

– Oh! Não. Eu não sou tua irmã! Tu, Mãe do Salvador, e eu uma pobre mulher errante, que está longe de sua casa, viúva, com um filho no seio, um seio árido como uma torrente no verão… Sem ti, eu estaria morta. Tu me deste tudo, e eu, por meio de ti é que pude voltar aos meus irmãos, que são mercadores em Éfeso.

– Éramos duas mães, duas pobres mães, com dois meninos, pelo mundo. Tu tinhas a tua dor de viúva, e eu a de ter que ver-me transpassada em meu Filho, como disse no Templo o velho Simeão. Não fiz mais do que o meu dever de irmã, dando-te o que já não tinhas mais. 365.9E o teu filho, ainda é vivo?

– É aquele lá. O teu santo Filho o curou esta manhã. Que Ele seja bendito por isso.

E a mulher se prostra diante do Salvador, gritando:

– Vem, João, vem agradecer ao Senhor.

E vem adiante, tendo deixado os seus companheiros, um homem da idade de Jesus, ainda robusto, de rosto sincero, sem chegar a ser bonito. De bonito ele tem a expressão que se vê em seus olhos profundos.

– A paz esteja contigo, meu irmão de Belém. De que foi que Eu te curei?

– Da cegueira. Eu estava com um olho perdido, e o outro a caminho de perder-se. Eu era sinagogo, mas já não podia mais ler os rolos sagrados.

– Agora, os lerás com mais fé.

– Não, Senhor. Agora eu te lerei. Quero ficar como teu discípulo. E, sem ficar contando vantagem, de meus direitos por causa das gotas de leite, que eu suguei do mesmo peito do qual Tu te nutrias. Não são nada os dias de uma lua, para criarem um forte laço. Mas tudo foi feito pela piedade de tua Mãe: naquele tempo, e pela tua nesta manhã.

Jesus se vira para a mulher:

– E tu, que dizes a isso?

– Que meu filho te pertence duas vezes. Aceita-o Senhor. E assim o sonho da pobre Noemi será realidade.

– Está bem, serás de Cristo. E vós, recebei o companheiro em nome do Senhor –diz Jesus dirigindo-se aos apóstolos.

Os prosélitos estão emocionados. Os homens quereriam ficar logo também. Todos eles. Mas Jesus diz com firmeza:

– Não. Vós ficai sendo o que sois. Voltai para vossas casas, conservai a fé e ficai esperando a hora da chamada. E o Senhor esteja sempre convosco. Ide!

– Poderemos encontrar-te aqui ainda? –perguntam.

– Não. Como um passarinho, que voa de ramo em ramo, Eu irei sempre, sem parar. Não me encontrareis aqui. Não tenho itinerário, nem morada. Mas, se for preciso, nos veremos, e me ouvi-reis. Ide. Que fique aqui a mulher com o novo discípulo.

E Ele entra em casa acompanhado pelas mulheres e os apóstolos, que estão comentando emocionados um episódio até agora desconhecido, e a caridade profunda de Maria.

365.10Jesus, com passos rápidos, vai indo para Betânia. A seus lados estão Simão, o Zelotes e Marziam. Vão indo estes dois muitos felizes, por serem eles os escolhidos para esta visita.

Marziam, agora completamente calmo, faz mil perguntas sobre a mulher vinda de Éfeso. Por exemplo, se Jesus sabia daquele fato; e muitas outras coisas.

– Eu não sabia. As bondades de minha Mãe são sem limites, e feitas em um silêncio tão manso, que a maior parte delas fica desconhecida.

– Mas é muito bonito o episódio –diz o Zelotes.

– Sim. E tanto assim, que eu vou fazer que João de Endor fique sabendo dele. Que dizes, Mestre? Encontraremos cartas dele em Betânia?

– Tenho quase certeza.

– Deveríamos encontrar também a mulher curada da lepra –observa o Zelotes.

– Sim. Ela observou com fidelidade os preceitos. Mas o tempo da purificação já deve ter terminado.

365.11 Betânia já está sendo vista, lá sobre o seu planalto. Passam por diante da casa, onde, há tempo, havia pavões, flamingos e gralhas. Agora a casa está fechada e abandonada. Simão está observando isso.

Mas sua observação é interrompida pela festiva saudação de Maximino, que lhe aparece perto da cancela.

– Oh! Mestre santo! Que felicidade, em meio a tanta dor!

– A paz esteja contigo. Por que falas de dor?

– Porque Lázaro está sofrendo com suas pernas ulceradas. E não sabemos mais o que fazer para aliviar os seus sofrimentos. Mas, ao ver-te, ele se sentirá melhor, pelo menos em seu espírito.

Entram no jardim, e enquanto Maximino vai correndo na frente, eles, devagar, vão indo para a casa.

Vem correndo para fora Maria de Magdala, com o seu grito de adoração: “Raboni” e, atrás dela, mais calma, vem vindo Marta. As duas estão pálidas como quem tem sofrido e passado sem dormir.

– Levantai-vos. Vamos logo a Lázaro.

– Oh! Mestre! Mestre que tudo podes, cura o meu irmão! –suplica Marta.

– Sim! Bom Mestre! Ele está sofrendo mais do que pode! Está enfraquecido e, gemendo. Certamente vai morrer se isso continuar. Tem dó dele, Senhor –insiste Maria.

– Eu tenho toda a piedade. Mas para ele ainda não chegou a hora do milagre. Que ele seja forte, e vós com ele. Ajudai-o a fazer a vontade do Senhor.

– Ah! Tu queres dizer que ele deve morrer –geme e roga Marta, por entre lágrimas.

E Maria, com os olhos nadando no pranto e no sofrimento, com um dobrado sofrimento por Jesus e pelo irmão, diz:

– Oh! Mestre, mas assim fazendo, me impedes de acompanhar-te e servir-te, e impedes meu irmão de alegrar-se por minha ressurreição. Então, não queres que na casa de Lázaro nos alegremos por uma ressurreição?

Jesus olha para ela com um sorriso bom e sutil, e diz:

– Por uma? Por uma só? Ora, vamos! Pensais que Eu seja bem pouca coisa, se achais que Eu possa fazer só uma coisa! Sede boas e fortes! Vamos! E não fiqueis chorando assim. Vós o faríeis ficar impressionado e com tristes suspeitas.

E põe-se à frente, a caminho, por primeiro.

365.12 Lázaro, ao que parece, para que possa ser assistido sem dificuldade, foi levado para a sala ao lado da biblioteca, à frente da sala maior, onde se fazem os banquetes. Maximino mostra a porta, mas deixa que Jesus entre sozinho.

– A paz esteja contigo, Lázaro, meu amigo!

– Oh! Mestre santo! A paz esteja contigo. Para mim, em meus membros, não há mais paz. E abatido está o meu espírito. Sofro muito, Senhor. Dá-me aquela querida ordem: “Lázaro, vem cá para fora”, e eu estarei curado para te servir…

– Eu ta darei, Lázaro. Mas não agora –responde Jesus, abraçando-o.

Lázaro está muito magro, amarelado, com os olhos encovados. Evidentemente está muito doente, e muito enfraquecido. Chora como um menino, ao mostrar suas pernas inchadas, meio azuladas, com chagas que me parecem varizes abertas em diversos pontos. Talvez ele espere que, mostrando a Jesus aquela ruína, Jesus se comova, e faça o milagre. Mas Jesus se limita a pôr em ordem, com delicadeza, sobre as chagas, os panos empapados com bálsamo.

– Vieste para ficar –pergunta Lázaro, desiludido.

– Não. Mas virei com frequência.

– Como? Nem neste ano virás fazer a Páscoa comigo? Eu fiz que me trouxessem para aqui, de propósito para isso. Tu me havias prometido na festa dos Tabernáculos, que estarias muito tempo comigo, depois das Encênias…

– E aqui estarei. Mas não agora. Eu te causaria aborrecimento, se me assentasse aqui, à beira de tua cama?

– Oh! Não. Pelo contrário. O frescor de tua mão parece até estar mitigando o ardor de minha febre. Por que, então, não ficas, Senhor?

– Porque, assim como tu estás atormentado pelas chagas, Eu o estou pelos inimigos. E, como Betânia é considerada como fim dos limites para a Páscoa, iriam considerar um pecado, se Eu fizesse a Páscoa aqui. Tudo o que Eu faço é como um camelo e uma trave para o Sinédrio e os fariseus…

– Ah! os fariseus! É verdade. Mas em uma casa minha… Isso não!

– Isso, sim. Mas eu o direi na última hora. Por prudência.

– Oh! Sim! Não te fies. 365.13Tu te saíste bem com João, sabes? Ontem chegou Tolmai com outros, e me trouxe umas cartas para ti. Elas estão com minhas irmãs. Mas, onde será que estão Marta e Maria? Não tomam providências para prestar-te a devida honra?

E Lázaro fica inquieto, como costumam ficar muitos doentes.

– Fica sossegado. Elas estão lá fora com Simão e Marziam. Eu vim com eles. E não estou precisando de nada. Agora, vou chamá-los.

E, de fato, vai chamar aqueles que, por delicadeza, tinham ficado fora.

Marta sai e volta com dois rolos, que ela entrega a Jesus. Enquanto isso, Maria está dizendo que o servo de Nicodemos disse ter vindo à frente do patrão, que está para chegar com José de Arimateia. E, ao mesmo tempo, Lázaro se lembra de uma mulher “que chegou ontem em teu nome, diz ele.”

– Ah! Sim! Sabes quem é?

– Ela no-lo disse. É filha de um homem rico de Jericó, que esteve na Síria há anos, quando era jovem. Ele deu-lhe o nome de Anastásica1, lembrando-se de uma flor do deserto… Mas não quis revelar o nome do marido –explica Marta.

– Nem é preciso. Ele a repudiou e, por isso, ela é apenas “a discípula.” Onde está ela?

– Está muito cansada e dormindo. Nestes dias e noites, ela tem passado muito mal. Se quiseres, vou chamá-la.

– Não. Deixa-a dormir. Trataremos disso amanhã.

365.14 Lázaro olha, admirado, para Marziam. E Marziam está ansioso. Ele quereria saber o que está nos rolos. Jesus o compreende, e os abre. Lázaro diz:

– Como? Ele sabe?

– Sim. Ele e os outros, menos Natanael, Filipe, Tomé e Judas…

– Fizeste bem em conservá-los ocultos a ele, prorrompe Lázaro. Eu tenho muitas suspeitas…

– Não sou imprudente, meu amigo…

Jesus o interrompe e lê os rolos, dando depois as notícias principais, ou seja, que os dois já se deram bem com o clima, que a escola vai bem e que, se não fosse o enfraquecimento de João, tudo iria bem.

365.15Mas nada mais pode dizer, porque já está sendo anunciada a chegada de Nicodemos e José.

– Deus te salve, ó Mestre! Sempre, como nesta manhã!

– Obrigado, José. E tu, Nicodemos, não estavas lá?

– Não. Mas tendo sabido que havias chegado, pensei em vir à casa de Lázaro, quase certo de que Te encontraria. E José veio comigo.

Eles estão falando, ao redor da cama de Lázaro de todos os acontecimentos desta manhã, pois ele por eles se interessa tanto, que parece ficar até aliviado dos seus sofrimentos.

– Mas aquele Gamaliel, Senhor! Tu ouviste? –diz José de Arimateia.

– Eu ouvi.

Nicodemos diz:

– Eu, porém, o que digo é: mas aquele Judas de Keriot, Senhor! Depois da tua partida, eu o encontrei gritando como um demônio, no meio de um grupo de alunos dos rabis. Ele te acusava e defendia ao mesmo tempo. Eu estou certo de que ele estava convicto de não fazer senão o bem. Eles queriam encontrar culpa em Ti, certamente atiçados por seus mestres. Ele repelia as acusações com grande ardor, dizendo: “Só uma culpa tem o meu Mestre! A de fazer realçar muito pouco o seu poder. Ele deixa sempre passar a hora oportuna. Ele cansa os bons com sua excessiva mansidão. Ele é rei. E como rei deve agir. Vós o tratais como um servo porque Ele é manso. E Ele se arruína por não ser mais do que manso. Para vós que sois vis e cruéis, só mesmo o chicote de um poder absoluto e violento. Oh! Por que não posso eu fazer dele um violento Saul?”

Jesus sacode a cabeça sem falar.

– E, contudo, a seu modo, ele te ama! –observa Nicodemos.

– Que homem desconcertante! –exclama Lázaro.

– Sim. Disseste bem. Eu não o compreendo ainda, depois de dois anos que estou perto dele –confirma Zelotes.

Maria de Magdala levanta-se com uma impaciência de rainha e, com sua esplêndida voz, proclama:

– Eu o compreendi mais do que todos: é o opróbrio perto da Perfeição. E não há nada mais a dizer.

E sai para ir fazer alguma tarefa, levando consigo Marziam.

– Talvez Maria tenha razão –diz Lázaro.

– Eu penso assim também –diz José.

365.16 – E Tu, Mestre, que dizes?

– Eu digo que Judas é “o homem.” Como também o é Gamaliel. Homem limitado ao lado do Deus infinito. O homem é tão restrito em seu pensamento, enquanto não tiver recebido uma respiração sobrenatural, que pode acolher somente uma ideia, incrustá-la em si, ou incrustar-se nela e assim ficar. Ainda que esteja contra a evidência. Cabeçudo. Obstinado. Pela fé, talvez, naquilo que mais o chocou. No fundo, Gamaliel tem uma fé como poucos em Israel no Messias entrevisto por ele, e reconhecido em um Menino. Ele é fiel às palavras daquele Menino… E assim é Judas. Saturado da ideia de um Messias, como a maior parte de Israel a cultiva, confirmado nela desde a minha primeira manifestação a ele, ele vê, isto é, quer ver no Cristo o rei. O rei temporal e poderoso… e é fiel a esse seu conceito. Oh! Quantos, até no futuro, se arruinarão por um conceito errado de fé, teimoso contra toda razão. Mas, que achais vós? Que seja fácil seguir a verdade e a justiça em todas as coisas? Que achais vós? Que seja fácil alguém salvar-se só porque é um Gamaliel e um Judas apóstolo? Não. Em verdade, em verdade Eu vos digo que é mais fácil que se salve um menino, um fiel comum, do que alguém elevado a um cargo especial ou a uma missão especial. Geralmente entra nos chamados para uma posição extraordinária a soberba por sua vocação e essa soberba abre as portas a Satanás, expulsando a Deus.

As quedas das estrelas são mais fáceis do que as das pedras. O maldito procura apagar os astros e vai-se insinuando, tortuoso, servindo de alavanca contra os eleitos, para fazê-los soçobrar. Se milhares e dezenas de milhares de homens comuns caem nos erros, a queda deles não abate senão a eles mesmos.

Mas, se cai um eleito, escolhido para uma condição excepcional, e se torna instrumento de Satanás, em vez de o ser de Deus, e se torna a voz dele, em vez de ser “meu” discípulo, então a ruína dele é bem maior, e pode dar origem até as profundas heresias, que lesam um número incalculável de espíritos. O bem que Eu dou a alguém produzirá muito bem se cair num terreno humilde e se souber permanecer assim. Mas, se cair num terreno soberbo ou se tornar assim por causa do dom que recebeu, então de bem se torna mal. A Gamaliel foi concedida uma das primeiras epifanias do Cristo. Ela devia ser o seu precoce chamado para o Cristo. É esta a razão da sua surdez à minha Voz que o chama. A Judas foi concedido que fosse um apóstolo: um dos doze apóstolos, no meio dos milhares de homens de Israel. Isso devia ser a sua satisfação. mas, que será ele?… Meus amigos, o homem é um eterno Adão… Adão tinha tudo. Menos uma coisa. Pois foi esta que ele quis. Contanto que continue a ser Adão. Mas muitas vezes ele se transformou em Lúcifer. Tem tudo, menos a divindade2. E ele a deseja. Quer o sobrenatural para causar admiração, para ser aclamado, temido, conhecido, celebrado… E, para ter um pouco disso, que só Deus pode dar gratuitamente, ele se agarra a Satanás, o qual é o macaco de Deus e concede simulações de dons sobrenaturais. Oh! que horrível sorte a desses insatanizados! 365.17Eu vou deixar-vos, meus amigos. Vou retirar-me um pouco. Preciso recolher-me em Deus…

E Jesus, muito perturbado, sai dali…

Os que ficaram: Lázaro, José, Nicodemos e Zelotes, olham uns para os outros.

– Viste como Ele estava perturbado? –pergunta em voz baixa, José a Lázaro.

– Eu vi. Parecia estar vendo um espetáculo horrível.

– Que terá Ele no coração? –pergunta Nicodemos.

– Só Ele e o Eterno é que sabem –responde José.

– Tu não sabes nada, Simão?

– Não. É certo que há meses que Ele está muito angustiado.

– Deus o salve! Mas é certo que o ódio vai crescendo.

– Sim, José. O ódio cresce… Eu creio que logo o ódio vencerá o Amor.

– Não digas isso, Simão! Se assim deve ser, não crerei mais que ficarei curado! É melhor morrer, do que assistir ao mais horrendo dos erros.

– Dos sacrilégios, deves dizer, Lázaro…

– E, no entanto… Israel vai ser capaz disso. Já está maduro para poder repetir o gesto de Satanás, que move guerra ao Senhor bendito –suspira Nicodemos.

Um silêncio pesado se faz como uma mordida que tivesse destroçado todas as gargantas… A tarde vem descendo sobre aquela sala, onde os quatro homens honestos estão pensando nos delinquentes futuros.

1 Anastásica (mais corretamente Anastásica, como em 366.1) é a Rosa de Jericó encontrada em 360.13/14. Os dois nomes, pertencentes à mesma pessoa, são de uma planta que aqui é chamada flor do deserto e que poderia ser a “planta de rosas de Jericó” denominada em Siraque 24,14.
2 Tem tudo, menos a divindade. Assim explica uma nota de MV em uma cópia datilografada: O homem é divinizado pela Graça, mas não é Deus. Torna-se similar a Deus por participação, mas não por igual natureza.


1
2
3
4