172. 172. Quarto sermão da Montanha:o juramento, a oração, o jejum.O velho Ismael e Sara.


26 de maio de 1945.

172.1 Continua o Sermão da Montanha.

No mesmo lugar e na mesma hora. A multidão, menos o romano, é a mesma, talvez até com mais gente, porque muitos se colocaram até no começo das trilhas, do pequeno vale.

Jesus fala:

– Um dos erros mais encontrados no homem é a falta de honestidade para consigo mesmo. Sendo o homem dificilmente sincero e honesto, criou para si um freio, obrigando-o a usar o caminho escolhido. É um freio que o acaba deixando como um cavalo indomável para mudar o caminho conforme o seu gosto, ou deixa-se levar completamente, fazendo com que sinta-se mais cômodo, sem pensar que pode receber a desaprovação de Deus, dos homens e de sua própria consciência.

Esse freio se chama juramento. Mas entre pessoas honestas não é necessário o juramento, por isso não foi Deus quem vo-lo ensinou. Ao contrário, Ele até vos disse: “Não levantar falso testemunho”, sem acrescentar mais nada. Porque o homem deveria ser sincero, sem necessidade de mais nada, além da fidelidade à sua palavra. Quando, no Deuteronômio, se fala dos votos, mesmo quanto partem de um coração que se julga unido a Deus, sendo os votos necessidade ou reconhecimento, ainda assim, está escrito1: “Uma vez que uma palavra saiu dos teus lábios, tu a deves sustentar, fazendo tudo o que prometeste ao Senhor teu Deus, tudo o que por tua vontade, e por tua boca disseste” Sempre se fala de palavra dada, bastando tal palavra. Aquele que sente a necessidade de jurar, é porque não confia em si mesmo e no que os outros pensam a seu respeito. Quem pede um juramento mostra, desconfiança da sinceridade e honestidade do outro.

Como estais vendo, o hábito de jurar é consequência da desonestidade moral do homem. É uma vergonha para o homem. É uma dupla vergonha, porque o homem não seria nem mesmo a essa coisa vergonhosa, que é ter que jurar, zombando de Deus com a mesma facilidade com que zomba do próximo, chega até a jurar falso, com toda facilidade e tranquilidade.

172.2 Poderá haver coisa mais abjeta do que um perjuro? Usando, por vezes, uma fórmula sagrada, chamando Deus como cúmplice e fiador, ou usando os nomes dos seus entes mais queridos: do pai, da mãe, da mulher, dos filhos, dos seus mortos, da sua própria vida e de seus órgãos mais preciosos, em apoio de sua palavra mentirosa, induz o próximo a prestar-lhe fé. E assim o consegue enganar. Ele é um sacrílego, um ladrão, um traidor, um homicida. De quem? De Deus, porque ele mistura a Verdade com a infâmia de sua mentira, zombando, diz: “Fere-me, desmente-me, se puderes. Tu estás aí, enquanto eu estou aqui, rindo.” Oh! Se estais rindo, continuai a rir, mentirosos e zombadores! Haverá um momento em que não rireis mais, será quando Aquele, a quem todo poder foi dado, vos aparecerá, terrível em sua majestade. Somente com o seu aparecimento aterrorizar-vos-á, só com seu olhar vos fulminará, antes, antes mesmo que sua voz vos precipite em vosso destino eterno, marcando-vos com a sua maldição.

É um ladrão, porque se apropria da estima que não merece. O próximo, impressionado pelo juramento, se entrega a ele, e a serpente se adorna com isso, fingindo ser o que não é. Ele é um traidor, porque com juramento promete uma coisa que pretende não cumprir. É um homicida, porque ou mata a honra do seu semelhante, tirando-lhe a estima, ou mata a sua alma, porque o perjuro é um pecador abjeto aos olhos de Deus, que, mesmo quando não vemos a verdade, ele vê. Deus não pode ser enganado, nem com palavras falsas, nem com ações hipócritas. Ele vê. Nem por um instante perde de vista nenhum dos homens. Não existe fortaleza tão bem munida, nem porão que seja tão profundo, que o olhar de Deus não consiga penetrar. Até no vosso interior, na fortaleza que o homem traz ao redor do seu coração, Deus penetra. Ele vos julga, não pelo que jurais, mas pelo que fazeis.

172.3 Por isso, depois que o juramento foi colocado em evidência, como freio à mentira e à facilidade de faltar com a palavra dada, substituo aquela ordem2 por outra: Já não digo, como os antigos: “Não jures falso, mas guarda os teus juramentos”, mas Eu vos digo: “Não jureis nunca nem pelo Céu, que é o trono de Deus, nem pela terra, que é o escabelo de seus pés, nem por Jerusalém e o seu Templo, que são a cidade do grande rei e a Casa do Senhor, nosso Deus.”

Não jureis nem pelos túmulos dos antepassados, nem por suas almas. Os túmulos estão cheios das partes inferiores do homem, partes que os animais também têm, e as almas, deixai-as em suas moradas. Fazei que não sofram, nem se horrorizem, se são almas de justos que já estão no conhecimento antecipado de Deus. Ainda que seja um conhecimento antecipado, um conhecimento parcial, pois que, até o momento da Redenção, não possuirão ainda Deus na plenitude de seus esplendores, não podem deixar de sofrer, ao verem que sois pecadores, Se eles não são justos, não aumenteis o seu tormento,lembrando-o, com o vosso pecado, do pecado deles. Deixai os santos mortos em paz; deixai os mortos não santos, em suas penas. Não tireis nada de uns, nem acrescenteis nada aos outros. Por que apelar aos mortos? Eles não podem falar. O mortos santos não podem, porque a caridade os proíbe; deveriam vos desmentir infinitas vezes. Os condenados também não, porque o Inferno não abre as suas portas, e os condenados não abrem as bocas, a não ser para maldizer. A voz de todos fica sufocada pelo ódio de Satanás e dos satanases, pois os condenados são satanases.

Não jureis nem pela cabeça do pai, nem pela mãe, nem pela esposa e filhos inocentes. Não tendes direito de fazer isso. Serão eles, por acaso, uma moeda ou uma mercadoria? Serão eles como uma assinatura de um documento? Eles são mais e são menos do que estas coisas. São sangue e carne do teu sangue, ó homem, mas são também criaturas livres, e tu não podes usar delas como de um aval para o teu juramento falso. Serão eles menos do que uma assinatura tua, porque tu és inteligente, livre e adulto, tu não és um incapaz ou uma criança, que não sabe o que faz, precisando ser representada pelos pais. Tu és tu: um homem dotado de razão e, por isso, és responsável por tuas ações, e deves agir por ti mesmo, dando como aval para tuas ações e para tuas palavras, a tua honestidade e a tua sinceridade, a estima que soubeste fazer nascer no teu próximo, e não a sinceridade dos parentes e a estima que eles tem dos outros. Os pais são responsáveis os pais pelos filhos? Sim, mas somente enquanto eles são menores. Depois, cada um é responsável por si mesmo. Nem sempre nascem justos de justos, e nem sempre uma mulher santa é casada com um homem santo. Por que, então, usar como base de garantia, a justiça de quem está ao vosso lado? De um pecador também podem nascer filhos santos e, enquanto inocentes, todos são santos. Por que, então, buscar a ajuda de quem que é puro para aprovar um ato impuro, que é o vosso juramento, que pretendeis violar?

Não jureis, nem mesmo pela vossa cabeça, pelos vossos olhos, vossa língua e vossas mãos. Não tendes esse direito. Tudo quanto tendes é de Deus. Vós sois guardiães provisórios, banqueiros dos tesouros morais ou materiais que Deus vos concedeu. Por que, então, usar o que não é vosso? Podeis pôr mais um fio de cabelo em vossa cabeça, ou mudar a cor de vossos cabelos? Se não podeis fazer isso, por que é que usais, então, a vossa vista, a palavra, a liberdade de vossos membros para dar força a um vosso juramento? Não desafieis a Deus. Ele poderia pegar-vos em vossa palavra, e fazer ficarem secos os vossos olhos, assim como pode secar as vossas árvores frutíferas, ou arrebatar-vos os filhos, arrancar as vossas casas, a fim de que vos lembreis de que Ele é o Senhor e de que vós sois um súditos, sendo um maldito o que se faz de si mesmo um ídolo, a ponto de julgar-se mais do que Deus, desafiando-o com suas mentiras.

172.4 O vosso falar seja sim, sim; e não, não. Nada além disso. O que se diz além disso é sugerido pelo Maligno, para rir-se de vós, que, não podendo lembrar de tudo o que dissestes, caís em mentiras, tornando-se objeto de zombaria, sendo conhecidos como mentirosos. Sinceridade, meus filhos. Tanto nas palavras, como na oração.

Não façais como os hipócritas que, quando oram, gostam de ficar nas sinagogas, ou nos cantos das praças, para serem vistos pelos homens, elogiados como homens piedosos e justos, enquanto depois, no interior das famílias, são culpados diante de Deus e diante do próximo. Não refletis que isso é um juramento falso? Porque quereis vos afirmar o que não é verdade, com a intenção de conquistar uma estima, que não mereceis? A oração hipócrita tem a intenção de dizer: “Em verdade, eu sou santo. Juro diante dos olhos dos que me veem, e que não podem mentir, dizendo que não me viram orando.” Como um véu estendido sobre a maldade latente, a oração feita com tais intenções se torna uma verdadeira blasfêmia.

Deixai que Deus vos proclame santos, e fazei que toda a vossa vida proclame, em lugar de vós “Este é um servo de Deus.” Mas vós por amor a vós mesmos, calai-vos. Não façais de vossa língua, movida pela soberba, objeto de escândalo para os olhos dos anjos. Melhor seria que vos tornásseis mudos, naquele mesmo instante, se é que não tendes força para dominar o orgulho e a língua, vos auto-proclamando justos e agradáveis a Deus. Deixai para os soberbos e os falsos esta pobre glória. Deixai para os soberbos e os falsos essa efêmera recompensa. Pobre recompensa! Ela será como eles desejam não terão outra, porque não se pode ter. A verdadeira glória, a do Céu, é eterna e justa, ou é a glória não verdadeira, a da terra, que dura durante a vida de um homem, ou até menos, e , sendo injusta, é será cobrada, depois desta vida, sendo paga com uma punição humilhante.

172.5 Ouvi como deveis orar, com os lábios e com o trabalho, com todo o vosso ser, pelo impulso do coração que ama, a Deus, e o sente como pai, lembrando quem seja o Criador e quem é a criatura, colocando-se na presença de Deus com um amor reverencial, tanto quando ora, como quando fazem negócios, tanto quando anda, como quando descansa, tanto quando ganha, como quando distribui os seus bens. Eu disse por impulso do coração. É esta a qualidade primeira e essencial. Porque tudo vem do coração, como o coração assim será a mente, assim será a palavra, o olhar e a ação.

O homem justo tira o bem do seu coração de justo e, quanto mais dá, mais acha para dar, porque sem doar o bem feito cria um novo bem, assim como o sangue que se renova na circulação das veias, voltando ao coração enriquecido com novos elementos apanhados com o oxigênio que absorveu e com o suco dos alimentos que assimilou. Enquanto isso, o homem perverso, do seu coração tenebroso, cheio de fraudes e venenos, não pode tirar senão fraudes e venenos, que sempre mais vão aumentando, fortalecidos pelas culpas que vão se acumulando, assim como no homem bom vão-se acumulando as bênçãos de Deus. Podeis, pois, acreditar que a exuberância do coração é que transborda dos lábios e se manifesta nas ações.

Fazei que vosso coração seja humilde, puro, amoroso, confiante, sincero. Amai a Deus com o amor pudico que uma virgem tem para com o seu esposo. Em verdade, eu vos digo que todas as almas são como virgens desposadas pelo Eterno Amor, pelo Deus nosso Senhor. Esta terra é o tempo do noivado, tempo no qual o anjo, que guarda todo homem, é o paraninfo espiritual e todas as horas e as contingências da vida são servas, que preparam o enxoval das núpcias. A hora da morte é a hora em que se completam as núpcias, quando vem o conhecimento, o abraço, a fusão e, com a veste de verdadeira esposa, a alma pode levantar o seu véu e lançar-se nos braços do seu Deus, sem que, por amar assim ao seu esposo, induza outros a escândalo.

Mas, por enquanto, ó almas sacrificadas no laço do noivado com Deus, quando quiserdes falar com o esposo, ponde-vos na paz da vossa morada, na paz da vossa morada interior, e falai, como anjos de carne ladeados pelo Anjo da Guarda, falai ao Rei dos Anjos.

Falai ao vosso Pai no segredo do vosso coração, do vosso quarto interior. Deixai fora tudo o que é do mundo: o desejo de quererdes ser vistos e de edificar, os escrúpulos das longas orações cheias de palavras, palavras monótonas, cheias de tibieza e pálidas em amor.

172.6 Por caridade! Livrai-vos das medidas no orar. Na verdade, há alguns que perdem horas em um monólogo, que repetem, apenas com os lábios, não passando de solilóquio, pois nem o Anjo da Guarda ouve, de tão grande é o rumor vazio para o qual se procura achar remédio, aprofundando-se em uma ardente oração em favor de um ignorante protegido. Em verdade, há alguns que não fariam uso diferente daquelas horas, mesmo se Deus lhes aparecesse, dizendo: “A salvação do mundo depende de que tu abandones esta linguagem sem vida, buscando, simplesmente, água num poço para derramá-la no solo, por Meu amor e dos teus semelhantes.” Em verdade, há alguns que acham que é mais importante o seu monólogo do que o ato delicado de quem acolhe um visitante ou socorre um necessitado. São almas que caíram na idolatria da oração.

A oração é um ato de amor. Amar é coisa que se pratica, tanto quando se ora, como quando se faz o pão; tanto meditando, como prestando assistência a um enfermo; tanto fazendo uma peregrinação ao Templo, como cuidando das necessidades da família; tanto sacrificando um cordeiro, como sacrificando até os nossos justos desejos de recolhimento junto ao Senhor. Basta que nos impregnemos completamente de amor e as nossas ações com o amor. Não tenhais medo! O pai está vendo. O Pai compreende. Ele está ouvindo. Ele concede. Quantas graças são concedidas por apenas um só e perfeito suspiro de amor! Quanta abundância por um sacrifício íntimo, feito com amor. Não sejais como os pagãos. Deus não precisa que lhe digais o que Ele deve fazer, porque vós estais necessitando daquilo. Isto os pagãos podem dizer aos seus ídolos, que não os podem entender. Não vós a Deus, ao Deus, o verdadeiro Deus espiritual, que não é somente Deus e Rei, mas é vosso Pai, e sabe, o que precisais antes mesmo que lho peçais.

172.7Pedi, e vos será dado, procurai e achareis, batei, e vos será aberto. Porque quem pede, recebe; quem procura, acha e será aberta a porta a quem nela toca. Quando um vosso filho vos estende a mão, e diz “Meu pai, estou com fome”, será que lhe dareis uma pedra? Será que lhe dareis uma cobra, quando ele vos pede um peixe? Não, mas vós lhes dais pão e peixe, e além disso, o acariciais e abençoais, porque para o pai é um prazer alimentar o filho, vê-lo feliz sorrindo. Se, pois, vós, que tendes o coração imperfeito, sabeis dar presentes bons aos vossos filhos, por um amor natural, que até os animais têm para com as suas crias, quanto mais o vosso Pai que está nos Céus concederá àqueles que lhas pedirem as coisas boas e necessárias para a sua vida. Não tenhais medo de pedir, e não tenhais medo de ficar sem receber!

Mas, Eu quero vos alertar para um erro muito comum, não façais como os fracos na fé e no amor, os pagãos da verdadeira religião, porque mesmo entre os que têm fé há pagãos, cuja pobre religião é um emaranhado de superstições e de fé, um edifício arruinado pela metade, no qual se infiltraram as ervas parasitas de toda espécie, a ponto de encher-se de gretas, destruindo-se. Enfraquecidos e pagãos, percebem que sua fé está morrendo, se não forem atendidos.

Vós pedis. Achais que é justo pedir. De fato, para aquele momento não deixaria de ser justa aquela graça. Mas a vida não termina naquele momento. O que é bom hoje pode não ser amanhã. Disso vós não sabeis, porque vós só conheceis o presente. Isso é também uma graça de Deus. Mas Deus, conhece também o futuro. Muitas vezes, para poupar-vos um sofrimento maior, deixa de atender uma oração. No meu ano de vida pública, mais de uma vez ouvi os corações gemerem: “Quanto eu sofri, quando Deus não me ouviu. Mas agora eu digo: ‘Foi bom assim, porque aquela graça me teria impedido de chegar a esta hora de Deus.” Eu ouvi outros dizer, ou mesmo reclamarem para Mim: “Por que, Senhor, não me ouves? A todos ouves, e a mim, não?” Mesmo sentindo a dor de ver que sofriam, precisei dizer: “Eu não posso” pois se os atendesse, seria obstacularo vôo deles para a vida perfeita.

Também o Pai, às vezes, diz “Não posso.” Não porque não possa fazê-lo imediatamente. Mas porque não o quer fazer, em vista das consequências futuras. Ouvi: Um menino está doente das vísceras. A mãe chama o médico, e o médico lhe diz: “Para que ele fique bom, é preciso que faça um jejum absoluto.” O menino chora, grita, suplica, parece extremamente debilitado. A mãe, sempre compadecida, une os seus lamentos ao do filho. Acha que o médico é muito rigoroso, com aquela proibição total de alimento: Mas o médico continua intransigente. Afinal, ele diz: “Mulher, eu sei o porquê e tu não sabes. Queres que o teu filho morra, ou que eu o salve?” A mãe diz em alta voz: “Eu quero que ele viva!” Então, diz-lhe o médico: “Eu não posso permitir que ele se alimente. Pois ele morreria.” Também o Pai, às vezes, diz assim. Vós, ó mães compadecidas do vosso eu, não quereis vê-lo sofrer por lhe ter sido negada uma graça. Mas Deus diz: “Eu não posso. Seria isso o teu mal.” Mas chegará o dia ou virá a eternidade, na qual se dirá: “Obrigado, meu Deus, por não terdes dado ouvidos à minha tolice.”

172.8 Tudo o que Eu disse sobre a oração, digo-o também sobre o jejum. Quando jejuardes, não fiqueis com aquele ar triste, como costumam fazer os hipócritas, que sabem desfigurar o próprio rosto, a fim de que o mundo fique sabendo que eles estão jejuando, ainda que não seja verdade. Também esses já receberam a sua recompensa, com o louvor do mundo, e não terão outra. Mas vós, quando jejuardes, tomai um ar alegre, lavai bem o vosso rosto, para que ele apareça vistoso e liso, ungi vossa barba e perfumai vossos cabelos, conservando nos lábios o sorriso dos bem nutridos. Oh! Pois na verdade, não há alimento que nutra tanto quanto o amor! Quem jejua com espírito de amor, se nutre de amor! Em verdade vos digo que, ainda que o mundo vos chame de “vaidosos” ou “publicanos”, o vosso Pai está vendo o vosso heróico segredo, e vos dará uma dupla recompensa: uma, pelo jejum, e a outra, pelo sacrifício de não procurar ser louvados por causa dele.

172.9 Agora, ide dar comida ao vosso corpo, depois de terdes nutrido a vossa alma. Aqueles dois pobrezinhos fiquem conosco. Eles serão os hóspedes benditos, que darão sabor ao nosso pão. A paz esteja convosco.

Os dois pobrezinhos ficam. São uma mulher muito magra e um velho já bem velho. Mas eles não estão juntos. Estavam ali por acaso, reunidos com os outros, e tinham ficado em um canto, deprimidos, estendendo inutilmente suas mãos aos que passavam diante deles. Jesus vai diretamente a eles, que não têm coragem de aproximarem-se, e os toma pelas mãos, levando-os para o centro do grupo dos discípulos, Estão debaixo de uma tenda que Pedro ergueu num canto, e sob a qual eles talvez poderão abrigar-se de noite e fazer suas reuniões nas horas mais quentes do dia. É um galpão coberto de folhagem e de… capas. Mas está servindo para o que queriam, mesmo sendo tão baixo que Jesus e Iscariotes, os dois mais altos, têm que encurvarem-se para entrarem nele.

– Aqui está o pai, e aqui está uma irmã. Trazei tudo o que temos. Enquanto vamos tomar a nossa refeição, ouviremos a história deles.

Pessoalmente, Jesus vai servindo os dois, que envergonhados, discorrem as lamentações de suas narrações. O velho tinha ficado sozinho, depois que a filha foi-se embora para longe com seu marido, esquecendo-se do pai. A velha também ficou sozinha, depois que a febre matou seu marido, deixando-a doente.

– O mundo nos despreza, porque somos pobres –diz o velho–. Eu vivo pedindo esmolas para ajuntar dinheiro para a Páscoa. Estou com oitenta anos. Sempre eu fiz a Páscoa, e esta pode ser a última vez. Mas não quero ir para o seio de Abraão com nenhum remorso. Eu perdôo à minha filha, assim como espero ser perdoado. Quero fazer a minha Páscoa.

– Longo é o caminho, pai.

– Mais longo é o do Céu, se se faltar ao rito.

– Andas sozinho? E se te sentires mal pelo caminho?

– O Anjo de Deus me fechará os olhos.

Jesus o acaricia na cabeça trêmula e branca, e pergunta à mulher:

– E tu?

– Eu procuro trabalho. Se eu fosse bem alimentada, ficaria curada dessas febres. Curada, poderia trabalhar até nos trigais.

– Crês que só o alimento te curaria?

– Não. Temos também a Ti… Mas eu sou uma pobre coisa, uma coisa pobre demais para poder pedir piedade.

– Se Eu te curasse, que quererias depois?

– Nada mais. Já teria tido muito mais do que eu possa esperar.

Jesus sorri, e lhe dá um pedaço de pão molhado em um pouco de água e vinagre, que serve de bebida. A mulher o come sem falar, e Jesus continua a sorrir.

172.10 A refeição termina logo. Era tão frugal! Apóstolos e discípulos estão à procura de sombra nas encostas, nas moitas. Jesus fica no galpão O velho encostou na parede forrada de erva e, cansado, pega no sono.

Pouco depois, a mulher, que também se havia afastado para procurar uma sombra e descansar, vem para Jesus, que lhe sorri, encorajando-a. Ela se aproxima com timidez embora alegre, até chegar perto da tenda. Depois sente-se vencida pela alegria e dá os últimos passos com rapidez, deixando-se cair de bruços, com um grito meio sufocado:

– Tu me curaste! Bendito! É a hora do grande calafrio e eu não o tenho mais. Oh! –e beija os pés de Jesus.

– Tens certeza de que estás curada? Eu não te falei isto. Pode ter sido um acaso…

– Oh! Não! Agora compreendo o teu sorriso, quando me deste aquele pão. O teu poder penetrou em mim com ele. Eu nada tenho para dar-te em troca, a não ser o meu coração. Manda à tua serva, Senhor, e ela te obedecerá até à morte.

– Sim. Estás vendo aquele velho? Está sozinho e é um justo. Tu tinhas um marido, e a morte o levou. Ele tinha uma filha, e o egoísmo a tirou dele. Ele está pior do que tu. Mas não diz imprecações. Não é justo que fique vivendo sozinho em suas últimas horas. Sê tu para ele uma filha.

– Sim, meu Senhor.

– Mas, olha bem, que isto significa trabalhar por dois.

– Agora eu estou forte, e o farei.

172.11 – Vai, então, até lá, à beira daquele barranco, e dize ao homem, que está descansando, aquele que está vestido de cinzento, que venha até Mim.

A mulher vai sem demora, e volta com Simão, o Zelotes.

– Vem cá, Simão. Preciso falar-te. Tu, fica esperando aí, mulher.

Jesus se afasta a alguns metros dali.

– Achas que Lázaro teria dificuldades em receber mais uma empregada?

– Lázaro? Mas eu acho que ele nem sabe quantos são os seus empregados! Um a mais, um a menos!… Quem é?

– Aquela mulher. Eu a curei e…

– Basta, Mestre. Se Tu a curaste, é sinal de que a amas. E o que amas para ele é sagrado. Podes deixar comigo, que eu respondo em lugar dele.

– É verdade. O que Eu amo é sagrado para Lázaro. Tu disseste bem. Por isso Lázaro se tornará santo, porque, amando o que Eu amo, amará a perfeição. Eu quero pôr aquele velho na companhia daquela mulher, e fazer que aquele patriarca faça com alegria a sua última Páscoa. Eu quero muito bem aos velhos santos e, se lhes posso dar um passamento sereno, fico feliz.

– Tu queres bem também as crianças…

– Sim, e os doentes…

– E os que estão chorando…

– E os que estão sozinhos…

– Oh! Mestre meu! Mas, não percebes que queres bem a todos? Até os teus inimigos?

– Eu não percebo isso, Simão. Amar é a minha natureza. Olha, o Patriarca está acordando. Vamos dizer-lhe que ele fará a sua Páscoa com uma filha perto dele, sem sentir mais falta de pão.

Eles voltam à tenda, onde a mulher os espera, e vão juntos os três até o velho, que está sentado, amarrando as sandálias.

– Que estás fazendo, pai?

– Vou descer para o vale. Espero encontrar abrigo para a noite. Amanhã vou pedir esmola pela estrada, e depois sempre descendo, dentro de um mês, se eu não morrer, estarei no Templo.

– Não.

– Não devo ir? Por quê?

– Porque o bom Deus não quer. Não irás sozinho. Esta mulher irá contigo. Ela te levará para onde Eu disser, e sereis acolhidos, por amor de Mim. Farás a tua Páscoa, sem te cansares. A tua cruz, já a levaste, pai. Deixa-a agora. Recolhe-te em ação de graças ao bom Deus.

– Mas, por quê?…por quê?… eu… eu não mereço tudo isso… Tu… uma filha… É mais do que se me desses vinte anos… Para onde é que me envias?…

O velho está chorando por detrás da moita de sua grande barba.

– Irás para a casa de Lázaro de Teófilo. Não sei se o conheces.

– Oh! Eu sou dos confins da Síria, e me lembro de Teófilo. Mas… Oh! Filho bendito de Deus, deixa que eu te abençoe!

Jesus, sentado como está na relva, bem na frente do velho, de fato se curva para deixar que o velho, todo solene, lhe imponha as mãos sobre a cabeça, trovejando, com sua voz cavernosa de ancião, as palavras da antiga bênção3:

– O Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor te mostre a sua face e tenha misericórdia de ti. O Senhor volte o seu rosto para ti e te dê a sua paz.

Jesus, Simão e a mulher respondem juntos:

– Assim seja.



1 está escrito em Deuteronômio 23,24.
2 ordem que está em Levítico 19,12.
3 benção que está em Números 6,24-26.