417. 417. História do leproso Zacarias,a conversão do publicano Zaqueu.
17 de julho de 1944.
417.1 Vejo uma grande praça, que parece uma feira, à sombra de palmeiras e de outras árvores mais baixas e frondosas. As palmeiras crescem aqui e ali, e com o vulto ondulante de suas folhas, faz ouvir o seu frufru, enquanto por elas um vento passa soprando lá em cima, levantando um poeirão avermelhado, como se estivesse vindo de um deserto, ou, pelo menos, de lugares não cultivados, de terra vermelha. As outras árvores, por sua vez, formam uma longa série de pórticos aos lados da praça, uns pórticos sombreadas, onde, por baixo deles, foram abrigar-se vendedores e compradores, em uma algazarra inquieta e barulhenta.
Em um canto da praça, justamente no ponto em que a rua principal desemboca, funciona um posto fiscal rudimentar. Nele há balanças e medidas, e um banco no qual está sentado um homenzinho que vigia, que observa e faz os recebimentos, e com o qual todos conversam, como se ele fosse um homem muito conhecido de todos… Eu sei que é Zaqueu, o fiscal, porque muitos o estão chamando por esse nome, uns para fazer-lhe perguntas a respeito dos acontecimentos da cidade, e esses são os forasteiros, enquanto outros o fazem para pagar as suas taxas. Muitos estão admirados com a preocupação em que ele está. De fato, o homem parece estar distraído, e absorto em seus pensamentos. Está respondendo por monossílabos, e, as vezes, por acenos. Isso causa admiração a muitos, pois todos sabem que Zaqueu foi sempre um falador. Alguns lhe perguntam se ele está sentindo-se mal, ou se está com algum parente enfermo. Mas ele diz que não.
Só em dois casos é que ele se mostrou vivamente interessado, foi quando fez perguntas a dois de Jerusalém, que estavam falando do Nazareno, e contando os milagres e a pregação dele. Aí, então, é que Zaqueu fez muitas perguntas:
– Ele é bom mesmo, como dizem? E suas palavras correspondem aos fatos? A misericórdia que Ele prega, Ele a põe em prática realmente? E para com todos? Até para com os publicanos? É verdade que Ele não rejeita a ninguém?
E ele fica escutando, pensando, e suspira. Uma segunda vez, foi quando alguém lhe mostrou um homem barbudo, que ia passando com seu burrinho carregado de trastes.
– Estás vendo, Zaqueu? Aquele é Zacarias, o leproso. Fazia dez anos que ele vivia num sepulcro. Agora ele está curado e vive comprando de novo a mobília para sua casa, que foi esvaziada pela Lei, quando ele e os seus foram declarados leprosos.
– Chamai-o.
417.2 Zacarias, vem.
– Tu eras leproso?
– Eu era, e comigo minha mulher e os meus dois filhos. A doença tomou conta da mulher em primeiro lugar, e nós não percebemos isso logo. Os meninos pegaram a lepra dormindo junto com a mãe, e eu, ao aproximar-me de minha mulher. Todos estávamos leprosos! Quando perceberam isso, mandaram-nos para fora do povoado… Teriam podido deixar-nos na casa. Ela era a última… na ponta da rua. Nós não teríamos aborrecido a ninguém… Eu já tinha feito crescer a sebe alta, bem alta, para que não pudéssemos ser vistos. Aquilo já era um sepulcro… mas era a nossa casa… Eles nos mandaram embora. Fora! Fora! Nenhum povoado nos queria. É justo. Pois nem o nosso nos tinha querido. Nós nos alojamos perto de Jerusalém, em um sepulcro vazio. Lá estão muitos infelizes. Mas os meninos, com o frio da caverna, morreram. A doença, o frio e a fome bem depressa os mataram… Eram dois filhos homens… eram muito bonitos, antes de contraírem a doença. Morenos, como duas amoras de agosto, de cabelos cacheados, cheios de vivacidade. Eles se viam transformados em dois esqueletos cobertos de chagas… Não tinham mais cabelos, seus olhos estavam fechados pelas crostas, seus pezinhos e suas mãos iam caindo como umas escamas brancas. Foram-se esfarelando à frente de meus olhos os meus filhinhos!… Já não tinham mais nem aparência humana, naquela manhã em que eles morreram, com poucas horas entre a morte de um e do outro. Eu os sepultei, ouvindo os gritos da mãe, por baixo de uma camada rasa de muitas pedras, como se fossem as carniças de dois animais… Depois de alguns meses, morreu também a mãe, e eu fiquei sozinho… Eu só estava esperando morrer, e não teria tido nem uma cova cavada pelas mãos dos outros…
417.3 Eu estava já quase cego, quando, certo dia, passou por lá o Nazareno. Do meu sepulcro, eu gritei: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!” Um mendigo me havia contado, um que não tinha tido medo de chegar a mim para levar-me o seu pão, que ele tinha sido curado de sua cegueira, ao invocar o Nazareno com aquelas palavras. E ele dizia: “Ele, não somente me deu a vista dos olhos, mas também a da alma. Eu vi que Ele é o Filho de Deus, e vejo todas as pessoas como Ele manda. É por isso que eu não te evito, meu irmão, mas te trago pão e fé. Vai ao Cristo. Para que haja mais um que o bendiga.” Andar, eu não podia. Meus pés, chagados até os ossos, não me deixavam caminhar… e além disso… eu teria sido feito alvo de pedradas, se fosse visto por alguém. Fiquei atento à passagem dele. Por ali Ele passava muitas vezes, para ir a Jerusalém. Um dia eu vi, como me era possível ver, uma poeirada no caminho e uma multidão, e ouvi uns gritos. Eu fui me arrastando por cima da colina, onde estavam as grutas sepulcrais, e, quando me pareceu que eu estava vendo uma cabeça loura, que se mostrava descoberta no meio das outras cobertas por mantas, aí eu gritei. Gritei com força. Com toda a voz que eu ainda tinha. Gritei três vezes. Até que o meu grito chegou a Ele.
Ele virou-se. E parou. Depois andou para a frente, sozinho. Foi parar justamente no ponto onde eu estava, e olhou para mim. Era bonito, bom, com aqueles dois olhos, aquela voz e aquele sorriso!… Ele disse: “Que queres que Eu te faça?”
“Quero ficar limpo.”
“Crês tu que Eu possa limpar-te? Por quê?”, ele perguntou-me.
“Porque Tu és o Filho de Deus.”
“Crês nisto?”
“Eu creio,” respondi. “Eu vejo o Altíssimo brilhando com sua glória sobre tua cabeça. Filho de Deus, tem piedade de mim!”
E Ele, então, estendeu uma mão, com um rosto que tinha o clarão de um fogo. Seus olhos pareciam dois sóis azuis, e Ele disse: “Eu o quero. Fica limpo,” e me abençoou com o seu sorriso!… Ah! Que sorriso! Eu percebi que uma força penetrava em mim. Parecia uma espada de fogo, que me penetrava, procurando o coração, e que corria pelas veias. Meu coração, que estava tão doente, tornou-se como ele era aos meus vinte anos, o sangue estava gelado nas veias ficou quente, e se pôs a circular velozmente. Não senti mais dor, nem fraqueza, mas uma alegria, que alegria! Ele continuou a olhar para mim e, com o seu sorriso, me tornava feliz. Depois Ele disse: “Vai mostrar-te aos sacerdotes. A tua fé te salvou.”
Foi então que eu percebi que estava curado, e olhei para minhas mãos e minhas pernas. Não havia mais chagas. Onde antes os ossos estavam descobertos, agora já havia carne rosada e tenra. Fui correndo para um rio, a fim de olhar o meu rosto. Também o rosto estava limpo! Eu estava limpo, depois de ter sido, durante dez anos, um ser asqueroso!… Ah! Por que é que não passou antes? Nos anos em que estavam vivos, minha mulher e os meus filhinhos. Ele nos teria curado a todos. Agora, estás vendo? Estou fazendo compras para a minha casa… Mas estou sozinho!…
– Tu, nunca mais o viste?
– Não… Mas eu sei que Ele está por estes lados, e vim para cá de propósito. Eu gostaria de bendizê-lo de novo, e de ser abençoado para ter força em minha solidão.
Zaqueu inclina a cabeça, e fica calado. O grupo se dissolve.
417.4 O tempo passa. A hora é de forte calor. A feira está terminando. O fiscal, com a cabeça apoiada em uma das mãos, está pensando, sentado em seu banco.
– Lá vem, lá vem o Nazareno! –gritam uns meninos, mostrando a estrada mestra.
Mulheres, homens, doentes e mendigos se apressam para correrem ao encontro dele. Logo a praça fica vazia. Somente uns burrinhos e uns camelos, amarrados a umas palmeiras, ficam em seus lugares, e Zaqueu em seu banco.
Mas depois se levanta em pé e sobe sobre o banco. Não vê ainda nada, porque muitos andaram arrancando ramos, e os agitam para manifestar sua alegria, e Jesus aparece, inclinado sobre uns doentes. Então Zaqueu tira o seu hábito e, ficando somente com sua túnica curta, sobe a uma das árvores. Ele vai subindo com dificuldade, pois o tronco é grosso e liso, suas pernas são curtas, e seus braços, também curtos, não dão para ele agarrar-se bem: mas ele prossegue, e consegue pôr-se a cavalo sobre dois galhos que formam uma espécie de passadiço. Suas pernas ficam penduradas por baixo daquele palanque, e ele, da cintura para cima se pendura, como alguém que se coloca ao lado de uma janela, e fica olhando.
A multidão está chegando à praça. Jesus ergue o olhar e sorri para aquele solitário expectador empoleirado no meio dos ramos:
– Zaqueu, desce daí depressa, que Eu hoje quero ficar na tua casa –ordena Jesus.
E Zaqueu, depois de um momento de susto, com o rosto avermelhado pela emoção, deixa-se escorregar, como um saco, até o chão. Ele está agitado, e faz esforço para pôr de novo as suas vestes. Fecha seus registros e seu cofre, com uns movimentos que, quanto mais ele quer fazer com rapidez, mais vagarosos saem. Mas Jesus é paciente. E fica acariciando as crianças, enquanto espera.
417.5 Afinal, Zaqueu já está pronto e se aproxima do Mestre, e o leva até uma bonita casa, que tem um amplo jardim ao seu redor, e que fica no centro do povoado. É um belo lugar. É até uma cidade pouco inferior a Jerusalém, se não por seus edifícios, por sua extensão.
Jesus entra, e, enquanto espera que a refeição seja preparada, ocupa-se com os doentes e com os sãos. Com uma paciência… como só Ele tem.
Zaqueu vai e vem, e está muito ocupado. Não cabe em si de alegria. Gostaria de conversar com Jesus. Mas Jesus está sempre rodeado por muitas pessoas do povo.
Finalmente, Jesus se despede de todos, dizendo:
– Ao pôr-do-sol, voltai. Agora, ide para vossas casas. A paz esteja convosco.
O jardim fica despovoado, e a refeição é servida em uma sala bonita e fresca, do lado do jardim. Zaqueu fez tudo com fartura. Não estou vendo outros familiares, e por isso pensei que Zaqueu fosse solteiro e vivesse sozinho com muitos servos.
417.6 No fim de refeição, quando os discípulos se espalharam à sombra das moitas para descansarem, Zaqueu fica com Jesus na sala fresca. Na verdade ele fica com Jesus só um pouco, porque Zaqueu se retira dali, como para deixar que Jesus tome algum descanso, mas depois ele volta, e olha por uma fresta do toldo. E vê que Jesus não está dormindo, mas pensando. Então, ele se aproxima. Está com um cofre pesado nos braços, e diz:
– Mestre… já me falaram de Ti. Há tempo. Um dia Tu disseste sobre um monte tantas verdades que os nossos doutores não sabem mais dizer. Elas ficaram em meu coração… e desde então, eu fico pensando em Ti. Depois me foi dito que Tu és bom, e que não rejeitas os pecadores. Eu sou um pecador, Mestre. Mas me foi dito que Tu curas os doentes. E eu sou doente no coração, porque tento fraudar, tenho praticado a usura, tenho sido viciado, ladrão, duro para com os pobres. Mas agora eu estou curado, porque Tu me falaste. Tu te aproximaste de mim, e o demônio da sensualidade e da riqueza fugiu. E eu, desde hoje, sou teu, se Tu não me rejeitas, e, para mostrar-te que eu nasço de novo em Ti, eis que eu me despojo das riquezas mal adquiridas, e te dou a metade dos meus bens para os pobres, e a outra metade, eu usarei dela para restituir quatro vezes mais tudo o que eu obtive por fraude. Eu sei que defraudei… E, depois de ter entregue a cada um o que é seu, eu te seguirei, Mestre, se Tu me permites…
– Eu assim quero. Vem… Eu vim para salvar e chamar para a Luz. Hoje a Luz e a Salvação vieram à casa do teu coração. Aqueles que lá estão, do outro lado da cancela, estão murmurando porque Eu te redimi, vindo sentar-me à mesa do teu banquete, mas eles se esquecem de que és filho de Abraão como eles e de que Eu vim para salvar a quem estava perdido e para dar vida aos mortos no espírito. Vem, Zaqueu, tu compreendeste a minha palavra, melhor do que muitos que me acompanham, somente para poderem me acusar. Por isso, de agora em diante, estarás comigo.
A visão termina aqui.
18 de julho de 1944.
417.7 Diz Jesus:
– Há fermento e fermento. Há o fermento do Bem e o fermento do Mal, veneno que fermenta com mais facilidade do que o fermento do Bem, porque encontra a matéria mais adequada para a sua fermentação no coração do homem, seduzidos todos os três por uma vontade egoísta, e, por isso, contrária à Vontade universal, que é a de Deus. A vontade de Deus é universal, porque não se limita nunca a um pensamento pessoal, mas tem presente o bem de todo o universo. Em Deus nada pode aumentar a perfeição por causa disso, porque Ele sempre possuiu todas as coisas de uma maneira perfeita. Por isso não pode haver nele nenhum pensamento de sua própria vantagem, por motivo de nenhuma ação sua.
Quando se diz: “Isto se faz para a maior glória de Deus, dentro dos interesses de Deus,” não é já por que a glória de Deus possa em si mesma receber aumento, mas desejando que todas as coisas da Natureza Criada ofereçam um gesto de bem, e cada pessoa faça o bem, e por isso mereça possuí-lo, e se orna com um sinal da Glória divina dando assim glória à própria glória, que gloriosamente criou todas as coisas. E, em suma, um testemunho que pessoas e coisas dão a Deus, testemunhando, com suas obras, sobre a Orígem perfeita da qual elas vêm.
Por isso, Deus, quando vos manda ou vos aconselha, ou vos inspira uma ação, não faz por um interesse egoísta, mas por pensar nos outros, com um pensamento de caridade, pensando sobre o vosso bem-estar. Eis aí, pois, porque é que a vontade de Deus nunca é egoísta, mas, pelo contrário, é uma vontade inclinada para o bem dos outros, para o bem universal. A única e verdadeira força do mundo todo, que pode ter consigo o pensamento do bem universal.
O fermento do Bem, esse germe espiritual que vem de Deus, cresce, aliás, com muitas circunstâncias adversas e dificuldades, com muito esforço, tendo contra si as reações naturais dos outros, da carne, do coração e do pensamento do homem, penetrados por um egoísmo que é justamente o contrário, o oposto ao Bem que, por sua origem, não pode ser outra coisa senão o Amor. Falta, na maior parte dos homens, a Vontade do Bem, e, por isso, o Bem se esteriliza, e morre, ou vive com tão grande dificuldade, que não fermenta, e fica naquilo. Não há aí culpa grave. Mas também não há nenhum esforço para fazer o maior bem possível. E assim é que o espírito permanece inerte. Não morto, mas infrutífero.
Tomai cuidado, porque deixar de fazer o mal não basta somente evitar o inferno. Para se gozar logo do belo Paraíso é preciso fazer o bem. Sem ficar duvidando. Tanto, quanto cada um puder fazer. Lutando contra nós mesmos e contra os outros. Porque eu disse1 que vim para trazer a guerra, e não a paz entre os pais e os filhos, entre os irmãos e as irmãs, quando essa guerra se originasse do fato de defender a Vontade de Deus e a sua Lei contra os abusos das vontades humanas inclinadas para rumos contrários àquele que Deus quer.
417.8 Em Zaqueu, o pequeno punhado de fermento do bem chegou a fermentar e a tornar-se uma grande massa. Em seu coração não havia caído mais do que uma migalhazinha para começo: haviam-lhe contado o meu Sermão da Montanha. Contado talvez mal, certamente todo mutilado em muitos pontos, como acontece com os discursos feitos, e dos quais depois se fala.
Zaqueu, um publicano e um pecador. Ele era como alguém que, tendo uma névoa de catarata diante de suas pupilas, visse mal as coisas. Mas ele sabe que os olhos, quando ficam livres daquela névoa, voltam a poder enxergar bem. E um que está doente com ela deseja que lhe seja tirada a névoa. Assim também Zaqueu. Ele não estava persuadido, nem se sentia feliz. Não persuadido, quanto às práticas farisaicas, que já haviam tomado o lugar da verdadeira Lei. E não feliz por seu modo de viver.
Ele procurava, como por instinto, a Luz. A verdadeira Luz. E a vislumbrou naquele fragmento do discurso e a guardou em seu coração, como um tesouro. E, visto que amava, anota, Maria, o seguinte: visto que amava, o brilho da luz foi-se tornando sempre mais vivo, mais abrangente e impetuoso e o levou a ver distintamente o Bem e o Mal, e a escolher de modo justo, livrando-se de todos os tentáculos de antes: das coisas contra o coração e do coração contra as coisas, pois eles o tinham enredado na rede de uma maligna escravidão.
“Visto que o amava.” Eis o segredo do bom êxito para mais ou para menos. Tem-se bom êxito, quando se ama. Não se tem bom êxito, quando se ama com dificuldade. E não se tem nenhum bom êxito, quando não se ama. Assim é em todas as coisas. Com maior razão nas coisas de Deus, porque, sendo Deus invisível para os sentidos corporais, é necessário que se tenha um amor, eu ouso dizer, um amor perfeito, tanto quanto uma criatura possa atingir de perfeição, para sair-se bem em uma empresa. Na santidade, neste caso.
Zaqueu, desgostoso com o mundo e com a carne, assim como também desgostoso com as práticas dos fariseus, tão cheias de cavilações, intransigentes com os outros e condescendentes demais consigo próprios, sentiu amor por aquele pequeno tesouro de uma palavra minha, que chegou até ele por puro acaso, humanamente falando, e a amou como a coisa mais bela que em sua vida de quarenta anos já tivesse possuído, e, desde aquele momento, polarizou seu coração e seu pensamento neste ponto.
Não somente no mal, onde está o seu tesouro, aí está o coração do homem. Mas também no bem. Os santos não terão tido talvez em suas vidas o seu coração lá onde estava o seu tesouro: em Deus? Sim. E por isso, olhando somente para Deus, souberam passar sobre a terra, sem corromper suas almas na lama da terra.
417.9 Naquela manhã, se Eu não tivesse aparecido, teria, do mesmo modo, feito um prosélito. Porque o discurso do leproso tinha completado a metamorfose de Zaqueu. No banco da fiscalização já não estava mais o publicano fraudador e viciado. Mas o homem arrependido do seu passado e decidido a mudar de vida. Se Eu não tivesse aparecido em Jericó, ele teria fechado o seu posto, apanhado o seu dinheiro, e teria vindo procurar-me, porque não podia mais ficar sem o pão do amor, sem o beijo do Perdão.
Isto, os censores costumeiros, que me estavam observando, não o viam, nem tampouco o compreendiam. E por isso se admiravam de que Eu comesse com um pecador. Oxalá não julgásseis nunca, deixando para Deus a tarefa. Sois pobres cegos, incapazes de julgar até a vós mesmos! Eu nunca andei com os pecadores para aprovar os seus pecados.. Eu fazia o possível para afastá-los do pecado. Muitas vezes eles não tinham mais do que só a aparência de pecado, a sua alma arrependida já se havia cuidado em uma nova alma vivente para fazer expiação. E, então, estava Eu com um pecador? Não. Mas com um redimido, que tinha somente a necessidade de um guia para controlar-se naquela fraqueza de quem ressurgiu da morte.
417.10 Quantas coisas vos pode ensinar o episódio de Zaqueu! O poder da reta intenção, que suscita o desejo. O desejo reto que leva a procurar um conhecimento sempre maior do bem, e a procurar a Deus continuamente, até tê-lo encontrado, um reto arrependimento, que dá a coragem para a renúncia. Zaqueu tinha a reta intenção de ouvir palavras da verdadeira doutrina. Tendo ouvido alguma delas, o seu reto desejo o leva a um maior desejo e, por isso, a uma contínua busca de Deus, oculto na verdadeira doutrina, o separa dos mesquinhos deuses do dinheiro e da sensualidade, e o faz um herói na renúncia.
“Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, e vem acompanhar-me,” disse Eu2 ao jovem rico, e ele não o soube fazer. Mas Zaqueu, ainda que mais endurecido na avareza e na sensualidade, soube fazê-lo. Porque, pelas poucas palavras que lhe foram dirigidas, ele tinha visto a Deus, como aquele mendigo cego e o leproso curado por Mim.
Pode, por acaso, um espírito que viu a Deus encontrar mais alguma atração nas pequenas coisas desta Terra? Será que o pode, minha pequena esposa?
1 eu disse, em 265.12 e 276.12.
2 disse Eu, como veremos em 576.6.
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