252. 252. O retorno de Tiro. Milagrese parábola da videira e do olmo.
13 de agosto de 1945.
252.1O povo de Sicaminon, atraído pela curiosidade de ver, andou rodeando, durante o dia inteiro, o lugar onde estão os discípulos e esperando a volta do Mestre. Mas as discípulas não perderam tempo e foram lavar suas vestes poeirentas e suadas, e sobre a praiazinha está agora estendida uma alegre exposição de vestes, enxugando ao vento e ao sol. Agora, que está para chegar a tarde e, com a tarde, se faz sentir o gosto salobro do ar úmido, elas se apressam em recolher as roupas, ainda um pouco úmidas e em estendê-las em todos os sentidos, antes de dobrá-las, a fim de que pareçam bem arrumadas aos seus respectivos donos.
– Vamos levar logo à Maria as vestes dela –diz Maria de Alfeu.
E termina:
– Ela ficou muito mal acomodada ontem e logo naquele quartinho sem ar!
Por aí eu fico entendendo que a ausência de Jesus foi de mais de um dia e que, durante aquele tempo, Maria de Magdala, dona de um só vestido, teve que ficar escondida, enquanto o dela, que é emprestado, não estivesse completamente enxuto.
Susana responde:
– Por sorte, ela não se queixa nunca. Eu não julgava que ela fosse tão boa.
– É muito humilde, deves dizer. E reservada. Pobre filha! Era, de fato, o diabo que a atormentava. Libertada dele pelo meu Jesus, ela voltou a ser certamente como era quando menina.
E, falando as duas, uma com a outra, vão voltando para casa, levando a roupa lavada.
Nesse ínterim, na cozinha Marta está muito atarefada, preparando a refeição, enquanto a Virgem está lavando as verduras em uma pequena bacia de cobre e depois as põe a cozinhar para a ceia.
– Aí está! Tudo já enxuto, limpo e dobrado. Havia necessidade de tudo isso. Vai à Maria, e dá-lhe as vestes dela –diz Susana, entregando as vestes à Marta.
As irmãs voltam juntas pouco depois.
– Obrigada às duas! O sacrifício de não ter podido mudar a roupa depois de muitos dias era para mim o maior de todos, diz Maria de Magdala, sorrindo. Agora me parece estar toda fresca.
– Vai sentar-te lá fora, que lá está soprando um ventinho gostoso. Deves estar sentindo necessidade dele, depois de teres ficado tanto tempo fechada, observa Marta que, sendo menos alta do que sua irmã e menos formosa, pôde pôr uma veste de Susana ou de Maria de Alfeu, enquanto as dela estavam na lavação.
– Desta vez foi assim. Mas para o futuro faremos o nosso pequeno saco, como as outras e não teremos mais este incômodo –diz Madalena.
– Como? Então, pretendes acompanhá-lo como nós?
– Certamente. A não ser que Ele me ordene o contrário. Eu vou agora até à margem, para ver se eles já vêm voltando. 252.2Será que voltarão esta tarde?
– Assim espero, responde Maria Santíssima. Estou pensativa, porque Ele foi à Fenícia. Mas penso também que Ele está com os apóstolos, e penso ainda que os fenícios talvez sejam melhores do que muitos outros. Mas eu quereria que Ele voltasse, também por causa das pessoas que o estão esperando. Quando eu fui à fonte, uma mãe me fez parar para dizer: “Estás com o Mestre galileu, aquele que chamam o Messias? Vem, então, e olha o meu menino. Há um ano que a febre o atormenta.” Eu entrei em uma casinha. Pobre criatura! Parece uma florzinha que está morrendo. Eu direi isso a Jesus.
– Há outros mais que pedem cura. Mais querem cura do que ensinamentos –diz Marta.
– O homem dificilmente é todo espiritual. Ouve mais fortes as vozes da carne e as suas necessidades –responde a Virgem.
– Porém, há muitos que, depois do milagre, nascem para a vida do espírito.
– Sim, Marta. É também por isso que meu Filho faz tantos milagres. Por bondade para com o homem. Mas também para atraí-lo por aquele meio para o seu Caminho, que, se não fosse assim, deixaria de ser seguido por muitos.
252.3Retorna a casa João de Endor, que não tinha ido com Jesus, e com ele muitos discípulos, que se dirigem para as casinhas, onde estão passando estes dias. Quase ao mesmo tempo, vem vindo Madalena, e dizendo:
– Estão chegando. São as cinco barcas que partiram, ontem de madrugada, conheci muito bem.
– Eles deverão estar cansados e com sede. Vou apanhar outra água. A da fonte é muito fresca –diz Maria de Alfeu, e sai com as moringas.
– Vamos ao encontro de Jesus. Vinde –diz a Virgem.
E sai, com Madalena e João de Endor, porque Marta e Susana ficam, ao lado dos fornos, coradas, e muito atarefadas em acabar de fazer a ceia.
Indo pela margem, chegam a um pequeno molhe, aonde outras barcas de pesca tornaram a entrar e lá estão paradas. Da extremidade do molhe, vê-se muito bem todo o golfo e a cidade que lhe dá o nome e veem-se também as cinco barcas, que vêm chegando, ligeiras, um pouco inclinadas por causa da velocidade, com as velas bem esticadas por um ventinho do norte, que lhes está favorável e que serve de ajuda aos homens afadigados pelo calor.
– Olha só como Simão e os outros desempenham bem suas tarefas. Acompanham corretamente a barca do piloto. Eis que já passaram o quebra-mar, e agora pegam o largo, para contornar a corrente, que naquele ponto é forte. Pronto! Agora vai tudo bem. Daqui a pouco, eles estão aqui –diz João de Endor.
De fato, as barcas se avizinham cada vez mais, e já vão ficando visíveis os seus passageiros.
252.4Jesus está na primeira, junto com Isaque. Ele se pôs em pé, e sua elevada estatura aparece em toda a sua imponência, pois que, ao amainarem a vela, esta deixa de escondê-lo por alguns minutos. E a barca, mudando de direção, vai indo com a proa inclinada, para entrar ao abrigo do molhe, passam à frente das mulheres, que estão precisamente sobre o molhe. Jesus sorri para saudá-las, enquanto elas se põem a caminhar depressa, para chegarem ao ponto da atracação, ao mesmo tempo que a barca.
– Deus te abençoe, meu Filho! –diz Maria, saudando a Jesus, que está já descendo ao desembarcadouro.
– Deus te abençoe, minha Mãe. Ficaste pensativa? Em Sidon não estava quem fomos procurar. Fomos até Tiro. E lá o encontramos. Vem, Hermasteu… Ei-lo aqui, João. Este jovem quer ser ensinado. Eu o confio ti.
– Não te decepcionarei, pois o ensinarei com a tua palavra. Muito obrigado. Mestre! Aqui há muitos que te esperam –responde João de Endor.
– Há também um pobre menino doente, meu Filho, e a mãe quer falar contigo.
– Vou logo a ela.
– Eu sei quem é, Mestre. Eu te acompanho até lá. Vem tu também, Hermasteu. Começa a conhecer a bondade infinita de nosso Senhor –diz o homem de Endor.
Da segunda barca desce Pedro, da terceira Tiago, da quarta André, da quinta João e os quatro pilotos, acompanhados pelos outros apóstolos ou discípulos, que estavam com eles e que se aglomeram ao redor de Jesus e de Maria.
– Ide para casa. Eu também irei logo. Preparai, entretanto, a ceia, e dizei a quem estiver esperando que ao fim da tarde Eu irei falar.
– E se lá houver doentes?
– Eu os curarei em primeiro lugar. Até os curarei antes da ceia, para que já possam voltar felizes para suas casas.
Eles se separam, e Jesus vai andando com o homem de Endor e Hermasteu, rumo à cidade. Os outros voltam a andar pela praia saibrosa, narrando tudo o que viram ou ouviram, contentes como crianças que retornam à mãe.
252.5Judas de Keriot está contente também. Ele mostra a todos as esmolas que os pescadores de moluscos quiseram dar-lhe, e mostra especialmente um pequeno embrulho com um precioso material.
– Isto é para o Mestre. Se Ele não se veste com ela, quem poderá vestir-se? Chamaram-me a um lado, para me dizerem: “Temos preciosas madrepérolas na barca, e temos até uma pérola. Pensa. Um tesouro. Eu nem sei como foi que nos tocou esta fortuna. Mas nós a damos de boa vontade para o Mestre. Vem vê-las.” Eu fui para contentá-los, enquanto o Mestre se havia afastado para uma gruta, a fim de lá rezar. Eram belíssimos corais e uma pérola, não grande, mas bonita. Então, eu lhes disse: “Não vos priveis dessas coisas. O Mestre não usa nenhuma joia. Em vez disso, dai-me um pouco daquela púrpura para fazer com ela um ornamento para a sua veste.” Eles tinham este embrulho. Quiseram dar-ma toda, com insistência. Mãe, faze dela um belo trabalho, como tu sabes fazer, para o nosso Senhor. Mas, faze-o, sabes? Se Ele perceber isso, vai querer vendê-la para dar o dinheiro aos pobres. E para nós é agradável vê-lo vestido como Ele merece. Não é verdade?
– Oh! Se é verdade! Eu sofro com isso, quando o vejo tão simples no meio dos outros, Ele que é Rei no meio deles que são piores do que escravos, e todos enfeitados com borlas e esplendores. E olham para Ele como para um pobre indigno deles! –diz Pedro.
– Tu viste, não? Que risadas aqueles senhores de Tiro davam, quando estávamos recebendo as despedidas dos pescadores? –responde-lhe seu irmão.
– Eu disse: “Envergonhai-vos, vós que sois cães! Vale mais um fio da veste branca dele do que todas as vossas borlas” –diz Tiago de Zebedeu.
– Eu quereria, já que Judas pôde receber todas essas coisas, que tu as preparasses para a festa dos Tabernáculos –diz o outro Judas, o Tadeu.
– Eu nunca fiei com a púrpura… –diz a Virgem Maria, tocando no sedoso e leve fio, muito macio, e de uma cor esplêndida.
– A minha nutriz tem experiência com isto. Nós a encontraremos em Cesareia. Ela te ensinará. Aprenderás logo, porque tu sabes fazer tudo bem. Eu faria um galão junto ao pescoço, junto às mangas e na barra da veste: púrpura sobre um linho muito branco, ou lã muito branca, com palmas e rosáceas, como as que estão sobre os mármores do Santo, e com o nó de Davi no centro. Ficaria muito bem –diz Madalena, entendida em toda sorte de belezas artísticas.
Marta diz:
– Nossa mãe fez aquele desenho, por ser muito bonito sobre a veste que Lázaro usou em sua viagem pelas terras da Síria, quando foi tomar posse delas. Eu o conservei porque foi o último trabalho de minha mãe. Eu te mandarei.
– E eu o farei, rezando pela vossa mãe.
252.6Já chegaram às casas. Os apóstolos se espalham para irem juntar os que querem estar com o Mestre, especialmente os doentes.
E Jesus volta com João de Endor e Hermasteu. E passa saudando, por entre os que se comprimem, à frente das casinhas. O sorriso de Jesus já é uma bênção.
Apresentam-lhe o doente dos olhos, que não podia faltar, quase cego com suas oftalmias ulcerosas, e o cura. Depois é a vez de um outro, certamente um maleitoso, já muito enfraquecido e amarelo como um chinês, e o cura.
Depois é uma mulher, que lhe pede um milagre especial para ela: o leite para o seu peito, que não tem mais leite e mostra um menino de poucos dias, desnutrido e muito vermelho, como se tivesse algum desarranjo intestinal. Ela está chorando:
– Estás vendo: Nós temos a ordem de obedecer ao homem e de procriar, mas, que adianta, se depois temos que ver os filhos morrendo? Este é o terceiro que eu gero, e dois já os fui deitar no sepulcro, por causa deste peito estéril. Este já está morrendo, porque nasceu em tempo de grandes calores. Os outros viveram, um dez meses e o outro seis, para me fazerem chorar mais ainda, quando morreram por doença dos intestinos. Se eu tivesse o meu leite, isso não aconteceria…
Jesus olha para ela e diz:
– O teu menino viverá. Tem fé. Vai para a tua casa e, logo que chegares lá, dá o peito ao menino. Tem fé.
A mulher lá se vai, obediente, com o seu pequeno infeliz, que se lamenta como um gatinho, que ela aperta sobre o coração.
– Mas, será que o leite lhe virá?
– Virá com certeza.
– Eu acho que o menino ficará livre de perigo, mas que o leite não virá, e já será um milagre, se ele ficar fora de perigo. Ele já está quase morto de tanto sofrer.
– Mas eu digo que lhe virá o leite.
– Sim.
– Não.
Os pareceres são diferentes, como as pessoas.
252.7Enquanto isso, Jesus se afasta dali, para ir tomar sua refeição. Quando Ele sai, para ir pregar de novo, as pessoas são ainda mais numerosas, porque a notícia do milagre do menino doente de febre, realizado por Jesus apenas desembarcado, se espalhou pela cidade.
– Eu vos dou a minha paz, a fim de preparar o vosso espírito para entender. Na tempestade não se pode conseguir ouvir a voz do Senhor. Toda perturbação prejudica a Sabedoria, porque esta é pacífica, vinda de Deus. E a perturbação não vem de Deus, porque as preocupações, as ânsias, as dúvidas são obras do Maligno, para perturbar os filhos do homem e separá-los de Deus.
Eu vos proponho esta parábola, para que melhor entendais o ensinamento.
Um agricultor tinha muitas árvores em seus campos e videiras que produziam muito fruto, dentre as quais havia uma de qualidade muito apreciada e da qual ele muito se orgulhava. Certo ano aquela videira deu muitas folhas e poucos cachos. Um amigo disse então, ao agricultor: “Foi porque a podaste muito pouco.” No ano seguinte o homem a podou muito. E a videira, então, produziu poucos sarmentos e menos cachos ainda. Um outro amigo lhe disse: “Foi porque a podaste demais.” No terceiro ano o homem a deixou parada. A videira não deu nenhum cacho e lançou bem poucas folhas, magras, enroladas e atacadas pela ferrugem. Um terceiro amigo sentenciou: “Ela está morrendo, porque o terreno não é bom. Queima-a!” “Mas, por que, se o terreno é o mesmo terreno que as outras têm, e se eu trato dela como trato das outras? Antes, ela produzia bem!” O amigo encolheu os ombros e foi-se embora.
Passou por ali um viandante desconhecido, e parou para observar como o agricultor estava triste e apoiado à cepa da pobre videira. “Que tens?”, perguntou-lhe. “Alguém morreu em tua casa?”
“Não. Mas o que me está morrendo é esta videira, que eu amava tanto. Ela não tem mais suco para produzir frutos. Um ano deu pouco, no outro deu menos, e neste nada. Eu fiz tudo o que me disseram, mas não adiantou nada.”
O viandante desconhecido entrou, então, na vinha e aproximou-se da videira. Tocou nas folhas, apanhou um torrão no chão, o cheirou, depois o esfarelou entre os dedos e levantou o olhar para um tronco que sustentava a videira. “Deves tirar aquele tronco. A videira está esterilizada por ele.”
“Mas, se ele é o apoio dela há muitos anos?!”
“Responde-me, homem, quando tu plantaste esta videira aqui, como é que estava a muda, e o olmo, como estava?”
“Oh! A muda era um belo mergulhão de três anos. Eu a havia tirado de uma outra planta minha e, para trazê-la até aqui, eu tinha escavado profundamente ao redor dela para não ofender as raízes, ao tirá-la de sua gleba nativa. Além disso, eu tinha feito aqui uma cova igual, e até um pouco maior, para que ela ficasse logo bem livre, e antes eu havia capinado toda a terra ao redor, a fim de que ela ficasse macia para as raízes e assim elas pudessem espalhar-se logo, sem encontrarem dificuldades. Com todo o cuidado, eu a coloquei, pondo antes no fundo um atraente adubo. As raízes, como sabes, tornam-se fortes, quando encontram logo o que as possa nutrir. Menos eu me ocupei com o olmo. Pois era um arbusto destinado somente a escorar o mergulhão. Por isso, eu a coloquei quase superficialmente perto do mergulhão, escorei-o bem e fui-me embora. Mas a videira ia crescendo de ano em ano, amada, podada, sachada. O olmo, porém, não crescia. Contudo, ela está fazendo aquilo para que servia… Depois, ela foi-se tornando robusta. E estás vendo agora como está bonita? Quando eu chego, vindo de longe, e vejo a copa dela destacando-se, alta como uma torre, ela me fica parecendo o distintivo do meu pequeno reino. Antes a videira a cobria, e não se via a sua bela copa. Mas agora, olha como está bonita lá no alto, ao sol! E, que tronco! Bem em pé e forte. Ele podia sustentar esta videira anos e anos, mesmo que ela se tornasse igual àquelas cujos cachos foram apanhados lá à beiro do Rio do Cacho pelos exploradores de Israel. Mas, ao contrário…”
“Ao contrário, ele a matou. Ele a dominou. Tudo estava bem para que ela vivesse, o terreno, a posição, a luz, o sol, os cuidados que tu lhe davas. Mas ele a matou. Ele se tornou forte demais. E ele lhe foi amarrando as raízes, até estrangulá-las, tirou dela todo o suco do solo, pôs-lhe uma mordaça para que ela não respirasse, nem recebesse a luz. Corta logo o olmo tão forte e inútil, e a tua videira viverá de novo. E melhor ainda tornará a viver, se tu, com paciência, escavares o solo para descobrir as raízes do tronco e cortá-las, até ficares certo de que delas não nascerão brotos. Seus galhos irão murchar sobre o solo até em suas últimas ramificações e de sua morte eles passarão para a vida, porque se transformarão em adubo, depois do merecido castigo por seu egoísmo. O tronco tu o queimarás, e assim ele ainda te dará coisas úteis. Não serve senão para o fogo uma planta inútil e nociva, e ela é tirada para que todo bem vá para a planta boa e útil. Tem fé nisto que te digo, e ficarás contente.”
“Mas, quem és tu? Dize-o a mim, para que eu possa ter fé.”
“Eu sou o sábio. Quem crê em mim, está seguro”, e foi-se embora.
252.8O homem ficou por um momento, na dúvida. Depois se decidiu, e foi pegar a serra. E resolveu chamar os amigos para que o ajudassem.
“Mas, não estarás louco?” “Além da videira, ainda perderás o olmo.” “Eu me limitaria a podar-lhe a copa, para dar mais ar à videira. Nada mais.” “Ela precisa sempre ter um espeque. Vais fazer um trabalho inútil.” “Sabes lá quem era o tal homem? Talvez seja um que te odeia, sem que tu o saibas.” “Ou, então, algum doido”, e por aí afora.
“Eu vou fazer o que ele me disse. Tenho fé nele”, e serrou o olmo rente à raiz, e, ainda não contente, dentro de uma longa faixa do terreno, pôs a descoberto as raízes das duas plantas e, com paciência, foi serrando as do olmo, tomando cuidado para não ferir as da videira, depois tornou a encher o grande buraco que havia feito, e, para a videira que tinha ficado agora sem uma estaca, pôs encostada nela uma estaca de ferro, com a palavra “Fé” escrita em uma tabuinha amarrada no alto da estaca.
Os outros saíram dali balançando a cabeça. Passou o outono e passou o inverno. Chegou a primavera. As gavinhas se foram enrolando umas nas outras e na estaca, e os sarmentos se enfeitaram com gêmulas e mais gêmulas, primeiro fechadas como em um estojo, depois já entreabertas sobre a esmeralda das folhinhas nascentes e, finalmente abertas para, em seguida, estenderem da cepa novos sarmentos fortes, todos num florescer de flores minúsculas, seguido de um grande pipocar de pequeninos bagos. Há mais cachos do que folhas, e estas são largas, verdes, como o são os sarmentos que, por enquanto, estão com dois, três ou mais cachos. E cada cacho está cheio de bagos carnosos, suculentos e bonitos.
“E agora, que dizeis? Era, ou não era a árvore a causa por que estava morrendo a minha videira? Tinha, ou não tinha falado bem o sábio? Tive, ou não tive razão para escrever naquela tabuinha a palavra ‘Fé’?” Assim disse o homem aos amigos incrédulos.
“Tiveste razão. Feliz de ti, que soubeste ter fé, e ser capaz de destruir o passado, isto é, o que te foi dito de prejudicial.”
Esta é a parábola.
252.9E para o que aconteceu com a mulher do peito seco, aqui está a resposta. Olhai para a cidade.
Todos eles se viram para a cidade, e veem a mulher de antes, que está correndo, e mesmo correndo, não desapega o filhinho de seu peito cheio, bem cheio de leite, que o pequeno faminto suga com uma tal voracidade, que quase se sufoca. E a mulher não para a não ser quando está aos pés de Jesus, diante do qual tira por um momento o menino do, peito e grita:
– Abençoa-o, abençoa-o, a fim de que ele viva para Ti.
Passado esse momento, Jesus continua:
– E, às vossas hipóteses sobre o milagre, acabais de receber as respostas. 252.10Mas a parábola tem um sentido mais amplo do que o pequeno episódio de uma fé recompensada. E é este.
Deus havia plantado sua videira, o seu povo, em um lugar apropriado, fornecendo-lhe tudo o de que precisava para crescer e dar sempre mais frutos, apoiando-o aos mestres, para que mais facilmente pudesse compreender a Lei e fazer dela a sua força. Mas os mestres quiseram superar o Legislador, e cresceram, cresceram, cresceram, até se imporem mais do que a palavra eterna. E Israel se esterilizou. O Senhor mandou então o Sábio para aqueles que em Israel, com ânimo reto, preocupavam-se com aquela esterilidade e tentando este e aquele remédio, segundo os ditames e conselhos dos mestres, sábios humanamente mas indoutos sobrenaturalmente e, por isso, bem distantes de conhecer o que era necessário fazer para dar vida ao espírito de Israel e para que pudessem dar um conselho verdadeiramente salutar.
Pois bem. Que foi que aconteceu? Por que é que Israel não retoma as suas forças e se torna vigoroso como nos tempos áureos de sua fidelidade ao Senhor? Porque o conselho seria: tirar todas as coisas parasitárias que cresceram em detrimento da Coisa Santa — Lei do Decálogo —, como foi ela dada, sem compromissos, sem tergiversações, sem hipocrisias, tirar isto para deixar ar, espaço, alimento para a Videira, para o Povo de Deus, dando-lhe um apoio robusto, inflexível, único, de um nome luminoso: a Fé. E este conselho não é aceito. Por isso, Eu vos digo que Israel perecerá, enquanto poderia ressurgir e possuir o Reino de Deus, se soubesse crer e generosamente arrepender-se e mudar substancialmente a si mesmo.
Ide em paz e o Senhor esteja convosco.