602. 602. Em direção ao Getsêmani com os onze apóstolos.A agonia espiritual e a prisão.
16 de março de 1945.
602.1O caminho está em completo silêncio. Somente uma pequena fonte, cuja água corre para uma bacia de pedra, é que produz algum barulho. Ao longo das paredes das casas, do lado do oriente, ainda há alguma escuridão, enquanto que, do outro lado, a lua começa a pintar de branco as coberturas das casas e, onde o caminho se alarga, formando uma pracinha, a luz prateada da lua desce e faz ficar bonitos até os seixos e o chão da estrada. Mas, por baixo das numerosas arquivoltas que vão de casa em casa, parecidas com pontes levadiças ou com escoras para estas casas velhas, com estreitíssimas saídas para as ruas, e que a esta hora estão todas fechadas e no escuro como se fossem casas abandonadas, aí há uma escuridão completa, mas as chamas vermelhas da tocha levada por Simão ganham um valor especial e uma utilidade grande. Os rostos, atingidos por aquela luz vermelha e movediça, ficam com seus relevos nítidos e, todos eles, mostram diversos estados de ânimo.
O que está mais disposto e calmo é Jesus. Mesmo se uma grande fraqueza o faça parecer envelhecido, assinalando-o com traços que Ele por natureza não tem, e que já fazem aparecer as futuras feições de seu rosto depois da morte.
João, que está ao lado dele, dirige um olhar espantado e compassivo a tudo o que está podendo ver. Ele parece um menino que ficou aterrorizado com alguma história que ouviu contar ou por alguma ameaça amedrontadora, e que pede a ajuda de quem sabe mais do que ele. Mas quem o poderá ajudar?
Simão, que está do outro lado de Jesus, está com uma cara fechada, sombria, de quem está ruminando pensamentos sinistros. Contudo, ele ainda é, depois de Jesus, o único que ainda apresenta um aspecto sereno.
602.2Os outros formaram dois grupos, que se alternam continuamente em sua estrutura, e estão em ebulição. E, de vez em quando, a voz rouca de Pedro, ou a baritonante de Tomé, se levanta com uma ressonância macabra. Depois essas vozes se abaixam, como se eles estivessem com medo do que estão dizendo. Discutem sobre o que terão que fazer, e um deles propõe uma coisa, e os outros, outras. Mas todas as propostas caem por terra, porque realmente “a hora das trevas” está para chegar, e os julgamentos dos homens ficam obscuros e confusos.
– Era preciso dizê-lo a mim, antes –diz, agastado, Pedro.
– Mas ninguém falou. Nem o Mestre… –diz André.
– Sim! É claro que Ele te diria. Mas, meu irmão! Parece que tu não o conheces!… –responde-lhe Pedro.
– Eu me sentia um tanto perturbado. E eu disse: “Vamos morrer com Ele”. Vós estais lembrados? Mas, pelo nosso Deus Santíssimo, se eu tivesse sabido que era Judas de Simão!… –troveja Tomé, ameaçador.
– E que irias fazer? –pergunta Bartolomeu.
– Eu? Eu o faria até agora, se me ajudásseis!
– Que farias? Partirias para ir matá-lo? E onde?
– Não. Eu levaria embora o Mestre. É mais simples.
– Ele não iria!
– Eu não lhe perguntaria se Ele viria. Eu o raptaria, como se rapta uma mulher.
– Não seria uma má ideia!… –diz Pedro.
E, impulsivo como ele é, vai lá para trás, se intromete no grupo dos dois filhos de Alfeu que, com Mateus e Tiago, estão conversando em voz baixa, como uns conjurados.
– Escutai. Tomé fala em levar embora a Jesus. Nós todos juntos. E se poderia… Do Getsêmani, por Betfagé, iríamos a Betânia, e de lá para qualquer outro lugar. Vamos fazer assim? Uma vez posto a salvo o Mestre, voltamos e acabamos com Judas.
– Inútil. Todo Israel é uma armadilha –diz Tiago de Alfeu.
– E a hora está para chegar. Já se sabia disso! O ódio é demais!
– Mas, Mateus! Tu me fazes ficar com raiva! Tinhas mais coragem quando eras pecador. Fala tu, Filipe.
Filipe, que vem chegando, e parece que vem conversando sozinho, levanta o rosto e para. Pedro vai ao encontro dele e começam a cochichar. Depois eles vão ao grupo de antes.
– Eu diria que o lugar melhor é no Templo –diz Filipe.
– Estarás ficando doido? –gritam-lhe os primos, Mateus e Tiago–. Mas se lá eles o querem morto?
– Psiu! Que barulho! Eu sei o que digo. Procurá-lo-ão por toda parte. Mas não lá. Tu e João tendes boas amizades com os servos de Anás. Damos um boa importância em dinheiro… E está tudo resolvido. Podeis crer! O melhor lugar para se esconder alguém que está sendo procurado é na casa dos carcereiros.
– Eu não faço isso –diz Tiago de Zebedeu–. Mas antes procura ouvir os outros. A João em primeiro lugar. Mas e se depois o prenderem? Não quero que se diga que fui eu o traidor…
– Eu não havia pensado nisso. E, então?
Pedro está abatido.
– Então, eu diria que é bom fazer uma coisa. A única que podemos fazer. Levar embora daqui a Mãe… –diz Judas do Alfeu.
– Está bem!… Mas quem é que vai fazer isso? Quem é que vai falar disso com ela? Vai tu, que és parente dela.
– Eu fico com Jesus. É meu direito. Vai tu.
– Eu? Eu estou armado com uma espada, para poder morrer como Eleazar de Saura1. Eu passarei pelo meio de legiões para defender o meu Jesus e golpearei sem compaixão. Se a força dos outros me matar, não importa. Eu terei procurado defendê-lo –proclama Pedro.
– Mas tens certeza de que é mesmo Iscariotes? –pergunta Filipe a Tadeu.
– Disto eu estou certo. Nenhum de nós tem coração de serpente. Só ele… Vai tu, Mateus, à casa de Maria e dize-lhe…
– Eu? Para que enganá-la? Vê-la ao meu lado sem saber de nada, e depois?… Ah! Não. Estou pronto para morrer, mas não para trair aquela pomba…
As vozes se misturam com um sussurro.
602.3– Estás ouvindo? Mestre, nós te amamos –diz Simão.
– Eu sei. Não preciso daquelas palavras para sabê-lo. E se dão paz ao coração do Cristo, elas ferem sua alma.
– Por que, meu Senhor? São palavras de amor.
– De todo o amor humano. Em verdade, nestes três anos não tenho feito nada, porque vós estais ainda mais humanos do que na primeira hora. Crescem dentro de vós todos os fermentos mais lodosos, nesta tarde. Mas a culpa não é vossa…
– Salva-te, Jesus! –geme João.
– Eu me salvo.
– Sim? Oh! Obrigado, meu Deus!
João parece uma flor dobrada pelo calor e que se iça, fresca, na haste:
– Vou dizê-lo aos outros. Para onde vamos?
– Eu vou para a morte. E vós para a Fé.
– Mas não tinhas dito agora mesmo que te salvavas?
E o predileto fica abatido de novo.
– Eu me salvo de fato. Eu me salvo. Se não obedecesse ao Pai, me perderia. Ora, Eu obedeço. E por isso me salvo. Mas não fiques chorando assim. És menos valente do que os discípulos daquele filósofo grego, do qual Eu vos falei um dia. Eles permaneceram perto do Mestre que estava morrendo por ter bebido cicuta, confortando-o com sua compaixão viril. Tu… tu te pareces com um pequenino que perdeu seu pai.
– E não é assim mesmo? Eu perco mais do que se eu perdesse o pai! Eu te perco…
– Não me perdes, porque continuas a querer-me bem. Está perdido aquele que se separou de nós, ficando no esquecimento nesta Terra e sendo condenado pelo julgamento de Deus na outra vida. Mas nós não ficaremos separados. Nunca. Nem disso, nem daquilo.
Mas João não consegue raciocinar.
602.4Simão vai ficar mais perto de Jesus e lhe diz em voz baixa:
– Mestre… eu… eu e Simão Pedro esperávamos poder fazer algo de bom… Mas… Tu, que tudo sabes, dize-me: daqui a quantas horas é que esperas ser capturado?
– Quando a lua mal tiver chegado ao alto do seu arco.
Simão faz um gesto de dor e de impaciência, para não dizer de animosidade.
– Então, tudo foi inútil… Mestre, agora eu te explico. Tu quase nos censuraste, a mim e a Simão Pedro, por te termos deixado tão sozinho nestes últimos dias… mas nós estávamos longe por causa de Ti… Por amor de Ti. Pedro, naquela noite de segunda-feira, impressionado pelas tuas palavras, veio a mim, enquanto eu estava dormindo, e me disse: “Eu e tu, e em ti eu confio, devemos fazer alguma coisa por Jesus. Até Judas disse querer ocupar-se disso”. Oh Por que não entendemos naquela hora? Por que não nos disseste nada? Agora, dize-me: não disseste nada a ninguém? A ninguém mesmo? Talvez o tenhas compreendido só nestas últimas horas?
– Eu sempre soube disso. Mesmo antes que ele estivesse entre os discípulos. E, para que o seu delito não fosse perfeito, tanto do lado divino como do humano, procurei por todos os meios afastá-lo de Mim. Aqueles que querem que eu morra são os carrascos de Deus. E este, meu discípulo e amigo, é o carrasco do Homem. O meu primeiro carrasco, porque já me matou com o esforço que Eu faço para tê-lo ao meu lado à mesa, e por ter que protegê-lo e a mim mesmo contra vós.
– E ninguém sabe disso?
– João. Eu lhe disse no fim da Ceia. Mas que foi que fizestes?
– E Lázaro? Será que Lázaro não sabe de nada? Hoje estivemos na casa dele, porque ele veio de manhãzinha oferecer o sacrifício, e voltou sem nem mesmo parar em seu palácio nem ir ao Pretório. Pois ele sempre vai lá, por um costume aprendido de seu pai. E Pilatos, como Tu sabes, está na cidade por estes dias…
– Sim. Todos estão aí. Aí está Roma, a nova Sião, com Pilatos. Aí está Israel, com Caifás e Herodes. Aí esta todo Israel, porque a Páscoa reuniu os filhos deste povo aos pés do altar de Deus… 602.5Tens visto Gamaliel?
– Sim. Por que esta pergunta? Devo tornar a vê-lo amanhã…
– Gamaliel nesta tarde está em Betfagé. Eu sei disso. Quando tivermos chegado a Betfagé, Tu irás a Gamaliel e lhe dirás: “Daqui a pouco terás o sinal que vens esperando há vinte e um anos.” E nada mais. Depois voltarás aos teus companheiros.
– Mas como sabes disso? Oh, Mestre meu! Pobre mestre, que não tens o conforto de deixar de conhecer as obras dos outros!
– Dizes bem! O conforto de ignorar! Pobre mestre! Porque são mais as más obras do que as boas. Mas eu vejo também as boas e me alegro com elas.
– Então, Tu sabes que…
– Simão, chegou a hora de minha paixão. E, para torná-la mais completa, o Pai me retira a luz aos poucos, à medida que ela se aproxima. Daqui a pouco só terei trevas e a contemplação do que são as trevas, isto é, de todos os pecados dos homens. Tu não sabes, vós não podeis entender. Ninguém, a não ser quem for chamado por Deus para alguma missão especial, compreenderá esse sofrimento dentro do grande sofrimento que é a Paixão e, visto que o homem é material tanto no amar como no meditar, haverá quem chore e sofra pelas pancadas por Mim recebidas, pelas torturas do Redentor, mas não medirá esta tortura espiritual que — acreditai-o, vós que me ouvis — será a mais atroz de todas… Fala, então, Simão. Guia-me pelas sendas por onde a tua amizade por Mim te levou, pois eu sou um pobre, que já vai ficando cego, e que vê fantasmas, não coisas reais…
João o abraça e pergunta:
– Não é possível. Não enxergas mais o teu João?
– Eu estou te vendo. Mas os fantasmas surgem dos nevoeiros de Satanás. Visões de íncubos e de dor. Nesta tarde, estamos todos envolvidos neste miasma do inferno. Em Mim, ele procura achar vileza, desobediência e sofrimento. Em vós ele criará desilusão e medo. Aos outros, que não são nem medrosos nem delinquentes, ele dará delinquência e timidez. A outros, que já são de Satanás, ele dará uma perversão sobrenatural. Eu digo assim porque a perfeição deles no mal será tal, que superará as possibilidades humanas e chegará à perfeição, que é sempre sobre-humana. 602.6Fala, Simão.
– Sim. Desde terça-feira, nada mais fazemos do que andar a fim de saber para prevenir e para procurar ajuda.
– E que foi que conseguistes fazer?
– Nada. Ou muito pouco.
– E o pouco será “nada” quando o medo paralisar os corações.
– Eu cheguei até a dar um esbarrão em Lázaro… É a primeira vez que me acontece. Esbarrei nele porque ele estava me parecendo inerte… Ele poderia agir. Ele é amigo do Governador. E sempre é o filho de Teófilo. Mas Lázaro rejeitou todas as minhas propostas… E eu o deixei, gritando: “Eu penso que o amigo do qual fala o Mestre sejas tu. Mas tu me causas horror!”, e eu não quis mais voltar a ele. Contudo, nesta manhã ele me chamou e disse: “Podes ainda pensar que eu seja o traidor dele?” Eu já tinha visto Gamaliel, José e Cusa, Nicodemos e Manaém, e, enfim, o teu irmão José… E eu não podia mais crer naquilo. E eu lhe disse: “Perdoa-me, Lázaro. Mas eu sinto que minha mente está perturbada mais do que quando eu mesmo era um condenado.” E é assim, ó Mestre… Eu não sou mais eu… Mas por que estás sorrindo?
– Porque isso vem confirmar tudo o que Eu te disse antes. O nevoeiro de Satanás te envolve e te perturba. Que foi que Lázaro respondeu?
– Ele disse: “Eu te compreendo. Vem hoje com Nicodemos. Eu preciso te ver.” E eu saí de lá, enquanto Simão Pedro foi ficar com os galileus. Porque teu irmão, de tão longe, sabe mais do que nós. Diz que ficou sabendo disso por acaso, conversando com um velho galileu, amigo de Alfeu e de José, que mora perto dos mercados.
– Ah!… Sim… É um grande amigo da casa…
– Ele está lá com Simão e as mulheres. Lá está também a família de Caná.
– Eu vi Simão.
– Está bem. José, por esse amigo dele e amigo de um do Templo, que se tornou seu parente por parte das mulheres, ficou sabendo que está decidida a tua captura, e disse a Pedro: “Eu sempre o combati. Mas era por amor. E enquanto ele era ainda forte. Mas, agora, ele se torna como um menino nas mãos dos seus inimigos, e eu, como parente dele e como quem sempre o amou, estou do lado dele. É um dever do sangue e do coração.
Jesus sorri, recuperando por um instante seu rosto sereno das horas de alegria.
– E José disse a Pedro: “Os fariseus da Galileia são umas serpentes, como o são todos os fariseus. Mas na Galileia nem todos são fariseus. E aqui estão muitos galileus que o amam. Vamos dizer-lhes que se reúnam para defendê-lo. Nós só temos umas facas. Mas os porretes também são armas, se forem bem manejados. E, se não vierem as milícias romanas, acertaremos logo as contas com aquela canalha vil, que são os valentões do Templo.” E Pedro foi com ele. 602.7Enquanto isso, eu ia indo para a casa de Lázaro, em companhia de Nicodemos. Nós havíamos decidido persuadir Lázaro a ir conosco e a abrir a casa dele para ficar Contigo. Mas ele nos disse: “Eu devo obedecer Jesus e ficar aqui. Sofrendo o dobro…” É verdade?
– É verdade. Eu lhe dei esta ordem.
– Mas ele me entregou as espadas. São duas. Uma para mim e a outra para Pedro. Também Cusa queria dar-me espadas. Mas… que valem dois pedaços de ferro contra o mundo todo? Cusa não pode crer que seja verdade tudo o que Tu dizes. Jura que ele não sabe de nada e que na corte o que todos estão pensando é em aproveitar a festa… Vai ser uma folia, como de costume. Tanto é assim que ele disse a Joana que se retirasse para uma de suas casas na Judeia. Mas Joana quer ficar aqui. Fechada em seu palácio, como se estivesse ausente. Mas ela não sai daqui. Com ela estão Plautina, Ana, Nique e duas damas romanas da casa de Cláudia. Estão chorando, rezando e fazendo que os inocentes rezem. Mas agora não é tempo de rezar. O tempo é de sangue. Eu percebo que se volta a viver o “zelotes”, e ardo em desejos de matar para tirar vingança!…
– Ó Simão! Se eu quisesse fazer-te morrer maldito, não te teria tirado da desolação!
Jesus está muito sério.
– Oh! Perdão, Mestre… perdão. Eu estou como um ébrio, um delirante.
– E Manaém, que é que diz?
– Manaém diz que não pode ser verdade, e que se o fosse, ele te acompanharia até no suplício.
– Como todos vós confiais em vós mesmos!… Quanta soberba há no homem! E Nicodemos? E José? Que é que eles sabem?
– Nada mais do que eu. Há tempo, em uma assembleia, José se pôs a discutir com os do Sinédrio, porque os chamou de assassinos, pois eles queriam matar um inocente, e disse: “Tudo é ilegal aqui dentro. E é correto o que Ele diz. A abominação está na Casa do Senhor. O altar vai ser destruído, porque foi profanado.” Não o apedrejaram porque é ele. Mas, desde então, não o informaram de mais nada. Somente Gamaliel e Nicodemos continuaram amigos dele. Mas o primeiro deles não diz nada. E o segundo… Nem ele nem José foram convocados para o Sinédrio, para as decisões mais importantes. E o Sinédrio passa a reunir-se ilegalmente num ou noutro lugar, e em horas diferentes, por medo deles e de Roma. Ah! Ia-me esquecendo!… Os pastores. Também eles estão com os galileus. Mas somos poucos! Se Lázaro tivesse querido ouvir-nos, e tivesse ido ao Pretor! Mas ele não nos atendeu. Isto foi o que fizemos… E fizemos muito… e nada… e eu estou tão humilhado, que gostaria de ficar andando pelos campos, uivando como um chacal, embrutecendo-me em orgias, matando como um bandido, contanto que eu pudesse tirar da cabeça este pensamento, que é “de todo inútil”, como diz Lázaro e como disse José, Cusa, Manaém, Gamaliel…
Zelotes nem parece mais ser ele mesmo…
– Que foi que o rabi disse?
– Ele disse: “Eu não sei exatamente quais são os propósitos de Caifás. Mas eu vos digo que somente pelo Cristo é que vem sendo profetizado tudo o que dizeis. Mas como eu não admito que esse profeta seja o Cristo, não vejo o por que agitar-nos. Irá morrer um homem bom, amigo de Deus. Mas de quantos semelhantes a Ele Sião já não bebeu o sangue?” E, visto que nós insistíamos sobre a tua Natureza Divina, ele teimosamente repetiu: “Quando eu vir o sinal, acreditarei.” E prometeu abster-se de votar sobre tua morte e até, se for possível, a persuadir os outros a não te condenarem. Isto e nada mais. Ele não crê. Não crê. Se pudéssemos chegar ao dia de amanhã… Mas Tu dizes que não. Oh! 602.8Então, que faremos nós?!
– Tu irás à casa de Lázaro e procurarás trazer contigo todos os que puderes. E não só dos apóstolos, mas também dos discípulos que achares vagando pelos caminhos do campo. Procura ver os pastores e dá-lhes esta ordem. A casa de Betânia é hoje, mais do que nunca, a casa de Betânia, a casa da boa hospitalidade. Aqueles que não têm coragem de enfrentar o ódio do povo todo, que vão refugiar-se lá…
– Mas nós não te deixaremos.
– Não vos separeis uns dos outros. Separados não seríeis nada. Unidos, ainda seríeis uma força. Simão, promete-me isso. Tu és pacato, fiel, tens palavras convincentes e influência até sobre Pedro. E tens uma grande obrigação para Comigo. É a primeira vez que te faço lembrar isso, para impor-te a obediência. Olha. Chegamos ao Cedron. Dali é que subiste até Mim, ainda leproso, e dali saíste purificado. Por aquilo que Eu te dei, dá-me uma coisa. Dá ao Homem aquilo que Eu dei ao homem. Agora o leproso sou Eu…
– Naaão! Não digas isso! –gemem juntos os dois discípulos.
– Assim é! Pedro, os meus irmãos serão os mais humilhados. Como um delinquente é que se sentirá o meu honesto Pedro, e não terá paz. E os irmãos… Não terão coragem de olhar para a mãe deles e a Minha… Eu os recomendo a ti…
– E eu, Senhor, de quem serei? Não pensas em mim?
– Meu menino! Tu estás confiado ao teu amor. Ele é tão forte que te guiará como uma mãe. Eu não te dou ordem nem guia. Deixo-te sobre as águas do amor. Elas são em ti um rio tão calmo e profundo que não me causam dúvidas sobre os teus dias de amanhã. Simão, entendeste? Promete-me, promete-me.
É penoso ver Jesus tão angustiado… Ele continua:
– Antes que venham os outros! Oh! Obrigado! Que sejas abençoado!
602.9Então, o grupo todo se reúne.
– Agora, podemos separar-nos. Eu vou lá para cima, a fim de rezar. Comigo Eu quero Pedro, João e Tiago. E vós, ficai aqui. Se ficardes assoberbados, chamai-nos. E não temais. Não vos será tirado nem um fio de cabelo. Rezai por Mim. Deixai de lado o ódio e o medo. Tudo será num instante… e depois a alegria será completa. Sorride. Que Eu leve em meu coração os vossos sorrisos. E, outra vez, agradeço por tudo, meus amigos! Adeus. O Senhor não vos abandone…
Jesus se separa dos apóstolos e vai adiante, enquanto Pedro pede a tocha a Simão, tendo já acendido com ela uns galhos resinosos, que pegam fogo e começam a estalar nos limites do Monte das Oliveiras e a espalhar um cheiro de junípero. Faz-me pena ver Tadeu, que fica olhando com um olhar tão firme e doloroso para Jesus, que este se vira e procura quem é que o estava olhando. Mas Tadeu se esconde atrás de Bartolomeu e morde os lábios para se conter.
Jesus, com a mão, faz um gesto que, ao mesmo tempo, significa uma bênção e um adeus, e depois continua seu caminho. A lua, que já vai bem alta, rodeia de luz sua alta figura e parece fazer que ela fique mais alta, espiritualizando-a, fazendo que fique mais clara a veste vermelha dele e mais pálido o ouro dos seus cabelos. Atrás dele, Pedro e os dois filhos de Zebedeu apressam o passo.
602.10Prosseguem seu caminho até chegarem ao limite do primeiro barranco do rústico anfiteatro formado pelo olival, para o qual serve de entrada o pequeno terreno irregular e, de escadarias, as diversas rochas que vão subindo por sobre os degraus com as oliveiras do morro. Depois Jesus diz:
– Parai aqui. Esperai-me aqui, enquanto Eu vou rezar, mas não durmais. Eu poderia ter necessidade de vós. E Eu vos peço por caridade: rezai! O vosso Mestre está muito abatido.
De fato, seu abatimento é bem profundo. Parece estar sendo esmagado por um peso. Onde está aquele Jesus viril, que falava às multidões, belo, forte, com um olhar dominador, com aquele pacífico sorriso, com aquela voz sonora e belíssima? Parece já estar sendo tomado por uma ânsia. Está como alguém que correu ou chorou muito. Tem uma voz cansada e fraca. Está triste, muito triste…
Pedro responde por todos:
– Fica tranquilo, Mestre. Nós velaremos e rezaremos. Basta que nos chames e nós iremos.
E Jesus os deixa, enquanto os três se curvam para apanhar folhas secas e gravetos, a fim de acenderem um pequeno fogo, que sirva para conservá-los despertos, e também para combater a orvalhada, que já começa a cair em quantidade.
602.11Ele caminha, virando-lhes as costas, indo do ocidente para o oriente, e tendo assim na frente de seu rosto a luz do luar. Eu vejo que uma grande dor dilata ainda mais os seus olhos, ou talvez seja a fumaça que os alarga, ou a sombra do arco das sobrancelhas. Eu não sei. Só sei que Ele está com os olhos mais abertos e encovados. Vai subindo com a cabeça inclinada, e somente de vez em quando a levanta, com um suspiro, como se estivesse cansado e perdesse o fôlego, e aí Ele passa o olhar, tristemente, sobre o plácido olival. Anda alguns passos subindo, depois dá uma volta ao redor de um degrau, que fica entre Ele e os três deixados lá embaixo2.
O degrau, que tem poucos decímetros de altura no começo, vai aumentando cada vez mais, e, pouco depois, já está com mais de dois metros, de tal modo que protege Jesus completamente de todos os olhares mais ou menos discretos e amigos. Jesus prossegue até um grande penhasco que, a certa altura do caminho, impede a passagem, e que talvez tenha sido colocado ali como uma escora para o declive que naquele ponto desaba, ficando a pique até chegar a um montão de pedregulhos, que fica antes dos muros e para lá dos quais está Jerusalém. E continua a subir por entre outras ribanceiras e oliveiras. Precisamente sobre o grande penhasco estão suspensos os ramos de uma oliveira, toda nodosa e retorcida. Ela parece um bizarro ponto de interrogação, colocado pela natureza para fazer alguma pergunta. Os ramos viçosos da copa dão uma resposta à pergunta do tronco, dizendo ora que sim, ao se inclinarem para a terra, ora que não, ao se inclinarem para a direita ou para a esquerda ao soprar de um vento leve, que vem como umas ondas por entre as copas, e que algumas vezes traz somente o cheiro da terra, e outras vezes o cheiro amargo das oliveiras; algumas vezes um cheiro misturado com o das rosas, ou de musgo, que não se pode saber de onde está vindo. Para além do caminho, abaixo dele, há outras oliveiras, e uma delas, bem abaixo do rochedo, que foi rachado por algum raio que lhe sobreveio, ou desancada não sei por qual causa, tendo-se transformado em dois troncos que se elevam como as duas hastes de um grande V em letra maiúscula, e as duas cabeleiras se mostram de um lado, ou do outro da rocha, como se quisessem ver e velar ao mesmo tempo, ou fazer do penedo uma base de prata cinzenta cheia de paz.
602.12Jesus para neste lugar. Não fica olhando para a cidade, que está aparecendo lá embaixo, toda branca à luz do luar. Mas Ele lhe vira as costas, reza, com os braços abertos em cruz e com o rosto levantado para o céu. Eu não vejo o seu rosto, porque Ele está à sombra, tendo a lua quase na perpendicular sobre sua cabeça, mas também a frondosa ramagem da oliveira, entre Ele e a lua, que mal pode filtrar, por entre as folhas, os olhinhos e pequenas agulhas de uma luz que está em contínuo movimento.
Ele faz uma longa e ardente oração. De vez em quando, dá um suspiro e diz alguma palavra mais clara. Não é um salmo, nem é o Pai-nosso. É uma oração que jorra, nascida do seu amor e de sua necessidade. É uma verdadeira conversação com o seu Pai. Assim eu o entendo, pelas poucas palavras que consigo ouvir:
– Tu o sabes… Eu sou o teu Filho… Tudo, mas ajuda-me… A hora chegou… Eu não sou mais desta terra. Termina toda necessidade de ajuda por parte do teu Verbo… Faze que o Homem te satisfaça como Redentor, assim como te foi obediente à Palavra… Seja o que Tu queres… Para eles Eu te peço tua piedade… Será que Eu os salvarei? Isso Eu te peço. Isto Eu quero: que sejam salvos do mundo, da carne, do demônio… Posso continuar a pedir? É justo o meu pedido, meu Pai. Não peço para Mim. Peço pelo homem, que é tua criatura, e que quis transformar em barro até sua alma. Eu jogo este barro na minha dor e no meu Sangue, a fim de que a tornem a incorruptível essência do espírito agradável a Ti… E está por toda parte. Ele é o rei nesta tarde. Tanto no palácio real como nas casas, por entre as milícias e no Templo… A cidade está cheia dele, e amanhã será um inferno….
Jesus se vira, apoia as costas no penhasco e cruza os braços. Ele olha para Jerusalém. O rosto de Jesus se torna cada vez mais triste. Ele murmura:
– Parece! Parece de neve… mas ela é toda pecado. Também nela, quantos eu curei! Quanto aí Eu falei!… Onde estão aqueles que me pareciam fiéis?…
Jesus inclina a cabeça e olha fixamente o terreno coberto por uma grama curta e brilhante por causa do orvalho. Mas, ainda que esteja com a cabeça inclinada, abre os braços, depois os une, conservando-os acima da cabeça e agitando-os assim juntos.
602.13Depois Ele se encaminha. Vira-se para os três apóstolos que estão sentados ao redor do pequeno fogo de gravetos. Ele os encontra meio adormecidos. Pedro está encostado a um tronco, do lado das costas, com os braços cruzados sobre o peito, balançando a cabeça, sofrendo os primeiros ataques de um forte sono. Tiago está sentado, como também o seu irmão, sobre uma grande raiz exposta, e sobre a qual eles puseram seus mantos para sentirem menos as costas. E, com tudo isso, estão menos acomodados do que Pedro, mas estão, também eles, cochilando. Tiago descansou a cabeça sobre o ombro de João, e este pôs a sua sobre o ombro do irmão, como se aquele cochilo os tivesse imobilizado naquela posição.
– Estais dormindo? Não fostes capazes de vigiar nem por uma só hora? E Eu sinto tanta necessidade do vosso conforto e de vossas orações!
Os três estremecem, confusos. Esfregam os olhos. Murmuram uma desculpa e acusam o esforço de digerir como a primeira causa do seu cochilo:
– Foi o vinho… a comida. Mas agora já vai passar. Foi apenas um momento. Nós não tínhamos vontade de falar e foi por isso que caímos no sono. Mas agora vamos rezar em voz alta e não acontecerá mais.
– Sim. Rezai e vigiai. Também para vós mesmos tendes necessidade disso.
– Sim, Mestre. Nós te obedeceremos.
602.14Jesus volta. A luz da lua, que lhe bate no rosto, está tão forte em sua claridade prateada que faz ficar sempre mais pálida a veste vermelha, como se ela tivesse sido coberta com um pó branco e brilhante, fazendo-me ver o seu rosto desconsolado, cheio de dor, envelhecido. Seus olhos continuam dilatados e parecem embaçados. Sua boca tem um sinal de cansaço.
Ele volta ao seu penhasco, ainda mais vagaroso e inclinado. Ajoelha-se, apoiando os braços na pedra, que não é plana e que a certa altura tem uma meia concavidade, como se tivesse sido trabalhada assim, e sobre essa curta cavidade, nasceu uma plantinha que me parece uma daquelas florzinhas parecidas com pequemos lírios, que eu já vi na Itália3, de folhas pequenas, redondas, mas denteadas nas beiras e polpudas, com florzinhas verde-escuras. Jesus apoia as mãos perto delas e as florinhas lhe beliscam a face, porque Ele apoiou a cabeça sobre as mãos juntas e está rezando. Pouco depois, Ele sente o frescor das pequenas corolas, e levanta a cabeça. Olha para elas. E as acaricia. Depois lhes diz:
– Vós sois puras!… Vós me dais conforto! Também na pequena gruta de minha Mãe havia destas florzinhas… e Ela as amava, porque dizia: “Quando eu era pequenina, meu pai dizia: ‘Tu és um lírio, pequenino assim e todo cheio do orvalho do céu…’” A minha Mãe! Oh! Minha Mãe!
E tem um acesso de choro. Com a cabeça sobre as mãos juntas, um pouco afastado por estar sentado sobre os calcanhares, eu o vejo e ouço chorar, enquanto suas mãos apertam os dedos e se atormentam uma à outra. Eu o ouço dizer:
– Também lá em Belém… eu os levei a ti, minha Mãe. Mas estes aqui, quem os irá levar ainda?…
602.15Depois, Ele vai continuar sua oração e meditação. Deve ser bem triste a sua meditação, cheia de angústia mais do que de tristeza, porque para evitá-las, Ele se levanta, anda para cá e para lá, murmurando palavras que eu não entendo, levantando o rosto, abaixando-o, gesticulando, passando as mãos sobre os olhos, sobre as maçãs do rosto sobre os cabelos, com movimentos maquinais e agitados, próprios de quem está em grande aflição. Dizer estas coisas ainda não é nada. Descrevê-las é impossível. Vê-las é tomar parte de sua angústia. Ele faz um gesto para Jerusalém. Depois volta a levantar os braços para o céu, como para pedir auxílio.
Levanta o manto, como se sentisse calor. Olha para ele… Que será que Ele está vendo? Seus dois olhos não estão vendo outra coisa senão sua própria tortura, e nessa tortura tudo serve para aumentá-la… Até o manto tecido por sua Mãe. Ele o beija, e diz:
– Perdão, minha Mãe! Perdão!
Parece que Ele está pedindo perdão ao pano fiado e tecido pelo amor de sua Mãe. E o veste de novo. Ele está em grande aflição. E quer rezar para superá-la. Mas, com a oração, voltam as lembranças, as apreensões, as dúvidas, as saudades… É uma avalanche de nomes… de cidades… de pessoas… de fatos… Não posso acompanhá-lo, porque Ele anda depressa e descontinuado. É a sua vida evangélica que passa toda diante dos seus olhos… e o faz ver também Judas, o traidor.
602.16E é tão grande a sua aflição, que, para dominá-la, Ele grita os nomes de Pedro e de João. E diz: “Agora eles virão. Eles são muito fiéis!” Mas “eles” não vêm. Ele chama de novo. Parece aterrorizado, como se estivesse vendo quem sabe lá o quê…
Foge dali, andando rapidamente para o lugar onde estão Pedro e os dois irmãos. E os encontra cômoda e pesadamente adormecidos, ao redor de umas poucas brasas, que já vão morrendo e soltando apenas uns zigue-zagues vermelhos pelo meio das cinzas.
– Pedro! Eu vos chamei já por três vezes! Que é que estais fazendo? Estais dormindo ainda? Não percebeis quanto Eu estou sofrendo? Rezai. Que a carne não seja vencedora. Que ela não vos vença. A nenhum de vós. Se o espírito está pronto, a carne é fraca. Ajudai-me…
Os três vão-se despertando lentamente. Mas, enfim, conseguem e, com os olhos lacrimejantes, se desculpam. Levantam- se, tendo antes permanecido sentados e, depois, põem-se de pé.
– Mas olha só! –murmura Pedro–. Nunca nos aconteceu uma coisa assim. Deve ter sido mesmo por causa daquele vinho. Ele era forte. E também por causa deste frio. Nós nos cobrimos para não senti-lo
–(e, de fato, eles se haviam coberto com seus mantos até a cabeça)–, e não vimos mais o fogo nem sentimos mais o frio, e foi aí que o sono chegou. Dizes que nos chamaste? Contudo, não me parecia estar dormindo tão profundamente… Vamos, João, vamos procurar uns gravetos, movamo-nos. Isso passará. Fica certo, Mestre, que de agora em diante!… Ficaremos de pé…
E joga um punhado de folhas secas sobre as brasas, e sopra até que uma chama se levante e vai alimentando-a com os ramos de sarça trazidos por João, enquanto Tiago traz um grosso galho de junípero, ou de outra árvore semelhante que ele cortou em algum matagal pouco afastado, e põe junto com os outros.
A chama se levanta, alta e alegre, iluminando o pobre rosto de Jesus. Um rosto cheio de verdadeira tristeza, que não podíamos olhar sem chorar. Todo o fulgor daquele rosto é anulado por uma canseira mortal. Ele diz:
– Estou em uma angústia que me mata! Oh Sim! Minha alma está numa tristeza mortal. Amigos!… Amigos!…
Mas, mesmo que Ele não o dissesse, o seu aspecto diria que o dele é o aspecto de quem está morrendo, e no mais angustioso abandono. Parece que cada palavra dele seja um soluço…
Mas os três estão por demais dominados pelo sono. Parecem ébrios, pois tudo o que fazem é com os olhos semiabertos. Jesus olha para eles… Não os humilha com reprovações. Sacode a cabeça, suspira e volta ao seu lugar de antes.
602.17Novamente Ele reza em pé, com os braços em cruz. Depois, de joelhos como antes, e com o rosto virado para as pequeninas flores, Ele pensa. E se cala. Depois, põe-se a gemer e a soluçar com força, quase prostrado no chão pelo tanto que seu corpo abaixou sobre os calcanhares. Neste ponto Ele chama pelo Pai. Sempre com muita dificuldade…
– Oh! –diz Ele–. É amargo demais este cálice! Eu não o aguento! Está acima de minhas forças. Tudo Eu tenho podido! Mas isso, não. Afasta isto de Mim, ó Pai! Afasta isto do teu Filho! Tem piedade de Mim!… Que é que Eu fiz para merecer isso?
Depois, Ele recomeça e diz:
– Mas, meu Pai, não dês ouvidos à minha voz, se ela pede o que for contrário à tua vontade. Não te lembres de que Eu sou teu Filho, mas somente teu servo. Não a minha vontade, mas a tua seja feita.
Fica assim por algum tempo. Depois dá um grito sufocado e levanta um rosto desfigurado. De repente, Ele tomba no chão, com o rosto virado para baixo, e assim fica. É um farrapo de homem sobre o qual pesam todos os pecados do mundo, sobre o qual pesa toda a Justiça do Pai, sobre o qual descem a escuridão, as cinzas, o fel e aquela tremenda, mais que tremenda, tremendíssima coisa que é o ser abandonado por Deus enquanto Satanás nos tortura… É a asfixia da alma, é como sermos sepultados vivos neste cárcere que é o mundo, quando não experimentamos mais que entre nós e Deus há uma ligação, e como sermos acorrentados, amordaçados, apedrejados por nossas próprias orações, que recaem sobre nós cheias de pontas e espalhando fogo, tudo isso é ir esbarrar na porta de um céu fechado, no qual não penetram nem as vozes nem os olhares de nossa angústia, e isso é ser “órfãos de Deus”, é a loucura, a agonia, é a dúvida do termos sido até agora enganados, é a persuasão de que estamos expulsos por Deus, e de estarmos condenados. Isto é o Inferno…
Oh! Eu sei! E não posso, não posso ver o espasmo do meu Cristo, e saber que este é um milhão de vezes mais atroz do que aquele que me consumiu no ano passado e do qual, quando me volta a lembrança, fico transtornada…
Jesus geme, entre os estertores e suspiros próprios da agonia:
– Nada!… Nada!… Fora! Faça-se a vontade do Pai. Ela! Só ela!… A tua vontade, ó Pai. A tua, não a minha… Inútil. Eu só tenho um Senhor: Deus Santíssimo. Uma só Lei: a obediência. Um amor: a redenção… Não tenho mais Mãe. Não tenho mais vida. Não tenho mais divindade. Não tenho mais a minha missão. Tu me tentas inutilmente, demônio, com a minha Mãe, a vida, a minha divindade, a minha missão. Tenho por Mãe a Humanidade e a amo até morrer por ela. A vida, Eu a entrego a quem ma deu, e ma pede, o Supremo Senhor de todos os viventes. A Divindade, Eu a afirmo, ao ser capaz desta expiação. A missão, Eu a cumpro com a minha morte. Não tenho mais nada, a não ser fazer a vontade do Senhor, meu Deus. Vai para trás, Satanás! Eu o disse na primeira e na segunda vez. E torno a dizê-lo pela terceira vez: “Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice. Porém, não a minha, mas a tua vontade seja feita”. Vai para trás, Satanás. Eu sou de Deus.
Depois não fala mais nada, a não ser para dizer, com sua respiração entrecortada:
– Deus! Deus! Deus!
Chama-O a cada batida do coração, e parece que a cada batida o sangue extravase. O tecido estendido sobre as suas costas fica ensopado e vai ficando escuro, mesmo diante da claridade da Lua que o rodeia todo.
602.18Uma claridade mais viva se forma sobre sua cabeça, suspensa a mais ou menos um metro acima dele, uma claridade tão viva que até o Prostrado a vê, filtrando-se por entre as ondas dos cabelos, já pesados por causa do sangue e do véu que o sangue forma diante de seus olhos. Ele levanta a cabeça. A lua brilha sobre o seu pobre rosto, mas brilha ainda mais a luz angelical, semelhante à do diamante branco-azulado do planeta Vênus. E aparece toda a tremenda agonia no sangue que transpira pelos poros. Os cílios, os cabelos, o bigode, a barba estão aspergidos e cobertos de sangue. O sangue escorre das têmporas, o sangue brota das veias do pescoço, suas mãos gotejam sangue, e quando as estende para a luz angelical, e suas amplas mangas se afastam para cima, indo para os cotovelos, aparecem suando sangue os antebraços do Cristo. No rosto somente as lágrimas já fazem dois riscos bem visíveis ao longo da máscara vermelha.
Jesus torna a levantar o manto e enxuga as mãos, o rosto, o pescoço e os antebraços. Mas o suor continua. Ele aperta cada vez mais o pano sobre o rosto, segurando-o apertado com as mãos, e cada vez o muda de lugar e sobre o pano vermelho escuro aparecem nítidas as figuras, que, úmidas como estão, parecem ser pretas. A erva do chão está vermelha de sangue.
Jesus parece estar próximo da morte. Ele afrouxa a veste no pescoço, como se estivesse sufocando. E leva a mão sobre o coração, depois sobre a cabeça, move em seguida as mãos levemente por cima do rosto, como se quisesse ventilá-lo, conservando para isso a boca aberta. Depois Ele se arrasta por cima do penhasco, indo na direção da beira dele, apoiando nele suas costas e ficando com os braços pendentes ao longo do corpo, como se já estivesse morto, com a cabeça pendurada sobre o peito. Ele não se move mais.
A luz angelical diminui pouco a pouco. Depois ela volta, como se estivesse sendo absorvida pela claridade da lua. Jesus torna a abrir os olhos. Levanta com dificuldade a cabeça. Agora está sozinho, mas está menos angustiado. Estende uma das mãos. Puxa para si o manto que foi deixado sobre a grama e torna a enxugar o rosto, as mãos, o pescoço, a barba e os cabelos. Apanha uma folha larga, que caiu ao lado de um de seus cílios, toda molhada pelo orvalho, e com ela acaba de limpar o rosto e as mãos e enxuga a cabeça. E repete o que fez, uma e mais vezes, com outras folhas, até apagar todos aqueles traços deixados por aquele insólito suor. Somente a veste, especialmente nas costas, nas dobras dos cotovelos, no pescoço e na cintura, é que ficou manchada. Ele olha para ela e sacode a cabeça. Olha também para o manto. Mas vê que ele está manchado demais. Então o dobra e o põe sobre a pedra, no ponto em que ele toma a forma de um berço, perto das florzinhas.
Com dificuldade, também devida à sua fraqueza, Ele se vira e se põe de joelhos. Reza, apoiando a cabeça sobre o manto, sobre o qual já estão suas mãos. 602.19Depois Ele escora-se bem com as mãos sobre o penhasco, levanta-se e, cambaleando levemente, vai até aos discípulos. Seu rosto está muito pálido. Mas Ele não está mais perturbado. Está com um rosto cheio de divina beleza, ainda que esteja exangue, e triste mais do que de costume.
Os três discípulos estão dormindo um sono saboroso. Todos estão enrolados nos mantos, estendidos perto do fogo já apagado, ouve-se como estão respirando profundamente e começando a roncar. Jesus os chama. Mas é inútil. Ele tem que inclinar-se e sacudir bastante a Pedro.
– Que há? Quem é que me está segurando? –diz ele, saindo atordoado e espantado do seu manto verde escuro.
– Ninguém. Sou Eu que te estou chamando.
– Já chegou a manhã?
– Não. Está quase terminando a segunda vigília.
Pedro está todo entorpecido. Jesus sacode João, e este dá um grito de terror, ao ver sobre si, inclinado, um rosto que parece de um fantasma ou feito de mármore.
– Oh!… Parecias estar morto.
Depois Jesus sacode Tiago, e ele, pensando que é o seu irmão que o está chamando, diz:
– Prenderam o Mestre?
– Ainda não, Tiago –responde Jesus–. Mas levantai-vos logo, e vamos. Aquele que me trai já vem chegando.
Os três, ainda cambaleando, se levantam. Eles olham ao redor de si… Oliveiras, lua, rouxinóis, vento e paz… Nada mais. Eles acompanham o Senhor em silêncio. Também os outros oito estão mais ou menos adormecidos, perto do fogo apagado.
– Levantai-vos! –troveja Jesus–. Enquanto Satanás vem vindo, mostrai aos que não dormem e aos seus filhos que os filhos de Deus não dormem!
– Sim, Mestre.
– Onde está o Mestre?
– Jesus, eu…
– Mas que é que houve?
E entre perguntas e respostas confusas, eles tornam a por os seus mantos…
602.20E o fazem a tempo de se apresentarem em ordem ao pelotão de esbirros capitaneados por Judas, que irrompe por um lado da tranquila pracinha, iluminando-a violentamente com muitas tochas acesas. São uma horda de bandidos, camuflados de soldados, com caras de delinquentes e umas risadas de demônios. No meio deles estão também alguns valentões do Templo.
Os apóstolos vão todos para um canto. Pedro vai à frente e, atrás dele, os outros em grupo. Jesus fica onde está.
Judas se aproxima, suportando o olhar de Jesus, que está com um daqueles olhares lampejantes dos seus melhores dias. E não abaixa o rosto. E Judas se aproxima de Jesus com um sorriso de hiena e lhe dá um beijo na face direita.
– Amigo, que vieste fazer? Com um beijo me trais?
Judas inclina por um momento a cabeça e depois torna a levantá-la… já morto para qualquer censura, bem como a todo convite para o arrependimento.
Jesus, depois das primeiras palavras, ainda ditas com a imponência de Mestre, toma o tom aflito de quem se resigna a enfrentar uma desventura.
602.21Os esbirros, com grande clamor e gritaria, vêm para a frente com cordas e bastões e querem apoderar-se dos apóstolos, além do Cristo. Menos Judas.
– A quem procurais? –pergunta Jesus, de modo calmo e solene.
– A Jesus de Nazaré.
– Sou Eu.
Sua voz foi como um trovão.
Diante do mundo assassino e daquele inocente, diante da natureza e das estrelas, Jesus dá de Si este testemunho claro, leal, seguro, e eu diria que Ele se sente feliz por podê-lo dar. Mesmo que tivesse desfechado um raio, não teria podido fazer mais. E, como um feixe de espigas cortadas, todos caem no chão. Ficam de pé somente Judas, Jesus e os apóstolos que, diante daquele espetáculo dos soldados abatidos, recuperam o fôlego, a tal ponto que se aproximam de Jesus com ameaças tão explícitas contra Judas, que este dá um pulo, que apenas lhe deu o tempo de escapar do golpe mestre da espada de Simão, e em vão foi acompanhado pelas pedras e paus, que lhe foram lançados pelos apóstolos não armados com espadas, e foge para lá do Cedron, indo se esconder na escuridão de um beco.
– Levantai-vos. A quem estais procurando? Torno a perguntar-vos.
– A Jesus de Nazaré.
– Eu já vos disse que sou Eu –diz Jesus com doçura. Sim, com doçura–. Deixai, então, livres esses outros. Eu vou. Deixai as espadas e os bastões. Eu não sou um ladrão. Estive sempre entre vós, E, então, por que não me prendestes? É que esta é a vossa hora e a de Satanás…
602.22Mas, enquanto Jesus está falando, Pedro se aproxima do homem que está espichando umas cordas para amarrar Jesus e dá um golpe desajeitado com a espada. Se a tivesse usado pela ponta, o teria degolado como um carneiro. Assim, o que ele fez foi quase arrancar-lhe a orelha, que ficou pendurada com um grande gotejar de sangue. O homem grita, dizendo que está morrendo. Forma-se um tumulto entre os que querem ir para frente e os que estão com medo, ao verem como estão brilhando as espadas e os punhais.
– Guardai vossas armas. Eu vos mando. Se Eu quisesse, teria os anjos do Pai para me defenderem. E tu, fica são. Primeiro na alma, se podes.
E, antes de estender as mãos para as cordas, toca na orelha e a torna sã.
Os apóstolos dão uns gritos desordenados… Sim. Desagrada-me dizer isso, mas é assim. Um diz uma coisa, outro diz outra. Um grita: “Tu nos traíste”, e outro diz: “Mas ele está doido!”, e outro diz: “E quem pode crer em ti?”
E quem não grita, foge… E Jesus fica sozinho… Ele com os guardas… E começa o caminho…
1 como Eleazar de Saura, em: 1 Macabeus 6,43-46.
2 mais embaixo. Em seguida destas palavras, MV coloca o esboço que reproduzimos. Nele se veem o Cedron (à esquerda, verticalmente) e os números 1 2 3 (na parte central, em sequência quase horizontal) que evocam as seguintes explicações colocadas ao pé da página: N. 1 lugar da captura - N. 2 onde se detêm os apóstolos Pedro, João e Tiago - N. 3 a pedra da agonia.
3 na Itália: nos lugares rochosos, acrescenta MV numa cópia datilografada, onde adiciona ainda: O nome delas é cymbalaria.
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4
5
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