546. 546. O dia dos funerais de Lázaro.


23 de dezembro de 1946.

546.1A notícia da morte de Lázaro deve ter produzido o efeito que produz um bastãozinho quando é enfiado no interior de uma colmeia. Toda Jerusalém está falando no assunto. Os ilustres, os comerciantes, o povo miúdo, os pobres, as pessoas da cidade e dos campos vizinhos, os forasteiros que estão de passagem, mas já bem conhecidos no lugar; os estrangeiros que aí estão pela primeira vez e estão perguntando quem é esse cuja morte é motivo de tão grande movimento; os romanos, os legionários, os adidos a ofícios, os levitas e sacerdotes, que se ajuntam ou se espalham continuamente, correndo para cá para lá… Ajuntamentos de pessoas que, com palavras e expressões diversas, estão comentando o acontecimento. Uns louvam, outros choram, uns se sentem mais mendigos do que antes, pois morreu o seu benfeitor, e dizem: “Não terei mais, nunca mais, um patrão como ele.” Há os que estão falando de seus merecimentos, ou das posses dele e de sua parentela, dos serviços e cargos do pai, da beleza e riqueza da mãe, do nascimento dela “como rainha.” E, infelizmente, há também os que relembram as páginas familiares sobre as quais seria bom descer uma cortina, especialmente quando, no meio delas, se encontra um morto que por elas tanto sofreu.

546.2Propagam-se as notícias mais disparatadas sobre a causa da morte, sobre o lugar do sepultamento, sobre a ausência de Cristo da casa do seu grande amigo precisamente naquelas circunstâncias, e este é o assunto que mais dá o que falar aos grupinhos. E sobre Ele as opiniões que prevalecem são duas: uma,é que isso aconteceu, ou melhor, foi devido ao mau modo de proceder dos judeus, dos sinedritas, dos fariseus e seus semelhantes contra o Mestre. E a outra é que o Mestre, tendo à sua frente uma verdadeira doença mortal, dela se afastou, porque aqui não haveria lugar para pôr em prática as suas fraudes. Mesmo sem sermos astutos, é fácil compreender-se de qual fonte tenha nascido essa última opinião, que tentou envenenar a muitos. Mas estes replicam:

– Serás tu também um fariseu? Se o és, toma cuidado contigo mesmo, porque entre nós não se blasfema contra o santo! Malditas víboras, paridas pelas hienas em seu acasalamento com o Leviatã! Quem é que vos paga para blasfemardes contra o Messias?

Bate-bocas, insultos e até alguns murros e impropérios salgados contra os imponentes fariseus e escribas, que passam com ares de deuses, sem querer dar nem um simples olhar para o povo, que vocifera, uns pró e outros contra eles, e contra o Mestre, em altos brados pelas ruas. Quantas acusações!

– Este homem está dizendo que o Mestre é um falso! Certamente foi alguém que lhe deu dinheiro para isso.

– Foi com o dinheiro deles? Com o nosso dinheiro, é como deves dizer. Eles nos esfolam, a fim de levarem para frente os seus planos. Mas onde é que está esse homem, que eu quero ver se é um daqueles que vieram dizer-me ontem…

– Aquele fugiu. Mas viva Deus! Aqui devemos unir-nos e agir. Eles são muito descarados.

Outro assunto:

– Eu já te ouvi e te conheço. Direi a quem de direito como falas do Supremo Tribunal!

– Eu sou de Cristo, e a baba do demônio não me atinge. Dize isso também a Anás e a Caifás, se o quiseres, se isso os ajudar a se tornarem mais justos.

E ouve-se mais lá ao longe:

– Falas comigo, logo comigo que sou chamado perjuro e blasfemador, por seguir o Deus vivo? Tu é que és perjuro e blasfemador, pois o ofendes e persegues. Eu te conheço, sabes? Eu já te vi e ouvi. Espião! Vendido! Vindes prender este homem… –e enquanto isso começa a bater-lhe no rosto, a dar-lhe uns sopapos que fazem ficar vermelho o rosto ossudo e esverdeado de um judeu.

– Cornélio, Cipião, tomai cuidado. Estão me maltratando –diz um outro lá de longe, dirigindo-se a um grupo de sinedritas.

– Suporta-o pela fé, e não sujes os teus lábios e tuas mãos na vigília de nenhum sábado –responde um dos que foram chamados. Mas sem virar-se para ver qual é o infeliz contra o qual um grupo de plebeus está querendo fazer um exercício de justiça rápida.

As mulheres começam a gritar, chamando por seus maridos com súplicas, para que eles não se envolvam naquilo.

Os legionários circulam em suas patrulhas, abrindo caminho à força de golpes de lança e ameaçando com prisões e punições.

A morte de Lázaro, que é o fato principal do dia, é o assunto do qual eles partem para outros fatos secundários e também um desafogo para a longa tensão na qual estão os corações…

Os sinedritas, os anciãos, os escribas, os saduceus, os judeus poderosos, passam todos indiferentes e sombrios, como se todo aquele explodir de pequenas iras, de vinganças pessoais, de nervosismo, não tivesse neles a sua origem. E quanto mais vão passando as horas, mais a fervura cresce e os corações se agitam.

– Dizem estes – escutem isso – que o Cristo não pode curar os doentes. Eu era um leproso e agora estou são. Conheceis vós a esses tais? Eu não sou de Jerusalém e nunca os vi entre os discípulos de Cristo, de dois anos para cá.

– Esses? Deixa-me ver aquele lá do meio! Ah! É um tratante e ladrão. Aquele que, no mês passado, veio oferecer-me dinheiro em nome de Cristo, dizendo que está alistando a soldo homens a fim de apoderar-se da Palestina. E agora está dizendo… Mas por que foi que o deixaste escapar?

– Eu compreendi, ouviste? Que malandros! E por pouco eu caía nessa. Bem que tinha razão o meu sogro. 546.3Eis lá, José, o Ancião, em companhia de João e de Josué. Vamos perguntar-lhes se é verdade que o Mestre está querendo fazer seus exércitos. Eles são justos e devem saber.

E correm juntos para os três sinedritas e fazem-lhes sua pergunta.

– Ide para vossas casas, homens. Pelas estradas se peca e se sai prejudicado. Não fiqueis discutindo nem vos alarmando. Cuidai de vossos deveres e de vossas famílias. Não deis ouvidos aos agitadores iludidos, e não vos deixeis iludir. O Mestre é um mestre e não um guerreiro. Vós o conheceis. E o que Ele pensa, Ele diz. Não teria mandado a outros que vos dissessem que o seguísseis como guerreiros se Ele quisesse que vós fósseis tais. Não façais mal a Ele, nem a vós, nem à vossa Pátria. Ide para casa, ó homens! Ide para as vossas casas! Não façais do que já é uma desventura, a morte de um justo, uma série de desventuras. Voltai para vossas casas e rezai por Lázaro, que a todos fez bem! –diz José de Arimateia, que deve ser muito amado e ouvido pelo povo, que o reconhece como um justo.

Também João (aquele que era ciumento1) diz:

– Ele é homem de paz, não de guerra. Não fiqueis escutando os falsos discípulos. Lembrai-vos de como eram diferentes os outros que se diziam Messias. Lembrai-vos, comparai, e a vossa justiça vos dirá que aquelas insinuações para a violência não podem partir dele. Ide para casa! Para casa. A casa da mulher que está chorando e dos meninos amedrontados. Foi dito: “Ai dos violentos e dos que fazem crescer as rixas.”

Um grupo de mulheres chorosas se aproxima dos três sinedritas e uma delas diz:

– Os escribas ameaçaram meu marido. Eu estou com medo. José, fala tu a eles.

– Eu o farei. Mas que o teu marido saiba calar-se. Credes vós que estais ajudando ao Mestre com estas agitações e que estais prestando honra a um morto? Estais enganados. Prejudicais a Um e ao outro –responde José.

546.4E os deixa, para ir ao encontro de Nicodemos que, acompanhado pelos servos, vem por uma rua:

– Não esperava encontrar-te, Nicodemos. O servo de Lázaro veio, depois do canto do galo, para contar-me a desventura.

– E mais tarde também a mim. E eu vim logo. Sabes se o Mestre está em Betânia?

– Não. Não está. O meu intendente de Bezeta esteve lá na hora terça e me disse que ele não está.

– Eu não compreendo por que é que… Para todos houve milagre e para ele não! –exclama João.

– Talvez porque naquela casa Ele já fez mais do que uma cura: redimiu Maria, restabeleceu a paz e a honra… –diz José.

– Paz e honra! Dos bons para com os bons. Porque muitos… não prestaram e não prestam honras nem mesmo agora a Maria… Vós não sabeis… Há três dias, contando hoje, foram até lá Elquias e muitos outros… e não prestaram honras. E Maria os expulsou. Eles me disseram isso furiosos, e eu deixei que eles falassem para não descobrir-lhes o meu coração… –diz Josué.

– E agora eles vão aos funerais? –pergunta Nicodemos.

– Eles receberam o aviso e se reuniram para discutir no Templo. Oh! Os servos tiveram que correr muito nesta manhã, ao romper do dia!

– Por que apressaram assim o funeral? Logo depois da hora sexta!…

– Porque o corpo de Lázaro, quando ele morreu, já estava se corrompendo. Disse-me o meu intendente que, mesmo com as resinas que estão sendo queimadas nos quartos e os aromas postos sobre o corpo, o mau cheiro do cadáver se sente desde a entrada do pórtico da casa. E como com o pôr do sol já se inicia o sábado, não era possível fazer de modo diferente.

546.5– E dizes tu que eles antes se reuniram no Templo? Para quê?

– Pois bem. Na verdade já tinha sido marcada lá a reunião para se discutir sobre Lázaro. Querem dizer que ele estava leproso… –diz Josué.

– Isto não. Ele teria sido o primeiro a isolar-se, segundo a Lei –observa José.

E acrescenta:

– Eu falei com o médico deles. Ele excluiu completamente o caso de ser ele leproso. Ele estava doente de uma consunção pútrida.

– E, então, sobre o que foi que discutiram, se Lázaro já estava morto? –pergunta Nicodemos.

– Sobre se era conveniente ou não irem eles aos funerais, depois de Maria os ter expulsado de lá. Uns diziam que sim, outros que não. Mas os que queriam ir eram mais numerosos, e por três motivos. Ver se o Mestre está presente foi o primeiro motivo, aceito por todos. Ver se Ele faz o milagre foi o segundo motivo. E o terceiro foi o de se lembrarem das recentes palavras do Mestre aos escribas à beira do Jordão, naquele dia em Jericó –explica ainda Josué.

– O milagre! Que milagre se o homem já está morto? –pergunta, com um levantar de ombros, João.

E termina dizendo:

– São os mesmos de sempre!… Procuradores do que é impossível haver!

– O Mestre já ressuscitou outros mortos –observa José.

– É verdade. Mas se tivesse querido tê-lo vivo, não o teria deixado morrer. A tua razão de antes é justa. Eles já tiveram.

– Sim. Mas Uziel lembrou-se, e com ele Sadoque, de um desafio feito há muitos meses. O Cristo disse que dará a prova de que sabe recompor até um corpo que já se desfez todo. É o caso de Lázaro. E diz ainda Sadoque, o escriba, que na margem do Jordão o Rabi por Si mesmo lhe disse que na Lua Nova ele veria cumprir-se a metade do desafio, que foi este: o de um corpo desfeito que volta à vida, e já sem defeito e sem doença. E eles venceram. Se isso acontece, certamente é porque o Mestre está presente. E também se isso acontece, não se pode mais duvidar dele.

– Contanto que não se trate de um mal… –murmura José.

– Mal? Por quê? Os escribas e fariseus se persuadirão.

– Ó João! Mas serás tu um estrangeiro para dizeres isso? Não conheces os teus concidadãos? Quando foi que a verdade os tornou santos? Será que não te diz nada o fato de que à minha casa não foi levado o convite para a reunião?

– À minha também não foi levado. Eles duvidam de nós e muitas vezes nos deixam de lado –diz Nicodemos.

E pergunta:

– Gamaliel estava lá?

– O filho dele, sim. Ele substituirá o pai, que está doente em Gamala da Judéia.

– E que Simeão dizia?

– Nada. Nada mesmo. Ele só ouvia. Depois foi-se embora. Há pouco ele falou com os discípulos do pai, indo diretamente para Betânia.

Já estão quase chegando à porta que se abre para a estrada de Betânia. E João exclama:

– Olha! O lugarejo está com guardas. Por que será? Eles estão detendo quem quer sair.

– É que há uma agitação no lugarejo.

– Oh! Mas não será das mais fortes…

546.6Eles chegam perto da porta e são detidos como todos os outros.

– Qual a razão disso, ó soldado? Eu sou conhecido por todos na Fortaleza Antônia e de mim não podeis falar mal. Eu vos respeito e respeito as vossas leis –diz José de Arimateia.

– É ordem do centurião. O presidente está para entrar na cidade e queremos saber quem é que sai pelas portas, e especialmente por esta que dá para a estrada de Jericó. Nós te conhecemos. E conhecemos também a vossa boa disposição para conosco. Tu e os teus podeis passar. E se tendes autoridade sobre o povo, dizei que é bom para eles que estejam todos calmos. Pôncio não gosta de mudar seus hábitos para com os súditos que pretendem fazer-lhe sombra… e poderia até ser severo demais. É um conselho leal a ti que és leal.

E eles passam.

– Ouviste? Prevejo dias pesados… É necessário aconselhar os outros, mais do que o povo… –diz José.

546.7A estrada para Betânia está apinhada de pessoas que vão todas na mesma direção: para Betânia. Todas são pessoas que vão aos funerais. Veem-se sinedritas e fariseus misturados com saduceus e escribas, e estes com os camponeses, os servos e os intendentes das diversas casas e propriedades que Lázaro tem na cidade e nos campos. E quanto mais se chega perto de Betânia, mais desembocam pessoas de todos os caminhos e estradas, que convergem para esta, que é a principal.

Aí está Betânia. A Betânia que está de luto ao redor do seu maior cidadão. Todos os habitantes, vestidos com suas melhores vestes, já estão fora de suas casas, que estão fechadas, como se ninguém morasse nelas. Mas eles ainda não estão na casa do morto. A curiosidade faz que eles parem junto à cancela da beira da estrada. Observam quem é que passa dos convidados que vão chegando, e dizem uns aos outros os nomes deles e suas impressões.

– Eis Natanael ben Faba. Oh! O velho Matatias, parente do Jacó. O filho do Anás. Eis com Doras, Calachebona e Arquelau. Olha! Como terão feito para vir os que são da Galiléia? Aqui estão todos. Olha-os: Eli, Jocanã, Ismael, Urias, Joaquim, Elias, José… O velho Cananias com Sadoque, Zacarias e Jocanã, saduceus. Está também Simeão de Gamaliel. Sozinho. O rabi não está. Eis Elquias com Naum, Félix, Anás o escriba, Zacarias, Jônatas de Uriel! Saul com Eleazar, Trifão e Joazar. Esses são bons. Um outro dos filhos de Anás, o menor deles. Ele está conversando com Simão Camit. Filipe conversa com João, o Antipátrida. Alexandre, Isaque, Jonas de Babaon. Sadoque, Judas, descendente dos assideus, e o último, parece-me, da classe. Eis os intendentes dos diversos palácios. Não estou vendo os amigos fiéis. Mas quanta gente!

É verdade! Quanta gente! Todos muito calmos, uns deles com uns rostos pensativos e outros com os sinais de uma verdadeira dor no rosto. A cancela, aberta de par em par, vai engolindo a todos, eu vejo passar todos aqueles que, em diversas ocasiões, eu vi, uns trazendo no rosto os sinais de um coração benévolo e outros os sinais de serem inimigos de Jesus, quando se punham ao redor dele. Todos, menos Gamaliel e o sinedrita Simão. E vejo outros ainda que eu nunca tinha visto, ou que terei visto, mas sem saber seus nomes, nas disputas ao redor de Jesus… Os rabis vão passando com os seus discípulos e os escribas em grupos cerrados. Vão passando os judeus, de cujas riquezas vou ouvindo falar. O jardim está cheio de gente, de pessoas que aí estão depois de terem ido dizer palavras de condolências às duas irmãs, estando estas, talvez por ser esse o costume, sentadas por baixo do pórtico e por isso fora de casa. Depois, todos vão-se espalhando pelo jardim, num contínua confusão de cores e um contínuo gesto de saudações.

Marta e Maria estão arrasadas. Seguram-se pelas mãos, como se fossem duas meninas amedrontadas pelo vazio que se fez em sua casa, pelo nada que enche o seu dia, agora que não precisam mais cuidar de Lázaro. Elas escutam as palavras dos visitantes, choram com os verdadeiros amigos, com os dependentes fiéis, inclinam-se para os gélidos, imponentes e rígidos sinedritas, que lá foram mais para se mostrarem do que para prestarem honras ao defunto, e respondem, cansadas de repetir as mesmas coisas centenas de vezes aos que lhes fazem perguntas sobre os últimos momentos de Lázaro.

José, Nicodemos, os amigos mais fiéis, põem-se ao lado delas com poucas palavras, mas com uma amizade que as conforta mais do que muitas palavras.

548.8Elquias volta com os mais intransigentes, com os quais falou por muito tempo, e pergunta:

– Não poderíamos observar o morto?

Marta, em seu sofrimento, passa a mão pela fronte, e pergunta:

– Quando, alguma vez, se fez isso em Israel? Ele já está preparado.

E lágrimas escorrem lentamente de seus olhos.

– Não é de uso, é verdade. Mas nós o desejaríamos. Os amigos mais fiéis têm o direito de ver o amigo uma última vez.

– Também nós, irmãs dele, teríamos tido esse direito. Mas foi necessário embalsamá-lo logo. E ao voltarmos ao quarto de Lázaro, não vimos mais do que a figura de um corpo envolvido em faixas…

– Devíeis ter dado ordens mais claras. Não podíeis e não podereis levantar o sudário de sobre o rosto?

– Oh! Já está corrompido. E a hora dos funerais já chegou.

José toma a palavra:

– Elquias, parece-me que nós… por um excesso de amor estamos causando sofrimentos. Deixemos em paz as irmãs…

Adianta-se também Simeão, filho do Gamaliel, para impedir a resposta do Elquias:

– Meu pai virá logo que puder. Eu o estou representando. Ele tinha em grande apreço por Lázaro. E eu com ele.

Marta se inclina, respondendo:

– A honra do rabi ao nosso irmão seja recompensada por Deus.

Elquias, vendo ali o filho de Gamaliel, afasta-se sem insistir mais, e discute com outros, que o fazem observar:

– Mas não estás sentindo o mau cheiro? Queres duvidar disso? Afinal, iremos ver se cercam com muro o sepulcro. Ninguém vive sem ar.

Um outro grupo de fariseus se aproxima das irmãs. São eles quase todos da Galileia. Marta, tendo recebido as condolências deles, não pode se conter em dizer qual é o seu espanto pela presença deles lá.

– Mulher, o Sinédrio se reúne para deliberações de suma importância, e nós estamos na cidade para isso –explica Simão de Cafarnaum, olhando para Maria, de cuja conversão ele certamente está lembrado. Mas ele se limita a olhar para ela.

546.9Eis que vão para a frente Jocanã, Doras, filho de Doras, e Ismael com Cananias e Sadoque, e outros que eu não sei quem sejam. Antes mesmo de falarem, já estão falando com seus rostos de víboras. Mas estão esperando que José se afaste com Nicodemos para falarem a três judeus e poderem ferir. É o velho Cananias que, com sua voz rouca de velho decrépito, dá a punhalada.

– Que dizes a isso, Maria? O vosso Mestre é o único ausente entre os muitos amigos do teu irmão. É uma amizade singular. Havia tanto amor enquanto Lázaro estava bem! E indiferença quando chegou a hora de amá-lo. Todos receberam milagres de Jesus. Mas aqui não houve milagre! Que dizes a isso, mulher? Que achas de uma coisa assim? Enganou-te muito, muito mesmo o belo Rabi galileu. Não disseste que Ele havia dito que era preciso esperar até além do que podia ser esperado? Portanto, tu não esperaste, ou será que não adianta esperar nele? Eu esperei na vida, tu disseste. Pois bem. Ele se diz “a vida.” Mas lá dentro o teu irmão está morto. E lá já está aberta a boca do sepulcro. E o Rabi está ausente. E então?

– Ele sabe dar a morte e não a vida –diz, com um riso de escárnio, Doras.

Marta esconde o rosto entre as mãos e chora. A realidade é bem esta. Sua esperança. Sua esperança está desiludida. O Rabi está ausente. Nem mesmo para confortá-las Ele quis vir. E, no entanto, Ele já poderia estar lá. Marta chora. Nada mais sabe a não ser chorar.

Também Maria está chorando. Também ela está com a realidade à sua frente. Ela acreditou e esperou, além do que podia crer… mas nada aconteceu, e os servos já transportaram a pedra para a boca do sepulcro, porque o Sol já começou a descer, e o sol desce mais rápido no inverno, e hoje é sexta-feira, e tudo há de ser feito em tempo, e de maneira que os hóspedes não precisem transgredir a lei do sábado, que começará daqui a pouco. Ela esperou tanto, sempre, esperou demais. Ela esgotou sua capacidade de esperar. E está desiludida.

E Cananias insiste:

– Não me respondes? Agora, não te persuades de que Ele é um impostor, que desfrutou de vossos benefícios e escarneceu de vós? Pobres mulheres!

E sacode a cabeça no meio de seus companheiros, que o imitam, dizendo eles também:

– Pobres mulheres!

546.10Maximino se aproxima.

– Já é hora. Dai a ordem. Isso a vós compete.

Marta desaba no chão e, tendo sido socorrida, vai sendo levada embora nos braços, enquanto se ouve o grito lamentoso dos servos, pois eles compreenderam ter chegado a hora do sepultamento e entoam cânticos fúnebres.

Maria, convulsionada, esfrega as mãos. E suplica:

– Ainda um pouco! Ainda um pouco! E mandai os servos pelo caminho que vai para Ensemes e para a fonte, e que eles vão por todas as estradas. E que vão a cavalo. E vejam se vem vindo…

– Mas ainda esperas, ó infeliz? Mas que queres ainda para persuadir-te de que Ele vos traiu e vos enganou? Ele vos odiou e escarneceu de vós…

Já é demais! Com o rosto lavado pelo pranto, torturada, mas fiel, no semicírculo formado por todos os convidados que se reuniram para verem a saída do caixão, é Maria quem proclama:

– Se Jesus de Nazaré assim fez, está bem, e é grande o seu amor por todos nós de Betânia. Tudo pela glória de Deus e a dele! Ele disse que disso virá glória para o Senhor, porque o poder de seu Verbo resplandecerá plenamente. Finaliza, Máximo! O sepulcro não é nenhum obstáculo para o poder de Deus…

Ela, amparada por Noemi, se aparta um pouco da multidão e faz um aceno. O defunto envolvido em suas faixas já vai saindo da casa, atravessa o jardim, passando por entre duas alas de pessoas, pelo meio do barulho das lamentações. Maria gostaria de acompanhá-lo, mas fica hesitante. Ela entra numa das fileiras, quando já todos estão indo para o sepulcro. E ela chega a tempo de ver ainda o desaparecimento daquele longo vulto imóvel no interior escuro do túmulo, por fora do qual brilham, com sua luz vermelha, as tochas que os servos seguram no alto, a fim de iluminarem a escada para os que vão descendo com o morto. Pois o sepulcro de Lázaro fica cravado na terra, talvez para poderem aproveitar as camadas da rocha subterrânea.

Maria grita… Está em grande aflição… Grita… E, ao nome do irmão, ela une o nome de Jesus. Parece que lhe estão arrancando o coração. Mas ela só diz aqueles dois nomes, e os repete, até que o pesado rumor feito pela tampa que é colocada sobre a boca da tumba, lhe diz que Lázaro não está mais sobre a terra, nem com o corpo. Então, ela desmaia, e perde o conhecimento de tudo. Cai por cima de quem a estava amparando e suspira ainda, enquanto vai se aprofundando no nada do esquecimento: “Jesus! Jesus!”, e é levada embora dali.

546.11Fica Maximino a despedir-se dos convidados e a agradecer-lhes m nome dos parentes. Ele ouve ainda como todos estão dizendo que voltarão para as lamentações todos os dias… A multidão se dispersa, pouco a pouco. Os últimos a partirem são José, Nicodemos, Eleazar, João, Joaquim e Josué. E ao chegarem à cancela, encontram Sadoque com Uriel, que estão rindo de maldade, e dizendo:

– O desafio dele! E nós tivemos medo!

– Oh! Ele estava bem morto. Como cheirava mal, por mais aromas que lhe tenham posto. Não há dúvidas, não! Não era necessário levantar o sudário. Eu creio que já esteja em poder dos vermes.

Eles estão felizes.

José olha para eles. É um olhar tão sério, que acaba com todas as palavras e risadas. Todos se apressam para voltar, a fim de estarem na cidade antes que termine o pôr do sol.

1 aquele que era ciumento, como é narrado no capítulo 409.


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