237. 237. O pedido de operários para a messee a parábola do tesouro escondido no campo.Marta teme ainda pela irmã Maria.
29 de julho de 1945.
237.1Jesus está no caminho que, do lago Meron vai para o lago da Galileia. Estão Ele, Zelotes e Bartolomeu perto de uma torrente, reduzida agora a um fio d’água, e parece que está esperando, à sombra de árvores copadas, aos que vão chegando dos dois lados contrários.
O dia está muito quente e, no entanto, muitas pessoas foram acompanhando os três grupos dos que devem ter pregado pelas campinas e guiado os doentes para o grupo de Jesus, reservando-se eles o direito de pregar sobre Ele aos que estão sãos. Muitos miraculados estão formando juntos um grupo feliz, sentados por entre as árvores, e neles a alegria é tão grande, que nem sentem o cansaço produzido pelo calor, pela poeira e pela luz deslumbrante, coisas essas que molestam bastante todas os outros.
Quando o grupo, chefiado por Judas Tadeu, chega em primeiro lugar perto de Jesus, pode-se ver bem o cansaço de todos os que formam o grupo e o acompanham. Em último lugar, vem o grupo chefiado por Pedro e no qual há muitas pessoas de Corozaim e de Betsaida.
– Conseguimos, Mestre. Mas seria necessário que houvesse muitos grupos…Tu estás vendo. Já não se pode mais fazer longas caminhadas por causa do calor. E, então, como iremos fazer? Parece que o mundo vai-se alargando, e nós precisamos ser em maior número para podermos percorrer os povoados e atingir maiores distâncias. Eu nunca imaginei que a Galileia fosse tão grande. Nós estamos num canto dela, num canto mesmo, e não conseguimos evangelizá-la, de tão vasta que ela é e de tão grandes que são as necessidades e os desejos de Ti –suspira Pedro.
– Não é que o mundo cresceu, Simão. O que cresce é o conhecimento do nosso Mestre –responde Tadeu.
– Sim, é verdade. Olha, quanta gente. Alguns deles nos acompanham desde a manhã. Nas horas quentes fomos abrigar-nos em um bosque. Mas, mesmo agora que já vem chegando a tarde, é penoso caminhar. E estes pobrezinhos estão muito mais longe de casa do que nós. Se tudo cresce sempre assim, nem sei o que vamos fazer… –diz Tiago de Zebedeu.
– Em outubro, virão também os pastores –comenta André.
– Ah! Sim. Pastores, discípulos, belas coisas! Mas eles só sabem dizer: “Jesus é o Salvador. Ele está lá.” Nada mais do que isso –responde Pedro.
– Mas, pelo menos, o povo ficará sabendo onde encontrá-lo. Agora, ao contrário. Nós vamos para um lugar, e eles correm para lá. E, quando eles vem vindo para cá, nós vamos para outro lugar, e eles têm que ir correndo atrás de nós. E fazer isso, levando crianças e doentes, não é nada cômodo.
237.2Jesus fala:
– Tens razão, Simão Pedro. Eu também tenho compaixão destas almas, dessas multidões. Para muitos, o não poderem achar-me em um certo momento pode ser até causa de alguma irreparável desventura. Olhai como eles estão cansados e desnorteados, os que ainda não têm certeza da minha verdade, e como estão esfaimados os que já saborearam a minha palavra, e não sabem mais ficar sem ela, pois nenhuma outra palavra é capaz de os satisfazer. Parecem ovelhas sem pastor, que vagam, não encontrado quem as guie e as apascente. Mas eu providenciarei. Contudo, vós haveis de ajudar-me com todas as vossas forças espirituais, morais e físicas. Não mais em grupos numerosos, mas dois a dois é que devereis andar. E mandaremos dois a dois os discípulos melhores. Porque a messe é realmente grande. Ah! Neste verão Eu vos prepararei para essa grande missão. Lá pelo mês de Tamus, estaremos juntos com Isaque e com todos os melhores discípulos. E Eu vos prepararei. Ainda não bastareis. Porque, se a messe é realmente grande, os operários, por sua vez, são poucos. Rogai, pois, ao Dono da terra que mande muitos operários para a sua messe.
– Sim, meu Senhor. Mas não mudará muito a situação destes que te procuram –diz Tiago de Alfeu.
– Por quê, meu irmão?
– Porque esses, que estão te procurando, procuram não somente doutrina e a palavra da Vida, mas também a cura de suas doenças, de suas enfermidades, para toda fraqueza, que a vida ou satanás trazem para sua parte inferior ou superior. E isto, só Tu podes fazer, porque em Ti está o poder.
– Aqueles que estão unidos a Mim chegarão a fazer o que Eu faço, e os pobres serão socorridos em todas as suas misérias. Mas ainda não tendes em vós o que é necessário para fazer isso. Esforçai-vos para vos superardes a vós mesmos, a conculcar a vossa humanidade, para que triunfe o vosso espírito. Assimilai não somente a minha palavra, mas o espírito dela, isto é, santificai-vos por ela, e depois, tudo podereis. E agora vamos dizer a eles a minha palavra, visto que não querem ir-se embora, se Eu não lhes tiver dado a palavra de Deus. Depois, voltareis a Cafarnaum. Lá também estarão os que nos esperam…
237.3– Senhor, mas é verdade que Maria Madalena pediu perdão a Ti na casa do fariseu?
– É verdade, Tomé.
– E Tu o deste? –pergunta Filipe.
– Eu o dei.
– Mas fizeste mal! –exclama Bartolomeu.
– Por quê? Era um arrependimento sincero, e merecia perdão.
– Mas não devias dá-lo naquela casa, publicamente… –censura Iscariotes.
– Mas Eu não vejo em que é que errei.
– Erraste nisto: Tu sabes quem são os fariseus e quantas cavilações eles têm na cabeça, como eles te vigiam, como te caluniam, como te odeiam. Um deles Tu tinhas como teu amigo em Cafarnaum, era Simão. E Tu chamas para ir à casa dele uma prostituta, para profanar a casa do amigo Simão e dar-lhe um escândalo.
– Eu não a chamei. Ela é que foi lá. Não era uma prostituta. Era uma arrependida. Isso muda muito. Se não se tinha nojo de aproximar-se dela antes, nem de desejá-la sempre, e até em minha presença, também agora que ela não é mais uma carne, mas uma alma, não se deve ter nojo de vê-la entrar para ajoelhar-se aos meus pés, e para chorar acusando-se, aviltando-se naquela humilde confissão pública, que era o que aquele pranto significava. Simão fariseu teve sua casa santificada por um grande milagre: a ressurreição de uma alma. Na praça de Cafarnaum, há cinco dias, ele me perguntava: “De milagre, só fizeste aquele?”, e ele mesmo respondia: “Certamente que não”, e tinha ele muito desejo de ver um deles. E Eu lhe dei. Eu o escolhi para ser a testemunha, o paraninfo daqueles esponsais da alma com a Graça. Ele deve estar orgulhoso.
– Pelo contrário, com isso ele ficou escandalizado. Talvez tenhas perdido um amigo.
– Eu achei uma alma. Vale a pena perder um homem e a sua pobre amizade de homem, para pôr uma alma na amizade com Deus.
– É inútil. Contigo não se pode conseguir uma reflexão humana. Estamos na terra, Mestre! Lembra-te disso. Ainda estão vigentes as leis e as ideias da terra. Tu queres agir com o método do Céu, e te moves no teu Céu, que tens no coração, e tudo queres ver através das luzes do Céu. Pobre Mestre meu! Como és divinamente inepto para viveres entre nós perversos!
E Judas Iscariotes o abraça, admirado e desolado, e termina dizendo:
– E eu sinto muito, porque, indo atrás de uma exagerada perfeição, Tu estás criando uma grande quantidade de inimigos.
– Não te compadeças Judas. Está escrito que assim seja. Mas, como é que sabes que Simão ficou ofendido?
– Eu não disse que ficou ofendido. Mas a mim e a Tomé ele deu a entender que aquilo não estava bem. Não devias convidá-la a ir à casa dele, pois lá só entram pessoas honestas.
– Bom. Quanto à honestidade dos que vão à casa do Simão, deixemo-la de lado –diz Pedro.
E Mateus acrescenta:
– Eu poderia dizer que o suor das prostitutas escorreu muitas vezes por sobre os pavimentos de Simão, o fariseu, por sobre as mesas e por outros lugares.
– Mas não publicamente –rebate Iscariotes.
– Não. Com a hipocrisia encarregada de o esconder.
– Olha que, então, tudo muda.
– O que também muda é a entrada de uma prostituta, que entra para dizer: “Eu deixo o meu pecado infame.” É bem diferente de outra que entra para dizer: “Eis-me aqui para ti, a fim de praticarmos o pecado juntos.”
– Mateus está com a razão –dizem todos.
– Sim. Ele tem razão. Mas eles não pensam como nós. É preciso que façamos tratos com eles, e nos adaptemos a eles, para podermos tê-los como amigos.
– Isso, nunca, Judas. Na verdade, na honestidade, na conduta moral não existem adaptações nem tratos –troveja Jesus.
E termina:
– Afinal, Eu sei que agi bem e para o bem. E basta. 237.4Vamos despedir-nos daqueles pobres cansados.
E Ele vai até aqueles que estão espalhados por baixo das árvores, e que estão olhando na direção dele, cheios do desejo de ouvi-lo.
– A paz esteja com todos vós, que atravessastes muitos estádios, debaixo de um sol ardente, para virdes ouvir a Boa Nova. Em verdade, Eu vos digo que vós estais começando a compreender realmente o que é o Reino de Deus e quão preciosa é a posse dele, a felicidade de a ele pertencer. Assim é que todo cansaço para nós perde a importância, quando para os outros ele a conserva. Porque o espírito é que dá ordens em nós, e ele diz à carne: “Alegra-te porque eu te oprimo. É para a tua felicidade que eu o faço. Quando estiveres reunido a mim, depois da ressurreição final, tu me amarás por eu te ter calcado aos pés, e verás tu em mim o teu segundo salvador.” Não é assim que fala o vosso espírito? Mas, certamente, que ele o diz! Vós agora apoiais as vossas ações no ensinamento das minhas parábolas antigas. Mas agora vou dar-vos outras luzes, para fazer que vos torneis cada vez mais enamorados por este Reino, que vos espera e cujo valor é incomensurável.
Ouvi: Um homem, tendo ido a um campo apanhar terriço para a sua pequena horta, ao escavar com muito esforço a terra dura, encontrou, por baixo de algumas camadas da terra, um filão de metal precioso. Que faz então aquele homem? Recobre com a terra a descoberta feita, não lhe importa trabalhar mais ainda, porque a descoberta bem merece a fadiga. Depois, ele vai para casa, conta as riquezas que tem em dinheiro e em outras coisas, e estas últimas ele vende, para ter em mãos muito dinheiro. Em seguida, ele vai ao dono do campo e lhe diz: “O teu campo me agrada. Quanto queres para vender-me?” “Mas eu não o estou vendendo”, diz o outro. Então o homem oferece-lhe somas cada vez maiores e completamente fora de qualquer proporção com o valor do campo, e termina seduzindo o dono dele, o qual fica pensando: “Este homem é um louco! Mas, desde que ele o é, eu vou tirar vantagem disso. Eu vou pegar a soma que ele me está oferecendo. Não estou praticando usura, porque é ele quem a quer dar. Com ela, eu comprarei, pelo menos, outros três campos, e mais bonitos”, e faz a venda, convencido de ter feito um esplêndido negócio. Mas, ao contrário, o outro é que faz um esplêndido negócio, porque ele se priva de bens que podem ser levados pelo ladrão, ou ser perdidos, ou gastos, e procura obter um tesouro que, além de ser verdadeiro e natural, é inesgotável. Vale, pois, a pena, sacrificar tudo o que ele tem, para fazer essa aquisição, ficando ele, por enquanto, só com a posse do campo, mas na realidade passando a possuir para sempre aquele tesouro encerrado nele.
Vós já entendestes o negócio. Fazei, então como o homem da parábola. Deixai as riquezas efêmeras, para possuirdes o Reino dos Céus, vendei-as aos estultos do mundo, cedei-as a eles, aceitai até que se riam de vós por isso que, aos olhos do mundo, pode parecer um modo tolo de negociar. Fazei assim, sempre assim, e o vosso Pai, que está nos Céus, com muita alegria vos dará um dia o vosso lugar no Reino.
Voltai para as vossas casas, antes que chegue o sábado e, durante o dia do Senhor, pensai na parábola do tesouro, que é o Reino dos Céus. A paz esteja convosco.
237.5O povo vai-se espalhando lentamente pelas estradas e caminhos da campina, enquanto Jesus vai indo para Cafarnaum, ao cair da tarde.
Ele chega lá, já de noite. Atravessam em silêncio a cidade, à luz do luar, a única luz que ainda clareia as vielas escuras e mal calçadas. Entram assim, em silêncio, na pequena horta ao lado da casa, julgando que todos já estão na cama. Mas, não é assim, porque uma luz está ainda acesa na cozinha, e lá se vem três sombras, que se tornam movediças por causa do movimento da chamazinha, e se projetam sobre a pequena parede branca do forno, que fica perto.
– Aí há gente que te espera, Mestre. Mas desse modo não podemos continuar. Eu vou dizer-lhes que estás muito cansado. Enquanto isso, vai, Tu, para o terraço.
– Não, Simão. Eu vou à cozinha. Se Tomé deteve essas pessoas, é sinal de que houve um motivo sério.
Enquanto isso, os de dentro ouviram a conversa, e Tomé, dono da casa, vai até a soleira.
– Mestre, aqui está aquela dama. Ela já está esperando desde ontem, ao pôr do sol. Ela está com um criado.
E depois ele diz a meia voz:
– Ela está muito agitada. E chora sem parar…
– Está bem. Dize-lhe que vá lá para cima. Onde foi que ela dormiu?
– Ela não queria dormir. Mas, finalmente, se retirou por algum tempo, já de madrugada, para o meu quarto. E o criado eu fiz que fosse dormir em um dos vossos leitos.
– Tudo bem. Que durma nesta noite também. E tu dormirás na minha.
– Não, Mestre. Eu irei para o terraço e dormirei nas esteiras. E dormirei um bom sono, do mesmo jeito.
237.6Jesus sobe para o terraço. E a Marta também sobe.
– A paz esteja contigo, Marta.
Um soluço foi a resposta.
– Estás chorando ainda? Não estás bem?
A cabeça de Marta faz sinal que não.
– Mas, que há, então?
Uma longa pausa se faz, cheia de soluços. Enfim, depois de um gemido, ela diz:
– Já faz muitas noites, que Maria não voltou. E não se sabe onde está. Nem eu, nem Marcela, nem a nutriz a encontramos… Ela tinha saído conduzindo o carro. Estava toda pomposa em suas vestes… Oh! Ela não tinha querido pôr de novo as minhas!… Não estava seminua, nem daquelas de antes, mas era muito provocante nestas… Ouros e perfumes ela levou consigo…e não voltou mais. Mandou embora o criado, logo que chegou perto das primeiras casas de Cafarnaum, dizendo-lhe: “Eu voltarei com outra companhia.” Mas não voltou mais. Ela nos enganou. Ou, então, ela se sentiu sozinha, talvez tentada… ou lhe aconteceu algum mal… Ela não voltou mais…
E Marta cai de joelhos chorando, com a cabeça inclinada sobre o antebraço, colocado sobre um monte de sacos vazios.
Jesus olha para ela, e diz, devagar e com firmeza, como um dominador:
– Não chores. Maria veio a Mim, há três dias. Ela me ungiu os pés com bálsamo, e pôs aos meus pés todas as suas joias. Consagrou-se assim, e para sempre, tomando lugar entre as minhas discípulas. Não a fiques denegrindo em teu coração. Ela te superou.
– Mas onde, onde está, então, a minha irmã? –grita Marta, erguendo um rosto transtornado–. Por que é que ela não voltou para casa? Teria sido assaltada? Terá talvez tomado uma barca para ir se afogar? Ou, talvez, algum amante rejeitado a raptou? Oh! Maria! A minha Maria! Eu a havia reencontrado, e logo a perdi?
Marta está mesmo fora de si. Ela nem pensa mais que os que estão lá em baixo a possam estar ouvindo. Nem pensa mais que Jesus pode dizer-lhe onde é que está a sua irmã. Ela se desespera, sem refletir em nada mais.
237.7Jesus a segura pelos pulsos e a obriga a ficar quieta e a ouvi-lo, dominando-a com sua alta estatura e com seu olhar magnético.
– Basta. Eu quero que tenhas fé em minhas palavras. Quero de ti generosidade. Entendeste?
E não a deixa ir, senão quando ela se tranquiliza um pouco.
– Tua irmã foi saborear sua alegria, envolvendo-se em uma solidão santa, porque nela há o supersensível pudor dos redimidos. Eu já te havia dito antes. Ela não pode suportar o olhar doce, mas indagador, dos parentes, a respeito de sua veste nova de esposa da Graça. E isto que Eu digo é sempre verdade. Tu deves crer em Mim.
– Sim, Senhor, sim. Mas minha Maria foi demais, foi demais escrava do demônio. Ele, de repente a pegou de novo, ele…
– Ele se está vingando em ti por ter perdido para sempre a sua presa. Eu devo, então, ficar vendo como tu, a forte, te tornas presa dele por essa ansiedade louca, sem razão de ser? Devo crer que, por causa dela, que agora crê em Mim, tu tenhas que perder a tua bela fé, que Eu sempre conheci? Marta, olha bem para Mim. Escuta-me. Não escutes satanás. Não sabes que, quando é obrigado a soltar uma presa, por causa de uma vitória de Deus contra ele, começa logo a agir, este incansável torturador dos seres, este incansável ladrão dos direitos de Deus, para encontrar outras presas? Não sabes que são as torturas de um terceiro, que resiste aos assaltos porque é bom e fiel, que são elas que consolidam a cura de um outro espírito? Não sabes que nada está desligado de tudo o que acontece e existe na criação, mas que tudo segue uma lei eterna de dependências e de consequências, pelas quais o ato de um tem repercussões naturais e sobrenaturais vastíssimas?
237.8Tu choras aqui, tu que conheces a dúvida atroz, e permaneces fiel ao teu Cristo, mesmo nesta hora tenebrosa. Lá, em um lugar próximo e desconhecido por ti, Maria sente desfazer-se a última dúvida que ela tinha sobre a totalidade do perdão recebido, e o seu pranto se muda em sorriso, e as suas sombras em luz. Foi o teu tormento que a guiou para lá, onde ela está em paz, lá onde se regeneram as almas, junto da Genetriz sem mancha, junto daquela que é tanto Vida, que obteve a graça de ter dado ao mundo o Cristo, que é a Vida. Tua irmã está na casa de minha Mãe. Ah! Não é ela a primeira que vai recolher as velas naquele porto de paz, depois que o raio suave da viva Estrela Maria a chamou àquele seio de amor por amor, mudo mas ativo, do seu Filho! Tua irmã está em Nazaré.
– Mas, como é que ela foi parar lá, se não conhece a tua Mãe, nem a tua casa?… Sozinha… E de noite!… Assim… Sem meios… Com aquelas roupas…Com um longo caminho a fazer…Como?
– Como? Como vai a andorinha cansada até o ninho nativo, atravessando mares e montes, enfrentando tempestades, nevoeiros e ventos contrários? Como vão as andorinhas aos lugares de invernagem? Elas vão por um instinto que as guia, pelo calor que as atrai, pelo sol que as chama. Ela também foi correndo para o raio de Sol que a chamava… para a Mãe universal. E a veremos chegar no fim da madrugada, feliz, tendo saído para sempre das trevas, com uma Mãe a seu lado, a minha, e para que nunca mais fique órfã. Podes tu crer nisto?
– Sim, meu Senhor.
Marta está como que fascinada. De fato, Jesus foi realmente um dominador. Alto, ereto e levemente inclinado sobre Marta, que está ajoelhada, Ele falou devagar, mas de um modo incisivo, como se o fizesse para infundir-se a si mesmo na discípula transtornada. Poucas vezes eu o vi tão poderoso assim para persuadir com a palavra um dos seus ouvintes. Mas no fim, que luz, que sorriso em seu rosto.
– E agora, vai descansar. Em paz.
E Marta lhe beija as mãos, e desce, tranquilizada.
[…].