282. 282. A acusação ao Sinédrio com relaçãoa Ermasteo, João de Endor e Síntique.


21 de setembro de 1945.

282.1Jesus, com os apóstolos e discípulos, dirigiu-se para Betânia, falando ao discípulos, aos quais dá a ordem de se separarem, indo os judeus para a Judeia, os galileus subindo de novo para o outro lado do Jordão, e anunciando o Messias.

Isto evita qualquer objeção. Parece-me que o além-Jordão não gozava de boa fama entre os israelitas. Falam dele quase como de regiões pagãs. Mas isso é uma ofensa para os discípulos do além-Jordão, entre os quais, como uma voz mais autorizada do que todas as outras, o sinagogo de Águas Belas, e depois um jovem, cujo nome eu não sei, e defendem com unhas e dentes as suas cidades e os seus concidadãos.

Timoneu diz:

Vai, Senhor, a Aera, e verás se lá não te respeitam. Não encontrarás tanta fé na Judeia, como lá. Eu nem quero ir. Conserva-me contigo, e que um judeu vá com um galileu à minha cidade. Verão como ela soube crer em Ti, só pela minha palavra.

E o jovem diz:

Eu soube crer, sem nem mesmo nunca haver-te visto. Eu te procurei, depois do perdão de minha mãe. Mas eu estou feliz por poder voltar lá em cima, por mais que isso signifique para mim ir receber as zombarias dos meus concidadãos malvados, como eu era há tempo, e a censura dos bons pela minha conduta passada. Mas não me importa. Eu te pregarei com o meu exemplo.

Disseste bem. E tu também, Timoneu, tu também falaste bem. Irão, então, Hermas com Abel de Belém da Galileia, para me anunciarem em Aera, enquanto tu, Timoneu, ficarás comigo. Mas Eu não quero essas disputas. Não sejais mais judeus nem galileus; sede discípulos. Assim basta. O nome e a missão vos igualam na região, no grau, em tudo. Só em uma coisa podeis ser diferentes: na santidade. Essa será individual, e na medida em que cada um a souber atingir. Mas Eu gostaria que tivésseis todos uma mesma medida: a medida perfeita. Estais vendo os apóstolos? Eles eram como vós, divididos por questões de raças e outras coisas. Mas agora, depois de um ano e tanto de instrução, eles são apenas os apóstolos. Fazei-vos também assim e, como entre vós o sacerdote está perto do antigo pecador, e o rico está perto do mendigo, o jovem ao lado do velho, por isso procurai fazer desaparecer isto de andardes dizendo que sois desta ou daquela região. Vós tendes uma só Pátria: é o Céu agora. Porque no caminho do Céu vós vos colocastes, porque quisestes. Não deis nunca aos meus inimigos a impressão de que sois inimigos uns dos outros. O inimigo é o pecado. E nenhum outro.

282.2Andam ainda em silêncio por algum tempo. Depois Estêvão se aproxima do mestre e diz:

Deverei dizer-te uma coisa. Eu esperava que Tu me perguntasses, mas não o fizeste. Ontem Gamaliel me falou…

Eu vi.

E não me perguntas o que foi que ele me disse?

Estou esperando que tu o digas, porque o bom discípulo não tem segredo para o seu Mestre.

Gamaliel… Mestre, vem alguns metros à frente comigo.

Vamos em frente. Mas poderias falar na presença de todos…

Afastam-se alguns metros. Estêvão, com um rosto muito corado, diz:

Eu te devo dar um conselho, Mestre. Perdoa-me…

Se o conselho for bom, Eu o aceitarei. Então, fala.

Mestre, no Sinédrio tudo se sabe antes e depois. É uma instituição que tem mil olhos e cem garras. Ela penetra por toda parte, tudo vê, tudo ouve. Além disso… tem mais informantes do que os tijolos que o Templo tem… Muitos vivem disso…

Fazendo espionagem… Continua o que ias dizendo. É verdade, e Eu sei disso. E então? Que terá sido dito de mais ou menos verdadeiro ao Sinédrio?

Foi-lhe dito… tudo. Eu nem sei como podem saber tantas coisas. Não sei nem se são verdadeiras. Mas vou dizer-te o que me disse Gamaliel, exatamente com estas palavras: “Dize ao Mestre que faça circuncidar Hermasteu ou, então o afaste para sempre. Não é preciso dizer mais nada.”

De fato, não é preciso dizer mais nada. Antes de tudo porque Eu vou a Betânia justamente para isso, e por lá ficarei, até que Hermasteu possa viajar de novo. Em segundo lugar, porque nenhuma justificação poderia acabar com as prevenções e… os rigores de Gamaliel, escandalizado pelo fato de ter Eu comigo a alguém que não foi circuncidado em um membro do corpo. Oh! Seria bom que ele olhasse ao redor de si, e dentro de si! Quantos incircuncisos há em Israel!

Mas Gamaliel…

Ele é o perfeito representante do velho Israel. Não é mau, mas… Olha esta pedra. Eu poderia quebrá-la, mas não achatá-la com um martelo, pois ela não se torna maleável. Assim é ele. Ele precisa ser triturado, para que se possa montar suas peças de novo. E Eu o farei.

Queres combater com Gamaliel? Cuidado! Ele é forte!

Combater? Como se fosse um inimigo? Não. Em vez de o combater, Eu o amarei, atendendo a um desejo dele para o seu cérebro mumificado, derramando nele um bálsamo que o dissolverá, para depois montá-lo de novo.

Eu também rezarei para que isso aconteça, porque eu lhe quero bem. Faço mal?

Não. Deves querer-lhe bem, rezando por ele. E o farás. É certo que o farás. Até me ajudarás, tu mesmo, a preparar o bálsamo. Dirás depois a Gamaliel que Eu tinha já preparado para Hermasteu, e que lhe sou grato pelo conselho. 282.3 Chegamos a Betânia. Paremos aqui, para que Eu vos abençoe a todos, já que aqui é o lugar da nossa separação.

E, reunindo-se ao grupo cerrado dos apóstolos e dos discípulos, Ele os abençoa e se despede de todos, menos de Hermasteu, de João de Endor e de Timoneu.

Depois, com os que ficaram, dá, apressado, os poucos passos que ainda o separam da cancela de Lázaro, já escancarada para recebê-lo, e entra no jardim, elevando a mão para abençoar a casa hospitaleira, em cujo amplo parque estão espalhados os donos das casas e as piedosas mulheres, que se riem das corridas de Marziam pelos caminhos enfeitados com as últimas rosas. E, com os donos das casas e as mulheres, ao grito destas últimas, apontam por um caminho José de Arimateia e Nicodemos, também eles hóspedes de Lázaro, para poderem estar em paz com o Mestre. E vão todos ao encontro de Jesus; Maria, com o seu doce sorriso, Maria de Magdala com um grito de amor: “Raboni!”, e Lázaro, que sai mancando, os dois graves sinedritas e, por fim, as piedosas mulheres de Jerusalém e da Galileia, umas com os rostos já marcados pelas rugas, outras que são ainda jovens com uns rostos lisos e, suave como o rosto de um anjo, o rostinho virginal da Anália, que fica toda corada, ao saudar o Mestre.

Síntique não veio? –pergunta Jesus depois das primeiras saudações.

Ela ficou com Sara, Marcela e Noemi, arranjando as mesas. Mas elas já estão vindo.

E, de fato, elas já vêm vindo, junto com velha Ester de Joana, dois rostos marcados pela idade e pelas dores passadas — entre dois outros rostos serenos e, diferente pela raça e em tudo mais, um outro rosto severo e, contudo, luminoso e cheio de paz: o rosto da grega Síntique.

Eu não poderia nem mesmo descrevê-la como sendo de uma verdadeira e genuína beleza. Mas, mesmo assim, os olhos dela são de um negror adocicado com esfumaturas de anil muito escuro, por baixo de uma fronte alta e muito nobre, e chamam a atenção ainda mais do que o seu corpo que, sem dúvida, é mais belo que o rosto, isto sim. É um corpo esbelto, sem chegar a ser magro, bem proporcionado, harmônico no andar e em seus movimentos. Mas é o olhar, este olhar inteligente, aberto, profundo, que parece querer aspirar o mundo, selecioná-lo, segurar o que é bom, o que é útil, que é santo, e rejeitar o que é mau. É este um olhar sincero, que se deixa examinar até o fundo, e através do qual a alma se mostra, para perscrutar quem se aproxima dela, e isto é o que nela chama a atenção. Se é verdade que os olhos permitem conhecer a pessoa, eu digo que Síntique é dona de um juízo seguro e de firmes e honestos pensamentos.

Ela também se ajoelha com as outras e, para levantar-se, espera que o Mestre o ordene.

282.4Jesus continua a andar pelo verde jardim, indo até o pórtico, que está à frente da casa, e depois entra em uma sala, onde os servos estão prontos para servir a refeição e para ajudar os que acabaram de chegar, em suas purificações antes de irem pôr-se à mesa. Enquanto as mulheres se retiram todas, Jesus fica com os apóstolos na sala e João de Endor com Hermasteu vão à casa de Simão Zelotes, para lá deixarem os sacos que trouxeram,

Aquele jovem, que foi com João, o caolho, é aquele filisteu que Tu aceitaste? –pergunta José.

Sim, José. Como foi que soubeste disso?

Mestre… Eu e Nicodemos perguntamos, há alguns dias, como poderíamos sabê-lo, e como é que o podem saber os outros do Templo, infelizmente. Mas o certo é que nós o sabemos. Antes da festa dos Tabernáculos, durante a sessão que sempre há antes da festa, alguns fariseus disseram que sabiam com certeza que, entre os teus discípulos, além de… — perdoa-me, Lázaro —, pecadoras conhecidas, e de publicanos — perdoa-me, Mateus, filho de Alfeu —, e com os galeotes se haviam unido um filisteu incircunciso e uma pagã. Quanto à pagã, que com certeza é Síntique, compreende-se que se possa saber ou, pelo menos perceber. O barulho que o romano fez foi grande, e tornou-se motivo de risadas entre os seus semelhantes e entre os judeus, ainda mais porque ele andou, entre queixoso e ameaçador ao mesmo tempo, a procurar por toda parte a sua fujona, indo importunar até a Herodes, porque dizia que ela se havia escondido na casa de Joana e que o Tetrarca devia dar ordens ao seu intendente para entregá-la ao seu dono. Mas, que, entre tantos homens que te seguem, se possa saber que um é filisteu e incircunciso e outro que já foi galeote!… É estranho. Muito estranho. Não te parece?

É e não é. 282.5Tomarei providências quanto a Síntique e quanto ao que já foi galeote.

Sim. Farás bem em afastar sobretudo João. Ele não fica bem nas tuas fileiras.

José, terás tu, por acaso, te tornado fariseu? –pergunta Jesus com severidade.

Não…mas…

E Eu deveria desprezar uma alma, que se regenerou, só por causa de um estulto escrúpulo do pior dos farisaísmos? Não, isto não farei. Eu tomarei providências para a tranquilidade dela. Não da minha. Eu velarei para a sua formação, como velo pelo inocente Marziam. Em verdade, não há diferença na ignorância espiritual deles! Um diz, pelas primeiras vezes, palavras de sabedoria, porque Deus o perdoou, por ter renascido em Deus, pois Deus abraçou e uniu a Si o pecador. O outro as diz, porque, tendo passado de uma meninice abandonada para uma adolescência sobre a qual vela mais o amor do homem que o de Deus, abre, então, sua alma como uma corola ao sol, e o sol, por Si mesmo, o ilumina. O sol dele: Deus. E um está para dizer as últimas palavras… Não tendes olhos para ver que ele se consome na penitência e no amor? Oh! Que em verdade Eu quereria ter muitos Joãos de Endor em Israel, e entre os meus servos. Eu gostaria que tu também, José, e tu, Nicodemos, tivésseis o coração dele e, sobretudo, que o tivesse o seu delator, a serpente vil, que se esconde debaixo da veste de amigo, e que exerce a espionagem, antes de tornar-se assassino. A serpente que tem inveja das asas do passarinho, e lhe arma ciladas para arrancar-lhe as asas e jogá-lo na prisão. Ah! Não. O passarinho está para virar anjo. E, ainda que a serpente pudesse arrancar-lhe as asas, elas, colocadas sobre o seu corpo viscoso, mudar-se-iam em asas de demônio. Todo delator já é um demônio.

282.6 Mas, onde estará esse tal? Dize-o a mim, para que eu possa ir logo arrancar-lhe a língua –exclama Pedro.

Farias melhor em arrancar-lhe os dentes do veneno –diz Judas de Alfeu.

Mas, não. É melhor estrangulá-lo. Assim não fará mais mal com nada. Há seres que sempre podem fazer mal… –diz Iscariotes.

Jesus o fita, e termina dizendo:

… e mentir. Mas ninguém deve fazer nada contra ele. Não vale a pena ocupar-nos com a cobra, e deixar morrer o passarinho. Quanto a Hermasteu, Eu estarei por aqui, ficando na casa de Lázaro, para a circuncisão do mesmo Hermasteu que, por amor de Mim e para evitar perseguições das tacanhas mentes hebreias, abraça a relíquia santa do nosso povo. Isso não é mais que uma passagem das trevas para a Luz. E não é necessário para que venha a Luz ao coração. Mas Eu consinto para que se acalmem as susceptibilidades de Israel, e para mostrar a verdadeira vontade do filisteu de chegar a Deus. Mas Eu vos digo que no tempo do Cristo isso não é necessário para que se seja de Deus. Basta a vontade e o amor, basta a retidão de consciência. E, onde circuncidaremos a grega? Em que ponto do seu espírito, se, por si mesma ela soube sentir a Deus melhor do que muitos em Israel? É verdade que, entre os presentes, muitos são trevas, em comparação com estes desprezados, que vós achais que são trevas. De qualquer modo, tanto o delator, como vós, sinedritas, podeis informar a quem deveis fazê-lo que o escândalo está tirado, a partir de hoje mesmo…

De quem? De todos os três?

Não, Judas de Simão. De Hermasteu. Quanto aos outros, iremos providenciando. Tens mais o que perguntar?

Eu não, Mestre.

E nem Eu tenho nada mais a te dizer. 282.7Mas Eu é que vos pergunto, a fim de que mo digais, se o souberdes, que é que está acontecendo com o patrão de Síntique?

O que está acontecendo é que Pilatos o mandou para a Itália, com o primeiro navio que teve à sua disposição, para não ter aborrecimentos com Herodes nem com os hebreus em geral. Pilatos está passando maus momentos… e esses lhe bastam… –diz Nicodemos.

A notícia é verdadeira?

Eu posso verificar se é, e se o quiseres, Mestre –diz Lázaro.

Sim. Faze isso. E dize-me a verdade depois.

Mas em minha casa Síntique está em segurança, como tem estado.

Eu sei disso. Também Israel protege1 a escrava, que fugiu de um patrão estrangeiro e cruel. Mas Eu quero sabê-lo.

E eu gostaria de saber quem é o delator, o informante, o espião gratuito dos fariseus… e isto se pode saber, e eu quero saber quais são os fariseus denunciadores. Fora os nomes dos fariseus e das cidades deles. Eu me refiro aos fariseus que fizeram o belo trabalho de informar, com uma antecipada traição por um dos nossos, já que somente nós é que sabemos de certas coisas, nós, discípulos velhos e novos, o trabalho de ir informar o Sinédrio sobre coisas feitas pelo Mestre, coisas todas justas, pois é um demônio quem diz e pensa o contrário, e…

E basta, Simão de Jonas. Eu te ordeno.

E eu obedeço, ainda que às custas de que se me arrebentem as veias do meu coração, pela emoção. Mas, enquanto isso, a beleza deste dia foi-se embora…

Não. Por quê? Mudou-se alguma coisa entre nós? E então? meu Simão! Mas vem cá, ao meu lado, e vamos falar do que é bom…

Vieram dizer-te que está na hora da refeição, Mestre –diz Lázaro.

Então, vamos…

1 protege, como já dito em 255.9. As leis sobre a escravatura e sobre a conduta a se ter com os escravos estão em Êxodo 21,1-11.20-21.26-27.32; Levítico 25,39-55; Deuteronômio 15,12-18; 16,11; 23,16-17; Jeremias 34,8-22.


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